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Coadjuvantes: Jeanette Nolan

6 mar

Assassinatos de uma mente doentia à parte, o que têm em comum os filmes “Macbeth” de Orson Welles (1948) e “Psicose” de Alfred Hitchcock (1960)?

A pergunta se refere às fichas técnicas dos dois filmes, e, eu sei, é uma pergunta de gaveta, mas, me serve para introduzir uma das atrizes mais assíduas e ativas da era clássica, embora pouca gente lembre-se dela. Seu nome é Jeanette Nolan (1911/1998). Pois no filme de Welles (seu primeiro papel na tela) ela faz a esposa do rei shakespeariano que ensanguentou a Escócia do século XIV. Sim, ela é a própria Lady Macbeth, com suas mãos tão sujas quanto as do cônjuge assassino. Já no filme de Hitchcock ela é só uma voz, aquela que se ouve nos delírios psicóticos de Norman Bates. É a voz da “mãe” que – só mais tarde saberemos – era, dentro da estória do filme, a de Bates mesmo. Pois foi da garganta de Jeanette Nolan, e não da de Anthony Perkins, que saiu essa voz em falsete.

Jeanette Nolan como Lady Macbeth, no filme de Orson Welles, 1948.

Casada com o ator John McIntire, Jeanette Nolan entrou para o cinema já madura, aos 37 anos. Ator consagrado, seu marido já atuava em cinema havia uma década, e a propósito, é ele que aparece, já envelhecido, como o Sherif procurado pela irmã da primeira vítima no filme de Hitchcock acima citado. Antes, no auge do Rádio, anos trinta e quarenta, o trabalho de Jeanette era só com a voz, nas chamadas novelas radiofônicas, que ela fez muitas e ganhou fama.

Se foi protagonista em “Macbeth”, não foi, contudo, nessa posição que se consagrou no cinema. Talvez por não ser propriamente bonita, nem especialmente elegante, nem mais jovem. Embora extremamente talentosa, faltavam-lhe os requisitos da star. Em compensação, logo se transformou em uma das coadjuvantes mais queridas dos velhos tempos.

Em faroestes, policiais, aventuras, comédias, musicais e outros gêneros, desempenhou inúmeras vezes o papel de mãe, ou tia, ou madrinha, de mocinhos e mocinhas, quase sempre dentro de um perfil que encantava as plateias da época, aquele da dona de casa prática, direta e destemida, que geralmente via além do marido, e mesmo do pessoal mais jovem… e que, perante uma enrascada aparentemente intransponível, apontava uma solução, saída de seu espírito simples e maternal. Podia não ser uma representação verídica da figura materna, mas era a que Hollywood alimentava, e a que o público respondia favoravelmente.

Exemplos? Cito os dois mais conhecidos: ela é a tia compreensiva do “desajustado” Pat Boone no musical “Primavera de amor” (“April Love”, 1958, Henry Levi), e a mãe decidida da indecisa Vera Miles no faroeste “O homem que matou o facínora” (“The man who shot Liberty Valence”, 1962, de John Ford).

Como a mãe de Vera Miles, em “O homem que matou o facínora”, 1962.

Entre os mais de cem filmes em que Jeanette Nolan atuou, eis alguns que ilustram a variedade dos gêneros enfrentados: “Minha vida é uma canção” (Norman Taurog, 1948); “Os corruptos” (Fritz Lang, 1953); “Honra a um homem mau” (Robert Wise, 1956); “O fantasma do General Custer” (Joseph H. Lewis, 1957); “O renegado do Forte Petticoat” (George Marshall, 1957); “Batalha contra o medo” (Rudolf Maté, 1958); “O grande impostor” (Robert Muligan, 1961)…

Também atuou na televisão, e não há uma série famosa da TV americana em que ela não tenha tido algum tipo de participação, de “Bat Masterson” a “Perry Mason”, passando por “Bonanza” e pelos muitos especiais como “Hitchcock apresenta”. Para nós, brasileiros, porém, essas aparições são mais difusas e, suponho, pouco associáveis aos seus desempenhos na tela grande.

Acho que para nós, frequentadores de cinemas, Jeanette Nolan fica como aquela atriz coadjuvante que vimos tantas vezes em tantos filmes, sem nunca nos darmos ao trabalho de saber o seu nome. Na vida real, equivale àquela pessoa que, em ocasiões diferentes, nos foi apresentada várias vezes, sem que – por motivos meramente casuais – tenhamos lhe dado a devida atenção, e que só um incidente ocorrido pode fazer com que a ela nos voltemos em busca de uma identificação.

Foi o que aconteceu comigo ao reassistir o drama de Orson Welles com que abro esta matéria. Aquele rosto contorcido pela culpa eu vira em outros filmes (embora não o tivesse visto assim tão contorcido!), e depois de um prolongado tour de force mnemônico, as peças do quebra-cabeça foram se juntando e, de repente, eu estava diante da figura completa de Jeanette Nolan.

E como foi bom (re)encontrá-la!

Jeanette Nolan, 1911-1998.

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Macbeth in Brazil

19 nov

Está em cartaz na cidade “A floresta que se move” (2015), filme brasileiro que adapta ao nosso tempo e espaço o enredo da peça shakespeariana “Macbeth” (1606).

