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Revisitando Kubrick

20 nov

 

Em edição caprichada, a Perspectiva vem de lançar esse “Stanley Kubrick: o monstro de coração mole” (2017) de autoria do escritor e publicitário Marcius Cortez. Revisitando o cineasta de “2001 – uma odisseia no espaço”, o livro vem sendo lançado em capitais brasileiras, e sexta-feira, dia 17, foi a vez de João Pessoa: à Livraria Saraiva, no Shopping Manaíra, compareceu o autor, para os autógrafos e conversas.

Fã de Kubrick, cheguei cedo e tive a oportunidade de bater um longo papo com o autor, como esperado, sobre o cineasta e seu estilo inconfundível. Cortez, que eu não conhecia pessoalmente, é um ótimo causeur e a conversa foi, além de instrutiva, descontraída e divertida. Aliás, a conversa – posso dizer – funcionou como uma espécie de trailer do livro, que, constato agora, é igualmente instrutivo, descontraído e divertido. Consta que é o resultado de oito anos de pesquisa, mas não esperem uma obra de teórico, cheia de heurísticas e hermenêuticas. Nada disso: trata-se antes de tudo de um livro de espectador apaixonado, que além de espectador, sim, também é um cinéfilo sofisticado e um escritor de mão cheia.

A rigor, acho que posso dizer que não é só um livro de fã – é, mais que isso, um livro de cúmplice. Suas espontâneas, curiosas e ricas interpretações dos treze filmes enfocados deixam isso claro desde o início. Com efeito, não é difícil perceber que Cortez, no geral, toma o partido do cineasta, em alguns casos, contra certas reações críticas, teóricas ou populares. Vejam o caso, por exemplo, de suas insistentes refutações aos comentários quase sempre desfavoráveis da crítica americana Pauline Kael.

As análises de cada filme – para cada um, um capítulo – estão cheias de “intromissões” que trazem para a discussão elementos dos bastidores das filmagens, fatos biográficos, opiniões alheias, episódios periféricos, dados contextuais, boatos, etc… Mas isto, sem que essa colcha de retalhos obscureça o andamento da argumentação.

Dou pelo menos três exemplos. Na análise de “O grande golpe” (“The killing, 1958), vejam o espaço que é dado ao roteirista Jim Thompson e suas muitas afinidades “noir” com Kubrick, e mesmo sua amizade pessoal. No enfoque de “Laranja mecânica” (“Clockwork Orange”, 1972), prestem atenção à ênfase dada à presença do ator Malcolm McDowell, apresentado como uma espécie de coautor do filme, tal o seu entendimento e investimento na construção do protagonista. Na abordagem de “De olhos bem fechados” (“Eyes wide shut”, 1998), observem a longa referência à festa erótica, isto feito pelo viés do roteirista Frederic Raphael, segundo este, um bacanal todo inspirado em aventuras verídicas da família Kennedy e adjacências.

No capítulo que abre o livro, Cortez apelida Kubrick de ´O lobo das elipses´. Bem apropriado ao cineasta, o engraçado é que o apelido também parece valer para o autor do livro. Os casos elípticos são muitos, mas creio que o mais ostensivo está no amplo comentário de um filme menor de Kubrick, “A morte passou por perto” (“Killer´s kiss”, 1955): aí, em dado momento, corta-se a argumentação ao meio para introduzir uma infindável lista das produções desse ano, 1955, as americanas e as internacionais, uma lista, ufa, que toma páginas e páginas e que dá a impressão de que o autor se perdeu. Mas – atenção! – não é o caso.

O grande golpe, com Sterling Hayden.

Dentro do mesmo espírito de – digamos – `relativa desordem controlada´, há, nas abordagens um certo coeficiente de humor, expresso em linguagem coloquial, às vezes com gírias engraçadas, particularmente naqueles momentos da análise em que o autor está cumprindo a tarefa de reconstituir os enredos dos filmes discutidos. Esse humor sorrateiro, sente-se, é, derivado do lado debochado de Kubrick.

Ao contrário do que o autor recomenda na abertura, o livro pode ser lido em qualquer ordem, o leitor escolhendo o que ler primeiro a partir de suas preferências. Lendo em que ordem for, o efeito é de estar revendo os filmes, e a vontade é de, ao dobrar a última página, correr à filmografia completa de Kubrick e ver tudo de novo, agora – o livro de Cortez a tiracolo – com mais informação e mais luz interpretativa.

Não há dúvidas: do conjunto dessas análises fílmicas desponta a estilística kubrickiana, sua visão do mundo, com as inevitáveis e talvez necessárias contradições, e claro, a forma como essa visão está expressa no seu fazer cinematográfico. “O que nos queria dizer esse fazedor de obras primas?” Cortez pergunta a si mesmo e a nós. Seja qual for a resposta, uma coisa é certa para Cortez: (cito) “Kubrick é ainda um artista desconhecido”.

