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Olivia

14 jan

 

Quem vai estar completando 100 anos de vida, neste 2016, é Olivia de Havilland. Reclusa e sem contato com a imprensa, a atriz americana mora, tranquila, em Paris, cidade que escolheu como lar desde há muito.

Olivia e Kirk Douglas, também centenário neste ano, são alguns dos poucos ídolos do cinema clássico americano ainda vivos.

A rigor, ela não é propriamente americana. Filha de pais ingleses, ela nasceu em Tóquio, em primeiro de julho de 1916. Ainda pequena seus pais se divorciaram e a mãe mudou-se para a Califórnia, junto com ela e a irmã menor, Joan, que mais tarde se tornaria Joan Fontaine.

Mais lembrada pelo seu papel em "E o vento levou"

Mais lembrada pelo seu papel em “E o vento levou”

Na escola secundária a adolescente Olivia já se interessava por teatro. Em encenação de Max Rheinhardt, esteve na shakespeariana “Sonho de uma noite de verão”, e tão bem se saiu no palco escolar que o diretor da peça a empurrou para a versão cinematográfica homônima (1935), uma produção da Warner Brothers, companhia com a qual ela fechou contrato de sete anos.

A partir daí, foi um filme atrás do outro, inclusive os oito que rodou com um par muito especial, Errol Flynn. Acho que os mais conhecidos da dupla são: “Capitão Blood” 1935), “A carga da brigada ligeira” (1936) e “As aventuras de Robin Hood” (1938). Tão famosa ficou que, em 1939, o todo poderoso produtor David O. Selznick a pediu emprestado a Warner, para o papel da suave Melanie de “E o vento levou”, sua primeira indicação ao Oscar.

De saco cheio dos papéis cor de rosa que a Warner lhe impunha, fez greve contra a companhia e foi punida. Levou o caso à Justiça e ganhou um processo que dava mais liberdade aos atores, e que, de tão importante para a profissão, passou a ser apelidado de “a decisão de Havilland”, pois vários outros atores haviam processado a Warner, sem sucesso.

Com Errol Flynn, em "As aventuras de Robin Hood".

Com Errol Flynn, em “As aventuras de Robin Hood”.

É que, ao contrário do que sugere a expressão “star system”, os atores e atrizes da época, anos quarenta, sofriam pressões dos estúdios e, em muitos casos, eram obrigados a aceitar termos de contrato limitativos, o que, ironicamente, parecia justificar a maldosa boutade do venenoso Alfred Hitchcock, segundo a qual “atores são gado”.

Agora com mais liberdade de ação, Olivia passou a escolher papéis a dedo e o resultado não demorou a aparecer, para a crítica e para o público. Dessa fase mais madura, entre 1946 e 1960, saíram dramas, policiais, romances, e até um western. Eis alguns desses títulos, três dos quais lhe deram dois Oscar de melhor atriz e uma indicação:

“Devoção” (1946), “Só resta uma lágrima” (1946) (Oscar), “Champanhe para dois” (1946), “A cova da serpente” (1948) (indicação), “Tarde demais” (1949) (Oscar), “Eu te matarei, querida” (1952), “A favorita de Felipe II (1955), “Não serás um estranho” (1955), “A filha do embaixador” (1957), “O rebelde orgulhoso” (1958), a noite é minha inimiga” (1959).

No noir "Espelhos d´alma" em papel geminado.

No noir “Espelhos d´alma” em papel geminado.

Acho que posso dizer que o pique dessa fase próspera foi “Tarde demais” (“The heiress”, 1949), um dos seus papéis mais fortes, provavelmente o mais impressionante de toda a sua carreira. Dirigido pelo mestre William Wyler, adaptando parte do romance “Time Square”, de Henry James, o filme contava a estória de uma moça rica, mas feia, a quem um pai rigoroso (Ralph Richardson) e um pretendente ambicioso (Montgomery Clift), cada um a seu respectivo modo, ensinam a ser cruel. Com certeza, um dos mais belos e contundentes dramas que Hollywood já foi capaz de engendrar. Confesso, um dos meus filmes mais amados em todos os tempos e espaços.

