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Crítica e internet

1 abr

De repente, chegou a internet, com todas as suas vantagens. Para quem faz crítica cinematográfica, isso foi bom ou ruim?

A resposta não é simples. Do ponto de vista informacional, foi ótimo; do ponto de vista hermenêutico, foi no mínimo, problemático. Vou tentar explicar como.

Claro, com o advento da internet, tornou-se muito mais confortável poder dispor das informações que tão franca e ilimitadamente nos são fornecidas pelos sites de cinema e equivalentes.

Só para lembrar um pouco o passado, o crítico pré-internet trabalhava com a memória, por exemplo, de um modo penoso. Ao escrever sobre um filme, já haviam se passado horas – ou se fosse o caso, dias – desde que o crítico o vira, e lembrar de detalhes era tarefa nada fácil, às vezes impossível. Mesmo quando ele escrevia logo após ter saído do cinema, a questão da memória era um problema. O que complicava quando acontecia de os detalhes não lembrados serem decisivos para a compreensão – e inevitavelmente, para a análise – do filme.

O nome de um dado personagem, uma palavra solta dita no diálogo, o nome de um lugar, uma inscrição em alguma parte do cenário, um poema recitado, uma música executada em dado momento, uma imagem mostrada no fundo do quadro… qualquer coisa assim fazia falta, se porventura era importante para a abordagem que estava sendo dada ao filme. Para não falar em coisas maiores, por exemplo, a ordem mesma atribuída à estória: cena X veio mesmo antes ou depois de cena Y?

A pressa jornalística agravava a situação, e não admira muito que os textos dos maiores críticos de antigamente estejam perpassados por pequenos lapsos (nomes de personagens ou pessoas escritos de modo incorreto, datas equivocadas, ou mesmo erros de conteúdo…). Ao tratar de um filme antigo, o crítico podia, se desse tempo, consultar seus próprios livros de cinema (não existiam os tão convenientes vídeo-guides de hoje), porém, se o filme era estreante e o jornal queria fazer o furo…

A internet resolveu tudo isso de uma forma quase miraculosa e extremamente “generosa”. Um site de cinema como o IMDB (Internet Movie Data Base) nos oferece toda ordem de informação sobre qualquer filme (de “Chegada do trem à estação”, 1895, ao último projeto de Hollywood, passando por “Cidadão Kane”, 1941 e “Aruanda”, 1960) e nos deixa a cavaleiro para preencher o que não lembrávamos – ou não sabíamos – e para rechear o nosso texto com dados sobressalentes, vulgarmente chamados de “linguiça”.

É, porém, nessa “generosidade” que reside o perigo.

O perigo de, seduzido pela facilidade de citar, você vir a superlotar o seu texto com dados consultados, ao ponto de não sobrar espaço para o que mais interessa num texto crítico: a discussão do filme, e nela, o seu ponto de vista pessoal, a sua interpretação, o seu insight, fundado, claro, na sua capacidade analítica de ler o filme por conta própria.

Um caso mais grave seria espiar, na internet, os textos críticos alheios e reproduzir os insights como sendo seus – mesmo com outras palavras – sem citar as fontes… Mas, não vou entrar nessa questão do plágio crítico, até porque ele já acontecia muito antes da internet existir. Nos velhos tempos, não era raro abordagens críticas de jornais de circulação nacional – ou de revistas internacionais, como os Cahiers du cinéma – serem “copiadas” Brasil afora.

Voltando ao papel da internet, o texto hiper-informativo geralmente cansa o leitor, e, a longo prazo, perde o atrativo. Acontece que mesmo o leitor leigo em cinema, o chamado “espectador comum”, (ele próprio, um visitante da internet) hoje em dia já percebe o, que no texto do crítico, foi consulta ao Google. Um exemplo ao acaso: um texto em que todos os nomes da equipe de filmagem (cineasta, atores, etc) venham com as respectivas datas de nascimento e/ou morte faz automaticamente o leitor dar-se conta de que o autor é um viciado na Wikipedia ou equivalentes. Pelo simples fato de que, presencialmente falando, ninguém lembra datas de biografias alheias.

Pois bem, lendo críticas atuais, o que noto que vem acontecendo nos últimos tempos é que esse excesso mesmo de informação disponível nos meios eletrônicos, vem de uma maneira geral produzindo um efeito curioso – e benéfico: vem, por contraste, ressaltando a importância da originalidade. Sim, a facilidade da consulta – com sua obviedade para todos, autores e leitores – está obrigando o autor do texto, se não a fugir dela, mas, ao meio dela, mostrar uma marca pessoal. Em outras palavras, se ficou mais fácil escrever na perspectiva da quantidade, ficou bem mais difícil escrever na perspectiva da qualidade, ou seja, transcendendo o meramente informativo.

Se isto é fato, de alguma maneira podemos concluir que, a rigor, a internet trouxe, para o trabalho do crítico de cinema, uma dupla vantagem: de um lado, a disponibilidade da informação e, de outro, a consciência do perigo de seu abuso, e com ela, a (auto)exigência de uma escrita mais autêntica e mais profunda, para fazer frente, no mesmo texto redigido, ao oba oba informativo.

Comparando os tempos: antes da internet a informação textual era um mérito: hoje tende a ser, em si mesma, um demérito… se não houver a compensação de uma abordagem pessoal, original e, se possível, brilhante. Brilhante ou não, ao menos uma abordagem que não tenha saído dos fabulosos mecanismos combinatórios de uma máquina eletrônica, e sim, da cabeça de um ser humano pensante, sensível e criativo.

