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O cânone e seus problemas

16 out

Você assistiu ao filme “O matador de ovelhas” (“Killer of sheep”, 1978)? Claro que não. Nem você nem ninguém. Ou quase ninguém.

Então, por que estou escrevendo sobre um filme que (quase) ninguém viu?

A razão é simples; na recente lista dos “100 melhores filmes americanos de todos os tempos”, organizada pela BBC, “O matador de ovelhas”, de Charles Burnett, ocupa o privilegiado vigésimo sexto lugar, posicionado na frente de obras primas reconhecidas como “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder), “Um lugar ao sol” (George Stevens), “A marca da maldade” (Orson Welles), “Tempos modernos” (Charles Chaplin), “Interlúdio” (Alfred Hitchtcock) e outros mais.

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Quando a lista da BBC foi divulgada, fiquei atônito e a primeira coisa que fiz foi checar com os amigos cinéfilos, para saber quem conhecia, ou ao menos quem tinha ouvido falar de “O matador de ovelha”. Ninguém, nem mesmo o enciclopédico Ivan Cineminha.

A próxima etapa vocês imaginam qual foi: apelar para a Internet e suas muitas possibilidades de acesso. A primeira constatação foi que o filme detinha realmente um prestígio enorme junto a um certo setor da crítica americana. Claro que isso só fez aumentar minha curiosidade. Eu tinha que ver essa suposta obra prima, tão desconhecida em território brasileiro.

Cata daqui, cata dali, consegui, afinal, chegar a uma cópia do filme do Charles Burnett, que já vi e…

Artesanal e precário, o filme retrata a vida num arrabalde negro de Los Angeles. O personagem principal é um pai de família de meia idade que trabalha no matadouro local, e, aparentemente por isso mesmo, sua vida é triste e desmotivada. De alguma maneira sua temática poderia ser resumida na frase: favela também tem crise existencialista.

Não há uma estória a ser contada, apenas uma série de vinhetas do cotidiano que enfocam, ora esse ´matador de ovelhas´, ora a sua mulher, ora as crianças, ora os vizinhos. Às crianças e suas brincadeiras de rua nada edificantes é dado o maior tempo de tela, enquanto que as vinhetas dos adultos terminam necessariamente em frustrações: ora é um passeio interrompido por um pneu furado, ora um motor sem conserto.

Tempo de tela para brincadeiras de rua.

Tempo de tela para brincadeiras de rua.

Embora não haja voz over, o tom é documental e o filme termina como começou, sem término; o único incidente que se chamaria de ´estória´ é um episódio em que amigos do matador de ovelhas tentam convencê-lo a fazer parte de um golpe e a esposa os enxota com palavrões. Um drama a divisar subjaz entre marido e mulher, ela quase sempre se insinuando sexualmente, e ele, sempre indiferente a tudo.

No final sabe-se que uma vizinha está grávida e o filme se fecha com o matador matando ovelhas ao som de “Bitter earth”, na voz de Dina Washington… e pronto. Aliás, o filme tem uma rica trilha sonora de jazz, e, em alguns momentos, canções americanas são solfejadas pelos personagens, mas não sei se isso o torna maravilhoso, ou “poético”, como parece querer os críticos que o elogiam.

Na verdade, a sua produção consistiu em trabalho de final de curso que o então jovem Burnett, submeteu à UCLA e foi aprovado. Do âmbito universitário, deu um pulinho nos festivais independentes dos Estados Unidos e pronto… a ascensão foi montada.

Para voltar à abertura desta matéria, a pergunta que ocorre a todos nós é: por que “O matador de ovelhas” foi colocado nessa posição altamente privilegiada na lista dos 100 melhores filmes americanos de todos os tempos, desbancando as obras primas já mencionadas?

Casal em crise conjugal

Casal em crise conjugal

Acho importante que os votantes – nesta lista da BBC e em outras – tenham sempre o direito de escolher o que bem entenderem, porém, ocorre que, de minha parte, também tenho o direito de comentar as escolhas. No meu entender, “O matador de ovelhas” é um excelente TCC (trabalho de final de curso universitário), agora, quanto a ocupar a posição que ocupa na lista da BBC é outra estória…

Fico com a vaga impressão de que os motivos dos críticos votantes foram mais ideológicos que estéticos, mas, sejam quais tenham sido esses motivos, o que vem à tona nesta discussão toda é a questão maior do cânone cinematográfico: sim, toda “lista de melhores” é problemática, e o absurdo – se for o caso – da posição canônica de “O matador de ovelhas” é só um exemplo – eventualmente gritante! – da problemática.

