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Sobre este blogue

9 abr

Criado no final de 2011, este blogue já completou seis anos de funcionamento ininterrupto, e até agora, só tem me dado satisfações. E aproveito para agradecer aos seus seguidores, os fiéis e os acidentais, os conhecidos e os anônimos.

Como constatam todos os que o acessam, alimento-o semanalmente com artigos, crônicas, ensaios ou matérias jornalísticas sobre cinema, e eventualmente literatura, textos diversos a que tem acesso um número grande, e cada vez maior, de leitores. Estou a par do número de acessos porque o vasto Quadro de Estatísticas do WordPress generosamente me informa, toda vez que consulto a mais que providencial parte administrativa do blogue.

Mas, se está tudo indo tão bem, qual a necessidade de escrever sobre este blogue? Vaidade? Falta de assunto? Nada disso.

Ocorre que as estatísticas diárias do WordPress – aquelas que me dão os números de acessos ao blogue no Brasil e no mundo – estão, de uns tempos pra cá, me intrigando um bocado. Vou explicar.

De início, digo, três ou quatro anos atrás, achei curioso que um blogue escrito em língua portuguesa (há apenas cinco ou seis postagens em Inglês) fosse acessado por praticamente todos os países do mundo. Só que, compreensivelmente, estes eram acessos em pequeno número, em muitos casos, uma única vez, ou duas ou três vezes.

Imaginei na ocasião que a coisa ocorresse assim: uma pessoa, digamos, na Ucrância, ou na Suécia, ou na Indonésia, caía no meu blogue meio por acaso, passava a vista, não entendia a língua e… desaparecia, para não mais voltar. Ou eventualmente voltava, uma ou duas vezes, se se tratasse de um brasileiro residente nesses países.

Normal era – e é – que o número maior de acessos estrangeiros viesse de países lusófonos, como Portugal, Moçambique, Angola, etc… Também normal sempre me pareceu que um número razoável de acessos – digamos, em torno de 4 a 6 por dia – viesse de países como Inglaterra, França, Itália, Estados Unidos e Canadá, como se sabe, países com um número considerável de residentes de origem brasileira.

Claro que era do Brasil o maior número de acessos, entre 70 a 90 por dia, fato que sempre me deu muita alegria – a constatação de estar sendo lido, no meu país, por tanta gente de forma tão sistemática.

Eu usei o verbo no passado quando disse que o número de acessos brasileiros “era” o maior de todos; sim, eu disse “era” por que não é mais. E é aí que começa a minha dificuldade em entender o que está acontecendo.

Vejam bem, de uns dois ou três anos para cá, os acessos diários vindos dos Estados Unidos começaram a crescer, chegando a alcançar, em média, um terço dos acessos brasileiros. E não ficou aí. O número de acessos diários a meu blogue vindos dos Estados Unidos, foi crescendo mais e mais, e este ano, desde janeiro, já ultrapassou os acessos diários brasileiros de uma forma, para mim, inexplicável e assombrosa. Aqui forneço alguns dados transcritos do mais que confiável Quadro de Estatísticas do WordPress. Aleatoriamente, tomei o exemplo de três dias deste mês de março em que estamos.

 

Dia 15: acessos brasileiros: 74; acessos americanos: 182.

Dia 27: acessos brasileiros 100; acessos americanos: 151.

Dia 29: acessos brasileiros: 55; acessos americanos: 137.

 

As estatísticas para o mês inteiro de março são as seguintes: 2.978 acessos vindos do Brasil, contra 4.655 acessos vindos dos Estados Unidos. Como se nota, não está muito longe de os acessos americanos duplicarem os brasileiros.

Em suma, por que os americanos estão acessando Imagens Amadas – um blogue, repito, redigido em língua portuguesa – bem mais que os brasileiros? Seriam esses acessos feitos por brasileiros residentes nos Estados Unidos? Ainda que assim fosse, é estranho supor que algumas comunidades brasileiras em território americano, superem, em número de acessos, um país inteiro, o Brasil.

