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Trumbo

4 fev

 Fui ver “Trumbo – Lista negra” (2015) e me envolvi tanto na estória que – pecado de crítico – nem me importei de decidir se o filme era bom ou não era.

Ocorre que sou apaixonado pela década de cinquenta, adoro estórias dos bastidores da era clássica, e me interessa muito o tema do Macarthismo… Pronto: minha rendição ao filme foi total.

Falando sério, o filme de Jay Roach conta a vida de Dalton Trumbo, um dos maiores roteiristas que a Meca do Cinema conheceu. Não a vida toda – somente aquela fase, de 1947 em diante, quando ele passou a ser vítima da “caça às bruxas” e entrou no rol da “Lista negra de Hollywood”.

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Como muita gente boa do show business americano da época, Trumbo havia feito parte, lá pelos anos trinta, do partido comunista, e agora, finda a Segunda Guerra, e com o advento da guerra fria, todo esse pessoal “de passado suspeito” passou a constituir uma ameaça ao sistema americano. Pelo menos era o que achava o reacionário senador Joseph McCarthy e todos os seus seguidores, que não foram poucos, no país inteiro. De repente, Hollywood virou um antro de “vermelhos” que, pela magia do cinema, “queria disseminar o pensamento comunista e corromper a população”. A paranoia foi tal que a própria Hollywood começou a se auto-censurar, como se fosse culpada antes de qualquer acusação.

Formado o “Comitê de atividades anti-americanas”, figuras importantes do mundo do cinema foram intimadas a comparecer a Washington, para depor sobre o seu eventual passado esquerdista, e pior, para limpar-se através da denúncia de colegas.

Intimado, Trumbo compareceu, ironizou o Comitê, e não deu outra: foi preso e, mesmo depois de solto, ficou proibido de trabalhar. É claro que não parou de trabalhar, só que a partir daí, seus roteiros passaram a ser assinados por ´testas de ferro´, pessoas que ganhavam os créditos sem ter escrito nada. Tudo isso às escondidas de todos, exceto de sua família, que, sem alternativas, ajudava bravamente na forçada “farsa”. Nessa atividade de roteirista fantasma, Trumbo chegou a arrebanhar dois Oscar, por “A princesa e o plebeu” e por “Arenas sangrentas”, com os nomes respectivos de Ian MacLellan Hunter e Robert Rich.

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Contratado em sigilo por um produtor menor, Frank King, Trumbo escreveu dezenas e dezenas de roteiros que foram às telas em filmes de baixa categoria. Com isso, manteve o padrão de vida a que estava habituado, embora amargurado com o anonimato e a irrelevância do que fazia.

Sua volta por cima só vai acontecer no final da década, quando é contratado diretamente por Kirk Douglas para bolar o roteiro de “Spartacus” (1960) e, para espanto de todos, tem o seu nome posto nos créditos do filme. Praticamente ao mesmo tempo, o cineasta Otto Preminger faz o mesmo: põe seu nome nos créditos de “Exodus” (1960).

Ótima é aquela cena de noite de Natal, na casa de Trumbo, em que ele recebe a visita de Preminger e os dois, numa sala reservada, vão acertar a roteirização de “Exodus”. De repente, alguém toca a campainha e é Kirk Douglas, para acertar a roteirização de “Spartacus”. Preminger não sabe de Douglas e vice-versa e, assim, Trumbo os mantém em salas separadas, e os dois ficam se entreolhando de longe, desconfiados. Claro que Trumbo, que não é besta, aproveita a competição para sugerir o seu nome nos créditos dos dois filmes.

Evidentemente os inimigos de Trumbo não eram apenas o pessoal de McCarthy. No seio da Meca houve toda uma gama de ´americanistas´ que levantaram a bandeira da repressão. Dois dos mais radicais foram a colunista social Hedda Hopper e o ator John Wayne. Impagável é a cena do embate público entre o herói valentão dos faroestes e Trumbo, este jogando umas verdades na carranca do outro e, em seguida, tirando os óculos, para receber o devido bofetão.

