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Imitação da vida

31 dez

Com esta matéria, retorno ao meu ofício preferido: o de escrever sobre filmes antigos, os grandes clássicos do passado, que ninguém esquece.

Estávamos no comecinho dos anos sessenta. Minha irmã, Genilda, tinha visto “Imitação da vida” (“Imitation of life”, Douglas Sirk, 1959) em sua estreia local, no Cine Plaza, e dele falara em casa, emocionada. Segundo ela, era um dos melhores que já vira, e ela via muitos filmes.

Com esses comentários entusiasmados, prometi a mim mesmo que iria ver. O filme saíra de cartaz no Plaza, mas, para minha sorte, estava no então já decadente Cine Brasil, e o vi numa melancólica matinée de domingo. Saí do cinema quase chorando, mas feliz. Minha irmã tinha razão: era um filme acima da média.

Um encontro casual na praia decide tudo...

Um encontro casual na praia decide tudo…

A cena final – vocês lembram – é uma armadilha para o espectador sensível, e muito bem montada. Desprezada pela filha, a empregada negra adoece e vem a falecer. De última hora, a filha quase branca comparece ao enterro, banhada em lágrimas. Mas, um momento, estou contando o final, o que não é bom para quem não viu o filme.

A estória começa na praia, quando duas senhoras, uma branca, a outra negra, se conhecem. Aquela primeira é atriz desempregada; esta segunda doméstica, também desempregada. Uma emprega a outra, e daí nasce uma amizade de vida inteira.

Cada uma tem uma filha e as duas meninas crescem juntas e até irmãs parecem, mesmo porque Sarah Jane, a filha da empregada negra, puxando ao pai, tem pele alva e passa por branca.

Parecem irmãs, mas não são. Não esqueçamos que estamos nos Estados Unidos dos anos cinquenta, quando os ´colored people´ sequer tinham acesso aos banheiros dos brancos.

Sarah Jane: a garota que não aceita a mãe negra.

Sarah Jane: a garota que não aceita a mãe negra.

Desde criança, Sarah Jane tem problemas com a cor. Na escola, passa por branca e se faz de… Até o dia em que a mãe negra, inocentemente, aparece para lhe trazer um lanche. Na adolescência, é espancada por um namorado branco que descobre, enojado, a sua origem.

As humilhações vão tornando-a uma pessoa amarga, rebelde e especialmente agressiva com a mãe. A família que a adota prospera, já que a patroa torna-se uma grande estrela dos palcos da Broadway, mas isso em nada ajuda à condição de ´mestiça´ de Sarah Jane, que termina por fugir de casa e da mãe, para ser chorus line girl em boates suspeitas de Los Angeles.

Um dia a mãe, já idosa e cansada, toma um avião e a procura, e ela, embora sofrendo, a despacha, categórica. O que nos conduz ao final já mencionado.

Lana Turner e Sandra Dee em conflito familiar.

Lana Turner e Sandra Dee em conflito familiar.

Do jeito que reconstituí o enredo, até parece que “Imitação da vida” é um filme apenas sobre o racismo. E não é: o seu temário está no título.

Paralelamente à vida dos empregados (Sarah Jane e a mãe), acompanhamos a da patroa branca, essa mulher que alimenta o sonho de ser uma grande atriz, e, quando as chances aparecem, é capaz de sacrificar uma relação amorosa, e/ou o afeto da filha adolescente. Em nome da fama a todo custo, faz tanto isso, tantas vezes, que o seu pretendente mais honesto e sincero termina por desistir, e pior, a filha dela é quem por ele se apaixona…

No final, essa mulher ambiciosa toma consciência de que, no brilho da ribalta o que teve não foi propriamente a vida, mas, uma imitação dela…

Juanita Moore e Susan Kohner em desempenhos estupendos.

Juanita Moore e Susan Kohner em desempenhos estupendos.

Quem faz a patroa branca é Lana Turner, e a empregada negra, em excelente desempenho, é Juanita Moore. A filha da patroa é Sandra Dee, e a mestiça Sarah Jane é feita pela ótima Susan Kohner. Nesse elenco bem anos cinquenta, o pretendente repetidamente descartado pela atriz em ascensão é o bonitão John Gavin, e o namorado agressivo de Sarah Jane é, numa ponta, Troy Donahue.

