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AZOUGUE NAZARÉ

20 nov

Em escala nacional, estreia o filme pernambucano “Azougue Nazaré” (Tiago Melo, 2018), aqui exibido e premiado no Fest-Aruanda do ano passado, e agora em exibição no Cine Banguê.

Até que ponto podem conviver juntas duas crenças religiosas antagônicas? Entre outras coisas, o filme faz esta pergunta e, sabiamente, deixa a resposta mais ou menos em aberto.

Na cidade de Nazaré da Mata de hoje, Pernambuco, a população vive dividida entre a exuberante tradição do Maracatu (dança e crença folclóricas de rara beleza) e o surto de evangelismo que tolhe essa expressão popular.

Entre disputas de repentistas e mistérios no canavial circundante, o filme, em estilo criativo e instigante, que vai do quase documental ao quase sobrenatural, retrata os problemas diários na vida de alguns de seus humildes viventes municipais.

O ator Valmir do Côco faz o papel de Catita.

São vários esses viventes e variados esses problemas, mas o maior tempo de tela é dado mesmo a esse Catita, um negro gordo e pobre, que esconde da esposa branca e magra a sua participação no Maracatu e dela aguenta as restrições evangélicas. Mas não por muito tempo, pois não é de seu feito despachado aguentar restrições. Afinal, não esquecer que seu nome vem de um dos personagens do Maracatu.

O problema conjugal toma um caráter crítico no dia em que o irreverente Catita é informado pelo pastor evangélico e a esposa que, de acordo com os preceitos da Bíblia, combinados com um certo sonho recorrente da esposa, ela deve acasalar-se com o pastor, para que, dessa união carnal recomendada pelo Senhor, surja o rebento que nunca surgira.

A cena do acasalamento (com o pastor orando para que o Senhor o ajude nessa dura missão) é um dos pontos altos do humor que o filme exala, já prometido na cena de abertura, em que os deliciosos repentistas do lugar trocam farpas, envolvendo traições conjugais.

Catita reluta em ser – digamos – corno abençoado, porém, é convencido por um trecho do livro sagrado que, supostamente, autoriza o pastor a “adulterar”. Engole a lição evangélica e o chifre até o dia em que uma amiga, mais esperta que ele, relê o trecho bíblico e lhe prova que tudo não passou de uma interpretação errônea – ou seria maldosa? – da linguagem bíblica, a rigor, um erro de português que lia “adúltera” (substantivo proparoxítono) como “adultera” (forma verbal paroxítona).

Uma cena do filme

Aí então, Catita se revolta, se rebela e, devidamente paramentado com sua exuberante fantasia, volta ao Maracatu querido com força renovada e muito mais irreverência. Se fosse para interpretar sociologicamente, dir-se-ia que é a cultura popular vencendo o cânone. E, se for o caso, o espectador sai do cinema de alma lavada, com aquele gostinho de revanche que tem acometido certas produções nacionais dos últimos tempos… Nem preciso dizer quais.

“Azougue Nazaré” é o primeiro longa do jovem Tiago Melo, mas já revela seu talento e sua vocação cinematográfica.

Lidando com questões delicadas – os limites entre religiosidade e sensualidade, por exemplo – o filme sabe ficar num equilíbrio gostoso, onde quem ganha o páreo é a estética. A forma livre, solta, elíptica como a narração é construída é um dos seus encantos. Para exemplificar essa quebra de regra de edição, vejam o modo como a construção do protagonista Catita (excelente interpretação de Valmir do Côco, aliás, premiada no Festival Internacional do Rio de Janeiro, o ano passado) é moldada com cenas soltas sem aparente relação, umas eufóricas, outras disfóricas, outras neutras: no barbeiro, no estádio de futebol, na farra, na praia, no trabalho, à mesa, na dança, etc…). Com certeza, seus lábios grossos arredondados, pintados de batom vermelho, beijando a câmera vão ser lembrados no cinema nacional do futuro.

Isto para não falar em um gesto que antecede desempenhos e que está ainda na atividade da produção: refiro-me ao casting, que escolheu para o papel do personagem principal, como já disse, um ator negro e gordo (e, faltou dizer: carismático, divertido, impagável) – tudo que a elite brasileira não quer ver na tela.

Os lábios vermelhos de Catita

Pedras nos espectadores

14 nov

O filme desse jovem diretor foi rodado e está para ser lançado. Trata-se de sua primeira realização cinematográfica, e a estréia está rodeada de expectativas. Suspeitando que a reação da platéia possa ser desfavorável, e – quem sabe? – agressiva, o jovem cineasta, antes de entrar na sala de exibição, toma a providência de encher os bolsos de pedras… para revidar com igual agressividade, no caso de o público presente reagir desfavoravelmente a seu filme.