Como as estatísticas do WordPress só informam os países de onde os acessos se originam, e nada mais (não sei, por exemplo, que estados americanos me acessam, e muito menos que cidades…), nada me resta fazer, a não ser o registro de minha curiosidade e admiração, para não dizer perplexidade…

Ficaria, sim, muito grato se, americano ou brasileiro, algum seguidor de Imagens Amadas nos Estados Unidos, ao ler esta matéria, fizesse o obséquio de me contatar, aqui mesmo, neste blogue, informando sua cidade e, se for o caso, a forma como descobriu o meu blogue e por que o segue. Antecipadamente, agradeço.

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Screen couples

26 jul

 

1 Ginger & Fred

Não adianta negar: um dos atrativos mais fortes para vermos um filme está no elenco. E se os dois atores principais formam um par que já deu certo em outros filmes, então…

Hoje nem tanto, mas, no passado clássico, esses pares – que os anglófonos chamam de “screen couples” (´casais de tela´) – levavam multidões a comprar ingressos. E isto, sem importar se a atriz e o ator eram casais na vida real (geralmente não eram), pois, para os fãs, eles já o eram no firmamento do cinema, e isto bastava.

Seguindo mais ou menos a cronologia, aqui relembro alguns dos mais conhecidos, e eventualmente, mais amados screen couples na história do cinema. Acho que o primeiro casal fílmico que vem à mente do cinéfilo é Ginger Rogers e Fred Astaire que, juntos, fizeram nada menos que dez filmes. Três deles foram: “O picolino”, “Ritmo louco” e “Voando para o Rio”.

Olivia e Errol

Olivia e Errol

Como não tenho espaço para citar todos os filmes, citarei sempre, em cada caso, apenas três e deixo a compleição da lista ao encargo do leitor.

Na mesma época, anos trinta entrando pelos quarenta, um casal fílmico que fez sucesso foi Olivia de Havilland e Errol Flynn. Os dois fizeram nove filmes, dos quais cito: “As aventuras de Robin Hood”, “Um reino por um amor” e “A estrada de Santa Fé”.

Quem também fez nove filmes juntos foram Katherine Hepburn e Spencer Tracy. Deles cito os mais famosos: “A costela de Adão”, “Sua esposa e o mundo”, e “A mulher do dia”.

Liz Taylor e Richard Burton em Cleópatra

O par Lauren Bacall e Humphrey Bogart rodou apenas quarto filmes juntos, mas, com certeza, entra no rol dos mais amados. Deles cito três grandes filmes do gênero noir: “Uma Aventura na Martinica”, “À beira do abismo” e “Paixões em fúria”.

Outro par de atores muito cultuado pela partilha na tela foi Veronica Lake e Alan Ladd. Os dois rodaram juntos quatro filmes, dos quais menciono, também do gênero noir: “Capitulou sorrindo”, “A dália azul” e “Alma torturada”.

Igualmente com quatro filmes rodados juntos, a dupla Barbara Stanwyck e Fred MacMurray merece o mesmo destaque. Deles cito: “Pacto de sangue”, “Chamas que não se apagam” e “Lembra-se daquela noite?”.

Hunphrey e Lauren em "Uma aventura na Martinica.

Hunphrey e Lauren em “Uma aventura na Martinica.

E não podemos deixar de mencionar Johnny Weissmuller, como Tarzan, e Maureen O´Sullivan, sua companheira na selva, Jane, em pelo menos seis filmes. Dessa dupla tão querida da criançada da época cito: “Tarzan, o homem macaco”, “Tarzan e sua companheira” e “O tesouro de Tarzan”.

Bem longe de Hollywood, na Suécia, os atores Liv Ullmann e Max von Sydow estiveram juntos em sete filmes, embora nem sempre como ´casais´. Deles cito: “A paixão de Ana”, “Vergonha” e “A hora do lobo”.