Naquela época eu ainda não era ligado a diretores, e, embora visse tudo que por aqui passava de Douglas Sirk, nunca ouvira falar do seu nome. Filmes como “Sublime obsessão”, “Tudo o que o céu permite”, “Hino de uma consciência”, “Palavras ao vento”… eu os achava parecidos entre si, correlatos na forma e nos assuntos, porém, o estilo charmoso e a força dramática que os uniam eu atribuía à companhia produtora, a Universal. Na época eu não sabia que um homem só, o cineasta, podia ser muito maior que uma companhia cinematográfica inteira.

Só com o tempo, e muita leitura, cheguei a Douglas Sirk e, ao chegar, me apaixonei cada vez mais pela sua arte de mestre. Hoje é um dos meus cineastas preferidos.

E “Imitação da vida”, uma das minhas ´imagens amadas´.

Mulheres em “Picnic”

21 jul

Sobre os filmes que ficaram sessentões neste ano de 2015 já escrevi, mas, há um especial a que sempre retorno: “Férias de amor” (“Picnic”, 1955).

Quase todo mundo lembra o filme de Joshua Logan pela cena da dança às margens do rio, Kim Novak e William Holden trocando passos ao som de ´Moonglow´… Ou, então, pela desastrosa consequência da dança, o casal sendo apartado e, depois de muita confusão familiar, encontrando-se às escondidas e fazendo declarações de amor que ninguém sabe se se concretizarão, ainda que, no final, as imagens do trem (que o leva) e do ônibus (que a leva) se perfilem na tela e sugiram que sim.

A famosa cena da dança às margens do rio.

A famosa cena da dança às margens do rio.

Pois eu lembro “Férias de amor” pelo conjunto de seus personagens, no caso, os femininos. É que o filme de Logan pinta um quadro sistemático da condição feminina, tratando da mulher em diversas faixas etárias, como se não houvera protagonistas. Senão vejamos.

A primeira, digo a mais jovem, é Millie (Susan Strasberg), a adolescente inexperiente que quer ser escritora quando crescer, embora por enquanto não conheça quase nada desse material chamado natureza humana, apesar de saber de cor os sonetos shakespearianos.

Millie, a adolescente que quer ser escritora.

Millie, a adolescente que quer ser escritora.

Com um pouquinho mais de idade, a segunda é Marge (Novak) que não sabe o que quer, mas, sabe muito bem o que não quer: casar com o rapaz mais promissor dessa pequena cidade interiorana do Kansas e virar a mãe de família que todos esperam.

Marge, a pretendente relutante.

Marge, a pretendente relutante.

A terceira é Flo (Betty Field), a mãe das duas, essa mulher de meia idade, cansada de arcar sozinha com a responsabilidade da casa; frustrada no casamento e, por isso mesmo, hiper cautelosa em relação ao destino da filha casadoura.

A mãe preocupada: Flo.

A mãe preocupada: Flo.

A quarta figura feminina é Rosemary Sydney (Rosalind Russell), essa solteirona, professora primária que vê os anos passarem sem que sua vida amorosa tome um rumo definido; pela profissão, é a mais informada do lugar, embora os seus costumes modernos de nada lhe sirvam no terreno em que mais anseia. Administra a solidão como quem domina uma sala de aula, mas, basta uma dose a mais para perder o controle de si mesma.

A professora solteirona, Rosemary Sydney.

A professora solteirona, Rosemary Sydney.

A quinta figura é a vizinha, a Sra Helen Potts (Verna Felton), essa dócil senhora idosa que há muito não sente cheiro de homem em casa, e por isso acolhe com tanta boa vontade esse forasteiro que surge do nada. De tão sozinha, seu consolo é ter vizinhos em quem confia e por quem alimenta o carinho que não pode dar a mais ninguém, sequer à mãe doente, pois esta geme no quarto dos fundos, completamente inconsciente.

Dona Potts, a vizinha que acolhe o forasteiro Hal.

Dona Potts, a vizinha que acolhe o forasteiro Hal.

Há uma sexta personagem feminina? Nunca a vemos, mas há. É justamente a mãe da Sra Potts, mais que idosa, senil e enferma, cujos gemidos escutamos de longe, e então não precisamos de nenhuma imagem concreta para sabermos como é que é uma criatura em idade avançada, inerte em cima da cama, penosamente arrastando a cruz dos anos…

O quadro, como se vê, recobre a imagem da mulher em várias idades, e, psicologicamente, a sobrepõe aos poucos homens da estória. De tal forma que de alguma maneira pode se dizer que os três homens da narrativa funcionam como pretextos. Tudo bem, o pretexto maior é Hal Carter (Holden), o forasteiro cuja breve e turbulenta estada no lugar mexe com todos, com as mulheres de modo particular.

