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Mães clássicas

8 maio

 

Para celebrar o segundo domingo de maio deste ano, aqui listo e comento dez filmes clássicos que o espectador lembra pela representação dada à figura da mãe.

No cinema, como na literatura, a figura materna foi sempre marcante, e, por isso, começo a lista com a adaptação que o cineasta russo Vsevolod Pudovkin fez, em 1926, do romance homônimo de Gorki, “A mãe”. Ainda mudo, o filme (“Matt” no original,) conta a estória edificante do processo individual de tomada de consciência social de uma mulher, Niovna Vlasova, que a narrativa nos acostumara a ver apenas como a mãe do protagonista – grande desempenho da atriz Vera Baranovskaya.

Vera Baranovskaya em “A mãe”.

No cinema falado acho que a primeira grande representação da mãe vem com “Dama por um dia” (“Lady for a day”), produção de 1933 do inigualável Frank Capra, narrando o mais que comovente drama dessa vendedora de maçãs, Apple Annie (May Robson), ao saber que a filha rica vai vir do exterior, com o seu marido nobre, para visitá-la, a ela que (sem que a filha saiba) hoje não passa de uma mendiga.

Outro filme de arrancar lágrimas é também dos anos trinta, “Stella Dallas mãe redentora” (1937) com direção de King Vidor, e com a insuperável Barbara Stanwyck na pele dessa mãe que, com a sofisticada ascensão social da filha, vai, na sua breguice, se tornando incômoda, ao ponto de, ela mesma, tomar consciência e, para o bem da filha, fazer o supremo sacrifício de afastar-se.

Aliás, sacrifício parece ser a palavra chave quando se trata da condição materna. Não é pouco o da mãe em “As vinhas da ira”, que o mestre John Ford, adaptando John Steinbeck, dirigiu em 1940. Quem pode ter esquecido, no meio dos hostis laranjais da California, o rosto sofrido de Jane Darwell no papel daquela heroica Ma Joad?

Barbara Stanwyck como Stella Dallas.

Outro caso a lembrar, e seguindo a cronologia dos lançamentos, seria o melodrama de Michael Curtiz “Alma em suplício” (Mildred Pierce, 1946) onde a grande Joan Crawford nos oferece um dos seus magistrais desempenhos como a mãe, designada no título original, que dolorosamente se divide entre o sucesso comercial e o compromisso com uma filha mimada.

Do mesmo ano, 1946, “Só resta uma lágrima” (To each his own), nos comove às lágrimas com essa estória de uma mãe solteira que é forçada pelas circunstâncias sociais a abdicar do filho recém nascido – o que não impede que, de longe e anonimamente, o acompanhe até… Bem, até um desenlace que poderia ter sido feliz, e não foi. Direção de Mitchell Leisen, com Olivia de Havilland como Jody Norris.

“Imitação da vida” (Imitation of life, 1959) é, nessa linha da mãe sacrificada, um dos filmes mais lembrados. Nele Juanita Moore vive Annie Johnson, uma empregada doméstica afro-descendente, cuja filha, de cor branca, não aceita sua origem, e a renega. Um quase libelo anti-racista do diretor dinamarquês Douglas Sirk para a América dos anos cinquenta, ao tempo em que as questões raciais começavam a eclodir.

Uma outra grande figura materna, agora na Europa, vamos encontrar na cativante Rosaria Parondi, a pobre matriarca de uma família de marmanjos, com quem ela se muda, do Sul precário da Itália para o norte próspero. Mas, a vida em Milão não é fácil e “Rocco e seus irmãos” (Rocco e i suoi fratelli, 1960) de Luchino Visconti, nos relata essa tragédia familiar, com Katina Paxinou como a mãe Rosario.

“Só resta uma lágrima”, com Olivia de Favilland.

Outra grande mãe europeia está em “Mamma Roma” (1962) de Pier Paolo Pasolini, com Ana Magnani no papel-título como uma prostituta cuja presença repentina de uma filha quase esquecida vem complicar suas atividades profissionais.

E fechamos com mais um melodrama hollywoodiano, “Madame X” (1966), de David L. Rich, a aventura de uma mulher, Holly Parker, que – como no já citado “Só resta uma lágrima” – vê-se obrigada a afastar-se do filho, reencontrando-o muito tempo depois, em circunstâncias criminais, ele advogado, ela uma ré sem nome, chamada apenas de X. Lana Turner faz o papel dessa mãe trágica.

“Ser mãe é padecer no paraíso…” O leitor deve ter notado que o conhecido refrão poético sobre a figura materna não parece caber de todo para os filmes aqui comentados, onde há sempre o padecimento, porém nem sempre o paraíso…

Mas, enfim, bons filmes clássicos para serem vistos ou revistos neste segundo domingo de maio… ou em qualquer data.

