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O futuro não se vê

9 nov

Com o filho de dez anos, Hank, o casal McKenna está de férias em Marrocos. Residentes em Indiana, Estados Unidos, ele é médico e ela, ex-cantora, hoje dona de casa.

A viagem teria sido ótima, se não tivesse havido aquele pequeno incidente, no ônibus. Num movimento brusco do veículo, Hank, sem querer, arrancou de uma passageira árabe, o seu intocável véu facial, e isso deu confusão, que foi contornada por um desconhecido de sotaque francês, o qual se fez amigo do casal americano.

À noite, no quarto do hotel, enquanto o pai se apronta, a mãe e o garoto solfejam e dançam, juntos, aquela cançãozinha cuja letra faz perguntas sobre o tempo por vir, com o refrão “Que será, será…”. E tudo parecia normal. Parecia mas não estava. Saberemos no dia seguinte, quando o casal e o garoto vão passear no mercado árabe e presenciam um assassinato. Antes de morrer, a vítima agonizante confidencia uma informação no ouvido do Sr McKenna, e…

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Não vou contar o resto da estória, mas, é claro que o leitor, homem ou mulher, sabe demais de que filme estou falando. Sim, é isso mesmo: “O homem que sabia demais” (“The man who knew too much”, 1956, de Alfred Hitchcock).

No elenco estão James Stewart (o pai), Doris Day (a mãe), e Daniel Gélin (o homem morto no mercado) mas – pergunta de gaveta que faço ao leitor cinéfilo – quem é o ator que desempenha o papel do garotinho Hank? Faço a pergunta porque esta matéria pretende ser sobre ele.

Se você não sabe, não se preocupe. Pouco tempo depois de atuar nesse filme inesquecível, esse ator mirim desaparecia do cenário cinematográfico… E nunca mais ninguém ouviu falar dele.

Christopher Olsen – este é o seu nome – nasceu em 1946, em Los Angeles, e aos dois anos de idade já aparecia na tela. Era o bebê, filho de Dana Andrews, no sombrio noir sobre a guerra fria “Cortina de ferro” (William Wellman, 1948).

Entre 1948 e 1958, Olsen apareceu na tela várias vezes, na maior parte dos casos em pontas não creditadas, em filmes menores.

Mãe e filho cantando "Que será, será".

Mãe e filho cantando “Que será, será”.

Eventualmente, também esteve em alguns poucos filmes de mais destaque, por exemplo: em 1952 foi o filho de Barry Sullivan no drama “Assim estava escrito” (Vincente Minnelli); em 1956 esteve no faroeste de Russell Rouse “Gatilho relâmpago”; no mesmo ano foi o filho de James Mason em “Delírios de loucura”, de Nicholas Ray; e em 1957 foi o filho de Robert Stack em “Almas maculadas”, de Douglas Sirk.

Mas nada que lhe tenha dado a visibilidade que conseguiu em “O homem que sabia demais”. É verdade que a canção “Que será, será” ajudou, até porque é com ela que o desenlace se organiza para o ansiado final feliz, mas, além disso, a figura de Olsen é cativante, com seu cabelo louro, seus olhos azuis, e seu jeito despachado de garoto típico americano.

Ora, com essa visibilidade toda, o esperado era que sua carreira ascendesse e ele viesse, mais tarde, com mais idade, a se tornar um galã das décadas seguintes.

Tal não aconteceu. Seu último filme, “Return to Warbow”, um faroeste de segunda categoria, não exibido entre nós, foi rodado e lançado em 1958, e, depois disso, nunca mais o mundo cinematográfico teve notícia de Christopher Olsen.

Perto do desenlace ansiado em "O homem que sabia demais".

Perto do desenlace ansiado em “O homem que sabia demais”.

No seu país, foi ator infantil de televisão e esteve em vários seriados, como “Cheyenne”, “Lassie”, “The millionaire”, mas, em 1960 também encerrou sua carreira na telinha… definitivamente.

Depois dessa data, o que é feito de Christopher Olsen? Ninguém sabe, ninguém viu. Nem o Google dá conta do seu paradeiro. Nos muitos sites de cinema da internet, o único dado sobre ele é que está vivo, já que, em nenhum deles, consta data de sua morte. Se é vivo, estaria, portanto, com setenta anos de idade, completados no dia 09 de setembro deste ano.