Infelizmente, depois desse ápice profissional não veio nada mais brilhante. Na verdade, nos anos sessenta e adiante, Olivia fez cada vez menos filmes, e passou a atuar um pouco mais em teatro e mais ainda em televisão. Em que pese ao seu sempre superior desempenho, filmes, por exemplo, como “A dama enjaulada” (1964), ou “Com a maldade na alma” (1964), não acrescentam muito a uma carreira de êxitos passados. Melancólica, sua derradeira aparição na tela foi em “O quinto mosqueteiro”, película esquecível de 1979.

Primeiro Oscar por "Só resta uma esperança"

Primeiro Oscar por “Só resta uma esperança”

Sobre o tema da efemeridade da fama, é a própria Olivia quem diz o seguinte – e sua frase ficou registrada pela imprensa : “Gente famosa acha que tem que ficar eternamente na crista da onda, sem entender que isto é contra todas as regras da vida. Você não pode estar no topo o tempo todo: não é natural.”

Pode ser, mas, para mim, ainda hoje Olivia de Havilland é famosa. Figura mais adorada na minha privada galeria de ídolos.

Em tempo: como antropônimo inglês, o termo Olivia não leva acento.

Papel decisivo e segundo Oscar: "Tarde demais" (1949).

Papel decisivo e segundo Oscar: “Tarde demais” (1949).

 

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Filosofia e crime

3 set

Aos 79 anos de idade, o cineasta americano Woody Allen não para de filmar. Depois de longa peregrinação europeia, volta aos Estados Unidos e comete este “O homem irracional”, com algumas idéias e situações requentadas de filmes anteriores, seus ou alheios.

Recém contratado para o departamento de filosofia em uma universidade de Rhode Island, o professor Abe Lucas (Joaquin Phoenix) vive entediado e, em sala de aula, passa aos alunos o seu tédio. Filosofia, segundo ele, seria masturbação intelectual, e Kant, com sua noção de um mundo sem mentiras, seria um grande mentiroso, desmascarado todo dia pela realidade mais banal. Encantadas com o seu tédio e seu charme as mulheres se entregam fácil, mas, ele, depressivo, prefere roleta russa. Até o dia em que descobre a saída, e a saída é o crime perfeito… e útil. O turning point de sua vida também vai ser o turning point do filme, que, no momento dessa descoberta, passa de drama existencial a thriller.

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Um dia ele está numa lanchonete com uma aluna, e, por acaso, entreouve a conversa na mesa vizinha: uma mãe está sofrendo horrores por causa de um juiz de má fé que não lhe concede a guarda dos filhos. Pronto: nesse momento Abe decide que o mundo será melhor sem o juiz Spangling, e ele mesmo – um completo desconhecido de todos os envolvidos no caso – será o autor de um crime, não apenas perfeito, mas também ético. É claro que o fato de a vítima vir a ser um representante da justiça tem significação especial, que não lhe ocorre, mas ocorre ao espectador.

Praticado exatamente como planejado, o crime deixa o professor Abe de bem com a vida e o tédio vai embora, como se nunca tivesse existido. Até o dia em que… E o exercício de fazer thriller prossegue.

Com certeza os comentaristas de “O homem irracional” vão apontar o seu pano de fundo literário (Dostoievski, aliás, referido no diálogo), porém, a mim chamou-me a atenção a dívida do filme para com o gênero noir, em especial para com três filmes antigos que Allen com certeza conhece muito bem, embora deles possa não ter lembrado no gesto de confeccionar o roteiro.

Entreouvindo uma conversa, na lanchonete.

Entreouvindo uma conversa, na lanchonete.

Vejam bem. Há, no filme em questão, três situações dramáticas bem particulares, já construídas em três clássicos noir do passado, a saber:

(1) A disposição de praticar um assassinato baseada no fato de que o seu autor jamais será descoberto porque a vítima lhe é desconhecida, além de não ter ele interesse pessoal em sua morte (o álibi dos álibis, já que não existe o chamado “motivo”!). Tal situação já estava em “Pacto sinistro” (Alfred Hitchcock, 1951).