Antes de ser filme, “Picnic” foi peça, que estreara na Broadway em 1953 e dera ao seu autor, o dramaturgo William Inge, o prêmio Pulitzer. Inge foi um mestre na descrição da vida da cidade pequena no Meio Oeste americano, onde ele mesmo nasceu e criou-se.

O cartaz do filme.

O cartaz do filme.

Como os seus personagens, femininos ou masculinos, Inge foi um solitário atormentado, inadaptado ao meio ambiente que retrata com tanta precisão. Formado em Arte Dramática e professor por muito tempo, entregou-se ao alcoolismo e faleceu em consequência do vício, vício que a rigor tinha motivação bem mais funda: numa época de preconceito arraigado, Inge foi forçado a reprimir sua homossexualidade pela vida inteira.

É interessante saber que o instrutivo e cativante quadro feminino de “Férias de amor” tem fundo biográfico. O próprio Inge relatava que, na infância, sua mãe, criando a família sozinha como a Flo do nosso filme, hospedava professoras primárias nas dependências da casa, e ele, criança, as observava de perto e acompanhava e entedia seus anseios, suas frustrações e seus vazios…

Bom, recordar experiência vivida é uma coisa; transfigurá-la em arte teatral, é outra. Seu talento fez isso, e por sorte, o talento de quem filmou sua peça, idem. Outra sorte nossa: as encenações na Broadway desapareceram, mas o filme está aí, para infinitas revisitações, como a que venho de fazer.

01 a famosa cena da dança

Antes da televisão

20 out

O rádio foi sempre um elemento presente no cinema, mas, duvido que homenagem maior lhe tenha sido feita do que a que recebe no filme de Woody Allen, “Radio Days” (1987), no Brasil chamado de “A era do rádio”.

Entre saudosista e irônico, biográfico e imaginativo, o filme conta, não tanto uma estória, mas um apanhado de episódios que giram em torno de uma família pobre do bairro judeu de Rockaway, Nova York, mais ou menos num périplo que vai de 38 a 44. Todo narrado em voz over pelo próprio Allen, “Radio Days” tem estatuto de flashback, e um roteiro que é todo cerzido pelas muitas canções da época. De Cole Porter a Glenn Miller, passando por Ary Barroso e Carmem Miranda, a trilha, sempre diegética e determinante dos episódios narrados, concede ao filme um certo jeitão de musical.

radio_days_1

 Mas, claro, nem só de música vive o filme – uma força decisiva vem da capacidade de persuasão da palavra oral, no caso, aquela que se escuta no rádio caseiro, seja o assunto as incríveis aventuras do Vingador Mascarado, ou o diário show do café da manhã das socialites, ou porventura a reportagem sobre uma catástrofe local, como aquela da menina soterrada. O personagem central é esse garoto (de 8 a 12 anos), filho único, cuja mãe abomina a vida que leva, cujo pai esconde a profissão que tem, e há ainda uma tia solteirona especialmente infeliz nas relações amorosas. Aliás, os dois únicos personagens a ganharem um relativo desenvolvimento narrativo são essa Tia Bea (Dianne Wiest), com seus inúmeros pretendentes, e Sally, a vendedora de cigarro (Mia Farrow) que, depois de quebradas de cara, alcança, por vias improváveis, um certo estrelado no rádio. Os episódios narrados teriam sido testemunhados pelo garoto,- uma espécie de alterego de Allen – que os viu de perto, dentro de casa, ou no bairro, ou que simplesmente deles ouviu falar, ou melhor ainda, com a ajuda de Allen, os inventou, caso bem óbvio da narração radiofônica do jogador de beisebol que, por acidente, foi perdendo partes do corpo.

Em muitos casos esses “episódios” estão possuídos de uma certa autonomia narrativa, como se valessem por “curtas” dentro de um longa, como se dá com o acidente que abre o filme: dois ladrões em ação atendem o telefone e – surpresa – tratava-se de um programa de rádio para os ouvintes dizerem qual música está sendo executada no momento: o ladrão conhece as três músicas, dá as respostas e deixa o enorme prêmio para a família roubada. Outro episódio completo que vem ao caso é o dos garotos que espiam a vizinha nua, e na semana seguinte, a belezona lhes aparece como professora da escola, e um deles, acometido de culpa judaica, deduz que eles e seus colegas vão todos para o inferno.