Outra coisa, para não criar equívocos: o fato de ter sido pouco visto não depõe contra “O matador de ovelhas”; no Brasil, um dos filmes menos conhecidos é um dos grandes: “Limite” (1931).

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Últimas sessões

12 ago

Esta semana a televisão paga mostrou “Síndrome de Caim” (“Raising Cain”, 1992), de Brian DePalma,

Bem dentro daquela obsessão intertextual de DePalma, o filme é uma imitação de vários outros, entre os quais, “O terceiro homem” (Carol Reed, 1948), “As três máscaras de Eva” (Nunnally Johnson, 1957), “Psicose” (Alfred Hitchcock, 1960), e “A tortura do medo” (Michael Powell, 1960), uma mistura interessante que, infelizmente, não deu lá muito certo, para não dizer que deu completamente errado.

Eu já conhecia o “Síndrome” de DePalma, mas não lembrava bem, e revi-o por um motivo meramente saudosista, talvez também um pouco masoquista: foi o último filme a que assisti no saudoso Cine Plaza. Para quem é de fora, ou jovem demais, o Plaza foi, nos velhos tempos, um dos elegantes cinemas do centro da cidade de João Pessoa.

Fachada do Cine Plaza, nos anos oitenta.

Fachada do Cine Plaza, em foto dos anos oitenta.

O filme é de 1992 e deve ter sido exibido aqui em 93 ou 94, época em que a programação normal do Plaza já era, havia algum tempo, quase que só pornográfica. No meio dos pornôs, os proprietários às vezes empurravam um filme que tivesse bastante violência (caso de “Síndrome”), como se os apreciadores de sexo explícito necessariamente também gostassem de violência.

Lembro que me senti triste dentro do cinema. Física e de outra natureza, a decadência daquela casa de espetáculo me deprimia e, o tempo todo, eu me recordava de sua época áurea, tanto a do Plaza ´novo´ – (re)inaugurado em 1963 – como a do ´velho´, que tanto frequentei, e onde vi filmes maravilhosos que moldaram o meu perfil de cinéfilo.

Na minha cabeça perturbada, a má qualidade do filme de DePalma se confundia com o clima decadente do cinema, e acho que foi isso que me fez esquecê-lo, como a gente tende a esquecer uma experiência desagradável.

Não sei em que ano o Plaza fechou as portas, e, revendo “Síndrome” na televisão fiz esforços para lembrar se vi lá algum filme depois dele. Não consegui e, portanto, fica ele mesmo como a minha triste despedida do Plaza.

O Cinema Rex, em foto também nos anos oitenta.

O Cinema Rex, em foto também nos anos oitenta.

O que, de uma forma mais genérica, me remete às minhas últimas sessões nos outros cinemas da cidade.

O Cine Rex, outro elegante cinema central na cidade, foi a única casa de espetáculos que fechou honrosamente. O pessoal da minha faixa etária deve lembrar o evento: no fechamento houve, organizada se não me engano pela ADUF, uma semana especial de despedida, meio ´cult´, onde foram (re)exibidos grandes clássicos do passado, como “Hiroshima, meu amor” e companhia limitada. Foi melancólico como tinha de ser, mas foi chique.

Já o Cine Municipal fechou sem celebrações, e pior, o fechamento teve duas etapas: o do cinema inteiro, e mais tarde, depois da drástica reforma subtrativa, o do cinema pela metade. Para quem não sabe, ou não lembra, em 1995 o prédio foi literalmente partido ao meio, metade vendida ao comércio, e a sala de projeção ficou sufocantemente estreita como um corredor.