Certas duplas de atores americanos encantaram tanto o público da sua época que ficamos com a impressão de que estiveram juntos em dezenas de filmes, quando, na verdade, não foi assim. Caso de Doris Day e Rock Hudson que, afinal de contas, só atuaram juntos em três filmes, a saber: “Confidências à meia noite”, “Volta meu amor” e “Não me mandem flores”.

Jack e Shirley em The Apartment.

Jack e Shirley em The Apartment.

Por causa da boa química entre os dois, e do sucesso dos filmes que fizeram juntos, temos a sensação de que Shirley MacLaine e Jack Lemmon estiveram juntos muitas vezes, e não foi o caso: os seus filmes em comum são apenas: “Se meu apartamento falasse” e “Irma la douce”.

Agora, muitos filmes (onze ao todo) rodaram juntos Liz Taylor e Richard Burton, como se sabe, estes sim, casal na tela e na vida real. Cito os mais badalados: “Cleópatra”, “Quem tem medo de Virginia Woolf?” e “Adeus às ilusões”.

Os italianos Sophia Loren e Marcello Mastroianni estiveram juntos na tela treze vezes. Dessa dupla inesquecível cito: “Ontem, hoje e amanhã”, “Matrimônio à italiana” e “Um dia muito especial”.

Pillow Talk : Doris Day e Rock Hudson

Pillow Talk : Doris Day e Rock Hudson

Bem, chegou a vez de citar o casal campeão de atuação simultânea que – pasmem – está no cinema brasileiro. Refiro-me a Mazzaropi e Geny Prado que, a partir de 1959, atuaram juntos em nada menos que dezessete películas. Aqui cito as três primeiras, na ordem: “Chofer de praça”, “Jeca Tatu” e “As aventuras de Pedro Malazarte”.

Com isto passamos à segunda metade do século vinte, com Dianne Keaton e Wood Allen, cinco filmes juntos, dos quais cito: “Noivo neurótico, noiva nervosa”; “Sonhos de um sedutor” e “O dorminhoco”.

No cinema atual, e por alguma razão que não sei explicar, as duplas deixaram de atrair o público. Os quatro filmes que Meg Ryan e Tom Hanks fizeram juntos parecem exceção: “Sintonia de amor”, “Mensagem para você”, “Joe contra o vulcão” e “Ithaca”.

Bem, os casais de tela que esqueci de mencionar, o leitor lembrará.

Johnny Weissmuller e Maureen O´Sullivan, quase nús em filme de 1931, "Tarzan, o homem macaco".

Johnny Weissmuller e Maureen O´Sullivan, quase nus em filme de 1931, “Tarzan, o homem macaco”.

O céu em teu amor

29 maio

 

Estórias de casais apaixonados pululam na literatura e no cinema. O caso é mais empolgante se os dois amantes são poetas. Mais ainda se o caso é verídico.

Pois, a mais famosa estória real de amor da literatura aconteceu na Inglaterra vitoriana, segunda metade do século XIX, entre a poetisa Elizabeth Barrett e o poeta Robert Browning.

Elizabeth escrevia poesia desde pequena e quando conheceu Robert já era uma escritora consagrada. Doente de um mal espinal, vivia em casa, a maior parte do tempo numa poltrona, rodeada dos muitos irmãos e irmãs. A mãe era falecida havia muito tempo, e, desde então, o pai se tornara um tirano que, estranhamente, não permitia casamentos para nenhum dos filhos. Seis anos mais novo e menos conhecido, Robert apaixonou-se pelos seus versos… e por ela. Iniciaram uma correspondência, e as cartas, cada vez mais frequentes, foram reforçando a reciprocidade dos sentimentos.

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Um dia ele teve a coragem de ir visitá-la em sua mansão da rua Wimpole, e, a partir de então, a saúde da moça começou a melhorar, com a perspectiva de viver um grande amor. Na medida em que melhorava, pioravam as reações desfavoráveis do pai. Este proibiu terminantemente o caso e, numa tarde de setembro de 1846, o casal fugiu, casou, e foi passar a lua de mel em Paris. O pai deserdou-a, mas dinheiro não estava nos planos do casal apaixonado, que foi viver na Itália, e como se diz nos contos de fada, foram felizes para sempre.

