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Cicero Dias e Vladimir Carvalho

21 dez

Após exibição no Fest Aruanda, entrou em cartaz nos cinemas do Mag Shopping o belo documentário de Vladimir Carvalho “Cicero Dias – o compadre de Picasso” (2016).

Com depoimentos instrutivos de professionais do ramo, imagens de arquivo e outros recursos menos óbvios, o filme conta uma espécie de biografia poética do pintor pernambucano. Digo ´biografia poética´ porque o filme está longe de ser meramente informativo: ele próprio é também poético, até o ponto em que um documentário pode sê-lo.

Com efeito, parece ter ocorrido uma espécie de empatia entre assunto e direção, de tal forma que o resultado é – no bom sentido – uma obra híbrida, com traços estilísticos de ambos, Cicero Dias e Vladimir Carvalho – traços estes nem sempre claramente distintos.

Cicero Dias e Picasso, os compadres.

Cicero Dias e Picasso, os compadres.

Não há dúvida de que há, no filme, o desenho de uma linha temporal – do nascimento à morte do pintor – porém, esse desenho, como na pintura do biografado – é solto, livre, indistinto.

Para começo de conversa, o filme já se abre com o final, quando se mostra o túmulo de Dias, em Montparnasse, Paris, com a inscrição “j´ai vu le monde… Il commençait à Recife”, tradução para o francês do título de uma de suas obras mais famosas, o painel do Salão Revolucionário, de 1931.

De qualquer forma, é possível acompanhar a trajetória do pintor, do seu nascimento, no Engenho Jundiá, na pequena Escada, Pernambuco, até a definitiva consagração, no Brasil e no mundo, quando se torna – como diz o título do filme – o compadre de Picasso. E é óbvio que o termo ´compadre´ aqui não se restringe ao seu sentido literal: designa também a comunhão de estilos entre esses dois mestres das artes plásticas.

Baile no campo, 1937, de Cicero Dias.

Baile no campo, 1937, de Cicero Dias.

Mas vamos por etapas, ou melhor, por fases, e por enquanto, fiquemos no Brasil dos anos vinte e trinta, com o jovem Dias encantando a intelligentsia brasileira com sua pintura onírica, feérica, exuberante, sensual, cheia dos motivos nordestinos e mulheres desnudas – uma pintura que, malgrado as supostas raízes regionalistas, conquista facilmente os nossos cosmopolitas modernistas.

Em 1937 Dias muda-se para Paris e tem início sua fase internacional, e o diálogo com Braque, Léger, Matisse, Miró e, inevitavelmente, Picasso. Mais tarde, esse convívio crítico lhe fará abrir mão um pouco do figurativo e passará a assumir elementos da arte abstrata tão em voga.

A rigor, não adere completamente à abstração, mas, com ela vai ensaiar um namoro, como comprovarão alguns de seus quadros mais polêmicos dos anos quarenta, cujo melhor exemplo deve ser aquele “galo ou abacaxi”, em que, não apenas na imagem, mas também na conjunção ´ou´ do nome do quadro, deixa no ar a indefinição proposta, entre o figurativismo de sempre e a abstração namorada.

Como não podia deixar de ser, o filme refere episódios marcantes na vida do pintor, sobretudo os relacionados a sua arte.

Galo ou abacaxi - entre o figurativo e o abstrato.

Galo ou abacaxi – entre o figurativo e o abstrato.

Um dos mais marcantes deu-se durante a Segunda Guerra, com Paris ocupada, e ele, preso em Baden-Baden, para depois ser trocado por prisioneiros alemães. Junto com o escritor Guimarães Rosa, devia ser deportado ao Brasil, mas, opta por ficar em Portugal, país que considera uma rica fonte para estudo de nossas origens.