Não estou certo, porém, calculo que meu último filme visto no ´Municipal inteiro´ (chamemo-lo assim) foi a comédia de Chris Columbus “Uma babá quase perfeita”, com Robin Williams no papel título. Se o filme tinha porventura alguma graça, parte dela se perdeu na péssima qualidade da projeção, a fita quebrando várias vezes e o som inaudível. O ano deve ter sido também 94, já que o filme é de 93. Não sei que dia da semana era, mas, é claro que eu me reportei, por doloroso contraste, a toda aquela animação, nos tempos das sessões de quinta-feira do Cinema de Arte, organizado pela Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba.

A minha última e única sessão do ´meio-Municipal´ (chamemo-lo assim) foi tão deprimente que nem gosto de lembrar – em 1996 foi o “Tieta do agreste” de Cacá Diegues que me deixou partido ao meio, como a sala onde me achava. Era a inauguração da ´meia sala´, porém, nunca mais pisei lá, nem quis saber quando fechou.

E os outros cinemas do centro da cidade, quando fecharam e com que filmes? O Cine São Pedro, o Cine Brasil, o Filipéia, o Astória… Valei-nos, Wills Leal!

Elizabeth Taylor e Spencer Tracy em "O pai da noiva" (1953).

Elizabeth Taylor e Spencer Tracy em “O pai da noiva” (1953).

Quanto aos cinemas do meu bairro, Jaguaribe, cinemas que, desde criança, frequentei com tanta assiduidade e com tanto amor, sinto vergonha em dizer que não estive no fechamento de nenhum deles – o Cine Teatro Sto Antônio, o Cine São José e o Cine Jaguaribe – e, pior, sequer lembro que últimos filmes neles vi antes de fecharem. Afinal de contas, foram cinemas que desapareceram sem alarde, como as criaturas humildes que se vão anonimamente…

A essa altura, suponho que o leitor já deve ter entendido que estou me referindo, sempre, a um modelo de casa exibidora que deixou de existir há muito tempo; sim, cinemas que tinham calçada e endereço próprio, coisas que faltam às atuais salas de Shopping Center.

Fechamento de casa de espetáculo… Quem fez um filme singelo e bonito sobre o assunto foi o cineasta Peter Bogdanovich, aliás, imperdível para cinéfilos e que se chama justamente “A última sessão de cinema” (“The last Picture show, 1971). Não tem as lágrimas dos italianos “Cinema Paradiso” e “Splendor”, mas também comove ao remontar a uma pequena cidade do interior que vê a sua única tela grande apagar-se… para nunca mais acender.

Em uma cena melancólica do filme, a juventude assiste, nas poltronas surradas desse cinema moribundo, as confusas preparações da festa de casamento da jovem Elizabeth Taylor, sem saber que nunca mais veriam a atriz na tela cinematográfica – pelo menos na sua cidade, não. O “filme dentro do filme” era, evidentemente, a comédia do grande Vincente Minnelli, “O pai da noiva” (1950).

No filme de Bogdanovich, os cinemas americanos já começaram a apagar suas telas na remota década de cinquenta, época em que, nos lares americanos, se acendiam as milhares de telinhas dos aparelhos televisivos.

Entre nós, demorou mais, porém, a melancolia é a mesma.

 

Em tempo: segundo o nosso imprescindível oráculo cinematográfico, Ivan Cineminha, o derradeiro filme apresentado no Cinema Plaza foi o pornô “No verão de 72”, em 31 de outubro de 1996; e o último no Cinema Municipal foi o terror “Fred versus Jason”, em 20 de novembro de 2003. Fica feito o registro.

O Cine Teatro Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, João Pessoa.

O Cine Teatro Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, João Pessoa.

 

 

 

Adeus, reprise

28 nov

Hoje em dia é assim: se você vai ao cinema, gosta muito do filme e quer rever, tem que aproveitar para assistir a uma outra sessão enquanto o filme estiver em cartaz, porque, depois disso, não haverá mais chance de você rever o tal filme. Pelo menos, em tela grande, não.

Poderá revê-lo, mais tarde, na telinha (TV ou DVD), porém em tela grande, nunca mais. Em outras palavras: hoje em dia não existe mais uma prática exibidora que foi tão curtida antigamente, a saber, a REPRISE – dos anos sessenta ou setenta para trás, algo quase tão comum quanto as estreias.

