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Escritores que cometeram crítica de cinema

25 jul

Poetas ou ficcionistas, há escritores cujas obras lembram cinema. A poesia de João Cabral, por exemplo, ele mesmo insistia em dizer, tem muito de cinematográfica. Em alguns casos, até escritores do passado, quando a sétima arte sequer existia, já pareciam fílmicos. Dickens é um caso óbvio, citado pelo cineasta pioneiro D. W. Griffith, mas acho que Sthendal, Tolstoi e Balzac também.

Mas não é disso quero tratar aqui.

Aqui quero tratar de profissionais que, tendo se notabilizado como escritores, conheceram, sim, o cinema e, bem antes do ofício literário, e/ou científico, cometeram a crítica cinematográfica – geralmente uma crítica praticada no ardor da juventude, e de que hoje pouco se tem notícia.

Gabriel Garcia Marquez, crítico de cinema, antes de ser escritor.

São em número bem maior do que pensamos, ou sabemos, mas aqui me concentro em quatro ou cinco casos, suficientemente ilustrativos.

Comecemos como o autor de “Cem anos de solidão”.

Sim, você sabia que o colombiano Gabriel Garcia Marquez fez crítica de cinema na juventude? Pois é. Eu vim a saber disso muito tardiamente, décadas depois de ter lido seus romances e novelas, e de ter visto suas adaptações para a tela. Como soube? Foi o meu saudoso amigo e colega de labuta crítica Antônio Barreto Neto quem me passou a informação. Informação nada, ele me deu de presente o livro em que está editada toda a crítica cinematográfica de Garcia Marquez, este ainda um jovem jornalista, comentando as ´películas´ – quase todas americanas – exibidas nos cinemas locais de Bogotá. Quem quiser provas, o livro que Barreto me deu está aqui, na minha estante, me fitando de longe.

A essa altura dos acontecimentos, imagino que já foi feita alguma tese de doutorado, catando, nesses escritos sobre cinema, elementos que possam ter alimentado a ficção de Garcia Marquez. Se não foi, que se faça!

O pernambucano Josué de Castro.

O segundo caso que cito é brasileiro, o do nosso cientista e pensador social Josué de Castro. Bem antes de ficar conhecido como o teórico da fome, Josué de Castro foi um apaixonado pela sétima arte, cuja autonomia estética defendeu com unhas e dentes. Seus escritos de crítica datam do início dos anos trinta, quando o cinema acabara de ganhar o acréscimo do som, aliás, um acréscimo que ele abominava. Assim, gastou tempo e energia redigindo ensaios em que defendia a pureza da imagem. No seu entender, para alcançar a condição de arte pura, o cinema precisava livrar-se da herança do teatro e da literatura, e, por isso mesmo, o advento do som lhe era malsão. Seu posicionamento coincidiu com o de Chaplin, mas, ele nem precisou de endosso alheio para alardeá-lo.

Que relação essa posição terá com sua obra posterior eu não sei, mas é, sim, instigante rever o autor de “A geografia da fome” como um esteta radical a defender a imagem pura. Cá comigo, fico pensando se alguém não já teve a ideia de juntar os dois Josués e rodar um documentário sem som nem fala… sobre a fome.

Um terceiro caso que me vem à memória é o do romancista inglês Graham Greene. Tudo bem, seus romances quase todos viraram filmes e ele mesmo seria, mais tarde, convidado por Hollywood para ser roteirista. Nada disso, porém, impede que o inclua neste rol que aqui apresento, por uma razão simples – bem antes de ser romancista, ainda na juventude, ele fez crítica de cinema, e de modo sistemático. A coisa literária viria depois, como veio depois o métier de roteirista.

O inglês Graham Greene.

Dele possuo um livro que coleta sua produção de crítico cinematográfico, um belo volume chamado “Mornings in the dark” (“Manhãs no escuro”), com artigos publicados em jornais londrinos a um tempo em que ninguém, no âmbito literário, sabia quem era esse tal de Graham Greene.

Um quarto caso a citar é o do nosso Vinicius de Moraes, famoso pela poesia publicada e pelas músicas compostas e cantadas, porém, “um desconhecido crítico de cinema”.

Só os mais idosos vão lembrar as tantas “crônicas de cinema” que o nosso mais tarde embaixador e poeta veiculou com assiduidade profissional, nos jornais cariocas, nos anos quarenta. Como Josué de Castro, Vinicius também foi um defensor da tela muda, mas, o melhor de seus escritos está na simplicidade com que falava de seu amor ao cinema e daquilo que seria o perfil do espectador autêntico.

