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Azul é a cor mais quente

24 mar

Com discreto alarde, estreou no Brasil – e em João Pessoa – “Azul é a cor mais quente” (“La vie d´Adèle”, 2013), filme que, com ousadia explícita, relata a relação entre duas mulheres. Dirigido pelo franco-tunisiano Abdellatil Kechiche, o filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Espécie de “Brokeback Mountain” francês, o filme explora o caso homoafetivo até as últimas consequências, nisso também lembrando uma velha película do alemão Fassbinder “As lágrimas amargas de Petra Von Kant”.

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E, contudo, o enredo em si mesmo é simples e pode ser resumido naquela velha fórmula hollywoodiana /X conhece Y, se apaixonam e são separados pela vida/. A adolescente Adèle (Adèle Exarchopoulos) ainda é estudante secundária quando conhece essa pintora de cabelos azuis, Emma (Léa Seydour). Amor à primeira vista, as duas decidem viver a paixão sem reservas… e o fazem até quando é possível.

Com um predomínio de primeiros planos que chama a atenção, o filme, em grande parte, descarta o cenário em torno das personagens, para se encaixar no gênero psicológico, nisso lembrando talvez o Bergman de “Persona”, também a estória de duas mulheres. A paisagem em torno do banco de praça onde as personagens às vezes se encontram é quase uma exceção.

Por outro lado, ou seria pelo mesmo, não esconde certo esquematismo narrativo. Cotejem nele duas cenas com alto grau de comparabilidade: (1) a visita de Adèle à casa dos pais de Emma e (2) a visita de Emma à casa dos pais de Adèle. Claro, esse esquematismo na composição destas duas cenas é proposital e visa ressaltar o contraste entre, de um lado, uma família liberal e aberta, e, de outro, uma outra, tradicional e fechada.  E nisso, até os pratos servidos são sintomáticos: ostras num lugar, espaguete no outro. Mais tarde, já vivendo com Emma, Adèle tentará o equilíbrio entre os opostos, servindo o tradicional espaguete aos amigos avançadinhos da companheira. E todo mundo come com gosto!

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Esse equilíbrio entre a vida de Adèle (conferir título original do filme) e a vida de Emma é falso e vai se evaporar logo cedo, não porque sejam pessoas do mesmo sexo, mas porque são pessoas com cabeças diferentes, aquela entregue ao seu modesto e abnegado trabalho de professora de crianças, esta envolvida em uma carreira de sucesso como pintora emergente junto à elite intelectual da cidade.

Vêm a rotina, o tédio, a busca de um apoio em outrem, a descoberta da traição, o ciúme e o rompimento. Depois da separação, as duas mulheres ainda se encontram, mas, em que pese um breve e indeciso momento de carícias, não existe mais condição emocional para uma volta.

Emma vive hoje com outra pessoa, e claramente não está interessada em voltas. O caso de Adèle – que não esquece a companheira em nenhum momento de sua vida – é todo outro… e o filme, com aquele final aberto bem europeu, termina sem resolução para o seu caso. De tal forma que o seu subtítulo, sugerindo a resolução não oferecida, só pode ser irônico: “chapitre 1 et 2” (´capítulo 1 e 2`).

Ou seria o capítulo 2 um pós-tela, em que Adèle vai aceitar o antigo amigo que encontra agora no vernissage de Emma? Só adivinhando…

Trata-se de um bom filme, denso, forte, inspirado, com profundidade psicológica e grande beleza plástica, uma estória de amor sofrida e verdadeira e, no entanto, creio que todo mundo – até o espectador mais leigo – sai do cinema com a sensação um tanto e quanto incômoda de que faltou tesoura.

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Com efeito, os seus 180 minutos poderiam muito bem ser reduzidos às duas horas de projeção a que estamos habituados. Ao sair do cinema, comentando a duração desnecessária do filme, uma amiga me perguntou que cenas eu cortaria. Ora, eu não cortaria nenhuma cena: manteria todas e cortaria, dentro de cada uma, uma diminuta partezinha.

Suponhamos que a média de cada cena, em “Azul é a cor mais quente” seja de cinco minutos, o que, dividido por 180, dá 36 cenas. Cortando um minuto e meio de cada cena, vamos ter aproximadamente as duas horas desejadas, e – o que é mais importante – um ritmo muito mais agradável, e isto, sem perdas semânticas.

Do jeito que está “Azul é a cor mais quente” às vezes soa maçante e, pior, indeciso no rumo a tomar. Sem contar que algumas cenas ultrapassam de muito o tempo médio que supus para cada cena. Só para não deixar de dar exemplos, considerem a extensão de duas cenas: as aulas de Adèle no jardim da infância, e, sim, a primeira cena de amor na cama entre as duas mulheres…

Em tempo: o título brasileiro do filme, aliás, bem melhor que o original, é a tradução literal de seu título internacional: “Blue is the warmest color”.

Premiação no Festival de Cannes 2013

Premiação no Festival de Cannes 2013