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O que odeio nos filmes que amo

17 nov

Na posição de crítico de cinema, escrevo sobre tudo, porém, nunca escondi que tenho preferências. Quem me acompanha de perto percebe que sou fã do cinema do passado, especialmente daquela fase a que chamam de Hollywood clássica.

Esse amor pelo cinema americano do passado (décadas de 30, 40 e 50), contudo, não me cega para os seus defeitos, que são muitos. Conheço-os todos, melhor que ninguém, pois estou permanentemente em contato com eles.

Evidentemente, o maior problema da Hollywood clássica era o dinheiro, que tanto ajudava, como atrapalhava. Sim, em uma atividade industrial daquele porte, as realizações tinham que dar lucro e os criadores (cineastas, roteiristas, atores, fotógrafos, músicos, etc) eram pressionados a permanecer dentro das regras dos grandes estúdios, que, obviamente, só pensavam em bilheteria.

Estereótipos: o cabeleireiro em "A princesa e o plebeu".

Estereótipos: o cabeleireiro em “A princesa e o plebeu”.

As regras privilegiavam as convenções e uma das convenções era, por exemplo, o sistema de gêneros, a ser seguido a rigor. Um melodrama não podia terminar como uma comédia, nem vice-versa. Um outro sistema era o star system: um ator que se consagrara como heroi não podia, de repente, fazer papel de bandido.

Enfim, o espaço para variações ou experimentações era mínimo, o que dava à maior parte dos filmes um caráter de aborrecida previsibilidade.

Rearranjos de roteiros, imposições de elenco, mudanças de desenlaces, proibições de certos enquadramentos, cortes de trechos… Na maior parte dos filmes da época é possível perceber o dedo da produção, porém, o mais incrível é que, malgrado todas as pressões, dessa indústria opressora tenha brotado tantas grandes obras.

Para piorar tudo, havia a censura. O famigerado Código Hays de Censura foi introjetado por Hollywood, ao ponto de virar auto-censura generalizada. Os beijos eram cronometrados e a imagem de uma cama de casal na tela era vista como algo imoral. Já tratei do assunto várias vezes e não vou repetir os malefícios da censura sobre o cinema clássico.

Mickey Rooney, o estereotipado asiático em "Bonequinha de luxo".

Mickey Rooney, o estereotipado asiático em “Bonequinha de luxo”.

Independentemente da questão da censura, um outro defeito vistoso da Hollywood da época era a patriotada, aquela mania de apresentar a América como sendo o melhor dos mundos possíveis. Isso foi muito exacerbado durante a Segunda Guerra, como reação ao nazismo, mas, perdurou, depois, com a guerra fria (e perdura). O perigo do comunismo era o pretexto para exaltar o ´american way of life” e todas as suas supostas maravilhosas variações. Essa posição ideológica tomada em favor da pátria deu muitos filmes ruins, mas, engraçado, também deu muitos filmes bons: o espectador de Frank Capra que o diga.

Porém, admito, o pior de tudo mesmo era o etnocentrismo do povo americano, que era endossado por Hollywood, mas não se limitava a ela. A América, como um todo, só conhecia a América, como se o resto do mundo fosse irrelevante. Do resto do mundo tinha-se apenas informação de segunda mão, uma informação deturpada que transformava tudo a mais em estereótipo.

Querem ver, prestem atenção ao modo como eram representados os personagens estrangeiros – qualquer um – nos filmes americanos dos anos 30 a 50. Ao rever os filmes da época, a impressão que se tem é que os roteiristas hollywoodianos tinham, ao seu dispor, um quadro já todo desenhado de como construir um personagem estrangeiro – italiano, francês, japonês, latino, tanto faz – cada um com suas características físicas e psicológicas determinadas. Era só aplicar a fórmula disponível no quadro para a nacionalidade desejada… e pronto. Se você olhar direitinho, até Carmem Miranda, que foi uma estrela na Meca, sofreu esse processo.

A brasileira Carmem Miranda endossou estereótipos.

A brasileira Carmem Miranda endossou estereótipos.

Para mim, não sei por que (ou sei?) o que mais me irrita nesses filmes antigos que amo é essa representação estereotipada dos estrangeiros.