Dirigido pelo global Vinicius Coimbra, o filme faz do protagonista um executivo ambicioso que mata o presidente da Empresa para ocupar o seu posto. Em Shakespeare, vocês lembram, o personagem título é, na Escócia dos anos 1400, um vassalo do Rei Duncan, que ouve umas profecias de três bruxas, todas favoráveis à sua ascensão, e nelas acredita.  No filme de Coimbra, é só uma bordadeira que dá a dica a esse Elias ambicioso, e ele, como Macbeth, faz o resto acontecer.

Convenhamos que adaptar ao mundo atual texto tão remoto não deve ter sido fácil. E, de fato, os problemas aparecem. Um deles é o seguinte: até certa altura da projeção, o filme tem feição de um mero thriller, como os que vemos tanto hoje em dia. Um casal ambicioso assassina o presidente da Empresa para que o marido ocupe o seu cargo. Esfaqueia-o, joga o corpo num lago, e fica esperando pelo resultado. Que, naturalmente, não vai ser bom.

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Esse jeitão de thriller nos afasta do clima trágico da peça original, e a ele só voltamos, bem mais tarde, quando o casal assassino oferece um jantar ao corpo executivo da Empresa, e no meio da janta, o fantasma de Banquo, digo, de César (a segunda vítima do ambicioso Elias), aparece, todo ensanguentado. E o desenrolar do filme vai assim: ora thriller, ora tragédia, sem equilíbrio entre as duas coisas.

Fico pensando como receberão o filme, as pessoas sem familiaridade com a peça de Shakespeare. As que têm essa familiaridade eu sei, pois “Macbeth” acontece de ser um dos meus Shakespeares favoritos. Acho que posso dizer que aquelas primeiras vão estranhar a psicologia fantasmagórica, enquanto que estas segundas estranham o investimento no gênero policial. E ninguém sai satisfeito do cinema. Sobretudo, como já disse, por causa da falta de equilíbrio entre os dois tons.

Apesar da ação constante e dos crimes hediondos, “Macbeth” é uma tragédia reflexiva, psicológica, onde a construção dos personagens tem um peso enorme. Não tanto quanto “Hamlet”, mas é. Um exemplo, o assassinato de Duncan é todo circundado dos delírios culposos de seu algoz que, antes do crime, vê adagas no ar guiando ao quarto da vítima, e, depois do ato feito, gasta um tempão atormentado com a ideia de que “assssinou o sono” e nunca mais vai conseguir dormir.

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Não é sem razão que Shakespeare fez com que tudo, no destino dos protagonistas, dependesse das predições das três bruxas, investindo assim na fantasia (ou fantasmagoria), e por tabela, no psicológico, em detrimento do meramente factual. Como em todas as suas peças, o bardo de Stratford foi atrás das fontes históricas, porém, no caso presente, ele deu esse empurrão maior ao fantasioso, e dizem que o fez por interesse. É que o Rei da Inglaterra, James I – sem coincidência o patrono da sua companhia, “The King´s Men” – era apaixonado por bruxaria, e Shakespeare não hesitou em inventar as motivações sobrenaturais para o destino do tirano Macbeth. Se foi mesmo bajulação, foi tão bem feita que virou o melhor da peça.

No filme, os personagens parecem rasos, sem a grandeza trágica do original. Um ou outro trecho da peça vem a suas bocas (´nunca pensei que o velho tivesse tanto sangue´, sussurra e depois escreve Clara, a esposa do empresário), mas o conjunto não funciona a contento. Cheio de investigações e interrogatórios policiais (coisas inexistentes na época de Shakespeare), o filme, como já dito, se afasta temporariamente do espírito da peça, e o que dela tem, quando o tem, não é suficiente para compor uma obra uníssona e fluente. Esforços são feitos neste sentido, mas não diria que com bons resultados. A mim, me veio a ideia de acochambro.

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Dou um exemplo. No filme, uma certa frase de Macbeth (“ela podia ter morrido outra hora”) provoca um erro de montagem. O espectador sai da cena mais dramática, aquela em que o marido Elias, desesperado, encontra o corpo da esposa na banheira, e passa, imediatamente, para um Elias eufórico, no escritório, surpreendendo a secretária – e a nós – com a tal frase, como se feliz da vida. Ele faz isso porque tivera notícias alvissareiras da bordadeira, mas, a mudança brusca no comportamento do personagem é, no mínimo, inverossímil.

Em alguns casos, sente-se mesmo que a infidelidade ao original teria sido melhor opção, caso da famosa cena do porteiro (na peça, o da Fortaleza, no filme, o do Banco), ridiculamente inoportuna na diegese do filme.

Enfim, devo recomendar “A floresta que se move”, ou não? Não sei. Fica a seu critério. Agora, se você está interessado no assunto, não deixe de checar como foi que três “bruxos” geniais trataram a peça de Shakespeare: pela ordem, Orson Welles em “Macbeth, reinado de sangue”, 1948; Akira Kurosawa em “Trono manchado de sangue”, 1957; e Roman Polanski em “Macbeth”, 1971.

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