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“Meu Tio” faz sessenta anos

31 out

Quando assisti ao filme “Meu tio” (Jacques Tati, 1958) pela primeira vez, começo dos anos sessenta, fiquei sem saber o que pensar. Parecia sério para ser uma comédia, e cômico para ser um filme sério.

Premiado em festivais internacionais, acho que fora trazido a João Pessoa pelos críticos que, naquela época, organizavam o “Cinema de arte” e, portanto, devia ter coisas que a juventude dos meus olhos não via. E tinha.

À parte a influência da crítica sobre a minha impressão, o filme me pareceu encantador. No mínimo, era diferente de tudo o que eu conhecia e, na sua desconcertante originalidade, prometia nunca ser esquecido. E não foi.

Affiche

Tudo bem, de alguma maneira me lembrava Chaplin, mas um Chaplin com quem se risse menos e se pensassse mais. Como em Chaplin, a base era a pantomima, só que com um investimento muito mais radical na visualidade, digo, no espaço plástico da tela, de modo que, mesmo não sendo mudo, nele o diálogo parecia irrisório, acidental, decorativo.

Por isso, o enredo era frouxo, como se dependente do cenário e das pantomimas.

Digamos que havia um contraste básico que, mesmo eu, sem a ajuda da crítica, fui capaz de perceber. De um lado, ficava o mundo artificial e falso da burguesia que abraçara a tecnologia como um deus. Do outro lado, ficava o mundo natural e espontâneo das crianças, dos animais e, claro, do pobre e desajeitado Mr Hulot, o “tio” do título. Aquele primeiro mundo era descrito como caricatura, e este segundo, de modo direto, às vezes quase documental, como nas cenas de abertura e fechamento do filme, que mostravam os cachorrinhos se divertindo à vontade pelas ruas da cidade, ao som de uma lírica trilha sonora.

Quem viu o filme lembra comigo o quanto a residência da família burguesa consistia numa galeria de gadgets inúteis, cujo campeão devia ser aquela estátua de peixe ereto no jardim, de cuja boca jorrava um jato d´água, toda vez que a zelosa dona de casa apertava um certo botão, com o detalhe de que, pragmática, ela só o fazia quando havia visitas para ver o espetáculo.

Como dito, o contraponto desse mundo kitsch e ridículo era a vida simplória de Mr Hulot, coitado, um inadaptado a tudo que fosse regra, ordem, ou simetria. Posto dentro daquele mundo “perfeito”, cada gesto de Hulot era um desastre garantido.

Na verdade, ambos, burgueses tecnológicos e inadaptados como Hulot suscitavam o riso, porém, com uma diferença fundamental. Vendo os primeiros, ríamos “deles”, vendo os segundos, ríamos “com eles”. E essa diferença condizia com a mensagem do filme.

Agora que “Meu tio” completa sessenta anos, revejo-o em formato de DVD, e alegre, faço duas constatações que se completam: (1) as minhas impressões de juventude prevalecem e (2) o filme continua belo e cativante.

Como se sabe, o seu autor, o cineasta francês Jacques Tati (1907-1982) ocupa um lugar ao mesmo tempo singular e destacado na cinematografia, não apenas francesa, mas mundial. De alto nível, sua obra não se parece com mais nada que se tenha feito no planeta, de forma que transcendeu movimentos e estilos e, na própria França, não se atrelou a escolas e foi respeitada por clássicos e vanguardistas.

Extremamente caprichoso na execução de seus projetos, Tati terminou por rodar pouco e, em cinco décadas de atividade, não deixou mais que seis longas. Como está claro no seu divertido curta de 1947, “Escola de carteiros”, o seu impulso inicial para a criação veio mesmo da pantomima, que, com o passar do tempo, foi evoluindo para a gag visual, até o extremo da quase abstração plástica. Para citar dois dos seus filmes mais conhecidos, se a pantomima prevalecia em “As férias de Mr Hulot” (1953), a abstração visual era a dominante em “Playtime” (1967).

Ora, “Meu tio” jaz em um meio termo, ideal e equilibrado, entre as duas coisas, com a vantagem de exibir um elemento adicional, embrionário em “As férias” e já praticamente descartado em “Playtime”, a saber, o lirismo.

Por essas e por outras, concordando com o jovem que fui nos anos sessenta, não hesito em dizer que “Meu tio” é o meu melhor Tati.

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Visages, villages

13 fev

No breve comentário que fiz, no Facebook, de “Visages, villages” (2017) disse que, vendo o filme, me senti abraçado e beijado. E foi mesmo.