Um dos casos mais comoventes de sua vida europeia está na amizade com o poeta surrealista Paul Éluard. Exilado em Portugal, toma a iniciativa de enviar o seu poema “Liberté” (com aquele refrão “j´écris ton nom”, lembram?) a uma editora inglesa, que dele imprime milhares de cópias, e, com a ajuda da força aérea britânica, as lança no ar por sobre toda a França ocupada.

Outro episódio digno de nota é, já nos anos quarenta, o da Exposição na Faculdade de Direito do Recife – a primeira manifestação pública de arte de tons abstratos no Brasil – que tanto escândalo causou junto aos setores mais conservadores da sociedade, e mesmo junto à elite pensante e à imprensa.

Pessoalmente Cicero Dias foi um irreverente, espirituoso, descontraído, brincalhão, um boêmio mal comportado e mulherengo… e o filme não esconde nada disso, ao contrário refere suas peripécias e aventuras no viés sub-reptício de que vida e obra se assemelham.

Em suma, “Cicero Dias – o compadre de Picasso” nos mostra o esperado: um Vladimir Carvalho no topo de sua maturidade cinematográfica; elegante, sóbrio, equilibrado, refinado, e, mas mais que isso, nos seus oitenta anos de idade, com um saboroso viço de juventude.

Não percam.

O cineasta  documentarista Vladimir Carvalho.

O cineasta documentarista Vladimir Carvalho.

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Ainda hoje Jaguaribe fala

23 nov

Noite festiva no Cine Banguê foi a estreia, quinta-feira passada, de “Pedro Osmar – pra liberdade que se conquista” (2016), documentário sobre o músico, compositor e ativista cultural do “Jaguaribe Carne”.

Com a presença dos realizadores, Eduardo Consonni e Rodrigo T. Marques, além do próprio Pedro, a sessão – lotada – teve direito à apresentação do filme, e, após a exibição, a um instrutivo debate com a plateia.

O filme, que já fora exibido em São Paulo e Brasília, se diz um “manifesto poético-político- musical”. E é. Nele está o Pedro Osmar que conhecemos e admiramos – o artista múltiplo, essencialmente avesso a qualquer tipo de convenção, inquieto, irreverente, desconcertante, e o pensador comprometido com a fundamental busca da alteridade.

Cartaz da exibição em São Paulo.

Cartaz da exibição em São Paulo.

Como esperado, o filme tem a cara de Pedro Osmar, e só pode ser dito documental até certo ponto.

Não há nele cronologias, continuidades, e muito menos, uma lógica narrativa que lhe dê começo, meio e fim. Trata-se mais de uma explosão cinemática que reflete a fértil e densa isotopia em que consiste o seu assunto: a vida e a obra de Pedro, as duas coisas juntas.

Nessa explosão, os estilhaços são de naturezas diversas – há, por exemplo, os que beiram o cinema abstrato, e há os que assumem o realismo mais mimético.

Daquela primeira categoria fazem parte os trechos em que edição de imagem e som, corroborada por enquadramentos nada convencionais e música atonal, dão ao espectador a sensação proposital de desconcerto, de desconforto, quase de improvisação. No debate, informou-se que o próprio Pedro teve direito a um uso de câmera, o que – suponho – deve ter contribuído para esse efeito, digamos, menos diegético e mais poético.

Na segunda categoria está uma boa e preciosa quantidade de material de arquivo – na maior parte dos casos, filmagens em Super 8, realizadas nos anos setenta e oitenta, assinadas por cineastas paraibanos, como Alex Santos, Marcus Vilar e Fernando Trevas, mas todas envolvendo a figura do autor.

Pedro Osmar, o mentor do "Jaguaribe Carne".

Pedro Osmar, o mentor do “Jaguaribe Carne”.

Com a qualidade precária dessa bitola, são mostrados shows que o grupo “Jaguaribe Carne” realizou em palcos diversos; registros das atividades educativas do movimento “Fala Jaguaribe”; protestos encenados em vias públicas, etc. Um trecho todo especial é a filmagem da procissão dos pescadores, no dia de São Pedro, nas águas bravias dos mares paraibanos.