Helen Mirren e Bryan Cranston: Hedda Hopper e Dalton Trumbo.

Helen Mirren e Bryan Cranston: Hedda Hopper e Dalton Trumbo.

Contudo, ninguém pode ter sido mais ferino que Edward G. Robinson, que era amigo de Trumbo, o ajudara em circunstâncias anteriores, e, de repente, vai ao famigerado Comitê e declina o seu nome.

Eu disse que não pensei na qualidade do filme. Uma coisa é certa: trata-se de um filme feito para cinéfilos. Talvez exclusivamente para cinéfilos. Você não vai gostar, se não souber quem são os personagens da estória e a importância que eles tiveram no cinema clássico. Um exemplo: se a cara larga de Edward G. Robinson não lhe é familiar das dezenas de filmes noir que ele protagonizou, a cena do conflito ético entre ele e Trumbo perde metade da força. Ou a força toda, se porventura você nunca ouviu falar de Dalton Trumbo.

Diretas ou indiretas, as referências aos filmes da época pululam e deixam o cinéfilo tonto. São cartazes em paredes, menções nos diálogos, ou mesmo cenas projetadas, em suma, tudo o que a gente viu na tela, e amou, muito tempo atrás.

Mas, atenção, também está lá o que a gente nunca viu. Por exemplo: aquela cena preto-e-branco inicial em que, aparentemente, se mostra um certo filme noir sendo rodado, com Edward G. Robinson no elenco, Trumbo como roteirista, e Sam Wood na direção, com personagens chamados de Rocco e Manny. Esse “filme” nunca existiu e a falsa cena de arquivo foi inventada de propósito para confundir os cinéfilos da vida. Eu mesmo gastei energia e memória para identificá-la, até perceber o engodo.

Aliás, o filme inteiro brinca com esse recurso de ´encenar´ o passado em preto-e-branco, como se fosse documental. Como algumas cenas são, de fato, de arquivo, o espectador aceita as falsas como verdadeiras. Fique atento a isso. E às vezes, a coisa é em cores mesmo. Lembram do trecho da arena em “Spartacus”? Pois é, parte dele é o filme de Kubrick mesmo, parte é encenação com o ator Dean O´Gorman no lugar de Kirk Douglas, sendo golpeado pelo seu rival de arena. Em cinema, a técnica do campo contra campo permite essas mágicas.

E por falar em atores, fico pensando no trabalhão que deve ter tido a produção para encontrar um elenco parecido com os personagens. Quem poderia ter o tipo físico do Duke? Ou a cara de Kirk Douglas? Helen Mirren até que encarna a contento a venenosa Hedda Hopper e Bryan Cranston – concorrendo ao Oscar – faz bem o personagem-título.

Se gostei? Vou ver de novo.

John Goodman como o produtor Frank King.

John Goodman como o produtor Frank King.

 

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Canastrões clássicos

21 abr

Quando estava nos Estados Unidos fazia o que não costumava fazer aqui: via televisão, só para checar como era a TV do primeiro mundo. Com isso, pude assistir, e em horários perfeitamente viáveis, a trechos de filmes clássicos do passado que se exibidos no Brasil, seriam empurrados para tarde da noite.

Mas, dessa programação antiga, um filme havia que um certo canal repetia praticamente toda manhã e me enchia o saco. Era uma comédia tola sobre um cientista que criava um macaco em casa e este lhe trazia um bocado de problemas. De início, não entendi por que a repetição daquele filme idiota, mas, prestando mais atenção ao elenco, matei a charada: o ator que fazia o cientista atrapalhado residia, no momento, na Casa Branca: era Ronald Reagan, e a exibição repetida não era uma homenagem, e sim, uma gozação, como se a dizer: “vejam como o macaquinho trabalha melhor que ele”.

Ronald Reagan em "Bedtime for Bonzo".

Ronald Reagan em “Bedtime for Bonzo”.