Por que esse vazio de informação sobre sua vida, mesmo que fora das telas? Não assumiu porventura uma outra profissão que fizesse constar seu nome nas enciclopédia eletrônicas de hoje em dia? Ou teria havido um recolhimento de ordem ideológica, desejado e assumido?

E vejam que dois irmãos de Olsen estiveram no show business. Seu irmão mais velho, nascido em 38, Larry Olsen foi ator de cinema, normalmente coadjuvante, com 25 filmes rodados, carreira também bruscamente encerrada em 1954, no filme “A lenda dos beijos perdidos”. Sua irmã mais nova, nascida em 61, Susan Olsen, foi atriz de televisão.

A canção do filme de Hitchcock – vocês lembram – afirma que ´o futuro não se vê´. No caso particular de Christopher Olsen, a frase ganha contornos semânticos adicionais.

Christopher Olsen em "Delírios de loucura", 1956, com James Mason.

Christopher Olsen em “Delírios de loucura”, 1956, com James Mason.

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Malala

14 abr

A estória de Malala Yousafzai eu vinha acompanhando pela imprensa, mas agora – ainda bem – sai o belo documentário “Malala” (“He named me Malala”, 2015), do americano Davis Guggenheim, sobre sua vida, suas crenças, sua luta.

Essa adolescente paquistanesa que acredita que a educação pode salvar o mundo nasceu na pequena Mingora, aldeia no vale Swat, ao norte do seu país, em 1997. Ainda na barriga da mãe, o pai lhe contava a estória dessa heroína do passado, uma certa mulher afegã, chamada Malalai, que, nova Joana Darc, estimula os soldados derrotados de seu país a voltar a enfrentar os exércitos britânicos na guerra anglo-afegã do século XIX; luta junto com eles, os conduz à vitória, mas morre no campo de batalha, e se torna um símbolo de resistência.

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O pai não só lhe conta a estória várias vezes, como lhe dá o mesmo nome da heroína, ou quase o mesmo: Malala. Sob a influência e proteção do pai, a pequena Malala frequenta a escola, num país em que meninas não tinham esse direito. O que é facilitado pelo fato de que o pai é o dono da escola. Tudo vai indo bem até o dia em que o Talibã invade a região e começa a campanha terrorista contra a educação feminina. Primeiro são pregações em microfones; depois ação: centenas de escolas são explodidas.

É nesse tempo que a brava Malala, então com 12 anos de idade, usando pseudônimo, passa a alimentar um blogue para a BBC de Londres, onde relata as atrocidades talibãs. O blogue mais tarde é descoberto pelo Talibã e o conflito, já grosso, se torna pessoal. O resultado, já se sabe: em 9 de outubro de 2012, os terrotistas talibãs atacam o ônibus que conduz Malala e suas colegas de turma à escola, e a atingem com uma bala na cabeça.

Meses no hospital, a adolescente é salva, ficando com as sequelas esperadas: o ouvido esquerdo meio surdo e o lado direito da boca meio torto. Felizmente, a mente é a mesma e o espírito de luta ainda mais aguçado. Como ela dirá mais tarde para o mundo ouvir: “Fraqueza, medo e desespero morreram; força, poder e coragem nasceram”.

Malala e o pai...

Malala e o pai…

Inevitavelmente, a família ganha asilo britânico, e, a partir de então, Malala, residente em Birmingham, passa a ser uma figura internacional. A imprensa a assedia, as autoridades a recebem, e os institutos a homenageiam. Uma certa frase sua passa a ser repetida e promete ficar como das mais citadas no século XXI: “Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”. Em 12 de junho de 2013, dia do seu aniversário de 16 anos, discursa na ONU, e, no ano seguinte, recebe o Prêmio Nobel da Paz. Hoje em dia, mantém um Fundo internacional com o objetivo de ajudar na educação de crianças do mundo todo.

Montado em cima de material de arquivo, com entrevistas com a família e outros depoentes, o documentário faz com frequência recurso à técnica da animação, uma forma criativa e poética de ilustrar conceitos e/ou queimar etapas narrativas. Por exemplo, a aventura da heroína afegã, já referida, é todo narrado em imagens animadas, bem como os episódios mais marcantes no passado dos pais de Malala. Sem coincidência, muitas dessas sequências animadas se referem a situações em que os personagens precisaram discursar em público, e então, suas vozes são representadas por ondas brancas que escapam de suas bocas e atingem as multidões. Associado, como se sabe, ao mundo infanto-junvenil, o recurso da animação reforça o tema e eleva o drama.