A Sra Parondi com um dos filhos em “Rocco e seus irmãos”.

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Almodóvar diferente

13 jul

Em cartaz na cidade e no mundo, o novo filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, “Julieta”, (2915) está intrigando os seus fãs.

Eu mesmo, na saída do cinema, fui abordado por um grupo deles que, indignados, queriam saber o que foi que aconteceu com o cineasta de “Má educação” e “Fala com ela”.

Almodóvar, como se sabe, é um cineasta de estilo forte, e como tal, deu-se sempre ao luxo de ser redundante. Todo cineasta de estilo forte redunda forma e conteúdo numa boa, e todo mundo aplaude: que o digam Bergman, Kurosawa, Fellini, Hitchcock, Ford, etc.

julieta 2

O problema começa – se é que isso é problema – quando o cineasta resolve driblar o básico de seu estilo e experimentar um pouco. É o caso deste “Julieta”.

Mais contido, menos debochado, ou para usar o nome da produtora do cineasta, bem menos “desejo”, o filme conta a estória sofrida de uma mãe que perdeu contato com a filha adolescente e passa a viver em função dessa ausência e dessa angústia.

No início do filme, Julieta está para viajar a Portugal com seu companheiro quando, por mero acaso, encontra uma amiga que lhe dá notícia de sua filha, hoje vivendo na Suíça, com três filhos pequenos. Pronto. Isto é o suficiente para ela desistir da viagem e do companheiro e ir residir no velho prédio onde, muitos anos atrás, morara com a filha, na esperança de receber alguma correspondência.

Um estória de mães e filhas...

Um estória de mães e filhas…

Não só isso: passa a escrever a estória toda, desde a concepção da filha, estória escrita que vira imagem e vai constituir o grosso do filme.

O que exatamente aconteceu a Antia, a filha de Julieta, não se sabe durante o filme inteiro, e a espera da revelação final é custosa para a protagonista… e para o espectador. E, mais, não tenho certeza se o desenlace o revela satisfatoriamente. Para muitos comentaristas do filme, tem-se sonegação diegética prolongada demais, para um fornecimento final que, em vista do esforço para chegar lá, parece pífio.

Baseado em três contos da escritora canadense Alice Munro, “Julieta” é um filme sobre o sentimento da maternidade, junto com um certo ingrediente que lhe é  inerente, a culpa.

a atriz Adriana Ugarte como a Julieta jovem.

a atriz Adriana Ugarte como a Julieta jovem.

A iniciativa de adaptar literatura é outra quase novidade em Almodóvar – um diretor conhecido pela criatividade de seus roteiros originais – mas, parece-me que bem mais que Munro, quem está por trás deste novo Almodóvar é a Hollywood clássica, como se sabe, uma fonte de inspiração sua, embora nem sempre explícita.

Com efeito, o tempo todo, “Julieta” me lembrou o grande melodrama de King Vidor, 1937, “Stella Dallas, mãe redentora”, também uma estória sobre a dor de ser mãe. No filme de Vidor, Barbara Stanwyck faz uma mulher que se sacrifica pela filha até o extremo de perdê-la para que ela possa ser feliz. Em “Julieta”, a mãe perde a filha a contragosto e passa o resto da vida no seu encalço, mas as ressonâncias dramáticas são as mesmas.

Mas, atenção, não exageremos: um Almodóvar diferente?

Maternidade, ausência e angústia...

Maternidade, ausência e angústia…

Pensando bem, nem tanto assim. Não é a primeira vez que o cineasta toca em questões maternas (Conferir, e o título já diz: “Tudo sobre minha mãe”) e não é a primeira vez que lhe interessa a condição feminina.

Ademais, “Julieta” tem o mesmo capricho cromático dos outros filmes do diretor; o mesmo bom gosto na direção de arte, e o mesmo rigor na direção de atores. A sofisticação da mis-en-scène é a mesma, se você prestar atenção a detalhes. Por exemplo, os bolos que marcam a passagem de anos da filha ausente; a cópula no trem, mostrada como reflexo no vidro da janela; a passagem do tempo na idade da protagonista, indicada pela toalha que cobre e, anos depois, descobre o seu rosto, agora mais idoso – permitindo, aliás, a substituição das atrizes (ambas ótimas) Adriana Ugarte e Emma Soares.

As atrizes Susi Sanchez e Adriana Ugarte: mãe e filha.

As atrizes Susi Sanchez e Adriana Ugarte: mãe e filha.