Pois é, por motivos saudosistas, aqui pretendo relembrar com o leitor quem foram os grandes canastrões do cinema clássico americano, e já começo a lista com ele, Ronald Reagan.

A relação é, na verdade, enorme e me limito a citar os que, casualmente, me acorrem à memória.

Se fosse para compor a lista pela categoria dos mais famosos, acho que todo mundo começaria com Charlston Heston, que – coitados de nós – tivemos que aguentar, não apenas nas superproduções de Cecil B De Mille, mas em dramas, westerns, policiais e outros gêneros. Para citar um único título, lembro só o seu esforço de ganhar noblesse ao ser dirigido por Orson Welles em “A marca da maldade”.

Charlston Heston com Orson Welles em "A marca da maldade"

Charlston Heston com Orson Welles em “A marca da maldade”

Um igualmente famoso foi John Wayne, só que este teve a sorte de, desde o início de carreira, cair nas graças de diretores geniais, como John Ford e Howard Hawks, que souberam moldá-lo até o ponto de seus limitados dotes interpretativos serem suficientes para não atrapalhar o conjunto do filme. E hoje, quem assiste a “Rastros de ódio” ou “Rio Vermelho”, nem se indaga se John Wayne trabalhou bem ou não.

Outro destacado foi Victor Mature, de cuja canastrice já se fez mil piadas, até ele mesmo fez, ao afirmar, para um clube que não queria aceitá-lo por ser ator, que não o era e tinha 60 filmes para provar. O que não impede de encontrarmos desempenhos convincentes em sua carreira, o mais evidente sendo o de “Paixão dos fortes” onde ele muito bem encarna a figura verídica de Doc Holiday e, em cena chave, até Shakespeare recita. Vejam que Hollywood fez várias versões da estória real do famoso OK Curral, mas, com certeza, o melhor Doc Holiday de todos foi Mature.

Victor Mature, o Doc Holiday do fordiano "Paixão dos fortes".

Victor Mature, o Doc Holiday do fordiano “Paixão dos fortes”.

Um outro que não pode faltar à nossa lista é Vincent Price, que, com sua carona comprida, voz rouca e pausada, fazia o mesmo tipo em qualquer filme. Foi coadjuvante em grandes clássicos (“Laura”, “Amar foi minha ruina”, “A canção de Bernadete”), até passar a ator principal nos filmes de terror de Roger Corman, filmes que, com o passar dos anos, viraram cult e em cult transformaram tudo que deles fazia parte, inclusive Vincent Price.

E passo para John Gavin. Não sei quem hoje ainda o lembra, mas esteve em filmes importantes, como “Psicose” de Hitchcock, e “Spartacus” de Kubrick. Alto, cabelos e olhos negros, bonitão, foi pescado pelos estúdios para ser uma espécie de concorrente de Rock Hudson, com quem tinha mesmo traços físicos comuns. Foi posto para trabalhar com grandes estrelas (com Lana Turner em “Imitação da vida”, com Doris Day em “A teia de renda negra”…), mas, o resultado não deu em nada, a não ser na comprovação de que estávamos diante de um estupendo canastrão.

Salvo por Ford e Hawks: John Wayne

Salvo por Ford e Hawks: John Wayne

Da mesma época foi o caso de Troy Donahue, que, com jeito ariano de garotão americano típico, prometia virar um ícone e… gorou. Ganhou o papel principal ao lado de Sandra Dee em “Amores clandestinos”, um melodrama ousado que deu o que falar na época, e, em seguida, esteve no elenco de um dos maiores sucessos comerciais do começo dos anos sessenta, “Candelabro italiano”… Depois disso, foi a decadência, até o seu desaparecimento completo das telas.

