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Os belos dias de Aranjuez

3 jul

O que nos faz aguentar um filme inteiro sem nenhuma ação, só diálogos? Resposta: o nome de Wim Wenders na direção. É o caso de “Os belos dias de Aranjuez” (2016) que me chegou à vista há pouco.

Baseado na peça de Peter Handke, o filme começa nos mostrando o amplo gabinete de um escritor que, sentado diante de sua máquina de escrever, dedilha, na página em branco, as palavras que constituirão sua próxima obra. Enquanto escreve, é-nos permitido avistar, lá fora, um casal, sentado em torno de uma mesa, no belo jardim dessa ampla residência de campo, toda rodeada de uma vegetação exuberante. É um dia de verão e o casal saboreia um suco, enquanto conversa.

Como as imagens são simultâneas, o espectador é, inicialmente, levado a pensar que são pessoas independentes, o escritor no seu gabinete, e o casal lá fora. Talvez amigos ou parentes. Com o andar da projeção, percebe-se que o casal fala exatamente o que o escritor redige, ou seja, esse casal não passa de dois personagens que estão sendo criados naquele momento pelas palavras do escritor.

Em filmes assim, digo, que começam com alguém escrevendo a estória, a praxe é que o escritor desapareça da tela e a estória tome conta da diegese, até um momento final, quando a figura do escritor retorna para fechar. Aqui não. Os três continuam presentes, e várias vezes, vemos o escritor espiando os seus personagens, ou vice-versa, sendo espiado por eles. Como se todos, e não apenas dois, fossem personagens criados ad hoc. Outra coisa: nem sempre existe sincronia entre o gesto de escrever e o ato de falar dos personagens.

Mas não só isso nos intriga. Como já disse, o mais intrigante é a inexistência de ação. O escritor até que se move: às vezes, para de escrever, se levanta vai lá dentro, e põe uma música para tocar; outras vezes caminha sem rumo por dentro de casa, e mesmo lá fora pelo jardim, e mais adiante floresta adentro. Ao passo que os seus dois personagens mal se movimentam: às vezes mudam suas cadeiras de lugar, mas o movimento é mínimo. Limitam-se o tempo todo a falar, um formulando perguntas ao outro, que responde de bom grado e se estende em suas divagações, sobre assuntos os mais diversos: sexualidade, relação a dois, amor, infância, etc…

Tanto é assim que, lá pelo final, quando o homem se levanta e, imitando um pássaro de que falava, sai correndo pela pradaria de braços abertos, a mulher reclama e lhe grita que “Não estava combinado que teríamos ação, qualquer ação”. O homem alega que um pouquinho de ação não vai fazer mal, mas, nesse momento, o espectador dá-se conta de que havia entre os dois, desde sempre, um código que não permitia certos comportamentos, ou mesmo certos assuntos. Algumas vezes, um deles era brecado ao falar de um tema, que o outro, alegando o código, simplesmente desaprovava.

Em certos momentos, a infindável conversa do casal lembra uma sessão de análise, mas só em certos momentos, pois, no geral, são os dois – e não apenas um – que relatam suas experiências de vida as mais privadas. Por vezes, o diálogo toma rumo surrealista, sobretudo quando o que ela fala nada tem a ver com o que ele fala, e vice-versa. Um exemplo que tem que ser dado é o das frequentes referências dele aos seus belos dias em Aranjuez, os quais, quando mencionados, nada têm a ver com o discurso de sua interlocutora, embora ela o escute com atenção e interesse.

Na verdade, em ambos os casos são discursos poéticos, cheio de imagens líricas que, se concorrem com a beleza da paisagem em torno, acho que ganham. Uma qualidade desses diálogos é, como esperado, a ambiguidade. Tratando de sua vida amorosa, a mulher se corrige com frequência e volta atrás no que disse. É comum que comece fazendo uma afirmação e aí diz “não” e corrige – isso muitas vezes ao longo de sua fala.

Em se tratando de Wim Wenders, um intertexto inevitável é o do cinema, introduzido com alguma sutileza. Exemplo: quando a mulher pergunta ao seu interlocutor se ele acredita que os seus companheiros de cama sempre falavam de amor, a resposta é a seguinte: “sim, acredito, quando penso em filmes antigos”. Num outro instante, mais perto do final, a mulher faz uma longa e comovida homenagem às mulheres dos velhos faroestes, dizendo que, mesmo amando seus heróis, eram independentes e que gostaria de ser como elas.

Na abertura desta matéria, usei o termo “aguentar” para “Os belos dias de Aranjuez”. De fato, não é um filme digerível. Experimental e desconcertante, tem todo o ranço do chamado “cinema de arte europeu”, mas, de qualquer forma, consegue ser  suave e delicado, e, se você tiver paciência e disposição, a experiência de vê-lo pode talvez vir a ser gratificante.

O escritor é o ator alemão Jens Harzer

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O filme da minha vida

8 ago

Interessante notar como, no cinema de hoje em dia, está se tornando cada vez mais comum a referência ao cinema do passado. Quem faz isto, e o faz muito bem, é o filme de Selton Mello “O filme da minha vida” (2017). Nele o western clássico “Rio Vermelho” (Howard Hawks, 1948) desempenha o papel de intertexto, e um intertexto importante, uma vez que partilha uma porção de sua temática, a saber, o conflito entre pai e filho, no caso, feitos por John Wayne e Montgomery Clift.