Por sorte, seu trabalho de crítico cinematográfico foi resgatado das velhas páginas de jornal e está no delicioso “O cinema dos meus olhos”, livro organizado e editado pelo jornalista Carlos Augusto Calil. É conferir.

Vinicius de Moraes, o crítico de cinema.

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Café Alvear

10 ago

Tarde fria de agosto. Vento forte lá fora e eventual neblina. A sesta já feita, na rede como sempre, vontade de ver um filme, ou ler um livro. Qual dos dois? Sem convicção, me levanto e, hesitante, espio em torno de minhas estantes, e o acaso decide por mim.

Bem na minha cara, cobrando leitura havia dias, o “Café Alvear” do mestre Gonzaga Rodrigues, a cujo lançamento compareci e deixei para ler em momento propício. Tarde fria de agosto: há momento mais propício para ler Gonzaga Rodrigues? Volto à rede, abro o livro e não paro mais.

De repente, estou na João Pessoa dos anos cinquenta, no antigo Café do Ponto de Cem Réis, em companhia de figuras que fizeram a vida jornalística, cultural, intelectual e política da Paraíba e/ou do Brasil, figuras que só conheci de nome, ou, alguns, sequer de nome.

Quase sempre (auto)descrito como modesto coadjuvante, Gonzaga está lá, ainda bem. Mas não só como personagem, digo, Gonzaga está lá, com seu estilo original, peculiar, elegante, atraente, saboroso, poético. O estilo, afinal de contas, a que estamos acostumados há tanto tempo, e que continuamos amando, como se ama, a vida inteira, um ente querido.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

Esforço de memorialista, o livro reconstitui uma época, com suas paisagens, seus episódios e seus vultos, tudo verídico e tudo sincero. Esse é um dos prazeres que nos proporciona. O outro é o de só chegarmos lá pelo viés poético do narrador/descritor. Mas não façamos rupturas: o conjunto das duas coisas é o que nos encanta, e o que dá personalidade a um livro de crônicas.

Autônomas, as crônicas podem ser lidas fora de ordem, porém, na organização do índice, chega a haver uma cronologia intencional que o leitor acompanha com interesse. Do governo de Getúlio à Ditadura de 64, do tempo local de José Américo governador da Paraíba à data de sua morte, segue-se um roteiro elástico e móvel que abrange tanto os acontecimentos históricos propriamente ditos, como os estritamente autobiográficos.

Na maior parte das vezes o histórico e o biográfico se fundem de forma inconsútil e tocante. Para dar um só exemplo, um caso assim é o da crônica “Brahms, Brahms, Brahms” em que Gonzaga magistralmente trata do suicídio do presidente Getúlio Vargas e sua repercussão local e bem pessoal, fechando o texto com a frase lapidar: “O sol daquela hora começava a incomodar. Era noite em todos nós.”

Como admitido pelo autor no capítulo inicial que explica o título, o livro foi montado a partir de crônicas que deviam refazer a memória política e cultural do próprio Gonzaga.

Sempre Gonzaga...

Sempre Gonzaga…

E, contudo, é tocante como o espaço concedido ao alheio é enorme – grande lição de alteridade. Com efeito, os muitos personagens da vida pessoense – políticos, empresários, funcionários públicos, militantes, colegas de trabalho, amigos ou meros conhecidos, até desafetos – tomam às vezes conta da diegese e como que “apagam” o nosso Gonzaga, na maior parte dos casos, humildemente posto em posição de mera testemunha. Apagariam, se – para o leitor – o estilo do narrador não o mantivesse em primeiríssimo plano.

Dentre os vultos locais recriados, confesso que o que mais me tocou foi o retrato de Juarez da Gama Batista, “o magro de olhos poderosos” que dirigiu o jornal “A União” ao tempo em que Gonzaga lá começava sua carreira de jornalista. Tocou-me particularmente porque esse eu conheci mais de perto, quando o tive como professor de literatura na UFPB. O que dele diz Gonzaga casa com o que presenciei no eventual convívio que tive com Juarez, não apenas grande professor, mas homem fino e atencioso que trocava figurinhas literárias comigo nos corredores da FAFI, onde falávamos dos autores que amávamos, um deles lembro bem, Aldous Huxley. Eu tinha lido “Time must have a stop” que Juarez, profundo conhecedor de Huxley, por acaso não conhecia e a conversa foi longe e abriu porteiras para outros assuntos.

