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Música de filme

24 jun

Para muita gente boa, cinema sem música não é cinema. E a prova alegada é que, mesmo no tempo do cinema mudo, já havia um pianista em ação por trás da tela. Que seja.

O fato é que, desde 1927, quando o som foi agregado à película, a música passou a ser um dos ingredientes básicos da linguagem cinematográfica, tão importante quanto fotografia, montagem, interpretação, direção, etc.

Um outro fato inegável é que, em muitos casos, a música do filme pode se impor como um elemento tão forte que, eventualmente, adquire o mesmo poder de repercussão do filme, ou, em alguns casos particulares, até mais.

Que músicas tão especiais são essas?

Tenho e sempre tive meu rol privado de trilhas musicais preferidas, mas, quis saber de um que não fosse só meu. Para tanto, entrei em contato com cinéfilos que conheço de perto, todos com idade suficiente para lembrar trilhas que recobrissem toda a história do cinema falado. Não de todo aleatoriamente, escolhi dez – um número redondo – e a cada um pedi que me desse uma lista das dez trilhas musicais que mais amam. Acreditei – e acertei – que, no total das cem músicas citadas, haveria recorrências e essas recorrências me permitiriam chegar a uma espécie de cânone.

Eu sei: são restritos, tanto o número de votantes (apenas 10) quanto o espaço geográfico (João Pessoa, Paraíba), porém, suponho que essas limitações não impedem que o resultado da pesquisa possa vir a ser ilustrativo, já que saído da preferência de reconhecidos cinéfilos, entre os quais tomei a liberdade de me incluir.

Adiante cito as listas completas dos votantes, com seus nomes e escolhas, mas, antes, vai a lista das músicas eleitas, ou seja, as que tiveram maior número de votos, de seis a três. Como se vê, não pôde ser dez, mas foram nove as mais votadas. Ao lado do título da música, adiciono o compositor, ou se for o caso, o arranjador, seguido, entre parênteses, do título do filme, diretor e ano de produção. O número no final indica a quantidade de votos que a música teve, e no caso dos empates optei pela ordem cronológica de lançamento:

"Casablanca" e sua trilha musical inesquecível

“Casablanca” e sua trilha musical inesquecível

AS TRILHAS MUSICAIS MAIS VOTADAS POR UM GRUPO DE DEZ CINÉFILOS PARAIBANOS:

AS TIME GOES BY – Max Steiner (Casablanca, Michael Curtiz, 1942) (6)

MOON RIVER – Henry Mancini (Bonequinha de luxo, Blake Edwards, 1961) (5)

SUMMER OF 42 – Michel Legrand (Houve uma vez um verão, Robert Mulligan, 1971) (4)

AMARCORD – Nino Rotta (Amarcord, Federico Fellini, 1973) (4)

OVER THE RAINBOW – Herbert Stothart (O mágico de Oz, Victor Fleming, 1939) (3)

SINGING IN THE RAIN – Nacio Herb Brown (Cantando no chuva, Stanley Donen e Gene Kelly, 1952 (3)

JOHNNY GUITAR – Victor Young (Johnny Guitar, Nicholas Ray, 1954) (3)

THE APARTMENT – Adolph Deutsch (Se meu apartamento falasse, Billy Wilder, 1960) (3)

THE SOUND OF MUSIC – Oscar Hammerstein e Richard Rodgers (A noviça rebelde, Robert Wise, 1965) (3)

Para a curiosidade do leitor que também gosta de música e de cinema, e sobretudo das duas coisas juntas, eis a relação completa dos dez votantes, com suas respectivas listas pessoais. Neste caso, por economia de espaço, cito apenas os títulos das músicas, seguidos dos títulos dos filmes e datas. Quando a escolha da trilha musical refere-se ao filme como um todo, cito apenas o título do filme.

"Moon river" foi a segunda colocada na preferência dos 10 cinéfilos paraibanos

“Moon river” foi a segunda colocada na preferência dos 10 cinéfilos paraibanos

Joaquim Inácio Brito

Over the rainbow – O mágico de Oz, 1939; As time goes by – Casablanca, 1942; Love´s a many-splendored thing – Suplício de uma saudade, 1955; Takes my breath away – Ases indomáveis, 1986; Three coins in the fountain – A fonte dos desejos, 1954; Summer place – Amores clandestinos, 1959; Johnny Guitar, 1954; Where is your heart – Moulin Rouge, 1952; O mein Papa – A rainha do circo, 1954; The sound of music – A noviça rebelde, 1965.