Tao importante quanto a plástica do filme é o seu áudio, afinal o homenageado é essencialmente um músico. De forma que chega quase a ser um mote a ideia de que ´tudo tem som´. Em cenas recorrentes, vemos Pedro Osmar tirando som dos objetos da vida comum menos esperados, com isso, nos dando uma lição de sonoplastia e criatividade.

Disse acima que o filme tem a cara de Pedro Osmar. A cara e o pensamento, que, aqui, por conta própria, resumo numa pergunta: seria possível fazer arte experimental para o povão?

Ora, recusando qualquer forma de certeza, a primeira fala do protagonista no filme é uma indagação, ou melhor, são indagações. “Quem é você?” ele pergunta a si mesmo e sobre si mesmo, e, vai adiante, perguntando e duvidando das respostas possíveis. “Pergunto e duvido”, repete ele, e essa dúvida filosófica é um benefício de que, mui sabiamente, não abrirá mão.

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Enquanto dúvida, ela é, de alguma maneira, esclarecedora de sua postura artística e filosófica, aquela sempre experimental, e ao mesmo tempo, sempre voltada para o popular, como se, com quarenta anos de trabalho nas costas, ainda não houvesse se decidido entre os dois extremos de todo criador: agradar ao público com o já conhecido, ou provocá-lo ao novo.

O filme não responde a pergunta nenhuma – ainda bem – e é por isso que ele vale; e é por isso que ele é Pedro Osmar.

Consta que “Pedro Osmar – pra liberdade que se conquista” deverá entrar brevemente nos circuitos de exibição em todo o país.

Mas, a essa sessão de quinta-feira no Banguê eu não faltaria por nada. Jaguaribense como ele, sou amigo de Pedro desde sempre, e, claro, um admirador de sua perene e incansável militância, estética e política. Aliás, fui, eu mesmo, nos anos oitenta, um participante aguerrido do movimento que ele iniciou com o nome de “Fala Jaguaribe”.

Por falar nisso, é bom lembrar que ainda hoje Jaguaribe fala. O filme em questão é um exemplo que vem ao caso. O mundo que o escute.

Pedro visto em Jaguaribe, seu bairro de origem.

Pedro visto em Jaguaribe, seu bairro de origem.

Raul sem fim

20 dez

Chave de ouro que fechou o Fest-Aruanda deste ano foi “Raul – o início, o fim e o meio” (2011), do cineasta Walter Carvalho – filme ainda inédito em circuito comercial e, até então só exibido no Festival do Rio e no Festival Internacional de São Paulo.

Vigoroso e vibrante documentário sobre Raul Seixas, o homem e o mito, o filme de Walter Carvalho reconstitui momentos significativos na vida e na carreira do “maluco beleza”, esse ícone controverso da MPB que ainda hoje assombra o imaginário de multidões de fãs.

Como filmar a trajetória de um astro tão sui generis, polêmico, escorregadio e inexplicável? A partir daquela velha opinião formada sobre tudo, ou, ao contrário, com a explosão de uma metamorfose ambulante?

Carvalho parece ter encontrado um meio termo aristotélico (onde o fim fica no meio!) que deu certo, na medida exata. Se tivesse dado mais certo do que deu, não ficaria legal.

Na verdade, o seu filme tem dois movimentos, mais ou menos antagônicos – um racional, objetivo, lógico; o outro, apaixonado, carnal, entregue. O primeiro movimento é o do pesquisador que, perdido ao meio de um monstruoso material recolhido e a recolher, viu-se na obrigação sensata de dar ao espectador um fio condutor que fosse fiel à História; o outro movimento é o do fã envolvido na estória do seu ídolo, que empenhou-se em não trair o espírito libertário, irreverente e indócil do cinebiografado.