E, vejam bem, não estou me referindo a sessões e/ou programas especiais, como as dos antigos Cineclubes. Estou, ao contrário, me referindo à programação exibidora comercial, aquela que não tinha nenhum compromisso com cultura ou arte.

Foi dentro dessa programação estritamente comercial que tive a oportunidade de ver, ao longo da década de cinqüenta, quando era garoto, toda uma gama de filmes realizados nos velhos anos 20/30/40. Por exemplo: nas poltronas do Cine Sto Antônio, vi quase todo o Chaplin mudo, assim como vi um monte de “O gordo e o magro” nas matinées do Cinema Bela Vista.

Hoje não teríamos a mínima chance de rever, no circuito comercial, um filme já exibido – digamos – vinte ou trinta anos atrás, por maior que tenha sido o seu sucesso de público. Rever “Cinema Paradiso” (1989)? Só se for na telinha…

Pois é, conheço espectadores, que ninguém tacharia de idosos, que tiveram a chance de ver “Casablanca” na tela do cinema (provavelmente na década de setenta), quando o filme de Michael Curtiz é de 1942 e, por causa dos Oscar, sua estréia em território brasileiro ocorreu logo depois de rodado. No mesmo sentido, conheço espectadores idosos que assistiram a “A ponte do rio Kwai” (1957) ainda na década de cinqüenta, ao passo que vi o filme de Lean no ano de 1966.

Nos velhos tempos, quando o filme fazia muito sucesso, era comum que ganhasse recorrentes reprises locais. Não conto as vezes em que vi o mesmo “Suplício de uma saudade” (1955) nas matinais do Plaza, alguns meses depois do dia de sua estréia local. Posso dizer que, estourando, até os anos oitenta a reprise ainda pôde ser praticada, talvez em caráter mais ou menos excepcional. Acho que os freqüentadores do Cine Tambaú recordam as inúmeras reprises teimosas de “Retratos da vida” (1981), aliás, com a sala sempre lotada, às vezes com os mesmos espectadores. Sei disso porque estive em todas elas.

Para a comprovação dessa verdade – a de que, nos velhos tempos, a reprise era prática corriqueira – relato uma leitura que fiz há pouco, particularmente instrutiva. Tive em mãos um documento precioso, que são os cadernos de anotação de Ivan Cineminha (o paraibano Ivan Araújo Costa) onde estão registrados à mão (!) mais de 15 mil filmes, com os devidos créditos e – um detalhe providencial – as datas em que os filmes foram vistos/revistos pelo autor – isso desde 1952.

Na impossibilidade de citar tudo que consultei, menciono alguns exemplos, bem típicos. Vejam o caso de “Capitão Blood” (Michael Curtiz) que, sendo de um ano tão remoto quanto 1935, foi (re)visto por Cineminha em 1966, cerca de trinta anos depois, ou seja, em   indiscutível REPRISE. Eis outros casos (após o ano de realização, cito a data da reprise, anotada por Cineminha):

 “Suspeita” (Alfred Hitchcock, 1941/1964), “O intrépido General Custer” (Raoul Walsh, 1941/1965); “Legião de heróis” (DeMille, 1940/1966); “A patrulha de Bataan” (Tay Garnett, 1943/1967); “Sua única saída” (Walsh, 1947/1965); “Sansão e Dalila” (Cecil B DeMille, 1949/1963); “O invencível” (Mark Robson, 1949/1965); “O preço da glória” (William Wellman, 1949/1967); “O crime não compensa” (Nicholas Ray, 1949/1964); “Espíritos indômitos” (Fred Zinnemann, 1950/1965); “Um preço para cada crime” (Bretagne Winddust, 1951/1965); “Chaga de fogo” (William Wyler, 1951/1965); “Mogambo” (John Ford, 1953/1964).

 Estes são apenas alguns exemplos, mas a lista é surpreendentemente extensa, dando até a impressão de que as reprises, naqueles tempos, eram mais frequentes que as astreias. Quem quiser checar, que procure Ivan Cineminha.