Silvino Espínola

Amarcord,1973; Noites de Cabíria, 1957; As time goes by – Casablanca, 1942; Lawrence da Arábia, 1962; My favourite things – A novice rebelde, 1965; Johnny Guitar, 1954; Summer of 42 – Houve uma vez um verão, 1971; Runaway – Loucuras de verão, 1973; Sunrise sunset – O violinista no telhado, 1971; Goldfinger – OO7 contra Goldfinger, 1964.

Edward Lemos

Tammy – A flor do pântano, 1955; Charade – Charada, 1963; Secret Love – Ardida como pimenta, David Butler, 1953; River of no return – O rio das almas perdidas, 1955; The apartment – Se meu apartamento falasse, 1960; Young at heart – Corações enamorados, 1955; Summer of 42 – Houve uma vez um verão, 1970; Singing in the rain – Cantando na chuva, 1952; Os brutos também amam, 1953; ´S wonderful – Sinfonia de Paris, 1952

Gustavo Urquiza

Era uma vez no Oeste, 1968; Paris-Texas, 1984; Love Story, 1970; Babel, 2006; A noviça Rebelde, 1965; Amacord, 1973; Dr. Jivago, 1965; Amelie Poulin, 2001; Concerto n 2 para piano – Desencanto, 1945; Por una Cabeza – Perfume de mulher, 1992

Ivan (Cineminha) Araújo

E o vento levou, 1939; Shane – Os brutos também amam, 1953; Luzes da ribalta, 1952; A estrada da vida, 1954; The apartment – Se meu apartamento falasse, 1960; Moon river – Bonequinha de luxo, 1961; Dr Jivago, 1965; The sound of music – A noviça rebelde, 1965; O poderoso chefão, 1972; Cinema paradiso, 1989

Josafá Soares

Moon River – Bonequinha de luxo, 1961; As time goes by – Casablanca, 1942; Everybody is talking at me – Perdidos na noite, 1968; Summer of 42 – Era uma vez um verão, 1940; Amarcord, 1973; Raindrops keep falling on my head – Butch Cassidy, 1969; O poderoso chefão, 1972; Mrs Robinson – A primeira noite de um homem, 1969; Blue velvet – Veludo azul, 1986; Por uma cabeza – Perfume de mulher, 1992

Humberto Espínola

The apartment – Se meu apartamento falasse, 1960; Un Homme, une femme – Um homem, e uma mulher, 1966; Limelight – Luzes da Ribalta, 1953; Love´s a many-splendored thing – Suplício de uma saudade, 1955; Moon River – Bonequinha de Luxo, 1961; As time goes by – Casablanca, 1942; Over the Rainbow – O Mágico de Oz, 1939; Singing in the rain – Cantando na chuva, 1952; A Flor da Pele – Dona flor e seus dois maridos, 1977; The third man – O terceiro homem, 1949

Rolf de Luna Fonseca

Que será será – O homem que sabia demais, 1956; My Darling Clementine – Paixões dos fortes, 1946; Laura – Otto Preminger, 1944; Three coins in the fountain – A fonte dos desejos, 1954; The bridge on the river Kwai – A ponte do rio Kwai, 1957; The third man – O terceiro homem, Carol Reed, 1949; As time goes by – Casablanca, Michael Curtiz, 1942; Do not forsake me – Matar ou morrer, 1952; Will you remember? – Primavera, 1936

José Mário Espínola:

Amarcord, 1973; Goldfinger – 007 contra Goldfinger, 1964; A doce vida, 1960; Moon river – Bonequinha de Luxo, 1961; A Pantera Cor de Rosa, 1963; Zorba, o grego, 1964; 2001, uma odisséia espacial, 1968; The hanging tree – A árvore dos enforcados, 1958; Com Jeito Vai, 1957; Um homme et une femme – Um Homem e uma Mulher, 1966.

João Batista de Brito

Over the rainbow – O mágico de Oz, 1939; As time goes by – Casablanca, 1942; Sansão e Dalila, 1949; Johnny Guitar, 1956; The magnificent seven – Sete homens e um destino, 1960; Moon River – Bonequinha de luxo, 1961; Days of wine and roses – Vício maldito, 1962; Goldfinger – 007 contra Goldfinder, 1964; The good the bad and the ugly – Três homens em conflito, 1966; Summer of 42 – Era uma vez um verão, 1971.

"Summer of 42", a terceira colocada (aqui cena do filme homônimo)

“Summer of 42”, a terceira colocada (aqui cena do filme homônimo)

Ernest Borgnine

12 jul

Foi segunda-feira à noite, dia oito deste mês de julho que, num canal qualquer da televisão paga, ouvi a notícia: aos noventa e cinco anos de idade, rodeado da família, havia falecido o ator americano Ernest Borgnine (1917-2012).