Pode? Claro que pode… se o diretor se chamar Luis Buñuel! Pois bem, é ele mesmo quem, com a maior sinceridade, nos conta o incidente, em seu livro autobiográfico “Meu último suspiro” (Nova Fronteira, 1982), incidente este, ocorrido na fervilhante Paris do final dos anos vinte.

Buñuel não precisou usar as pedras que enchiam os seus bolsos, porém, o filme, “Um cão andaluz” (“Un chien andalou”, 1929) – se me for permitida a metáfora oportunista – joga pedras na cara dos espectadores até hoje.

De fato, para quem está acostumado ao cinema tradicional, narrando uma estória com começo, meio e fim, esse curta surrealista de 16 minutos é um petardo – e isto vale para hoje, qualquer lugar, e para a Paris de 1929. É provável que a aceitação das primeiras exibições, que dispensou as pedras de Buñuel, tenha se devido a dois fatores, nada conciliáveis: (1) a sessão de estréia estava repleta de “surrealistas”, amigos de Buñuel, e (2) o público em geral gostou de ver pelo menos as cenas de nudez, coisa rara na época.

Todo composto de imagens chocantes que desafiavam os bons costumes, o filme mexia com o conceito de cinema, de moral e de ideologia, e, ostensivamente, fora concebido para incomodar.

Uma lâmina cortando um olho humano; uma nuvem cortando a lua; uma mão decepada, outra cheia de formigas; um corpo feminino nu, grosseiramente assediado por um homem, nos seios e nas nádegas; um piano de cauda puxado por cordas, cheio de cabeças de asno putrefatas; uma boca que desaparece do rosto; livros que viram armas de fogo… o curta não tinha um fio narrativo, e muito menos lógico, e isto era o seu essencial. As legendas indicando relações temporais (“dezesseis anos atrás”, “na primavera”…) eram pistas falsas que não ajudavam a construir um universo ficcional coerente.

É o próprio Buñuel quem relata a sua origem. Havia sonhado com um olho sendo cortado por uma lâmina e conta o sonho ao amigo Salvador Dali, que, por sua vez, havia sonhado, naquela mesma noite, com uma mão cheia de formigas. Os dois então concordam que isso dava um filme e imediatamente se empenham na sua realização. Sem meios, Buñuel apela para a família e é do bolso de sua genitora que sai a produção. Concebido dentro dos preceitos surrealistas, o seu roteiro (de Buñuel e Dali) não devia conter nenhum elemento que pudesse se explicar pela lógica do real. E de fato, não contém.

Tanto é assim que, depois de o filme ser consagrado pela crítica internacional, quando os resenhistas de plantão começaram a ver nele poesia e lirismo, o próprio Buñuel rebateu, afirmando publicamente que tudo não passava da manifestação de um desejo de assassinato.

Seja o que for, “Um cão andaluz” foi logo erigido como um avatar do Surrealismo, uma corrente de estilo vanguardista das mais importantes em sua época, e, desde então, seu lugar na história do cinema ficou garantido, e ainda hoje não há curso de cinema que não inclua o filme no currículo. Por causa dele, Buñuel foi convidado a trabalhar em Hollywood, embora o resultado deste contato não tenha sido propriamente edificante.

Rever “Um cão andaluz” hoje em dia é uma experiência curiosa. Embora antigo, o filme não parece de modo algum antigo – seu frescor, sua força, sua violência, sua postura  provocativa continuam atuais e, desavisadamente, ele pode até ser confundido com uma marginal realização experimental de um desses jovens enfurecidos de agorinha.

Com certeza, uma grande utilidade em seu consumo atual seria a de recapitular e revisar, à sua luz, toda a obra posterior de Buñuel. Ver como nele já estão certos elementos estratégicos e sintomáticos de, por exemplo, “Viridiana” (1961), “O anjo exterminador” (1962) “A bela da tarde” (1967), “Tristana” (1970), “O discreto charme da burguesia” (1972), “O fantasma da liberdade” (1974), “Esse obscuro objeto do desejo” (1977)… filmes em que o um dia radicalmente surrealista Buñuel aprendeu, em particular com o seu roteirista mor, Jean-Claude Carrière, a combinar pulsão inconsciente e estruturação narrativa.

Enfim, para voltar à minha metáfora oportunista lá de cima, se você se dispuser a ver “Um cão andaluz”, não leve pedras no bolso, e aceite de bom grado as que receberá na cara. Poderão vir a ser golpes produtivos.