Por que não se reprisa mais hoje em dia, digo, por que os circuitos comerciais de exibição não re-apresentam filmes já apresentados? Uma resposta possível deve estar no advento dos meios eletrônicos, que já proporcionam acessos paralelos à tela grande (DVD, televisão, computador), logo que o filme sai de cartaz, às vezes até antes.

O que não equivale a dizer, de modo algum, que nós, espectadores apaixonados pelo cinema de todos os tempos, tenhamos perdido a vontade de ver ou rever em TELA GRANDE clássicos como – digamos – “…E o vento levou”, ou “Cantando na chuva” ou “Os brutos também amam”…

Os espectadores também sonham

28 maio

Ainda hoje me lembro quando, lá pelo começo dos anos sessenta, assisti, numa poltrona novinha do recém inaugurado Cine Municipal, a “Os viúvos também sonham” (“A hole in the head”, Frank Capra, 1959). Na inexperiência dos meus quinze anos, eu não sabia se estava vendo um filme bom ou ruim. Os ingredientes pareciam bons, mas o filme não era, ou seria o contrário? Por um lado, o filme batia com o bom cinema americano da minha infância, e por outro, parecia pastiche desse mesmo cinema.

De alguma maneira, que eu não sabia explicar, tudo parecia, falso, inautêntico, na estória desse viúvo, dono de um hotel falido em Miami, que vive dividido entre a responsabilidade paterna (um filho de dez anos) e a porra-louquice de uma vida libertina. Sem muito sucesso, o filme queria fazer dele o anti-herói que não combinava com o materialismo capitalista, um tipo “maluquinho” com um ´parafuso a menos´, ou, como mantém o título original ´a hole in the head´ – um buraco na cabeça. A cena final, em que praticamente todo mundo deixava para lá as questões financeiras e saia cantando “High Hopes” (a canção premiada com Oscar) pela areia da praia, era o símbolo desse despojamento anti-capitalista que eu já vira em alguns dos melhores filmes hollywoodianos.

A estória, porém, soava manjada, as encenações, tolas, tudo muito previsível e no final, se o filme foi capaz de me fazer chorar, foi um choro comprado, artificialmente fabricado. Os atores eram bons (Edward G. Robinson, Frank Sinatra, Thelma Ritter, Eleanor Parker, Carolyn Jones, Keenan Wynn), mas isso não melhorava o resultado. Ou eu estava enganado?

Eu não dominava, então, conceitos teóricos sobre a linguagem cinematográfica, nem tinha a formação e a experiência de hoje, mas aquele filme me punha em crise, achando eu que havia alguma coisa de errado, ou comigo, ou com o cinema que eu amava. E o cinema que eu amava naquele tempo era o americano. Bem entendido: filmes hollywoodianos ruins, naquela época de franca decadência dos grandes estúdios, era o que não faltava, e, eu mesmo, na minha inocência crítica, já havia aprendido, por conta própria, a distinguir o joio do trigo. “Os viúvos também sonham”, porém, me embaraçava.

Embora conhecendo os seus filmes anteriores, naquela época eu nem sabia quem era Frank Capra, e, contudo, aquele filme na minha frente me dizia que ali estava um talento que queria se manifestar e não conseguia… mais.

A crítica cinematográfica local, que eu estava adotando o hábito de ler, me assegurava que o cinema americano já era, e logo deduzi que o que “Os viúvos” me dizia era isso: que o cinema de que eu gostava estava no fim. Lembro que, depois da sessão, passei uns tempos nostálgicos, sentindo um misto vago de saudade e pena de valores que estavam se esvaindo, como se o cinema em si fosse acabar, e pior, com a sensação de que devia mesmo acabar.

O cinema ia acabar? Que nada, me acudia a crítica: a salvação vinha de outro continente, a Europa. Nessa época, a nouvelle vague francesa, o free cinema inglês, o cinema nórdico e o italiano já haviam aportado por aqui, e eu, estimulado pela crítica, passei a me empolgar com esse novo cinema, que vinha com toda força, para substituir Hollywood. Eram filmes que doíam (“A fonte da donzela”, “Noites de Cabíria”, “Rocco e seus irmãos”…), mas eram, estes sim, sinceros e verdadeiros.

Tal crença, na morte de Hollywood e salvação do cinema pela Europa, perdurou por uns tempos, até… Bem, esta é outra história, que deixo para outra ocasião.