Esses atores sem dotes eram os Keanu Reeves, os Nicholas Cage, ou os Nick Nolte da época, mas a época também teve os seus Stallone, digo, atores que, compensando suas canastrices, se impuseram pela musculatura e força física. Refiro-me a Steve Reeves (Lembram dele em “Os últimos dias de Pompeia”?) de quem se dizia, depois de assistir a um filme seu: “estive horrível”. Isto para não ir mais para trás no tempo, com os Johnny Wessmuller, os Lex Barker e todos os Tarzans da história do cinema.

Pretenso rival de Rock Hudson: John Gavin

Pretenso rival de Rock Hudson: John Gavin

Quem talvez possa ser perdoado por não atuar tão bem são os que tinham outros dotes artísticos compensadores, por exemplo, os que cantavam e/ou dançavam na tela, casos clássicos de Fred Astaire, Bing Crosby e Gene Kelly.

Infelizmente não tenho espaço para comentar todos e encerro com a citação de alguns nomes – uns protagonistas, outros meros coadjuvantes – que o leitor, pelo menos o mais coroa, deve recordar: Tyrone Power, Jeff Chandler, Stewart Granger, Van Johnson, Jack Palance, Stuart Whitman, Yul Brynner, George Peppard, Dean Martin, Rod Taylor… e, enfim, quem mais o leitor achar que cabe entrar na galeria dos “canastrões clássicos”.

Como esta matéria é assumidamente saudosista, devo dizer que muitos desses canastrões tinham seu charme e que ainda hoje os curto – exceção feita talvez a Ronald Reagan e seu macaco.

Troy Donahue, com Sandra Dee em "Amores clandestinos".

Troy Donahue, com Sandra Dee em “Amores clandestinos”.

Quase “Shane”

14 nov

Lembremos a cena. Estamos no velho Oeste selvagem e a câmera nos mostra, numa paisagem desolada, um rancho modesto, com um pequeno lago onde um garoto brinca. Lá no fundo se veem as montanhas, de onde parece vir esse forasteiro que se aproxima, misterioso. Mas vamos além da cena: adiantemos que o forasteiro vai se hospedar no rancho por algum tempo; que vai ajudar no conflito com os outros habitantes do território; que o garoto vai tornar-se seu admirador e que a mãe do garoto vai ter uma queda pelo forasteiro, visivelmente correspondida.

Pela descrição, tenho certeza que você, leitor, está pensando em “Os brutos também amam” (“Shane”, George Stevens, 1953). Pois bem, até que poderia ser… se não se tratasse de um outro faroeste, por sinal, do mesmo ano, também colorido e também com trilha musical de fundo.

O forasteiro que chega no rancho

O forasteiro que chega no rancho

Estou falando de “Caminhos ásperos” (John Farrow, 1953), cujo título original – mais uma coincidência – também é uma única palavra, o nome do protagonista: “Hondo”.

Capciosamente, fiz a descrição acima de forma a que fossem levantados somente os pontos que os dois filmes têm em comum. Evidentemente, a partir daí as igualdades desaparecem. O que não nos impede de prosseguirmos com a comparação, agora de forma contrastiva.

Primeiro dado diferenciador: o forasteiro que se aproxima do rancho (John Wayne, e não Alan Ladd) não vem a cavalo, mas a pé, pois seu cavalo fora baleado em conflito pré-tela. Em sua companhia vem um cachorro, ao passo que em “Os brutos” o cachorro existente é da casa, companheiro do garoto Joey nos momentos mais críticos. Os inimigos do rancho não são os latifundiários do gado, e sim, os índios Apache. Diferentemente do enigmático personagem de Shane, o nosso Hondo exibe uma vida sem segredos: passou parte de sua existência entre os índios, foi casado com uma Apache, e hoje pertence à cavalaria dos Estados Unidos, que combate os mesmos índios.  E, um dado mais sintomático: em “Caminhos ásperos”, o dono da casa está ausente, desaparecido há algum tempo.