(2) Depois do assassinato praticado, a situação em que o autor vai se achar entre amigos que com ele fazem suposições sobre o modo como o assassino teria agido, e ele próprio, querendo ou não, é levado pela conversa a ajudar nas pistas que conduzem à solução do caso. Se vocês lembrarem bem, essa mesma situação já estava no noir “Um retrato de mulher (Fritz Lang, 1944).

(3) No decorrer das investigações, a polícia chega, erroneamente, a um outro suspeito – este com motivos para o crime – que, tudo indica, será condenado e pagará por um crime não cometido, livrando assim o verdadeiro culpado da prisão perpétua ou da pena de morte. Mais uma vez, esta situação também já esteve em um dos grandes noir do passado, “Dúvida” (Robert Siodmak, 1944).

Além desses intertextos alheios, há os próprios, por exemplo, a idéia de que tudo na vida depende do acaso, explicitamente formulada em “Match Point”. Vejam que o que vai condenar Abe à morte não será algum processo judicial, e sim, um flashlight ganho no tiro ao alvo.

Joaquin Phoenix como o professor Abe Lucas.

Joaquin Phoenix como o professor Abe Lucas.

Já afirmei alhures que Allen é um desses cineastas de estilo forte, onde as redundâncias, formais ou temáticas, são coisas positivas. Mas ora, repetições sempre trazem riscos, principalmente quando soam viciosas, ou mesmo preguiçosas.

É o caso neste “O homem irracional”, por exemplo, com as entregas amorosas entre os personagens, todas fáceis demais, como se fosse para não perder tempo de tela; como se o cineasta estivesse nos dizendo: ´vocês já viram isso em outros filmes meus e, portanto, pulemos detalhes e vamos ao que interessa´. O resultado é que os relacionamentos entre os personagens soam esquemáticos, para não dizer que o ´tédio´ da parte inicial também já soara esquemático, manjadamente woodyalliano.

No mais, é só mais um Woody Allen em nossas telas, para chatear os antipatizantes e satisfazer os fãs. Um filme mediano que nem melhora nem piora a brilhante carreira do autor.

Em tempo: “O homem irracional” (“Irrational man”, 2015) está em cartaz na cidade e no país.

O professor Abe e sua aluna apaixonada.

O professor Abe e sua aluna apaixonada.

Doze homens e uma sentença

13 jun

Escrevi há pouco sobre o cineasta Sidney Lumet e não me detive no seu primeiro filme, um dos melhores, “Doze homens e uma sentença” (“Twelve angry men”, 1957).

Para compensar a lacuna, faço-o agora.

Numa claustrofóbica sala secreta de tribunal, doze jurados devem decidir se um rapaz pobre, acusado de haver matado o pai, seria culpado ou inocente, e o resultado da votação deve ser unânime. Na votação, um senhor de branco (Henry Fonda) é o único a votar ´inocente´ e, portanto, provoca a ´ira´ que está no título original do filme. Depois de defender a ideia de que não se pode condenar uma pessoa, se por acaso existe no julgamento uma ´dúvida razoável´, esse senhor de branco faz uma proposta: mudaria o seu voto, se, num novo sufrágio, todos votassem ´culpado´. Feita essa segunda votação, aparece mais um voto ´inocente´ e o calor da discussão aumenta consideravelmente.

O que vai ficando claro com o andar da contenda é que alguns dos jurados têm razões pessoais para manter ou mudar de voto, em alguns casos razões nada nobres – indiferença, desinteresse ou preconceito, por exemplo. Um caso exemplar deste terceiro termo, está na fala do personagem de Ed Begley, onde todos os chavões do discurso dos ricos sobre os pobres aparecem, implicados todos eles em seu repetido cacoete linguístico, “you know what I mean” (´vocês sabem o que estou dizendo´)

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O caso mais ostensivo, porém, é o do último a mudar de voto, o personagem feito por Lee J Cobb que, em dramática crise emocional, deixa ver que, em toda a sua radicalidade, estava transferindo para o réu, o ódio que, na verdade, sentia pelo filho, com quem sempre manteve uma relação de hostilidade.