O irmão caçula depondo...

O irmão caçula depondo…

Indagado sobre que pessoa teria atirado em Malala, o pai responde convicto que “não foi uma pessoa; foi uma ideologia”.  A frase diz tudo, mas, por sorte e talento do diretor, o filme não está, como se poderia supor, empanturrado de “palavras de ordem”. Ao contrário, a melhor coisa do documentário de Guggenheim é não mitificar a protagonista. O que se vê é uma garota comum, como outra qualquer, simples, brincalhona, tímida, sonhadora, e preocupada com suas tarefas escolares, pois, por famosa que seja, ainda hoje é uma estudante. Naturalmente, uma estudante inconformada com as estatísticas, que lhe dizem que 57 milhões de crianças, no planeta, ainda não têm acesso a escolas.

Como santo de casa não faz milagre, o filme não deixa de mostrar compatriotas de Malala, dela falando mal. Um, por exemplo, culpando-a por ter abandonado o país. Sem lembrar, claro, que os Talibãs haviam jurado que a matariam se ela voltasse. Malala sabe disso e o diz ao diretor do filme. Já que asilo político também é exílio, ela aproveita para expressar sua saudade de casa, seu desejo de rever o belo vale Swat, ainda que fosse só por uma vez.

Enfim, um filme singelo, poético e honesto, para nos fazer acreditar que a humanidade tem conserto… e futuro. Por várias razões, recomendo.

Foto com a família...

Foto com a família…

A história da eternidade

28 dez

Cenário de miséria e grandeza, desde há muito o sertão do Nordeste, esse locus nada amoenus, vem sendo fonte de inspiração para cineastas brasileiros, nordestinos ou não.

Pode ser um sertão pretérito, só lembrado, como em “O cangaceiro” e tantos outros filmes nacionais, ou um sertão de hoje em dia, como está no recente “A história da eternidade” (2014) do pernambucano Camilo Cavalcante.

Apesar do título, o filme de Cavalcante não conta uma história cosmológica ou metafísica. Conta apenas a estória de três mulheres de faixas etárias diferentes, que, num lugarejo qualquer do pobre interior nordestino, vivem dramas simultâneos, cada um deles com sua tragicidade particular, os três explodindo num mesmo momento diegético.

Cena de abertura de "A história da eternidade"

Cena de abertura de “A história da eternidade”

Dona Das Dores é uma senhora idosa, extremamente devota, que vive sozinha no seu casebre, e que é responsável pelos serviços religiosos do lugar. Um dia D. Das Dores recebe a visita do neto, advindo de São Paulo, um rapaz de cabelo pintado e de tatuagem nos ombros, cheio da ginga urbana que Das Dores desconhece.

Já Querência é uma mãe de meia idade que acabou de enterrar um filho pequeno e subsiste inconformada com a perda, deprimida e isolada entre quatro paredes. No seu luto escuro, não pensa em nada mais e até o cego sanfoneiro que todo dia lhe faz a corte, soa como algo inviável.

Quanto a Alfonsina, esta é uma adolescente que mora numa casa cheia de homens – o pai autoritário e muitos irmãos – mas que se sente atraída pelo tio vizinho, um artista tresloucado que choca o povoado com suas performances extravagantes. Com sua magia de artista, o tio chega um dia a fazer com que “o sertão vire mar” para a sobrinha imaginosa, porém, a moça parece querer mais que isso.

A atriz Débora Ingrid em cena do filme

A atriz Débora Ingrid em cena do filme

Como são três protagonistas, o filme se faz também tripartite. A apresentação da situação inicial dessas mulheres nos é dada numa primeira parte 1, chamada “pé de galinha”. Na parte 2 (“pé de bode”) os conflitos tomam forma, prometendo o beco sem saída da parte 3, esta mui apropriadamente chamada de “pé de urubu”.

O que acontece a essas mulheres? Não devo contar tudo, para não tirar o sabor a quem ainda não assistiu a esse filme intrigante e perturbador, e fico apenas com os elementos que apontam para o trágico desenlace.