Disponível nas livrarias do país, “Stanley Kubrick: o monstro de coração mole” nos aponta, de modo extremamente agradável, o caminho para esse conhecimento. O conhecimento da obra de um dos maiores cineastas da história do cinema.

Stanley Kubrick (1928-1999)

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Divinas divas e o Fest Aruanda

17 dez

De 8 a 14 deste mês tivemos, em João Pessoa, a décima primeira versão do Fest Aruanda, festival de cinema e vídeo que divulga e celebra a atividade cinematográfica, local e nacional.

Com longas, médias e curtas, documentais e/ou ficcionais, concorrendo em mostras competitivas, ou não, a programação do festival foi, como sempre, extensa, e aqui não cabe repassá-la.

Registro apenas as homenagens, duas delas póstumas: a Péricles Leal e ao recém falecido cineasta Manfredo Caldas. Sobre aquele primeiro, foi reprisado o documentário de João de Lima “Péricles Leal – o criador esquecido”, e mais que isso: o personagem de gibi Falcão Negro, criação de Péricles, foi adotado como a logomarca desta edição do festival. Daquele segundo foi reapresentado o longa “Romance do vaqueiro voador”.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Já o mais que vivo Wills Leal recebeu o Troféu Aruanda e a Comenda da Academia Paraibana de Cinema, pela compleição de seus bem curtidos oitenta anos de idade. Além disso, foi exibido o filme “Wills Leal, mais que oitenta – La dolce vita” homenagem especial e afetiva do cineasta Mirabeau Dias.

Debates, workshops e lançamentos de livros completaram o programa desse festival que já se impôs como o grande evento cinematográfico do Estado.

A versão deste ano teve dois aditivos oportunos: o completo ineditismo dos filmes a serem exibidos nas Mostras competitivas, e mesmo daqueles exibidos fora da Mostra, no caso o da abertura “Axé – canto do povo de um lugar” e o do fechamento do festival “Pitanga”. O segundo aditivo foi a introdução de uma interessante rubrica, de nome ´Sob o céu nordestino´, exclusiva para a exibição alternativa de produções realizadas nesta ou sobre esta região do país. Um dos filmes mostrado dentro desta rubrica foi “Cícero Dias – o compadre de Picasso”, documentário do cineasta paraibano Vladimir Carvalho.

2-2

Meu modesto contributo foi estar entre os co-autores do livro “100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), livro organizado pela ABRACCINE (Associação brasileira de críticos de cinema) que foi lançado no festival, na tarde de sábado, dia 10 deste mês.

Não tive a oportunidade de assistir a todos os filmes exibidos no Fest Aruanda, mas, na Mostra Competitiva de Longas, um que me chamou a atenção foi esse “Divinas Divas” (2016) da estreante diretora Leandra Leal.

Com leveza, simplicidade, descontração e bom humor, o filme (re)agrupa oito artistas que fizeram estrondosos sucessos nos palcos do Rio de Janeiro dos anos sessenta e setenta, cada um a seu modo, mas todos quebrando tabus e driblando a rigorosa censura da ditadura militar. Hoje idosos, os travestis Rogéria, Jane di Castro, Valéria, Fujica de Holliday, Camille K, Eloína, Brigitte de Búzios e Marquesa nos contam suas histórias pessoais, relatando, sem papas na língua, seus casos privados, seus episódios mais pitorescos, mas, sobretudo, a difícil luta para a afirmação profissional.

Ao roteiro foi dada uma estrutura bem definida, com prólogo e epílogo formalmente estabelecidos: a narração propriamente dita decorre no entremeio destes dois momentos, e nela acompanhamos os ensaios para um show que o grupo todo fará no desenlace. Ao longo desse processo preparatório, intercalam-se os depoimentos dos artistas, sempre somados a uma performance individual de cada um dos depoentes.

As protagonistas de "Divinas Divas".

As protagonistas de “Divinas Divas”.

Só no fechamento – ou seja, no epílogo – o grupo atuará junto, no palco, em grande estilo, cantando e dançando a marchinha carnavalesta de Braguinha e Alberto Ribeiro “Yes nós temos banana”, com plumas e paetês, comme il faut. O contraponto desse grand finale já estava na abertura do filme – o prólogo -, quando, ao som da voz potente de Nelson Gonçalves, ouvimos a canção “Escultura” de Adelino Moreira, ao mesmo tempo em que vemos – por sobreimpressão de imagem – cada rosto masculino de cada artista transformar-se aos poucos no seu respectivo personagem feminino.

Originária de família desde sempre ligada ao mundo do show business (o seu avô, Américo Leal foi o criador e dono do teatro Rival), a atriz e diretora Leandra Leal teve lá suas razões sentimentais para conceber e realizar um filme desses, porém, isto, para o espectador não importa. Importa o resultado, que está aí e que é bom.