Não que esses dois movimentos – lucidez e maluquez, se vocês quiserem chamá-los assim! – se explicitem ou se distingam no filme. Ao contrário disso, estão imbricados, em tensão, e o belo equilíbrio dessa delicada antítese autoral é perfeito. De forma que a projeção flui fácil, que nem uma canção que faça bem aos ouvidos e… aos olhos.

Sim, para o espectador é uma beleza (!) poder reviver a carreira conturbada e delirante desse pequeno gênio da MPB, eventualmente estabelecendo as relações viáveis entre letras de canções e aspectos biográficos, e, de sobra, penetrando sorrateiramente os desvãos mais privados e mais sombrios de sua frenética e desconcertante personalidade.

Rebeldia, instabilidade, desobediência civil, irresponsabilidade, inconsequência, impulso criativo, humanismo, doçura, misticismo, esoterismo, satanismo, paroxismo, alcoolismo e outros vícios mais pesados – está tudo lá, e o conjunto é enriquecido por depoimentos de familiares, colegas, amigos e por falas ou lágrimas de ex-amantes e/ou filhos, ou, se for o caso, corroborado por farta iconografia, sem falar nos preciosos registros de seus shows – tudo isso num ritmo oportuno que transforma as execuções musicais em elementos de pontuação.

Por sorte, mas sem coincidência, as três palavras da frase na canção que deu subtítulo ao filme tem esta e não outra ordem – o início, o fim e o meio – pois o núcleo proposital do filme, se existe um, é justamente o de que não há fim para o mito Raul Seixas.

Para não nos alongarmos na questão, digamos apenas que, no início, era Elvis e o Baião… e deixemos para os espectadores de “Raul” a tarefa hermenêutica de identificar e ordenar os dois outros termos da equação.

De minha parte, amei o filme e fico aguardando sua exibição comercial para uma segunda curtição. Não posso, porém, deixar de observar que ele possui um contexto: perfila-se nessa curiosa corrente de filmes brasileiros recentes – documentais ou ficcionais – em que a música é o assunto.

Aparentemente, tudo teria começado com “Cazuza – o tempo não para”, do próprio Walter Carvalho e Sandra Werneck (2004), um sucesso de público que fez platéias dançarem e cantarem nas salas de projeção. Digo “aparentemente” porque três anos antes disso, o cineasta Eliseu Ewald já rodara a ficção “Nelson Gonçalves – o filme” (2001).

De qualquer forma, depois de “Cazuza” vieram: “Vinicius” (Miguel Faria, 2005), “2 filhos de Francisco- a história de Zezé di Camargo e Luciano” (Bruno Silveira, 2005), “Noel, o poeta da vila” (Ricardo Van Steen, 2006), “Cartola – música para os olhos” (Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, 2007), “O homem que engarrafava nuvens” (Lírio Ferreira, 2008), “Waldick – sempre no meu coração” (Patrícia Pillar, 2008) e “Loki” (Paulo Henrique Fontanelle, 2008).

Em 2009 o número engrossou com: “Simonal – ninguém sabe o duro que dei” (Micael Langer e Calvito Leal), “Herbert de perto” (Roberto Beliner), “O milagre de Sta Luzia” (Sérgio Roizenblitz), “Cantoras do rádio” (Gil Baroni) e “Zé Ramalho, o herdeiro de Avohai” de Elinaldo Rodrigues.

É interessante notar que até os cineastas tradicionalmente documentaristas, como Vladimir Carvalho e Eduardo Coutinho estão aderindo ao motivo da música, como comprovam os recentes “Rock Brasília” e “Canções”, respectivamente.

Como se vê, para o périplo abarcado – pouco mais de cinco anos, se “Cazuza” tiver sido mesmo o ponta-pé inicial – o número de filmes nacionais tratando de música é mais do que significativo. Com ficção ou em linguagem documental, até parece que estamos fundando um gênero.

O que não seria de estranhar num país musical como o Brasil.