Mesmo quando é protagonista da crônica, notem que Gonzaga nunca aparece como herói. Seus momentos de glória – que na vida os teve, sim – não aparecem. Nesse aspecto, uma crônica sintomática – aliás, bela crônica – narra o dia do Golpe Militar, que vai encontrar o comunista Gonzaga no Hospital havia quatro meses, acometido de tuberculose. “Da janela do hospital”, ele vê, ou melhor, ouve tudo acontecer, impotente, mas, ao mesmo tempo, protegido pela sua condição de paciente grave. Densa narração cheia de medos e culpas…

No lançamento de "Café Alvear", com o autor e amigos.

No lançamento de “Café Alvear”, com o autor e amigos.

Talvez no espírito do “poema em linha reta” de Fernando Pessoa, quase sempre os papéis a ele reservados por ele mesmo são problemáticos, tensos, sofridos, e mesmo patéticos, como naquele incidente em que, encarregado de, pela primeira vez, entrevistar um figurão em uma mansão da João Machado, ridiculamente vestido com paletó de tamanho maior que seu corpo então franzino, tomba do pufe onde estava sentado e espalha seus papéis pelo piso da sala, entre os sapatos dos visitantes – para quem visualiza seu relato, verdadeiro Carlitos, fazendo comédia sem querer.

Enfim, ao fechar as páginas de “Café Alvear” a noite tinha chegado e me espojei na rede, ainda saboreando a leitura, feliz de viver numa cidade em que Gonzaga Rodrigues, com seu enorme talento de cronista, escondido por trás de sua folclórica modéstia, pontifica.

O vento passara, mas a chuva persistia. Ergui-me da rede e fui tomar a minha habitual taça de vinho antes da janta… desta vez com um brinde a Gonzaga, claro.

gr 4 face

Marguerite

4 jul

Um dos melhores itens da atual versão do Festival Varilux de Cinema Francês foi, com certeza, “Marguerite” (Xavier Giannoli, 2015), filme por sorte ainda em cartaz entre nós.

Contando a estória dessa milionária que pensa saber cantar, o filme é excelente em todos os níveis. Da reconstituição de época (a França dos anos 1920) à interpretação da atriz Catherine Frot, tudo é perfeito e nos convence de que o cinema francês, superados há muito os arroubos vanguardistas dos anos sessenta, vai muito bem, obrigado. E vai mesmo.

Sem dúvida, o grande mérito do diretor Giannoli é saber lidar com o patético, sem ser patético. Sua protagonista, Marguerite Dumont, nos cativa desde o início, e, se rimos dela, não o fazemos sem pena ou constrangimento.

Marguerite poster

Sua estória, a rigor, é dramática. Irremediavelmente desafinada, Marguerite canta para um grupo de amigos que, por simpatia ou por interesse, a aplaude efusivamente. Só que esses falsos aplausos vão alimentando o seu espírito ingênuo e, de repente, ela passa a namorar a ideia de cantar ópera para um grande público.

Ludibriada por jornalistas de má fé, sua primeira aparição pública – executando a Marseillaise num cabaré anarquista – é um desastre e um escândalo, mas ela não desanima. Até que, devidamente contratado um sempre relutante professor de canto, chega ela à Ópera Nacional de Paris e…

Desmaio em pleno palco, cordas vocais sangrando, hospital, trágica auto-audição… Não vou contar o resto da estória, mas devo dizer “a verdade” (título do último capítulo do filme): que “Marguerite” é, no fundo, uma grande e bela estória de amor. E, coisa rara, uma estória de amor entre marido e mulher.

Narrado com fina elegância, o filme é francês jusqu´au coeur, e contudo, suas origens estão, curiosamente, do outro lado do Atlântico, sim, nos Estados Unidos.

A atriz Catherine Frot no papel-título.

A atriz Catherine Frot no papel-título.

Visivelmente, a inspiração para a construção da personagem de Marguerite veio da vida estabanada de Florence Foster Jenkins, socialite americana que, nos anos 20/30, sonhou em ser cantora e, desafinada ao extremo, pagou caro por isso. A propósito, a estória de Florence está em outro filme recente, que deveremos ver brevemente, dirigido por Stephen Frears, com Meryl Streep no papel-título.