Nenhum dos dois parou de escrever, e hoje, como se sabe, Elizabeth Barrett Browning e Robert Browning são dois dos grandes nomes da literatura inglesa, especialmente no terreno poético. Ela autora, entre tantos outros títulos, dos deliciosos “Sonnets from the Portuguese”, e ele, dos belos “Dramatic Lyrics”.

A vida na Itália foi essencial para os dois. Elizabeth desabrochou nos dois sentidos, o literário e o vital. Chegou a gerar um filho, o que não se esperava de seu estado de saúde. Quanto a Robert Browning, encontrou naquele país o cenário renascentista e os personagens perfeitos para os seus sombrios e irônicos ´monólogos dramáticos´ que o consagrariam como um poeta maior.

O casal poético no altar

O casal poético no altar

Sempre achei que a estória do casal dava cinema, mas nunca tive notícia da existência de um filme que contasse o caso.

Agora, meio por acaso, me deparo com este “O céu em teu amor” (“The Barretts of Wimpole Street”), uma produção de 1957 da MGM que, se foi exibida localmente, não sei dizer. Com direção de Sidney Franklin, o filme tem Jennifer Jones e Bill Travers no papel do casal de poetas apaixonados.

Leitor da poesia intensa e lírica de Barrett e da poesia desconcertante e profunda de Browning, esperei muito do filme que, lamentavelmente, não correspondeu às minhas expectativas. Em nenhum momento, vislumbra-se a grandeza dos protagonistas, que mais parecem duas pessoas comuns, vivendo o mais banal dos casos de amor, daquele tipo ´os empecilhos estimulam a paixão´. Não há referências aos poemas, e sequer se mostra Barrett em algum momento envolvida com sua produção poética, ou discutindo-a. A rigor, gasta-se mais tempo com as peripécias de seu cachorrinho de estimação do que com sua vocação poética.

Um quadro da Era Vitoriana...

Um quadro da Era Vitoriana…

A impressão é que os produtores, supondo que o público sabia quem eram os protagonistas, não investiram em nada que fosse de natureza literária. Pode ser que isto tenha valido para as plateias anglo-americanas, que estudaram os dois poetas em sala de aula, mas, suponho que no Brasil, o filme foi visto somente como mais um melodrama, dos muitos que se cometiam nos anos cinquenta, e nada mais. A outra alternativa, talvez mais provável, é que não tiveram os autores do filme a capacidade de compreender, e recriar, a dimensão superior dos personagens. O mais grave mesmo é que o filme não é poético.

Leio que a estória vem de uma peça que, nos anos 30, fez sucesso na Broadway. De fato, o filme tem mais esse pecado, o de limitar-se ao ambiente fechado da mansão Barrett. Ainda que não detenha a informação da origem do texto, o espectador nota a teatralidade das encenações, sempre limitadas por paredes e repletas de diálogos mais longos que o habitual. Esse diálogo quer, às vezes, ecoar o lirismo da poesia dos autores enfocados, mas não consegue: “I shall love you to the end – and beyond”, diz Robert a Elizabeth, em momento de enlevo. E nisso fica.

Fica longe a beleza dos versos que a poetisa dedicou ao amado, no já citado “Sonnets from the Portuguese”, livro cujo título, a propósito, nada tem a ver com a língua portuguesa: era só o apelido carinhoso que Robert dera à amada, por ter ela cabelos negros que lembravam os de uma nativa de Portugal.

Dizem que há uma outra versão fílmica, mais antiga, da estória. Espero um dia lhe ter acesso e me decepcionar um pouco menos.

Jennifer Jones: os cabelos escuros de Elizabeth Barrett

Jennifer Jones: os cabelos escuros de Elizabeth Barrett