Recentemente, estava vendo o grande melodrama de Frank Borzage, “A história começou à noite” (“History is made at night”, 1937), com Charles Boyer e Jean Arthur, e toda vez que aparecia um certo personagem, me dava ímpeto de desligar o DVD. Era um italiano, chef de cozinha, construído pelos roteiristas com todos os trejeitos que os americanos supõem serem próprios do povo italiano, feitos com tanta ênfase, e tão mal feitos, ao ponto de virar caricatura, sabe como é, olhos arregalados, os braços no ar, e o “porca miséria” repetido ad nauseam. Saco!

"A história começou à noite", 1937, de Frank Borzage.

“A história começou à noite”, 1937, de Frank Borzage. 

Não vou me dar ao trabalho de citar outros exemplos, mas lembrem os japoneses, chineses, indianos, franceses, italianos, mexicanos e latinos em geral, representados nos filmes americanos de antigamente. Coitados dos atores, sobretudo os nativos, obrigados pela produção a passar essa imagem ridícula de seus compatriotas.

Como estou sempre revisitando os clássicos do passado, minha sina é aguentar esse lixo. Lixo metido no meio de pérolas, é verdade, mas, de todo jeito, lixo.

Até Brando fez um japonês estereotipado em "Casa de chá do luar de agosto"...

Até Brando fez um japonês estereotipado em “Casa de chá do luar de agosto”…

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Coadjuvantes

28 set

Um componente forte na mitologia do cinema sempre foi o culto aos astros e estrelas. O pensador Edgar Morin teorizou o assunto em seu livro de 1957, “Les stars – mythe et séduction au cinéma”, mas, há sempre algo mais a ser dito. Por exemplo: que a mitologia não está restrita aos atores principais: que os coadjuvantes podem ser tão, ou mais queridos que aqueles.

Sim, até porque os coadjuvantes da tela, de alguma maneira, podem funcionar, no inconsciente do espectador, como uma representação dos coadjuvantes da vida real. No plano da existência, você é o protagonista de sua própria história, mas essa história está repleta de coadjuvantes que podem ser, ou ter sido, ou vir a ser, mais – ou menos – importantes, ou mesmo decisivos, para você.

Há muito me interessa o tema e já escrevi vários artigos tratando de um ou uma coadjuvante que foi importante na história do cinema. Na verdade, pretendo reunir esses artigos – por enquanto cerca de 25 – e publicar o conjunto em formato de livro.

Antes disso, porém julguei que seria interessante uma matéria de caráter interativo em que não apenas eu, mas os cinéfilos a que tenho acesso me apontassem nomes de coadjuvantes que julgassem indispensáveis para constar de uma antologia.

Assim, pedi a amigos cinéfilos – quinze ao todo – os nomes de cinco coadjuvantes e, claro, supus que, no quadro completo, haveria recorrências, as quais, se fosse o caso, me conduziriam a um pequeno cânone. Nesta primeira etapa do trabalho, limitei-me a nomes masculinos, ficando para a segunda etapa (aguardem) a matéria sobre as mulheres coadjuvantes.

Comecemos, portanto, com os mais votados na minha pesquisa, que, no caso, são coincidentemente cinco. Para facilitar a identificação vou estar citando, em cada caso, pelo menos três filmes em que o contemplado participou, com breve descrição de seu personagem.

Walter Brennan, o rei dos coadjuvantes.

Walter Brennan (três Oscars), o rei dos coadjuvantes.

Com quatro votos, o grande campeão na preferência de meus amigos cinéfilos é Walter Brennan (1894-1974) que, desconfio, o leitor mais jovem nem sabe quem seja.

Walter Brennan foi o chefe da quadrilha dos Clanton, rivais dos irmãos Earp, contra os quais debateu-se no famoso ´duelo do OK Corral´. Verídico, o duelo foi filmado várias vezes, em filmes diferentes, mas aqui me refiro naturalmente à versão do grande John Ford, em “Paixão dos fortes” (“My darling Clementine”, 1945). Brennan também foi o empregado de John Wayne na interminável condução do gado em “Rio Vermelho” (“Red River”, 1948) de Howard Hawks. O seu terceiro papel que destaco foi como o parceiro alcoólico de Humphrey Bogart no barco que, negócios à parte, conduzia um prisioneiro de guerra para longe dos ventos nazistas, em “Uma aventura na Martinica” (“To have and have not”, 1944), também de Howard Hawks.