Fuçando a bolsa do neto, D. Das Dores descobre revistas eróticas que mexem com seu velho corpo, o qual, apesar dos castigos aplicados por ela mesma, passa a desejar o corpo do neto. Querência, por sua vez, decide aceitar o amor do renitente sanfoneiro cego, porém, no dia seguinte desaparece do lugar. Já Alfonsina, depois de mais uma crise epiléptica do tio artista, a ele se entrega, em que pese a  relutância do amante… Notar que, em cada caso, o estopim que fará o desenlace explodir é um gesto de amor, bem simetricamente, o gesto de uma mulher que, sejam quais forem seus motivos de foro íntimo, se entrega a um homem.

A religiosa Dona Das Dores, na capela

A religiosa Dona Das Dores, na capela

Enquanto estamos na parte 1, o filme, de planos demorados e ações igualmente lentas, parece disperso, como se não estivesse sabendo como amarrar cenas tão diferentes entre si. É no “pé de bode” e, sobretudo no “pé de urubu” que o filme vai tomando conta do espectador e lhe fazendo crer estar diante de algo novo, pouco praticado no cinema brasileiro, quando a temática é Nordeste.

Sim, o filme nos prende pelo seu enredo, intricado, mas verossímil e convincente, principalmente por ser desenvolvido em um crescendo perfeito, que quase pode se dizer geométrico… até o final culminante. Prende-nos também pela verdade interior dos personagens, mas, um algo mais que o filme generosamente nos oferta é o seu simbolismo, sugerido nos animais que identificam suas partes, mas também em elementos que estão na diegese de modo aparentemente casual.

Zezita Mattos é a atriz brilhante que faz o papel de Das Dores

Zezita Mattos é a atriz brilhante que faz o papel de Das Dores

Um exemplo particularmente sintomático é o da tempestade que, no final, desaba sobre o lugarejo, como a liberar as forças – maléficas e/ou benévolas – contidas nos espíritos dos seus viventes, tantos os protagonistas como os coadjuvantes, inclusive os que nunca vemos, como os do automóvel que chega e parte, deixando no ar um disparo de revólver. Num filme convencional sobre a lida nordestina, a chuva torrencial seria necessariamente um fator de euforia: aqui sua ambiguidade (a mesma que está nos poemas recitados pelo tio artista) é fundamental.

Um dos pontos altos do filme está nas interpretações, todas ótimas, mas aqui ressalto o magnífico trio feminino que faz as protagonistas: Zezita Mattos (D. Das Dores), Marcélia Cartaxo (Querência) e Débora Ingrid (Alfonsina).

Enfim, um grande filme, destinado a ficar na história da eternidade do cinema brasileiro.

Em tempo: “A história da eternidade” foi exibido no Fest-Aruanda, na sessão de encerramento do festival.

A premiação de "A história da eternidade".

A premiação de “A história da eternidade”.

“Paris, Texas”: trinta anos

17 out

Fosse eu fazer a lista dos cem melhores filmes do Século XX, um que, sem dúvida, não faltaria seria “Paris, Texas” (Wim Wenders, 1984), que neste ano completa trinta anos.

Lembro quando o vi pela primeira vez e a emoção que senti. Foi em 86 e eu estava nos States. De férias da bolsa de estudos que a Fulbrihgt me dera, fui passar um fim de semana com um casal amigo, que morava numa cidadezinha deliciosa, Shrewsbury, nos arredores de Boston. Num lugar pequeno assim, as diversões eram poucas e a dona de casa ofereceu-se para pegar, na locadora, algum filme que eu quisesse ver. Sem saber se ela conseguiria, chutei “Paris, Texas”, pois o filme, de dois anos atrás, não viera às telas paraibanas.

Natassja Kinski na cena do peep show.

Natassja Kinski na cena do peep show.

Aliás, dou-me conta agora de que nunca vi o filme de Wim Wenders em tela grande, o que é lamentável, pois, olhar europeu sobre a vastidão da América, o filme investe grandemente na paisagem, que a câmera praticamente transforma em tema. Entre deslumbrado e chocado, o ponto de vista é o de um alemão que tenta entender a imensidão e o vazio de um país que lhe escapa.

Lembram o início? O desmemoriado Travis marchando sem rumo pelas terras áridas do Texas, debaixo de sol escaldante, observado de longe por abutres famintos que apostam no seu fim, e a música que se ouve (Ry Cooder) é lancinante como a aridez da paisagem. Se o irmão, que dele não tinha notícias havia anos, não o localizasse….

O final também é cheio de paisagens abertas, agora os viadutos, pistas e arranha-céus de Houston, tão impessoais e inóspitos quantos as terras desoladas do início.