Que encanto que é esse filmezinho modesto e grandioso, documental e delirante, realista e poético, rodado por uma dupla que seria improvável, se não se tratasse da decana da Nouvelle Vague Agnès Varda (89 anos) e o renomado fotógrafo Jean René (34 anos), mais conhecido como J.R.

Ao longo da projeção acompanhamos a viagem da dupla pelo interior da França, num caminhão equipado com aparelho fotográfico, os dois parando nos lugares meio por acaso, conversando com os residentes, e, mais importante, fotografando essas pessoas anônimas e comuns: agricultores, mineiros, operários, portuários, donas de casa…

“Cada foto conta uma história” garante Varda, mas aqui, a forma de contar é curiosa. Descomunais, as fotos são coladas nas paredes das casas, ou fachadas dos prédios, ou em construções de iguais dimensões. A rigor, são instalações com fins previstos, já que se sabe de antemão que a chuva, o vento, o sol ou a neve as destruirá dentro em breve. Isso, porém, não tem importância, nem para a dupla, nem para a gente. Importa a brincadeira e o gosto de brincar. Importa a poesia do gesto e sua significação instantânea e imponderável. Aliás, a própria brevidade dessas obras monstruosas e precárias é um dado a levar em conta, pois nos remete à finitude de tudo.

Especialmente ilustrativo, e particularmente tocante nesse particular, é aquela foto do amigo de Varda (o também fotógrafo, já falecido, Guy Bourdin) colada a um possante bunker alemão, remanescente do ataque à Normandia, agora tombado na praia como um corpo inerte. A “instalação” é feita nessa paisagem isolada, quase sem testemunhas, salvo a equipe do filme (e nós, evidentemente), sabendo-se que no dia seguinte a maré alta a terá apagado.

Depois de ganhar o “L´oil d´or” em Cannes, o filme de Varda e J.R. está, este ano, concorrendo ao Oscar como documentário. Documentário? Bem, o começo do filme já problematiza a categoria. Como foi que Varda e J.R. se conheceram? A narração gasta um tempinho criando hipóteses brincalhonas: Teria sido na estrada? Teria sido na padaria? Teria sido na balada? Tudo isso é literalmente mostrado e negado – ou seja, pura ficção. De tal forma que o espectador fique prevenido para os delírios que estão por vir.

A simplicidade do roteiro e o capricho plástico da encenação encantam, e nos fazem lembrar outro francês, mestre nessa arte de combinar plástica e simplicidade: o grande Jacques Tati de “Meu tio” (1958) e “Playtime” (1967).

Mas, claro, o diálogo mais óbvio é com a obra da própria Varda. Pela proposta estética (filmagens fora dos estúdios, câmeras leves, atores não profissionais, enfim, “cinema de autor”…) sempre associada à badalada Nouvelle Vague, na verdade, essa obra tem suas características pessoais. Para ser exato, ela precede a Nouvelle Vague, já que o primeiro filme de Varda, “La pointe courte” data de 1955, portanto, quatro anos antes do filme que teria inaugurado este movimento cinematográfico, “Os incompreendidos” de François Truffaut (1959).

Há mesmo quem alegue ter Varda praticado uma “nouvelle vague” diferente, não de todo isotópica ao grupo central (Truffaut, Chabrol, Godard) com uma temática onde o forte é a presença do outro (em muitos casos, a presença feminina) em detrimento do autor da obra – ou seja, uma corrente artística meio paralela, que dialogou de modo particular com as outras modalidades de arte, no caso, com a fotografia, a literatura, a pintura e o teatro, em nomes como Alain Robbe-Grillet, Marquerite Duras, Alain Resnais, e Jacques Demy, esposo de Varda.

A questão pode ficar em aberto, só que, de forma irônica, ela está referida no filme. No desenlace (e todo desenlace é um ponto importante em qualquer filme), Varda e J.R. tentam um contato com Jean-Luc Godard, como se sabe, o único cabeça da Nouvelle Vague ainda vivo. Como supostamente haviam combinado antes das filmagens, vão até a casa dele e, como diz uma cançãozinha brasileira, foram “e não encontraram ninguém…”. Varda volta irritada e encerra a questão chamando Godard de “cheval” (´cavalo´). Pouco importa se a ausência godardiana foi planejada, ou não: para quem conhece a obra de Varda, de todo jeito, o seu ingrediente não-nouvelle vague vem sutilmente à superfície.

Mas, enfim, para o espectador de “Visages, villages” fica o que mais interessa: a singeleza, a graça, o encanto, e o lirismo de um filme aconchegante e carinhoso a que você não se conforma de assistir uma única vez.