Um romance que brota entre o forasteiro e a esposa do rancheiro

Um romance que brota entre o forasteiro e a esposa do rancheiro

Pois é, se porventura uma frustração do espectador em “Os brutos” consiste em que Shane, o forasteiro amado por todos, não fica com a esposa do rancheiro, “Caminhos ásperos” parece resolver o problema: a ausência do marido e, mais tarde, a sua morte, e mais que isso, a descoberta de seu mau caráter, possibilitam a união amorosa que não fora possível no filme de George Stevens. De tal modo que, em termos de desenlace, se “Os brutos” tem um final feliz parcial (a querela com os latifundiários do gado foi vencida, mas Shane vai embora sozinho…), em “Caminhos” a felicidade final é plena: os apaches foram dominados e o casal, Hondo e Angie (Geraldine Page) ficam juntos para sempre, o garoto sendo levado pelas circunstância a abraçar esse novo pai.

Fiz o cotejo entre “Hondo” e “Shane” (mantenhamos os títulos originais) com alguma culpa, pois, o filme de John Farrow não precisa de comparações: é um bom filme em si mesmo. Evidentemente, nunca teve a fama de seu semelhante, e o próprio John Wayne alegava que, sendo do mesmo ano e tão “parecido”, “Shane” atrapalhou a carreira crítica e recepcional do seu filme. Eu mesmo não o conhecia e só cheguei a ele por indicação de amigos cinéfilos.

Os inimigos agora são os índios Apache

Os inimigos agora são os índios Apache

Wayne deve ter razão, mas, vale lembrar que, com o passar do tempo, o filme reabilitou-se junto à crítica, pelo menos isso. Com efeito, “Hondo” tem méritos inegáveis que podem colocá-lo entre os bons westerns da sua década. Narrado com fluência e boas interpretações, amarra bem os conceitos de ´filme de amor´ e ´bang-bang´. Um ponto seu extremamente favorável é a fuga ao maniqueísmo, e o melhor exemplo está na construção do personagem-título, ao mesmo tempo grosseiro e violento, terno e compreensivo; astuto e ardiloso na luta, mas desprendido e entregue na amizade.

Num filme sobre o conflito entre brancos e índios, sua origem é sintomática, pois se diz mestiço, e faz questão de resguardar, em palavras e gestos, o que há de típico nas duas raças. Numa situação crítica, Hondo hesita, como o faria qualquer ser humano, como é o caso quando precisa (por questões morais) confessar à companheira Angie que foi ele quem – por legítima defesa – matou o esposo dela, pai de seu filho. E sua justificativa para a confissão é orientada pelos inimigos que o torturaram, os Apaches, gente que – segundo ele – não conhece o conceito de mentira.

Enfim, com ou sem comparações com “Shane”, uma raridade cinematográfica que merece ser conhecida e apreciada.

Em tempo (1): autor de vasta e diversificada filmografia, John Farrow também é lembrado por ser o pai da atriz Mia Farrow.

Em tempo (2): esta matéria é dedicada ao amigo Joaquim Inácio de Brito, que me apontou o caminho a “Hondo”.

Apaches por toda parte.

Apaches por toda parte.

Filmes para homens?

10 mar

Parece que, depois do movimento feminista, os homens, meio na defensiva, ficaram menos seguros em relação ao que é ser homem. Deve ser isso que justifica a existência, na internet, de sites como este “The art of manliness” – traduzindo aproximadamente: ´a arte da masculinidade´. Tentando resgatar o conceito do masculino essencial, o site é interessante e reúne aspectos do comportamento dos homens que seriam fundantes desse conceito.

Há, por exemplo, listas de coisas que os homens preferem – ou deveriam preferir – e uma delas se refere ao cinema.

“Cem filmes obrigatórios para homens” é uma das listas que o site apresenta, certamente títulos votados pelos organizadores e dispostos na ordem de importância, do primeiro ao centésimo. Sem dúvida, um excelente objeto de estudo para os interessados, como eu, em Estética da Recepção no cinema.

No geral, são filmes que se centram na figura masculina, porém, curiosamente, nem todos veiculam aquele velho estereótipo do homem como sendo um ser forte, corajoso, decidido, violento, possessivo, autoritário, briguento, etc.