O fato é que um rapaz pobre, residente da periferia, que, à primeira vista pareceu culpado a todos é, no final das difíceis discussões, dado como inocente. Se a temática da violência urbana, com a dura implicação de culpa social e/ou individual, já era pertinente ao tempo da feitura e estreia do filme, em nossa época o é muito mais… e não apenas nos Estados Unidos. Isto para não dizer que, no mundo todo, parece a matéria do dia.

Mas, seria um outro crime dizer que “Doze homens e uma sentença” é um bom filme por causa de sua atualidade.

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Ele é excelente porque tem as qualidades cinematográficas necessárias para tanto. As falas dos personagens são, naturalmente, argumentativas (cada um está tentando convencer os outros de que o seu pensamento é correto) e, o filme, ele mesmo, consiste numa grande argumentação, e, no entanto, em nenhum momento parece pregação ou maçada – ao contrário, prende a atenção do espectador… como se ele, o espectador, fizesse parte do julgamento.

Dirigida por Franklin Schaffner, uma primeira versão da estória aparecera na televisão americana em 1954. Quando a United Artists decidiu transformá-la em cinema, logo propôs a Henry Fonda que atuasse e co-produzisse, e este, impressionado com seu efeito, imediatamente indicou, para a direção, o nome de Lumet, que vinha se destacando com ótimos trabalhos no meio televisivo. Assim, Lumet assumiu o desafio de transformar em cinema algo que funcionara bem na televisão, mas que, se mal manuseado cinematograficamente, poderia resultar num feio fracasso na tela grande. E é então que nasce um grande cineasta.

Lee J Cobb em grande interpretação, como o pai hostil

Lee J Cobb em grande interpretação, como o pai hostil

Num set igualmente claustrofóbico, onde o elenco ensaiou durante duas cansativas semanas, o filme é rodado em 21 dias, somando ao todo 365 tomadas cuidadosamente estudadas para passar determinados efeitos.

Notem como no início do filme a câmera, em angulações predominantemente abertas, fica quase sempre posicionada acima do nível do olho humano, para dar a impressão de distância entre os personagens. Na medida em que a projeção prossegue, o nível da câmera vai baixando, ao mesmo tempo em que as tomadas vão ficando cada vez mais fechadas, com frequência de closes, o que enfatiza tanto a proximidade entre os personagens como a impressão de claustrofobia.

Naturalmente, as dificuldades de filmagens foram enormes, não apenas pelos limites do set, mas também pelo baixo orçamento da produção. Por exemplo, a fotografia montada para uma determinada tomada, em uma determinada fala de um personagem, precisava, por razões econômicas, ser mantida nas tomadas equivalentes, e por isso, as partes dos diálogos foram rodadas com semanas de distância entre uma fala e outra… E, contudo, no resultado, a sensação de ritmo é impressionante!

Hoje o American Film Institute lista “Doze homens e uma sentença” entre os melhores filmes do Século XX no gênero “drama de tribunal”.

Eu o listo entre os melhores filmes de qualquer época, em qualquer gênero.

Henry Fonda, ator e co-produtor de "Twelve angry men"

Henry Fonda, ator e co-produtor de “Twelve angry men”

A separação

15 mar

Simin, a mulher, quer deixar o Irã supondo poder dar à filha uma educação melhor. Nader, o marido não concorda, pois tem, em casa, um pai com Alzheimer que precisa de seus cuidados. Simin e Nader são casados há quinze anos e, agora, em pleno tribunal, enfrentam a alternativa do divórcio.

Em cartaz na cidade, “A separação” (Asghar Farhadi, 2011) – Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano – abre-se com esta sequência e a impressão de que o restante do filme vai ser um bate-boca sem fim entre os dois cônjuges.

Não é. Consumada a separação, passamos a acompanhar de perto a vida diária de só um dos cônjuges, aquele com quem a filha fica, o marido, que se vê obrigado a contratar uma pessoa para ajudá-lo a cuidar do pai enfermo.