Voltemos a Capra e seu “Os viúvos também sonham”. O filme foi há pouco selado em DVD e o revi com uma certa curiosidade medrosa. Não houve, porém, novidades – é um Capra agônico, inócuo, esquecível, com poucos traços do seu grande estilo, tão poucos que desaparecem no meio da convenção. Fiquei feliz em constatar que o garoto de quinze anos que o viu quase cinqüenta anos atrás, numa poltrona do Cine Municipal, estava de alguma forma certo em sua confusa reação, e – desculpem – senti saudades, não do filme, mas do garoto.

Foi este o penúltimo filme de Capra: aposentou-se com o igualmente dúbio “Dama por um dia” (1961).

Depois de ter tido acesso ao DVD, andei tentando conversar sobre “Os viúvos também sonham” com amigos cinéfilos e, para minha decepção, ninguém o conhecia, ninguém sequer ouvira falar dele. Para se ter uma idéia, nem o enciclopédico Ivan Cineminha me dava notícias dele… Foi tirado da programação do Municipal antes da data prevista, ou o quê?

Não importa: Capra continua vivo em “A felicidade não se compra” (1946) e em tantas outras obras primas. Ele, e a Hollywood clássica da minha infância.

O contador de filmes

14 dez

Quem foi que disse que Picuí só dá carne de sol? Essa pequena cidade do interior paraibano, incrustada no seio seco do Curimataú tem outros tantos valores…

Um deles se chama Ivan Araújo Costa, que todos conhecem como Ivan Cineminha, e o apelido não é nada gratuito.

Fã de cinema desde tenra idade, e possuidor de uma memória fabulosa, Ivan é capaz de lhe dar, assim de chofre, a ficha técnica de uma quantidade absurda de filmes, filmes que ele viu ao longo da vida, desde o tempo em que o seu pai era proprietário do “Cine Guarani”, em Picuí.

Por causa desse raro dom mnemônico, Ivan já esteve duas vezes no programa de Jô Soares, e até convidado para o Fantástico já foi.

Mas, estou chovendo no molhado, porque, em João Pessoa e mesmo na Paraíba, todo mundo conhece (ou ouviu falar de) Ivan Cineminha. E se você é cinéfilo, então! Quem é que não já consultou Ivan para tirar uma duvidazinha sobre o elenco de um certo filme antigo, visto 20, 30 ou 40 anos atrás? Eu mesmo já fiz isso várias vezes.

Pois bem, de tanto ir ao cinema, o cinema veio a Ivan.

É que acaba de estrear, no último Fest-Aruanda, o curta-metragem “O contador de filmes”, que tem por assunto ninguém menos que o nosso herói de Picuí.

Realizado pelo cineasta Elinaldo Rodrigues, a partir de um projeto submetido e premiado pelo MEC, o filme “conta”, em breve quinze minutos, a estória de Ivan e sua paixão pelo cinema.

Trata-se de um documentário que não se importa de ser ficcional. Abre-se com uma encenação da infância de Ivan, quando ele vai ao cinema com o irmão menor. Com atores infantis, o filme mostra Ivan criança, de lápis e caderno na mão, anotando, do cartaz na parede, o título do filme que vai ver, enquanto o seu irmão, Tonheco, o apressa que “o filme já vai começar”.

A cena toda é mostrada em pedaços, entre os quais se intercalam momentos do tempo presente: Ivan hoje, com seus 65 anos de curtição cinematográfica e seus cabelos brancos, comprando ingresso no Cine Box Manaíra para ver o filme do dia.

O filme do dia ninguém sabe qual seja, mas, aquele a que Ivan assiste na infância só podia ser “O intrépido General Custer” (“They died with their boots on”, de Raoul Walsh, 1941) e por que? Porque foi este o primeiro filme a que o menino Ivan assistiu. O primeiro a que assistiu e o primeiro que anotou, hábito que nunca perdeu, até hoje.

A partir daí tem-se um longo depoimento do próprio Ivan que, à vontade como sempre está – na telona, na telinha ou na vida real – relata os momentos importantes de sua trajetória de fã.