Engraçado como “Paris, Texas” tem o esqueleto de um melodrama. Afinal de contas, é a estória de um lar desfeito, que, de alguma maneira, se refaz. É a estória estranha de um pai que, recuperado de uma crise que o conduziu à condição de anacoreta, luta para reconquistar o filho e, com esforço sobre-humano, encaminhá-lo à mãe, uma mãe que os dois, pai e filho, não viam havia muito tempo.

Harry Dean Stanton no papel de Travis

Harry Dean Stanton no papel de Travis

Nas várias vezes em que escrevi ou falei sobre o filme chamei a atenção para o ardil do roteiro em só promover a reconciliação entre os membros da família (o pai Travis, o filho Hunter, e a mãe Jane) através de mecanismos artificiais.

O primeiro deles é um projetor Super 8 em que o irmão de Travis, Walt (hoje em dia criando o menino Hunter como se fora seu filho) exibe cenas dos tempos em que a família vivia unida, digo, Travis, Jane e o pequenino Hunter. É vendo essas cenas do passado que Hunter começa a desejar aproximar-se de um pai de quem mal lembrava, figura esquisita que sequer admira.

O segundo é uma vitrine de peep show. Não vou contar detalhes, mas, o encontro entre Travis (Harry Dean Stanton) e Jane (Natassjia Kinski) – ela hoje uma stripper em Houston, – também ocorre através da artificial mediação dessa vitrine, que permite que ele a veja, sem que ela o veja. Vocês lembram a cena, não é? Ele paga para ver o show e, anônimo por trás da vidraça, vai contando, sem dizer nomes, uma longa estória, que é a deles dois, o começo da paixão, as crises de ciúme, o holocausto da separação… Naturalmente, o anonimato vai se esvaindo em cada nova frase enunciada.

O terceiro elemento artificial e mediador dos encontros é um walkie-talkie que pai e filho manuseiam… para localizar a esposa/mãe perdida na selva de pedra de Houston.

Travis e o pequeno Hunter, refazendo o passado.

Travis e o pequeno Hunter, refazendo o passado.

Se você quiser, acrescente um quarto elemento, o mapa do Estado, que vem à tona na cena em que Travis diz ao irmão que gostaria de ir a Paris. O irmão, cuja esposa é francesa, toma um susto, mas Travis estava se referindo (e é isto que intitula o filme) a uma cidade do estado do Texas onde a sua genitora nasceu, e que tinha o mesmo nome da capital francesa.

A rigor, “Paris, Texas” é um filme sobre buscas. Busca de lugares, busca de pessoas – num plano mais lato, busca de identificação entre culturas diferentes, a europeia e a americana. Mas, evidentemente, a busca maior é a interior, a de Travis, que, no decorrer do enredo, se reencontra consigo mesmo, embora isto não lhe traga propriamente felicidade pessoal.

Disse acima que “Paris, Texas” tem a estrutura de um melodrama. Não sei o que estava na cabeça dos roteiristas ao escreverem, porém, ele remete claramente a um outro filme, de diretor também alemão (F. W. Murnau), também rodado na América, e também um grande melodrama. Os cinéfilos que me leem sabem que estou falando do mudo “Aurora” (“Sunrise”, 1928) – estória da reconciliação de um casal que quase se afoga no lago tenebroso do crime e da culpa.

Aliás, outro que estaria entre os meus cem melhores do Século XX.

Quando a paisagem é personagem...

Quando a paisagem é personagem…

 

De menor

20 set

 

 

Em vista do crescimento da violência urbana em todo o país, um tópico que se tem feito assíduo, na imprensa e alhures, é o da redução, ou não, da maioridade para crimes hediondos.

Favorável ou desfavoravelmente, deve ter sido esse tópico o que inspirou os roteiristas do filme “De menor” (2013), em cartaz na cidade. O seu enredo conta o drama de Helena (Rita Batata), essa jovem defensora pública de menores infratores que faz seu trabalho, na Vara da Infância e Adolescência de Santos, com dedicação extrema e mesmo com carinho. Um de seus gestos habituais é afagar, na cabeça, no ombro ou na mão, os adolescentes a quem atende, como costuma fazer com o seu irmão menor, Caio (Giovanni Gallo), com quem mora sozinha, desde que perderam os pais.