Imediata e inescapavelmente, me reportei aos anos cinqüenta, especialmente aos velhos faroestes da época, que foram tantos e tão bons, quase todos com aqueles títulos brasileiros enormes, por exemplo, “Os homens das terras bravas” (“The badlanders”, Delmer Daves, 1958), em que o querido e saudoso Borgnine atuava ao lado de Alan Ladd e Katy Jurado.

Ernest Borgnine não foi nenhum astro de primeira grandeza no Star System de Hollywood, mas acho que posso dizer, junto com muita gente boa, que foi um dos coadjuvantes mais queridos do cinema americano, extremamente competente em seu ofício, para não dizer brilhante. Eu gostava dele especialmente porque parecia com um vivente do meu bairro.

Grandalhão, forte, largo e feioso, ele tinha a cabeça meio achatada, a cara redonda, quase sempre com um sorriso franco, onde se destacava um orifício entre os dentes, bem no meio. Pesadão, não era nada elegante ao gesticular ou andar, e de sua bocarra nunca saiu uma palavra que não fosse a mais comum.

Ficou ainda mais parecido com um vivente do meu bairro no dia em que estreou “Marty” (Delbert Mann, 1955), um dos seus raros papéis principais, pelo qual, aliás, ganhou um Oscar.

Nesse belo e comovente drama de subúrbio com tons francamente neo-realistas, ele era um humilde e simplório açougueiro do Bronx, de ascendência italiana (a sua, na verdade) que, estando com trinta e poucos anos de idade, não conseguia atrair o sexo oposto. Singelo mas profundamente tocante, foi um filme feito ´com carinho, para os feios´, num tempo em que astro ou estrela de cinema tinha que ser bonito como Robert Taylor ou Ava Gardner.

Ernes Effron Borgnino nasceu na pequena Hamden, estado de Connecticut, em 24 de janeiro de1917. Afamília vinha da Itália, como indica o sobrenome, depois remodelado para a forma inglesa Borgnine. O pequeno Ernes foi um menino comum e nunca manifestou interesse por teatro ou cinema.

Na idade certa, serviu o Exército e, quando eclodiu a Segunda Guerra, foi obrigado a lutar nos campos de batalha europeus, como qualquer soldado americano. Finda a guerra, voltou à cidade natal, onde, desempregado, perambulou pelas ruas do bairro sem destino, até que a mãe teve a ideia: “Já que tu gostas tanto de te mostrar na frente dos outros, por que não tentas o teatro?” – perguntou, referindo-se ao seu jeitão descontraído e brincalhão.

O pai achou a ideia infame, mas Borgnine topou o desafio e daí a pouco já estava estudando teatro e atuando nos palcos da vida. De palco em palco, caiu na Broadway e em 1951, decidiu que Los Angeles era o seu destino. Não tinha ´physique du rôle´ para galã, mas e daí? Os filmes de Hollywood também precisavam de atores de suporte, e este poderia muito bem ser o seu caminho. E foi.

Com uma longa e intensa carreira, que iniciou em 1951, Borgnine atuou em cerca de 200 filmes que, naturalmente, não vou citar.

A primeira vez em que vi Borgnine na tela deve ter sido mesmo como o Fatso de “A um passo da eternidade” (1953) – lembram? – aquele soldado corpulento e agressivo que, num bar de portoem Pearl Harbor, puxa uma briga com o franzino e teimoso Frank Sinatra e quase mata o rapaz.

Depois fiquei vendo Borgnine em dezenas de westerns, entre os quais , além do já citado “Os homens das terras bravas”, estão: “Johnny Guitar” (1954), “Vera Cruz” (1954), “Ao despertar da paixão” (1956), “Meu ódio será sua herança” (1969), etc… Ou podia ser em aventuras, dramas ou filmes épicos, tais como: “Demetrio e os gladiadores” (1954), “A conspiração do silêncio” (1955), “Vikings, os conquistadores” (1958), “Barrabás” (1961), “O voo do Fênix” (1965), “Os doze condenados” (1967), etc…

Quando foi que vi Borgnine pela última vez em tela de cinema? Não sei ao certo, mas, deve ter sido em 1972, ou um pouco adiante, em “O destino do Poseidon”, um daqueles filmes catástrofe que marcaram a crítica década de setenta. Depois disso, perdi-o de vista, mas não de lembrança, pois sempre revisito seus filmes, digo, os antigos.

Junto com Burl Ives, Martin Balsam, Walter Brennan, Thomas Mitchell, Thelma Ritter, Katy Jurado, Arthur O´Connell, Ed Begley, e tantos outros, Ernest Borgnine faz parte da minha galeria de coadjuvantes amados, sobre os quais pretendo um dia editar um livro.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Gilberto Lucena.