Além disso, o nome dado à protagonista é, assumidamente, uma variante de Margaret Dumont, aquela atriz hollywoodiana que serviu sempre de ´escada´ para as peripécias dos Irmãos Marx em muitas boas comédias malucas dos anos trinta. Se vocês lembram bem filmes como “Uma noite na ópera” e tantos outros, uma personagem com o mesmo perfil ingênuo e alienado da nossa Marguerite de agora.

Mas, as relações de “Marguerite” com o cinema americano vão mais fundo. Vendo-o, impossível não lembrar dois grandes filmes que marcaram a história da Hollywood clássica, e que nele funcionam como intertextos enriquecedores. Refiro-me a “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) e “Crepúsculo dos deuses” (Billly Wilder, 1950).

Se confrontarmos bem, a situação diegética da nossa Marguerite é semelhante a de Susan Alexander, a segunda esposa de Charles Foster Kane, aquela que ele quer, por fim e à força, transformar em uma grande cantora lírica, e não consegue. Em “Kane” a busca do sucesso nos palcos é mais do marido que da esposa, mas, mesmo assim, a similaridade persiste. Notar como a presença de pavões e outros bichos na mansão Dumont sugere a vasta fauna no castelo Xanadu dos Kane. Aliás, ambos os filmes se inspiraram na mesma figura verídica, a Florence Foster Jenkins já citada, como se percebe do segundo nome do personagem Kane.

Uma estória de amor entre marido e mulher.

Uma estória de amor entre marido e mulher.

A outra figura que Marguerite inevitavelmente lembra é a Norma Desmond de “Crepúsculo dos deuses”, diva do cinema mudo que, agora, no falado, pretende voltar às telas do mundo e abafar, uma mulher obcecada pelo sucesso, com o mesmo nível de alienação e, no final, a mesma entrega descontrolada ao puro delírio psicopatológico.

Em “Marguerite” o paroxismo do delírio aparece nas gravações feitas com a paciente, no hospital, enquanto que em “Crepúsculo”, ele é predominantemente plástico, como está em sua cena final. Norma já fora estrela, e Marguerite nunca, mas, de novo, isto não diminui a semelhança. Um reforço ostensivo dessa semelhança – com toda certeza, proposital – está na presença ubíqua do mordomo negro em “Marguerite”, com sua dedicação cega à patroa, a mesma dedicação do mordomo à Norma Desmond do filme de Billy Wilder.

Claro, “Marguerite”, o filme, não precisa desses intertextos cinematográficos para funcionar, porém, com eles no subconsciente do espectador cinéfilo, funciona muito melhor.

Filmaço, que recomendo.

Inúteis aulas de canto para Marguerite...

Inúteis aulas de canto para Marguerite…

Jornalismo no cinema

8 out

Prometendo dar o que falar, o recém lançado livro de Paulo Henrique Amorim “O quarto poder” (Hedra, 2015) me faz lembrar a sempre fértil relação entre o jornalismo e o cinema.

O livro de Amorim nada tem a ver com cinema, porém, em uma de suas páginas, o autor registra que, em 1993, a televisão britânica exibiu o documentário “Beyond Citizen Kane”, sobre Roberto Marinho, onde o poderoso jornalista brasileiro era comparado ao protagonista do clássico de Orson Welles (1941).

Este dado em si remeteu meu espírito cinéfilo, por tabela, aos filmes que, ao longo de toda a história do cinema, tiveram o jornalismo como tema. No final desta matéria arrolo pelo menos dez filmes clássicos com esta temática, mas, por enquanto quero tratar de duas pequenas películas dos anos cinquenta que abordaram a profissão do jornalista de modo mais que interessante.

O primeiro é “Cidade cativa” (“The captive city”, 1952) do mestre Robert Wise, que discute a relação entre o poder e a liberdade de imprensa.

Cena de "Cidade Cativa".

Cena de “Cidade Cativa”.

Baseado em caso real, o filme de Wise mostra bem o drama de um editor de jornal que, mexendo daqui, mexendo dali, como lhe cabe, vai descobrindo uma rede de corrupção cujas teias recobrem praticamente a cidade inteira, no caso a pequena Kenninston. Na medida em que mexe e remexe, o bravo editor, ansioso por noticiar, vai constatando o envolvimento dos cidadãos mais respeitados do lugar – e isto para não falar da polícia! – e, na mesma medida, vai recebendo, primeiramente tentativas de suborno, e em seguida, ameaças de morte cada vez mais explícitas… até sua situação pessoal tornar-se completamente inviável… no posto que ocupa e, mais que isso, no lugar onde mora.