Narrado em primeira pessoa, o filme conta a estória desse rapaz de 23 anos, Tony (Johnny Massaro), professor de francês na pequena Remanso, RG, que vive entre a saudade do pai desaparecido (o francês Vincent Cassel) e os conflitos sexuais de seus alunos, conflitos que também são seus, sempre indeciso entre duas irmãs, tão ambíguas quanto ele mesmo. Nessa busca de maturidade, ninguém o ajuda, muito menos o criador de porcos Paco (o próprio Selton Mello), amigo da família, figura sempre presente, meio “candidato a pai”, e que um dia, a contragosto, o leva à Fronteira, para uma experiência com prostitutas. Conduzido pelo trem de um maquinista meio filósofo (Rolando Boldrin), Tony termina por descobrir o paradeiro paterno e isso tem a ver com cinema, especialmente com o sempre citado “Rio Vermelho” de Hawks.

O filme adapta o livro do escritor chileno Antonio Skármeta, “Um pai de filme” (2010), porém, a adaptação é relativamente livre. Por exemplo, o filme referido no livro também é um western de Howard Hawks, mas não é o tão adequado à estória “Rio Vermelho”, e sim, “Rio Bravo” (1959) cujo título brasileiro foi, na verdade, “Onde começa o inferno”.

De qualquer forma, podemos dizer que ambos, livro adaptado e filme adaptador têm intertextos fílmicos. Para dizer a verdade, desconfio que em ambos, digo, no livro e no filme, há mais de passado cinematográfico do que a gente pensa.

Com o risco de fornecer spoilers, faço um breve resumo da estória, na perspectiva de um personagem que não é o narrador Tony. Vejam bem:

Um pai de família, que sempre foi querido e correto, comete, inadvertidamente, um grave deslize por causa de uma mulher, e, assim, desaparece do seio da família e vai viver, anônimo, noutro lugar. Ora, esse argumento está lá atrás, num filmezinho de 1940 que fez meio mundo chorar, chamado no Brasil de “Seu único pecado” e no original “The way of all flesh” (Louis King, 1940).

Em “Seu único pecado” o pai desditoso nunca volta à família, enquanto que no livro de Skármeta e no filme de Mello a narrativa providencia um final meio feliz para todos, porém, o argumento (digo, não o roteiro) é o mesmo.

Os atores Vincent Cassel e Selton Mello

O que desconfio é que, bem antes do filme de Mello, o livro de Skármeta teve, conscientemente ou não, influência de “Seu único pecado”, o que não é nada improvável, já que, ele próprio professor de cinema, Skármeta é um grande conhecedor do passado desta arte. Não é de admirar, portanto, que o filme de Mello – via livro adaptado – carregue um certo cheirinho de melodrama antigo. Vendo-o, senti esse cheirinho e foi ele que me trouxe à lembrança as lágrimas que derramamos, eu e toda uma gama de espectadores, quando assistimos a “Seu único pecado”.

Com esse passado nas costas, ou não, de todo jeito o filme de Mello agrada a todos pelas qualidades intrínsecas que possui. Uma delas é a primorosa fotografia de Walter Carvalho. Lembro que da fotografia de “Rio vermelho”, a crítica americana Pauline Kael dizia que “elevava a paisagem à categoria de personagem”. E eu pergunto, não acontece o mesmo aqui? Não me admiraria se me dissessem que Carvalho inspirou-se no preto e branco do fotógrafo Russell Harlan, pra fazer o seu colorido melancólico que nos encanta.

Em primeiro plano, Johnny Massaro no papel de Tony.

Como no livro, a estória do filme de Mello se passa em 1963, mas a direção não se preocupou muito com o rigor de datas. Alguns exemplos: uma das muitas canções que compõem a rica trilha musical do filme é “Coração de papel”, de Sérgio Reis, como se sabe um sucesso de 1967, quatro anos após o ano em que a estória ocorre. Francesas ou americanas, as outras canções tampouco obedecem a cronologias. E às vezes, assumido ou não, esse anacronismo está no diálogo: conversando com a amiga sobre cinema, Tony a escuta dizer que a atriz hollywoodiana Elizabeth Taylor já ia no terceiro casamento. Ora, o terceiro casamento de Taylor (com Michael Todd) acabou em 58, ou seja, cinco anos antes de 63.

No meu entender, esses e outros anacronismos têm uma justifica convincente. E ela ocorreu, ainda na elaboração do roteiro, no momento em que se teve o bom senso de substituir o “Rio Bravo” do livro por “Rio vermelho”. Como já dito, estória de conflito entre pai e filho, “Rio vermelho” tem tudo a ver com a temática de “O filme da minha vida”, ao passo que “Rio bravo” era, no livro, uma mera ilustração. O problema é que, enquanto “Rio Bravo”, sendo de 1959 era viável no tempo, “Rio vermelho” é de 1948, quinze anos antes da estória contada. Parece-me que essa distância temporal abriu caminhos para outras distâncias, retroativas ou prospectivas.

E, afinal de contas, nada disso atrapalha a curtição de “O filme da minha vida”, o terceiro precioso item na filmografia de um jovem talentoso cineasta que, cada vez mais, e merecidamente, conquista público e crítica.

O fotógrafo Walter Carvalho e o cineasta Selton Mello, durante as filmagens.