Por motivo de espaço, o meu comentário aqui vai limitar-se à metade da lista – os cinqüenta primeiros filmes – e aos citá-los, mencionarei sempre o diretor e o ano de produção.

Embora nessa lista estejam filmes fundados na violência como “Rambo” (Ted Kotcheff, 1983), “Duro de matar” (John McTiernan, 1988) e “Operação dragão (Robert Clouse, 1973), nela também estão outros, bem diferentes, como: “Ladrões de bicicleta” (Vittorio De Sica, 1948), “Se meu apartamento falasse” (Billy Wilder, 1960), e “Gandhi” (Richard Attenborogh, 1982), ou seja, filmes em que o protagonista está a léguas de distância do estereótipo tradicional acima referido.

É verdade que um número expressivo desses “filmes masculinos” trata de esporte – suposta preferência masculina. Citando dentre os nossos cinquenta: “Momentos decisivos” (David Anspaugh, 1986), “Sorte no amor” (Ron Shelton, 1988), “Campo dos sonhos” (Phil Alden Robinson, 1989) “Rudy” (David Anspaugh, 1993), “A luta pela esperança” (Ron Howard, 2005), “Desafio à corrupção” (Robert Rossen, 1961)”

Também previsivelmente, outro número considerável versa sobre guerra, a saber: “Fugindo do inferno” (John Sturges, 1963), “Sob o domínio do mal” (John Frankenheimer, 1962), “Das boot” (Wolfgang Peterson, 1981), “Nada de novo no front” (Lewis Milestone, 1930). Vejam, porém que um filme como “Os melhores anos de nossas vidas” (William Wyler, 1946) é muito mais sobre os efeitos da guerra, sobretudo os psicológicos. E que “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942), só é um filme de guerra até certo ponto.

Entre os preferidos dos homens não poderiam deixar de estar os westerns da vida, que, dos nossos cinquenta, são: “Butch Cassidy” (George Roy Hill, 1969), “O último pistoleiro” (Don Siegel, 1976), “Os brutos também amam” (George Stevens, 1953), “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann, 1952), “Os imperdoáveis” (Clint Eastwwood, 1992) e “Bravura indômita” (Henry Hathaway, 1969).

O mesmo se diga dos policiais ou filme de suspense: Perseguidor implacável (Don Siegel, 1971), “Intriga internacional” (Alfred Hitchcock, 1959), “Pacto de sangue” (Billy Wilder, 1944), “Relíquia macabra” (John Huston, 1941), “Operação França” (William Friedkin, 1971), “Os intocáveis” (Brian DePalma, 1987), “Bullit” (Peter Yates, 1968), “Um corpo que cai” (Alfred Hitchcock, 1958),

Surpreendentemente ou não, o gênero da ficção cientifica teve poucos preferidos: “Guerra nas estrelas” (George Lucas, 1977) e “O gigante de ferro” (Brad Bird, 1999). Os filmes históricos, ou épicos,  são três: “Gladiador” (Ridley Scott, 2000), “Spartacus” (Stanley Kubrick, 1960) e “O último dos moicanos (Michael Mann, 1992). Dois filmes tratam do tema vida em prisão: “Um sonho de liberdade” (Frank Darabont, 1994) e “Rebeldia indomável” (Stuart Rosenberg, 1967). E três enfocam a luta contra o racismo, a saber, “Malcom X” (Spike Lee, 1992), “Mississipi em chamas” (Alan Parker, 1988) e “No calor da noite” (Norman Jewison, 1968). O único documentário da lista toda é “The endless Summer” (Bruce Brown, 1969), sobre a prática do surfe.

Por fim, outros filmes há que não se classificam por gêneros, a não ser no sentido amplo de serem dramas – familiares, sociais ou existenciais.  “Vidas sem rumo” (Francis F Coppola, 1983); “Mar adentro” (Alejandro Amenábar, 2004); “A mulher faz o homem” (Frank Capra, 1939); “Juventude transviada” (Nicholas Ray, 1955); “Vinhas da ira” (John Ford, 1940) e “Uma rua chamada pecado” (Elia Kazan, 1951).