Bem roteirizado e bem dirigido, o filme começa pelo fim, com o editor e a esposa perseguidos, fugindo de carro para uma cidade vizinha onde, na delegacia local, ele relata a um gravador a trama toda, desde o começo, e, ao fazê-lo, a estória nos é mostrada em flashbacks cronológicos.

Curiosamente documental, o desenlace expõe o senador americano Estes Kefauver pronunciando um discurso verídico sobre o assunto, mas, nem esse ´prólogo pedagógico´ compromete a qualidade do filme, com certeza, um dos melhores no seu gênero.

O outro que destaco é uma comédia romântica de 1958, chamada “Um amor de professora” (“Teacher´s pet”, de George Seaton).

Doris Day e Clark Gable

Doris Day e Clark Gable

A estória gira em torno dos muitos percalços no caso de amor entre uma professora universitária de jornalismo (Doris Day) e um profissional da imprensa, veterano e tarimbado (Clark Gable), que é obrigado pela empresa onde trabalha a fazer um curso de atualização. Mas não se enganem com a faceta romântica do roteiro: nunca vi, em cinema, tão bem discutidas as relações entre a teoria do jornalismo e a sua prática.

O que vale mais, o aprendizado no batente, ou os muitos livros que se leem sobre os conceitos gerais de imprensa? De onde vem o talento que supera a mera obediência aos lides? Como se redige um texto jornalístico que transcenda a informação óbvia? Onde ficam os limites entre imparcialidade e compromisso pessoal com a notícia? Até que ponto a vida particular do jornalista interfere na sua atividade profissional? Praticamente todas as grandes questões relativas ao métier do jornalismo vêm à tona no enredo desta comediazinha de amor que, por trás de seu romantismo, esconde o enfrentamento sério de uma das profissões mais fascinantes do mundo moderno. Sem favores, um pequeno filme que pode ser extremamente útil a quem faz ou a quem ensina jornalismo.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em "Meet John Doe", de 1941.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em “Meet John Doe”, de 1941.

Resenhados estes dois títulos, faço seguir, em ordem cronológica, uma lista de dez outros filmes clássicos que abordaram o tema da imprensa.

 

A primeira página (The front Page, 1931, Lewis Milestone,)

Nada é sagrado (Nothing sacred, 1937, William Wellman)

Jejum de amor (His girl Friday, 1940, Howard Hawks)

Adorável vagabundo (Meet John Doe, 1941, Frank Capra)

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941, Orson Welles)

A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951, Billy Wilder)

A embriaguez do sucesso (Sweet smell of success, 1957, Alexander McKendrick)

Viver por viver (Vivre pour vivre, 1967, Claude Lelouch)

Todos os homens do presidente (All the president´s men, 1976, Alan Pakula)

O homem de mármore (Czlowieki z marmuru, 1977, Andrey Wajda).

"His girl Friday": Cary Grant e Rosalind Russell.

“His girl Friday”: Cary Grant e Rosalind Russell.

“O mercado de notícias”

12 set

Antes da existência da imprensa eram os mensageiros os responsáveis pela transmissão das notícias, esses verdadeiros ´moleques de recado´ da antiguidade, que percorriam distâncias para levar informação aos interessados.

Um mensageiro vagaroso podia provocar tragédia, como foi o caso daquele que, correndo entre Verona e Mantua, não chegou a tempo de avisar a Romeu sobre o entorpecente ingerido por Julieta. Conta-se que, no antigo Egito, a rainha Cleópatra castigava com chicotadas nas costas os mensageiros que lhe traziam notícias ruins, e agradava com prendas, quando as notícias eram boas.

Gutenberg mudou tudo, e já no século XVII os jornais tomaram o lugar dos vetustos mensageiros, despejando notícias a quem quisesse recebê-las, ou não. Rápido os jornais viraram empresas poderosas e, em 1625, o escritor inglês Ben Jonson já encena sua peça “The Staple of News”, satirizando o poder da imprensa no mundo.