Os próximos colocados tiveram um número igual de votos (3) e, assim, menciono-os em ordem alfabética.

Ernest Borgnine, em segundo lugar

Ernest Borgnine, em segundo lugar

O talentoso grandalhão Ernest Borgnine (1917-2012) fica, portanto, no segundo lugar, e acho que pode ser lembrado pelo seu papel do Sargento Fatso, que, em “A um passo da eternidade” (“From here to eternity”, Fred Zinnemann, 1953) se debate com o magrelo FranK Sinatra, dentro de uma boate de Pearl Habour, em cena inesquecível. Em “Demetrius, o gladiador” (“Demetrius and the gladiators”, Delmer Daves, 1954) ele é um dos gladiadores que vão duelar com Victor Mature na arena romana. E em “Meu ódio será tua herança” está entre os membros da ´wild bunch´ de  Sam Peckimpah (1969).

Lee J. Cobb, em terceiro.

Lee J. Cobb, em terceiro.

Em terceiro lugar vem o grande Lee J. Cobb (1911-1976) que o espectador com certeza lembra, entre tantos outros, em três papéis marcantes: o chefe da gangue dos portuários de “Sindicato de ladrões” (“On the waterfront”, Elia Kazan, 1954), aquele que se debate com Marlon Brando, em luta braçal no final do filme. Ou o preconceituoso jurado de “Doze homens e uma senteça” (“Twelve angry men”, Sidney Lumet, 1958), o último na mesa a se render à inocência do réu em julgamento. O terceiro papel em destaque pode muito bem ser o do médico psiquiatra que trata essa mulher com múltiplas personalidades (Joanne Woodward) em “As três máscaras de Eva” (“The three faces of Eve”, Nannaly Johnson, 1957).

Quarto lugar para o feioso Lee Van Cleef.

Quarto lugar para o feioso Lee Van Cleef.

No quarto lugar está Lee Van Cleef (1925-1989), sempre associado a vilões, seja de faroestes ou de filmes policiais. Seu primeiro papel na tela já é marcante como Jack Colby, um dos três bandidos que chegam a essa pequena cidade do Oeste, aguardando um quarto, que virá no trem do meio dia, para formar o grupo vingativo que vai dar fim ao xerife local, Gary Cooper: o filme é “Matar ou morrer” (“High Noon”, Fred Zinnemann, 1952). No noir “O império do crime” (“The big combo”, Joseph H. Lewis, 1955), Lee Van Cleef faz o papel de um dos membros de um bando de malfeitores, com um caso estranho com o seu companheiro de trabalho, de tons visivelmente homossexuais. Já em “Três homens em conflito” (“Il buono, il bruto, il cativo”, Sergio Leone, 1966), ele é um dos homens conflitantes, aquele denominado no título original do filme, como `o feio´.

O quinto colocado é o grande Thomas Mitchell.

O quinto colocado é o grande Thomas Mitchell.

Por fim, o quinto dos mais votados é Thomas Mitchell (1892-1962), para o qual escolho os seguintes papéis, acho que relativamente fáceis de lembrar: o médico que faz partos e pega em armas com a mesma habilidade em “No tempo das diligências” (“Stagecoach”, John Ford, 1939); o tio meio atrapalhado e bastante desastroso de George Bailey (James Stewart) em “A felicidade não se compra” (“It´s a wonderful life”, Frank Capra, 1946); o tenente Stevenson de “Espelhos d´alma” (“The dark mirror”, Robert Siodmak, 1946), que investiga um crime em que estão envolvidas duas irmãs gêmeas (Olivia de Havilland), ambas aparentando culpa.

Com dois votos ficaram: Roy Barcroft, Karl Malden, Eli Wallach, George Sanders, Dan Duryea, Peter Lorre, Robert Duvall, Joe Pesci, J. K. Simmons e Wilson Grey. O restante da lista teve um único voto.

Adiante arrolo os votantes e seus votos, mas não sem antes tecer algum comentário sobre esse rol de (descontadas as repetições) mais de 50 coadjuvantes.