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Café Alvear

10 ago

Tarde fria de agosto. Vento forte lá fora e eventual neblina. A sesta já feita, na rede como sempre, vontade de ver um filme, ou ler um livro. Qual dos dois? Sem convicção, me levanto e, hesitante, espio em torno de minhas estantes, e o acaso decide por mim.

Bem na minha cara, cobrando leitura havia dias, o “Café Alvear” do mestre Gonzaga Rodrigues, a cujo lançamento compareci e deixei para ler em momento propício. Tarde fria de agosto: há momento mais propício para ler Gonzaga Rodrigues? Volto à rede, abro o livro e não paro mais.

De repente, estou na João Pessoa dos anos cinquenta, no antigo Café do Ponto de Cem Réis, em companhia de figuras que fizeram a vida jornalística, cultural, intelectual e política da Paraíba e/ou do Brasil, figuras que só conheci de nome, ou, alguns, sequer de nome.

Quase sempre (auto)descrito como modesto coadjuvante, Gonzaga está lá, ainda bem. Mas não só como personagem, digo, Gonzaga está lá, com seu estilo original, peculiar, elegante, atraente, saboroso, poético. O estilo, afinal de contas, a que estamos acostumados há tanto tempo, e que continuamos amando, como se ama, a vida inteira, um ente querido.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

Esforço de memorialista, o livro reconstitui uma época, com suas paisagens, seus episódios e seus vultos, tudo verídico e tudo sincero. Esse é um dos prazeres que nos proporciona. O outro é o de só chegarmos lá pelo viés poético do narrador/descritor. Mas não façamos rupturas: o conjunto das duas coisas é o que nos encanta, e o que dá personalidade a um livro de crônicas.

Autônomas, as crônicas podem ser lidas fora de ordem, porém, na organização do índice, chega a haver uma cronologia intencional que o leitor acompanha com interesse. Do governo de Getúlio à Ditadura de 64, do tempo local de José Américo governador da Paraíba à data de sua morte, segue-se um roteiro elástico e móvel que abrange tanto os acontecimentos históricos propriamente ditos, como os estritamente autobiográficos.

Na maior parte das vezes o histórico e o biográfico se fundem de forma inconsútil e tocante. Para dar um só exemplo, um caso assim é o da crônica “Brahms, Brahms, Brahms” em que Gonzaga magistralmente trata do suicídio do presidente Getúlio Vargas e sua repercussão local e bem pessoal, fechando o texto com a frase lapidar: “O sol daquela hora começava a incomodar. Era noite em todos nós.”

Como admitido pelo autor no capítulo inicial que explica o título, o livro foi montado a partir de crônicas que deviam refazer a memória política e cultural do próprio Gonzaga.

Sempre Gonzaga...

Sempre Gonzaga…

E, contudo, é tocante como o espaço concedido ao alheio é enorme – grande lição de alteridade. Com efeito, os muitos personagens da vida pessoense – políticos, empresários, funcionários públicos, militantes, colegas de trabalho, amigos ou meros conhecidos, até desafetos – tomam às vezes conta da diegese e como que “apagam” o nosso Gonzaga, na maior parte dos casos, humildemente posto em posição de mera testemunha. Apagariam, se – para o leitor – o estilo do narrador não o mantivesse em primeiríssimo plano.

Dentre os vultos locais recriados, confesso que o que mais me tocou foi o retrato de Juarez da Gama Batista, “o magro de olhos poderosos” que dirigiu o jornal “A União” ao tempo em que Gonzaga lá começava sua carreira de jornalista. Tocou-me particularmente porque esse eu conheci mais de perto, quando o tive como professor de literatura na UFPB. O que dele diz Gonzaga casa com o que presenciei no eventual convívio que tive com Juarez, não apenas grande professor, mas homem fino e atencioso que trocava figurinhas literárias comigo nos corredores da FAFI, onde falávamos dos autores que amávamos, um deles lembro bem, Aldous Huxley. Eu tinha lido “Time must have a stop” que Juarez, profundo conhecedor de Huxley, por acaso não conhecia e a conversa foi longe e abriu porteiras para outros assuntos.

Mesmo quando é protagonista da crônica, notem que Gonzaga nunca aparece como herói. Seus momentos de glória – que na vida os teve, sim – não aparecem. Nesse aspecto, uma crônica sintomática – aliás, bela crônica – narra o dia do Golpe Militar, que vai encontrar o comunista Gonzaga no Hospital havia quatro meses, acometido de tuberculose. “Da janela do hospital”, ele vê, ou melhor, ouve tudo acontecer, impotente, mas, ao mesmo tempo, protegido pela sua condição de paciente grave. Densa narração cheia de medos e culpas…

No lançamento de "Café Alvear", com o autor e amigos.

No lançamento de “Café Alvear”, com o autor e amigos.

Talvez no espírito do “poema em linha reta” de Fernando Pessoa, quase sempre os papéis a ele reservados por ele mesmo são problemáticos, tensos, sofridos, e mesmo patéticos, como naquele incidente em que, encarregado de, pela primeira vez, entrevistar um figurão em uma mansão da João Machado, ridiculamente vestido com paletó de tamanho maior que seu corpo então franzino, tomba do pufe onde estava sentado e espalha seus papéis pelo piso da sala, entre os sapatos dos visitantes – para quem visualiza seu relato, verdadeiro Carlitos, fazendo comédia sem querer.

Enfim, ao fechar as páginas de “Café Alvear” a noite tinha chegado e me espojei na rede, ainda saboreando a leitura, feliz de viver numa cidade em que Gonzaga Rodrigues, com seu enorme talento de cronista, escondido por trás de sua folclórica modéstia, pontifica.

O vento passara, mas a chuva persistia. Ergui-me da rede e fui tomar a minha habitual taça de vinho antes da janta… desta vez com um brinde a Gonzaga, claro.

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