Alguns lances de roteiro chegam a ser óbvios, como a interpretação que faz para seus alunos a jovem professora Julieta do simbolismo do mar na Odisseia, astutamente jogada na trama do filme como uma premonição de duas mortes: a do pescador Xoan (em tempestade marítima) e a do seu neto, também chamado Xoan, num lago suíco.

No terreno temático, aqui também estão os mesmos elementos disfóricos que atormentam os personagens almodovarianos: comas, doenças, suicídios, acidentes e depressões. Talvez aqui eles pesem mais que os “desejos”, não sei. De todo modo, se o filme começa com um mau presságio (a cena do senhor desconhecido, no trem) termina com uma esperança – o carro na estrada em direção à Suíça.

Enfim, Almodóvar diferente ou igual a si mesmo, um belo filme.

Anita

16 jan

Além de “A doce vida” (Fellini, 1960), que outros filmes de Anita Ekberg (1931-2015) você lembra de ter visto?

Fiz a enquete entre amigos e ninguém lembrava nenhum. Os mais cinéfilos ainda mencionaram o “Entrevista” de Fellini (1987), onde, afinal de contas, ela aparece documentalmente, ou seja, como ela mesma, já idosa e gorda, sem mais nada de sua beleza deslumbrante.

E no, entanto, a atriz de origem sueca é uma das musas mais cultuadas do cinema.

Sim, é que, para ser musa, um único papel pode bastar.

Anita na Fontana di Trevi

Anita na Fontana di Trevi

E o seu foi mesmo o da sensual Sylvia, aquela estrela loura estonteante, de seios grandes e fala rouca, que convida Marcello ao banho na Fontana di Trevi.

Engraçado é que algumas das pessoas com quem conversei sobre Anita Ekberg me disseram não ter visto sequer “A doce vida”, e que, no entanto – não sabiam explicar como – lembravam da famosa cena da fonte romana.

Isso tem explicações. É que o cinema, ou melhor, a cinefilia, não é feita só de filmes inteiros, mas também de imagens isoladas, que às vezes se impõem como intertextos recorrentes. O que chamo de “imagens amadas”…

Querem ver? Recentemente, dois filmes mostraram a cena Fontana de Trevi, aliás, não só mostraram, como a tornaram o pivô de sua temática toda, ao narrarem a aventura romântica de uma senhora idosa que sonha em encontrar o grande amor e com ele viajar para Roma, só para lá recriar a emblemática cena felliniana. Isto, com direito àquele gatinho vira lata e o copo de leite que lhe é servido ao pé da fonte, e tudo mais.

Sempre Anita...

Sempre Anita…

O primeiro, argentino de 2005, é o original, e o segundo, americano de 2014, é o seu remake (aqui comentado por mim), ambos com o mesmo esqueleto narrativo e o mesmo título, embora não exatamente com a mesma qualidade: “Elsa e Fred”..

Aliás, bem antes disso, no já citado “Entrevista”, a mesma cena já fora (re)exibida, quando um Mastroiani verídico, já idoso, visita, junto com toda a equipe de filmagem, a casa de campo de Anita – esta, como dito, já deformada pela idade – e, com o poder felliniano de um mágico, reproduz a imagem da cena Fontana di Trevi num lençol branco, estendido na sala à guisa de tela. E, para a tristeza dos presentes e de nós espectadores, com a mesma magia, a desfaz.

O desconhecimento da filmografia de Anita Ekberg, de alguma maneira, se justifica. Embora tenha rodado ao todo 63 filmes, afora “A doce vida”, ela infelizmente não esteve em produções dignas de nota, e quando esteve, como é o caso de “Guerra e Paz” (King Vidor, 1956), foi em papéis secundários, quando não em pontas.

Anita e Marcello na cena emblemática

Anita e Marcello na cena emblemática

De minha parte, só lembrava dela em “Bocaccio 70” (1962), filme de episódios, e naquela comédia doce amarga, também episódica, de Vittorio De Sica, “Sete vezes mulher” (1970) em que, afinal, a mulher repetida nem é ela, e sim, Shirley McLaine.

Só na checagem de suas atuações é que consegui identificar alguns filmes que vi com ela, dos quais não lembrava, e muito menos de sua participação neles.

São duas comediazinhas dos anos cinquenta, dirigidas por Frank Tashlin, com a dupla Jerry Lewis e Dean Martin: “Artistas e modelos” (“Artists and models”, 1955) e “Ou vai ou racha” (“Hollywood or bust”, 1956). E mais o filme que ela rodava quando foi abduzida por Fellini, “O escudo romano” (1959), um daqueles vazios épicos italianos que então tanto se produziam e que a nada levavam.

Mas, que importa? Anita Ekberg é, sim, a diva eterna que vamos sempre cultuar.

A beleza sueca de Anita Ekberg

A beleza sueca de Anita Ekberg