Descontraído como os seus personagens, mas ao mesmo tempo, intenso, o filme de Leandra Leal arrebatou o público presente na Sala 6 do Cinépolis, e recebeu aplausos calorosos que, visivelmente, não eram aqueles apenas formais, que são praxe em todo festival de cinema.

E para fechar, parabéns mais uma vez ao coordenador do Fest Aruanda, o incansável batalhador Lúcio Vilar, por mais esta.

A atriz e diretora Leandra Leal.

A atriz e diretora Leandra Leal.

Emoção à flor da tela – um livro ao seu dispor

28 dez

Não sou historiador, mas sempre quis escrever um livro que recobrisse a história do cinema.

Normalmente, meus textos são ensaios que abordam um único filme. Apaixonado pelo exercício da análise, nunca gostei de tratar de fases, escolas, épocas, ou períodos mais longos, e quando o fiz foi meio acidentalmente.

O meu grande prazer foi sempre deter-me em um dado filme e tentar, verticalmente, desvendar o que, no fundo de sua forma e na forma de seu fundo, ele tem a nos dizer, ou mais que isso, a nos fazer sentir.

Por outro lado, a história do cinema é feita de filmes, digo, de filmes individuais. Julguei, portanto, que se dispusesse de um número significativo de comentários críticos sobre filmes individuais e os distribuísse num mesmo espaço em ordem rigorosamente cronológica, ficaria implicitamente delineada uma “história”.

Foi o que andei fazendo nestes últimos quinze anos – fui catando e juntando ensaios já escritos, e escrevendo outros, organizando-os em ordem cronológica, até ter um número razoável para a confecção de um livro.

Ao chegar ao número 150, achei que o livro estava pronto. A escolha do título foi trabalhosa, mas creio que o escolhido, “Emoção à flor da tela – escritos sobre cinema”, se não sugere a perspectiva ´histórica´, ao menos tem a vantagem de ressaltar um dos aspectos mais fascinantes do consumo da sétima arte, que é o recepcional. Como já foi dito tantas vezes por tanta gente boa, sem espectador não há cinema.

capa de Emoção à flor da tela

O leitor desse livro poderá se indagar por que os filmes discutidos são estes, e não outros. Confesso que o acaso pode ter tido, até certo ponto, o seu papel. De fato, muitos são filmes sobre os quais escrevi porque estrearam nos cinemas locais, ou porque foram lançados em DVD, ou porque os vi, ou os revi, na TV paga, etc… Lembro ao leitor, porém, que na montagem do livro houve muitos ´cortes´, pois o número de textos a constar do livro superava em muito os 150 escolhidos. A rigor, portanto, nenhum filme está no livro gratuitamente.

Na seleção que fiz houve mesmo certo grau de intencionalidade. Achei que um livro desses não podia deixar de fora certos cineastas fundantes ou com propostas bem particulares, por exemplo, Orson Welles, Sergei Eisenstein, Jean Vigo, etc. Além disso, alguns ensaios foram escritos diretamente para o livro, como aqueles que tratam do cinema primitivo dos irmãos Lumière.

Tive, obviamente, o cuidado de não pular décadas, o que comprometeria o sentido “histórico” do livro. A questão era só decidir que filmes de tal década lhe seriam representativos. Espero ter sido, neste particular, sensato e pertinente no meu modo de enfocar.

Eis alguns exemplos, citados ao acaso: no século dezenove não poderia faltar: “O regador regado” dos irmãos Lumière; na década de dez, tinha que ter “O grande roubo de trem” de Porter; na de vinte, era necessário incluir “A última gargalhada” de Murnau; na de trinta, precisava ter o “King Kong” de Merien C Cooper (1933); na de quarenta, achei que era importante “O terceiro homem” de Carol Reed; na de cinqüenta, julguei essencial não descartar “Vidas amargas” de Elia Kazan; na de sessenta, impossível pular o “Easy Rider” de Denis Hooper; na de setenta, fiz questão de por o “Lacombe Lucien” de Louis Malle; na de oitenta, não quis passar ao largo de “A rosa púrpura do Cairo” de Woody Allen; na de noventa, achei conveniente resguardar “Tudo sobre minha mãe” de Pedro Almodovar; na 2000, fiz questão de incluir “Os sonhadores” de Bernardo Bertolucci.

Sei que ninguém lê um livro inteiro no computador, porém, não me preocupo com isso. Acho que, para o internauta cinéfilo, o grande lance é fuçar, de cima para baixo, de baixo para cima, e ler aos poucos, em momentos diferentes, de acordo com os seus próprios interesses. Aliás, apesar do sentido “histórico” que a cronologia concede ao livro – ele também foi concebido… para consulta.

Enfim, o livro está pronto, e, a partir desta data, a seu inteiro dispor. Para o acesso, tudo que você tem a fazer é clicar, acima, na categoria INÉDITOS, e, em seguida na imagem icônica da capa do livro. Divirta-se e, se for o caso, comente.