Patéticos ou líricos, alguns desses episódios também servem para demarcar a época, como o incidente com o namorado de Bea (a tia solteirona), que a abandona dentro do carro num lugar ermo, com medo da invasão de ETs, transmitida pelo rádio – a gente sabe – na voz fake de Orson Welles em 1938. Outra marcação evidente é a do anúncio radiofônico do ataque a Pearl Harbor, interrompendo um número musical. Vejam que o filme termina com a comemoração do ano novo de 1944, e o faz muito bem, pois – também sabemos – logo depois disso um novo meio, a televisão, começaria a tomar conta dos lares americanos, empurrando o rádio para uma posição secundária.

radio days 3

Um mérito especial está no modo como, na concepção dos episódios, o roteiro combina o público e o privado; é o caso da surra que o pai está dando no garoto, no exato momento em que uma rádio local transmite o triste caso da menina que caiu numa cratera e, depois de muitos esforços dos bombeiros, não pôde ser salva e morreu: é a comoção com o fato que vai transformando aos poucos as pancadas paternas no corpo do menino em gestos de extremo carinho.

Uma coisa a notar é como, sendo o rádio o tema, o filme tem o cuidado de não tratar de cinema, quando se sabe que a época enfocada era também a áurea da sétima arte. Para não misturar as bolas, os personagens quase não falam de cinema, uma das poucas exceções sendo aquela cena na praia em que os três garotos, falando de suas musas da tela, ouvem um deles mencionar Dana Andrews, como se se tratasse de uma mulher. Resta observar a força da imagem num filme sobre uma mídia oral como o rádio, com o detalhe de, às vezes, a imagem chegar a substituir a oralidade desse meio, conforme acontece no relato do jogador de beisebol, por exemplo. No mais, a fotografia em si mesma, tanto fiel à época quanto criativa, é um item todo especial, com os tons frios (tendentes a azul) escolhidos para a paisagem e os quentes (inclinados ao vermelho) para os interiores.

Enfim, “A era do rádio” pode não ser um Woody Allen maior, mas, com certeza, é um dos mais saborosos.

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Longe do paraíso, perto de Sirk

15 out

Por que não vi “Longe do paraíso” ao tempo de sua estréia, em 2002? Ou não foi exibido localmente? Se não, por que me escapou na TV? Francamente, não sei dizer, mas agora corrijo a lacuna com a versão em DVD de um filme que entra no rol dos meus prediletos.

poster

A estória se passa na capital de Connecticut, a bela e ainda pequena Hartford dos anos cinquenta, cheia de seus jardins floridos, suas ruas arborizadas e seus bosques frondosos com cujo dourado resplandecente a câmera tanto se ocupa. Cathy Whitaker (Julianne Moore) é uma jovem senhora casada que leva a vida normal esperada: casa própria, dois filhos pequenos e um marido próspero. Para a revista feminina local, ela é a dona de casa modelo, que merece foto e matéria especial.

Mas, que o paraíso está longe logo saberemos. A perfeição começa a ser desacreditada no dia em que Cathy decide levar o almoço do marido Frank (Dennis Quaid) no escritório e o flagra fazendo amor com outro homem. Como, então, homossexualidade era entendida como doença, o casal enfrenta o problema junto e um psicólogo é procurado. Enquanto isso, Cathy conhece Raymond, esse jardineiro negro (Dennis Haysbert), cujo pai trabalhara na família dos Whitaker no passado. Tenha sido pela tensão ou não, o fato é que uma atração brota entre os dois e Cathy é vista pela mulher mais fofoqueira da cidade entrando num bar ao lado de um homem de cor.

Marido gay e suposto amante negro – carga demais para uma dona de casa dos anos cinquenta. Com sua aparente leveza, ela tenta administrar os problemas como pode. A promessa de não mais rever o jardineiro e umas férias em Miami com o marido parecem pôr tudo nos eixos. Poria, se… Bem, não conto o resto da estória.