Na verdade, a câmera vai aos poucos se desviando do empregador e se fixando na empregada, que carrega tantos problemas quanto. Essa mulher de aspecto doentio tem uma filha pequena, mora longe, o marido está desempregado e ela está grávida. Sem contar que o serviço a fazer é inadequado – por exemplo, quando o seu paciente urina nas calças, ela precisa telefonar para orientadores religiosos para saber se, pelos preceitos do Corão, é pecado, ou não, trocar as suas calças.

Quando estamos ficando acostumados ao tempo de tela doado a essa empregada, eis que o patrão retorna com toda força, ponto a partir do qual, outros personagens ganharão seu tempo, inclusive a esposa, parcialmente sumida da tela.

Ocorre que, ao chegar um dia em casa com a filha, Nader  encontra o pai idoso desfalecido, caído ao chão. A empregada sumira e ao voltar não oferece justificativas satisfatórias para a ausência e, por isso, é expulsa do apartamento, com um ligeiro solavanco, e o caso vai parar na justiça.

Não interessa contar o resto da estória, bastando dizer que as coisas – do ponto de vista jurídico e emocional – se complicam cada vez mais para todos, e boa parte do restante da narrativa se passa em tribunais, perante juízes que ouvem e fazem anotações ou prescrevem sentenças.

Equilibrando-se entre a superfície e o abismo, o roteiro vai nos relatando os muitos e contraditórios desdobramentos do caso (aborto provocado por violência, acusação de crime, falso testemunho, sonegação de informação judicial, etc) com seus detalhes viciosos de uma verdadeira reação em cadeia.

Um mérito, com certeza, está na polifonia da situação descrita, naquele sentido bakhtiniano de multiplicidade de vozes em jogo, cada uma com sua verdade. Sim, acompanhando de perto cada caso individual, o espectador compreende os personagens, e tende a lhes dar razão, cada um na sua vez, sem que isso retire as razões dos outros. As atitudes são por vezes ambíguas, mas isto porque a vida é ambígua. Só a miopia da Lei é monofônica e unilateral, e por isso mesmo, não é a Lei que tem a última palavra, no desenlace.

“Não foi nada grave” diz um dos personagens a certa altura. “Nada grave?” retruca o outro, indignado. “Bem, tornou-se grave”, corrige aquele primeiro. “A separação” gira em torno de miudezas familiares que se avultam e o impressionante é que, com essa matéria supostamente simplória (homem não aceita descaso para com o pai enfermo, mulher se ofende com indiferença para com a educação da filha, empregada se indigna com tratamento violento…) produza um drama de proporções quase trágicas – coisa que Hollywood desaprendeu a fazer há muito tempo.

Outro ponto alto é a construção dos personagens – naturalmente ajudada pela extrema qualidade das interpretações – todos verticais e convincentes, mas um pouco diversos dos padrões ocidentais. Vejam o caso de Simin e Nader: divorciam-se por discordar em um ponto chave e se mantêm firmes em suas posições até o fim, porém, o divórcio não os conduz à baixaria de acusações pessoais que marcaria qualquer filme moderno sobre o assunto. Foi a censura que impediu isso? Se foi, essa censura foi muito bem administrada e deu bons frutos do ponto de vista estético.

Completamente aberto (com quem vai ficar Termeh, a filha adolescente do casal, depois de tudo passado?), o final tinha que ser assim. Inevitavelmente, a decisão a ser tomada pela adolescente adquire um certo valor judicativo que a direção – coerente com o sentido de polifonia já referido – quis evitar. Daí a providencial lacuna diegética da última cena (a tela escurecendo e o casal, conosco, esperando a decisão da moça), lacuna a ser preenchida pelos espectadores.

Desde o final dos anos oitenta, o cinema iraniano, com Abbas Kiarostami e tantos outros, vem se impondo ao Ocidente. Com a singeleza neo-realista de suas ficções (um sapato infantil perdido, um jarro escolar quebrado, um tapete a ser tecido…) ganhou notoriedade e, durante algum tempo, chegou a virar grife, e a ser, por isso mesmo, maldosamente questionado.

Forte, profundo, perfeito, comovente e impressionantemente universal, “A separação” parece que põe as coisas no lugar, provando que, com ou sem singeleza, e indiferente a pechas de ser grife ou outra coisa, o que mais conta é a qualidade.