Acho que a primeira observação a ser feita diz respeito à época. Notar que, em sua maioria, são coadjuvantes do cinema clássico, naquele período que vai dos anos trinta aos cinquenta. Atores atuais são poucos: Joe Pesci, Steve Buscemi, Charles Durn Robert Duvall e Christof Waltz

Uma segunda observação pode ser sobre as nacionalidades, quase todas americanas. Há um espanhol (Fernando Rey), um italiano (Enzo Staiola) e três brasileiros (Wilson Grey, José Lewgoy, e Guará Rodrigues). Naturalizado americano, o alemão Peter Lorre é muito mais lembrado pela sua atuação em Hollywood que em seu país de origem. Quanto aos ingleses, há vários, mas, não sei se faz sentido destacá-los, já que todos fizeram carreira profissional em Hollywood, como Claude Rains, James Mason, George Sanders… alguns deles naturalizados americanos. Talvez a citação obrigatória, neste caso, seja a de John Gielgud.

Vale ressaltar alguns casos curiosos, de coadjuvantes que, em papéis infinitamente repetidos encarnaram tipos, em muitos casos, tipos que serviam de escada aos protagonistas e que, por isso mesmo, tinham uma importância especial para as plateias de sua época. Altamente populares no seu tempo, esses coadjuvantes-tipos hoje em dia só são lembrados por cinéfilos de memória extraordinária.

Roy Barcroft, o "Joâo Branco" dos espectadores infantis de antigamente.

Roy Barcroft, o “Joâo Branco” dos espectadores infantis de antigamente.

Acho que são os casos de Smiley Burnette e Roy Barcroft. Burnette fazia, com frequência, o papel do “doidinho”, uma figura indispensável nos faroestes dos velhos tempos. Nesses mesmos faroestes, um malfeitor obrigatório era Barcroft, calculadamente o bandido que mais apanhou e que mais vezes “morreu”, se contabilizadas todas as películas do gênero. Era tão assíduo que os espectadores infantis da época – conforme relato em ensaio publicado neste Correio das Artes – o confundiam com o autor das legendas e o chamavam de “João Branco”.

Eis, afinal, a lista dos votantes (citados em ordem alfabética) e dos votados (citados na ordem em que me foi entregue):

 

André Cananéa: Joe Pesci, Robert Duvall, J. K. Simmons, Mark Rylance, Martin Landau.

André Ricardo Aguiar: James Cromwell, Lee van Cleef, Richard Jenkins, Charles Coburn, Joe Pesci.

Edward Lemos: John Carradine, Donald Crisp, Victor MacLagen, Dan Duryea, Pat O´Brien.

Fernando Trevas Falcone: Walter Brennan, Peter Lorre, Wilson Grey, Ward Bond, Guará Rodrigues.

Homero Fonseca: José Lewgoy, Wilson Grey, George Sanders, James Mason, John Gielgud.

Ivan (Cineminha) Costa: Roy Barcroft, Elisha Cook Jr, Ted de Corsia, Walter Brennan, Jack Elam.

Jefferson Cardoso: Peter Lorre, Van Heflin, Claude Rains, J. K. Simmons, Lee Van Cleef.

João Batista de Brito: Lee J. Cobb, Thomas Mitchell, Ernest Borgnine, Walter Brennan, Raymond Burr.

Joaquim Inácio Brito: Arthur Kennedy, Thomas Mitchell, Herbert Marshall, Leo G. Carroll, George Sanders.

Josafá Soares: Slim Pickens, Ernest Borgnine, Enzo Staiola, John Cazale, Christoph Waltz.

Martinho Moreira Franco: Lee Van Cleef, Andy Devine, Karl Malden, Eli Wallach, Fred Clark.

Paulo Melo: Fernando Rey, Ned Beatty, Melvyn Douglas, Charles Durning, Sterling Hayden.

Renato Felix: Woody Strode, Oscar Levant, Eli Wallach, Robert Duvall, Steve Buscemi.

Rolf de Luna Fonseca: Walter Brennan, Dan Duryea, Thomas Mitchell, Lee J. Cobb, Barry Fitzgerald.

Silvino Espínola: Karl Malden, Roy Barcroft, Smiley Burnette, Lee J. Cobb, Ernest Borgnine.