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Helena divide seu cotidiano entre as dores do trabalho e a paz em casa, até descobrir as dores de casa: de repente, do irmão caçula revela-se uma segunda vida – para Helena, impensada e impensável – a mesma dos delinquentes que ela defende no Fórum. Com o andamento do processo, fica-se sabendo que o caso de Caio é bem mais grave do que ele alegava ser, e que o adolescente – como tantos outros com quem Helena se depara no dia a dia – mentira para esconder a responsabilidade de um crime.

O que fazer? Helena não sabe… e o filme tampouco. Aliás, o filme não só não sabe, como diz que não sabe, o que é ostensivo em sua cena final: depois de toda a dura verdade desvendada, mostra-se Helena chorando dentro de uma banheira … e vêm os créditos.

Por que certos adolescentes, por mais afeto que tenham em casa, se envolvem com o crime? E como agir depois de o mal consumado? Curto, o filme ainda teria, se quisesse, tempo para algum encaminhamento de roteiro, mas não: ele quer mesmo que as suas indagações sejam repassadas ao espectador, o qual sai do cinema com a problemática nas costas.

Rita Batata faz a protagonista Helena

Rita Batata faz a protagonista Helena

Bem dirigido e bem interpretado “De menor” vem recebendo prêmios nacionais (Mostra Première Brasil, no Rio de Janeiro) e mesmo internacionais (Festival de San Sebastián, na Espanha) que endossam a sua qualidade, e, por tabela, a seriedade da companhia produtora, a paulistana “Tangerina”, encabeçada por duas mulheres: Tatá Amaral e Caru Alves de Souza, esta assinando a direção do filme em questão.

No meu entender, uma das pequenas falhas de “De menor” está em alguns momentos da roteirização.

Pareceu-me que, na primeira metade da estória, as brincadeiras entre os irmãos, Helena e Caio, são infantis demais para suas faixas etárias, aquele lance de, na praia, esmagar as pessoas distantes com os dedos, ou engolir o navio com a boca aberta. São ilusões de ótica poéticas que os dois devem ter praticado quando crianças, mas que, agora, parecem tolice para enganar espectador buchudo. A intenção deve ter sido a de descrever a felicidade fraterna, para, mais tarde, fazer o contraste com o drama criminal, mas…

Um outro lance que não funciona muito bem está na segunda metade da estória, quando Helena começa a descobrir os podres do irmão. Aquela cena em que ela, aos gritos, lê para ele, os documentos atinentes ao falecimento dos pais, é inadequada e pouco verossímil. Notamos que se trata de uma maneira de o roteiro informar ao espectador o que houve (a perda dos pais, a guarda do irmão menor, etc), mas, como dramaturgia é algo manjado e dispensável. Haveria outras formas de passar a informação sobre o passado dos personagens, não sei qual, porém, mais convincente e mais fácil de engolir.

Giovanni Gallo é o irmão infrator

Giovanni Gallo é o irmão infrator

Não será exigência demais dizer que o filme, desde o primeiro fotograma, é absolutamente previsível: uma advogada que lida com adolescentes infratores tem, em casa, um adolescente… Parece-me, contudo, que essa previsibilidade é assumida e, como tal, talvez não devesse ser marcada como ponto negativo. O fato é que, realmente, ela não incomoda.

Não sei como os jovens espectadores estão recebendo este filme, mas, os mais coroas como eu vão, inevitavelmente, compará-lo a clássicos do passado que abordaram a mesma temática da delinquência juvenil.

De minha parte, lembrei-me de duas películas de 1955: “Sementes da violência” (Richard Brooks) e “Juventude transviada” (Nicholas Ray). Mas, claro, a grande referência vai ser mesmo o belo e poético “Os incompreendidos” (1959) do francês François Truffaut que não tem só a mesma temática, mas o mesmo sentido de irresolução. O foco em “De menor” é na irmã mais velha, mas, de todo jeito, a sua busca do mar depois de ficar sabendo sobre o crime do irmão, lembra o garoto Antoine Doinel diante do oceano no final aberto do filme de Truffaut. Ouve influência? Não creio, mas deixo feita a anotação.

Cena dramática em "De menor" (2013).

Cena dramática em “De menor” (2013).

 

 

 

 

 

Uma longa viagem

14 dez

Uma verdadeira pérola exibida no Fest-Aruanda foi, com certeza, esse belo e tocante semi-documentário “Uma longa viagem” (2011) de Lúcia Murat. Para quem acompanha a carreira de Murat (“Que bom te ver viva”, 1989; “Brava gente brasileira”, 2000), uma agradável surpresa, um filme praticamente sem parentes dentro da cinematografia nacional.