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Pois é essa peça inglesa, tão pouco conhecida entre nós, que serve de pretexto para o filme de Jorge Furtado “O mercado de notícias” (2013), em cartaz na cidade e no país.

O filme se apoia nos dois pilares do cinema, a ficção e o documento, para discutir o mesmo tema: a imprensa e seu papel na sociedade. Assim, cenas da peça de Jonson se intercalam a depoimentos atuais de jornalistas brasileiros. Eu disse dois pilares, mas talvez sejam três, pois o cineasta inclui, no corpo do filme, cenas metalinguísticas de bastidores da produção.

Notícia, fato, mentira, verdade, parcialidade, jornalista, jornalismo… os tópicos vão se sucedendo, introduzidos por legendas e discutidos pelos profissionais da área, e/ou ilustrados por cenas da peça. Praticamente, todas as grandes questões atinentes à imprensa aparecem, algumas exemplificadas com casos locais, dos quais menciono dois:

Aquela bolinha de papel que, durante a campanha para Presidente, atingiu a careca de José Serra e, incrivelmente, o levou ao hospital, como se se tratasse de um grave atentado dos adversários. Ou o caso daquele quadro comprado pelo INSS de Brasília, e lá ainda hoje exposto, como um autêntico Picasso, quando não passa de um pôster do original, este perfeitamente visitável no Museu Guggenheim de Nova Iorque.

A cobiçada Pecúnia

A cobiçada Pecúnia

Inevitavelmente, o tópico mais quente na pauta do filme é a questão do até que ponto o jornalista reproduz fielmente o fato noticiado… ou o ´retoca´ e, eventualmente, o deforma. Também inevitavelmente, o último item discutido (denominado “revolução”) tinha que ser o novo rumo que tomam as coisas com o advento da Internet – fator tecnológico tão novo e inquietante hoje quanto o foi a imprensa escrita nos tempos de Jonson.

Aliás, além de demonizar os jornais da época, a peça de Jonson tinha um plot próprio, sobre a família Pennyboy (o sobrenome já diz tudo) e seu ardiloso intento de desposar a bela Pecúnia (outro sobrenome óbvio). Como, no filme de Furtado, a peça não é encenada em sua compleição, esse plot fica obscuro e confuso para o espectador que desconhece o original.

Outra coisa: gostei do filme, inteligente e – como a peça de Jonson – irônico, porém, francamente, não vejo por que o cineasta se absteve de fazer referências cinematográficas, que, creio eu, tornariam o filme mais interessante do que já é.

Por exemplo, uma que vejo como obrigatória num filme desses é a da famosa cena final de “O homem que matou o facínora” (John Ford, 1962), no momento em que o jornalista afirma que “quando a lenda supera o fato, imprima-se a lenda”. Acho que, na sequência em que se discute o problema da verdade na imprensa a famosa fala teria que ser mencionada.

Cena da peça dentro do filme.

Cena da peça dentro do filme.

A outra seria qualquer cena ou fala de “Última hora” (Lewis Milestone, 1930) e por quê? Ora, se a peça de Jonson foi a primeira na história do teatro e da literatura a tratar da imprensa, este filme, por sua vez, foi o primeiro a fazê-lo na história do cinema. Teria sido legal apontar o elo entre os dois começos.

Não sei que desempenho está tendo “O mercado de notícias” nos circuitos comerciais de exibição, mas, de uma coisa estou certo: sua cópia em DVD vai fazer o maior sucesso nos cursos de comunicação e jornalismo das universidades brasileiras.

E aproveito o ensejo para lembrar, a quem for usá-lo didaticamente – ou simplesmente a nossos leitores – outros filmes, além dos dois já citados, sobre a grande temática da imprensa, escrita, falada ou vista. Eis pelo menos dez títulos, em ordem cronológica:

Jejum de amor (Howard Hawks, 1940); Cidadão Kane (Orson Welles, 1941); A montanha dos sete abutres (Billy Wilder, 1951); Um rosto na multidão (Elia Kazan, 1957); A embriaguez do sucesso (Alexander McKendrick, 1957); A doce vida (Federico Fellini, 1960); Viver por viver (Claude Lelouch, 1967); A primeira página (Billy Wilder, 1974); Todos os homens do presidente (Alan Pakula, 1976); e Rede de Intrigas (Sidney Lumet, 1976).

O cineasta gaúcho Jorge Furtado filmando.

O cineasta gaúcho Jorge Furtado filmando.