Um suposto amante negro

Um suposto amante negro

O que interessa dizer é que “Longe do paraíso” é o remake de um clássico dos anos 50, o belo “Tudo que o céu permite” (“All that heaven allows”) do grande Douglas Sirk – ou mais que isso, uma homenagem. Vejam que um procedimento básico e efetivo é mudar o conteúdo e preservar a forma do filme homenageado. Exemplos: em “Tudo que o céu permite” a protagonista é viúva e seu amante socialmente desaprovado é jardineiro, porém, branco. Parece que o diretor de “Longe do paraíso”, Todd Haynes, quis agravar os conflitos com temas da época ainda mais fortes – a homossexualidade e o racismo. Daí a diferença nos finais, quase feliz no original e infeliz na refilmagem.

Formalmente, os dois filmes são incrivelmente parecidos – ou devo dizer, crivelmente parecidos? Se nos concentrarmos, por exemplo, em três elementos – emprego de câmera, cenário e música – a sensação é de estarmos vendo o mesmo filme, sobretudo naqueles momentos simbólicos em que a paisagem, com suas flores e sua remissão à profissão do amante, é usada como comentário irônico do drama. As aberturas, por exemplo, são sugestivamente semelhantes.

Na verdade, o que se nota é o tanto que Haynes resguarda dos ensinamentos fílmicos de Sirk, na prática ou em palavras, como estão resumidos em sua famosa entrevista de 1977 para Jane e Michael Stern (Cf Bright Light Films). “A boa câmera é curiosa” – afirma Sirk na entrevista: “Não há nada nos meus filmes sem uma razão ótica”, ou ainda “o movimento de câmera deve ser justificado pelo movimento dos atores e o movimento dos atores pelo da câmera”.

Mas, as relações entre os dois filmes não fica no plano da expressão – convenhamos – e se estende a fatores contextuais. Consideremos o caso dos elencos. Notem como a grande amiga confidente da protagonista, a única a quem ela relata sua paixão pelo jardineiro, é feita por atrizes com o mesmo perfil físico: em Sirk, Agnes Moorehead, em Haynes, Patrícia Clarkson, as duas com quase os mesmos penteado, indumentária e gesticulação. E não resisto à interpretação de que o homossexualismo do marido foi introduzido no roteiro do remake para lembrar o verídico, de Rock Hudson, que em Sirk fez o papel do jardineiro.

Um marido homossexual

Um marido homossexual

Naturalmente, uma insistência do diretor é demarcar a época, o que não faria sentido no filme de Sirk. Uma forma óbvia é o apelo ao cenário urbano (automóveis, vestuário, arquitetura, etc), porém, mais que isso, o filme nos passa a impressão de estarmos vendo não apenas um filme “de época”, mas um filme “da época”. Por isso ele termina com a inscrição gráfica THE END, como se sabe, há tanto tempo fora de moda.

Outro bom recurso é fazer com que os personagens trafeguem por perto de cinemas onde estão em cartaz os filmes da época. No caminho do seu primeiro encontro homossexual, Frank passa na frente de um cinema que está exibindo “As três máscaras de Eva”, aquele drama em que a Joanne Woodward fazia uma pessoa com personalidade múltipla. Ora, personalidade múltipla é o que Frank será obrigado a assumir a partir de então.

Já próximo ao desenlace, quando Cathy e seu companheiro negro caminham furtivamente pelas calçadas de Hartford, os títulos mostrados nos cartazes do cinema são dois: “O preço da audácia” (“The bold and the brave”, de Lewis Foster, 1956) e “Idílio proibido” (“Hilda Crane”, de Philip Dunne, 1956). Como se nota, no original ou na tradução, ambos títulos sintomáticos para a situação amorosa que vivenciam. No primeiro filme eles são ´os ousados e os corajosos´ e, no segundo, ‘Hilda Crane´ era o nome da protagonista, uma mulher independente que teve a coragem de quebrar os padrões machistas então vigentes, por sinal interpretada pela mesma Jane Wyman, a viúva apaixonada pelo jardineiro no filme homenageado –  mais uma relação contextual entre “Longe do paraíso” e “Tudo que o céu permite”.

Enfim, se assistir a “Tudo que o céu permite” é delicioso, ver “Longe do paraíso” depois dele é multiplicar a delícia por dois.

Rock Hudson e Jane Wyman em cena do clássico "Tudo que o céu permite".

Rock Hudson e Jane Wyman em cena do clássico “Tudo que o céu permite”.