 O argumento é simples, embora o tratamento, não. No final dos anos sessenta, a família Murat receia que o filho caçula (Heitor) tome o rumo da irmã mais velha, Lúcia (no caso, a própria cineasta) e se engaje na luta armada contra a ditadura, e assim, o envia a Londres, onde o rapaz mergulha de cabeça na psicodelia, e, alimentado pelas drogas e pelo clima paz e amor da época, resolve correr mundo.

Austrália, Índia, Afeganistão, Estados Unidos são roteiros de uma viagem psicodélica, da qual a família só tem notícia através de cartas. Agora, quarenta anos depois, Lúcia Murat resolve contar essa estória e o faz a partir de duas fontes: o confuso e incongruente depoimento do irmão, hoje um cinqüentão completamente sonado, e as cartas, estas “performatizadas” por um personagem que o representa em sua juventude (o ator Caio Blat).

O resultado poderia ter sido um relato familiar de interesse apenas privado. Mas que nada. O filme conquista o espectador logo cedo e daí a pouco já estamos todos ´metidos na vida alheia´. Na verdade, a grande força e também o grande charme do filme é trabalhar com o elemento da memória, fazendo confluir o pessoal e o histórico de uma forma inconsútil, e mais que isso, lírica.

Não esqueçamos que duas figuras típicas dos anos sessenta/setenta foram o guerrilheiro que abraçou a luta armada e o jovem que optou pelo “paz e amor” dos hippies, cada um arcando com suas respectivas conseqüências, tortura e morte num caso, piração, no outro. Ora, em carne e osso, Lúcia e Heitor são dois representantes ostensivos dessa época, e embora o filme seja carinhosamente dedicado a um terceiro irmão, Miguel, já falecido, é nessa antítese actancial que ele funciona.

Obviamente, Lúcia (personagem e cineasta ao mesmo tempo) dá vez e voz ao irmão, e de alguma maneira o documentário é sobre – como no famoso poema de Frost, “the road not taken”, (`o caminho não tomado´) – uma tentativa comovente e comovida de entender o outro, aquele que tomou “o outro caminho”.

Nesse particular, um excelente recurso está em todas as muitas cenas em que se mostra o que a cineasta não viu: o jovem Heitor no Exterior. Como rodar um filme de época cujo cenário seria o planeta? Sabiamente, a cineasta opta pela metonímia: o personagem sempre aparece fotografado em recorte ou moldura, em ambientes fechados, ou, quando abertos, sobreimpressos com imagens de arquivo – tudo isso ajudado pela edição e trilha sonora da época.

Por falar em trilha, o melhor lance sonoro de “Uma longa viagem” é a nada gratuita escolha do tema musical, o “Summertime” de Gershwin cantado – tinha que ser! – por Janes Joplin. E aqui peço ao leitor/espectador que revise a letra da canção (ofuscada pela interpretação implosiva de Joplin) e releia essa estória de um filhote de gaivota que, ainda no ninho e, por enquanto, sob a proteção materna e paterna, se prepara para voar. Ora, o jovem Heitor do filme já está “voando”, sem a proteção familiar, e a inevitável associação de sua situação com a do pássaro traz um enorme dividendo semântico ao filme.

Uma virtude a mais do filme está na fuga ao esquema melodramático da estória sobre um ente querido já falecido (do tipo “As pontes de Madison”): o Heitor maduro do filme está sonado mas está vivo e, mais, seu discurso desconexo provoca o riso no público (houve riso à beça na sessão em que estive) e não parece ter havido esforço da direção em castrar esse riso.

Risos à parte, pelo tema e pela situação diegética (reencontro entre irmãos), mas também pela delicadeza e pelo lirismo, “Uma longa viagem” me transportou saudosisticamente a dois clássicos do cinema europeu que me indago se Lúcia Murat conhece, a saber, “Dois destinos” de Valério Zurlini (1962) e “Três irmãos” (1981) de Francesco Rosi. Aliás, eu disse acima que o filme de Lúcia Murat não tem parentes no cinema nacional. Se tiver, o mais aproximado deve ser o “Santiago” (2007) de João Moreira Salles, apesar de, neste caso, as relações familiares não serem consanguineas.

Em tempo: premiado em Gramado, “Uma longa viagem” já deve estar para ser, ou já foi, selado em DVD.