Quem não sabe fica sabendo como nasceu o apelido, começo dos anos sessenta, nos bancos do Lyceu Paraibano, que Ivan mal freqüentou porque, na hora das aulas, estava sempre no cinema. Ao ponto de uma professora de desenho solicitar uma reunião discente, exclusivamente para conhecê-lo, já que, às quartas-feiras, dia da aula dela, ele nunca comparecia ao colégio.

Na garupa de uma moto (veículo predileto de Ivan), o espectador é transportado ao Picuí de hoje, onde Ivan nos mostra o prédio do antigo cinema do pai, atualmente um prosaico depósito de mercadorias. Com ele, entramos no prédio e somos informados de como era o cinema por dentro, onde ficava a tela, e, curioso, medido com três passos do próprio Ivan, o lugar onde ele sentava porque “queria se sentir perto dos atores, dentro do filme”. Ou seja, somos, desta forma, transportados ao Picuí de ontem.

Ainda nesse Picuí de hoje/ontem, outro momento comovente é quando a produção do filme leva Ivan à casa onde ele nasceu, hoje pertencente a outras pessoas, e que ele não visitava havia mais de cinqüenta anos. Com ele, entramos no imóvel e Ivan, remontando ao passado saudoso, nos aponta, entre outras nostalgias, o local onde dormiam ele e os irmãos, os resquícios desses leitos sendo os armadores das redes, por sorte ainda existentes nas paredes da residência.

Falando de sua vida presente, Ivan nos conta uma prática curiosa. Um grupo de amigos costuma com ele se reunir em algum restaurante da cidade, e um deles, sempre leva uma sabatina, preparada com antecedência, para testar a sua memória cinematográfica. Ele não diz, mas o grupo referido são os “cinéfilos do Ponto de Cem Réis”, academia fundada pelo professor e intelectual Silvino Espínola.

“Em que filmes trabalhou a grande coadjuvante do cinema americano Thelma Ritter, nos seguintes anos?” Ivan vai respondendo e os presentes, com as respostas nas mãos, vão conferindo, deslumbrados.

Um detalhe dessas reuniões de cinéfilos é que um dos membros, o juiz Gustavo Urquiza, sempre brinda os presentes com belas execuções, ao piano, de músicas de cinema, e a escolhida para constar de “O contador de filmes” foi a deslumbrante “Por una cabeza”, do filme “Perfume de mulher”.

Tudo isso e um pouco mais está no filme de Elinaldo Rodrigues. Digo um pouco porque não deve ter sido fácil para a direção imprensar em 15 minutos toda a estória de Ivan Cineminha.

Na verdade, o hábil diretor quis fazer caber pelo menos três temas entrecruzados e interdependentes: a figura ímpar de Ivan, a estória dos velhos cinemas de interior, e a força do cinema sobre o espectador de qualquer tempo. Para tanto, o filme está repleto de colagens onde se misturam as três temáticas.

Exemplos: quando o antigo operador do cinema picuiense se refere à preferência do público pelos filmes de Tarzan, vemos o próprio articulando o seu grito famoso. Para cada resposta correta de Ivan à sabatina, temos uma cena do filme em questão. Quando, em Picuí, Ivan nos mostra a fachada do antigo Cine Guarani, esta imagem, em sobreimpressão, se mistura a imagens cinematográficas que trazemos na memória: Carlitos manipulando talheres, Janet Leigh sendo morta no banheiro de “Psicose”, os motoqueiros de “Easy Rider” em plena estrada, o garoto de “Cinema Paradiso” de carona na bicicleta do padre… E claro, tudo isso ao som do “Danúbio Azul” de Strauss que, segundo Ivan, era a música que tocava no cinema de seu pai, antes de a projeção começar.

“Nunca passou pela minha cabeça me formar em cinema, ou ser cineasta, ou montador, ou mesmo ator, mas, um simples espectador, que ama o cinema” – nos confessa um Ivan comovido na sua fala final. O que ele não disse é o que sabemos: que ele não é um simples espectador, mas um especialíssimo.

Em suma, o mal do filme de Elinaldo Rodrigues é ser curto, e, pela dimensão, não corresponder à incomensurável memória cinematográfica de Ivan Cineminha.