Não estou citando os atores, mas dei-me ao trabalho de contar, e os campeões de recorrência são, de fato, previsíveis: na ordem, Clint Eastwood, Kevin Costner e John Wayne.

Feita a leitura da lista, acho que a vontade do leitor é perguntar o que é, afinal de contas, um filme para homens. E, por antítese inevitável, o que seria um filme para mulheres.

O critério do Site, como dito, é o filme ser a estória de um personagem do sexo masculino, mas, quem foi que disse que uma estória sobre um homem só interessa a homens? Ou que uma estória sobre uma mulher só interessaria a mulheres? Eu, que sou homem, me sentiria frustrado se me proibissem de ver ou de gostar de – para citar apenas filmes com nomes femininos -: “Rainha Cristina”, “Stella Dallas”, Ana Karenina, “Ninotchka”, Joana D´Arc”, “Noites de Cabíria”, “Gilda”, “Laura”, “Sabrina”, “Irma La douce”, “Xica da Silva”, Adele H”, “Júlia e Júlia”, e tantas outras.

Sem contar que, em muitos casos, fica difícil dizer quem é mais protagonista do que quem. Em “Casablanca” seria Rick ou Ilsa? Em “E o vento levou”, seria Scarlett ou Rhett? Em “A princesa e o plebeu” seria a princesa, ou o plebeu? Nas muitas adaptações de Shakespeare, o protagonista seria Romeu ou Julieta?

Tudo bem, não sou ingênuo e sei que, na prática, as pessoas fazem a separação, e que os produtores e realizadores, para garantir bilheteria, reforçam a dicotomia recepcional entre os sexos, pondo mais ação em filmes para homens, e mais sentimento em filmes para mulheres, assim como, em casa, os brinquedos que os pais dão aos filhos são carros e armas para os meninos e bonecas e casinhas para as meninas.

O engraçado é que existe um filme, aliás, não referido no Site em questão, em que essa dicotomia recepcional está abordada, e de modo muito curioso. Acho que vocês se recordam da comédia romântica com Tom Hanks e Mag Ryan “Sintonia de amor” (Nora Ephron, 1993): em uma determinada cena alguém (naturalmente uma mulher) começa a rememorar o melodrama de Leo McCarey “Tarde demais para esquecer” (1957) e, na descrição da cena final entre a aleijada Deborah Kerr e o pintor Cary Grant, simplesmente desaba em pranto, ao ponto de não poder continuar. Nesse momento, incomodado, alguém (naturalmente um homem) alega que “Tarde demais” é um filme para mulherzinha, e, imediatamente, passa a descrever a cena final em um “filme para homem”, cheio de ação e adrenalina, “Os doze condenados” (Robert Aldrich, 1967). Ora, no meio da descrição, o marmanjo se emociona e … desaba em pranto.

A idéia na cena de “Sintonia de amor” seria a de que, se filmes para homens e filmes para mulheres são diferentes, a diferença não residiria na reação do(da) espectador(a), aqui, o mesmo jorro de lágrimas. Mas, atenção, não esqueçamos que o autor do filme – de qualquer filme! – também tem sexo e o sentido da cena foi dado por ele/ela. No caso presente, trata-se de uma mulher (Nora Ephron), mas, poderia ter sido um homem que, faria talvez a encenação com outra conseqüência semântica.

E ficamos na estaca zero da discussão.

Ao leitor ou leitora desta matéria, sugiro que repasse com calma a lista desses filmes para homens, relembrando o que assistiu e com que interesse, e, a partir de seu próprio gosto ou tirocínio, decida sobre a pertinência de uma lista de filmes – a aqui exposta, ou qualquer outra – que divida a recepção a partir da diferença sexual entre os espectadores.