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Lauren Bacall, teu nome é mulher

21 ago

De ascendência judia, a pequena Betty Joan Perske nasceu em Nova Iorque, em 16 de setembro de 1924 – o pai um comerciante próspero e a mãe, secretária. Seu sonho de menina era ser bailarina, mas a vida lhe reservara outro métier. Aquele que nós conhecemos.

Ao terminar a escola secundária a jovem Betty Joan matriculou-se na Academia Americana de Artes Dramáticas e descobriu-se atriz. Mas os caminhos para a fama são tortuosos, mesmo para quem tinha garra, talento e beleza.

Enquanto não apareciam as grandes oportunidades para a ribalta, seguiu a carreira de modelo, e, já com o nome artístico de Lauren Bacall, fez tanto sucesso que uma foto sua foi parar na capa de uma das mais badaladas revistas de moda da época, a “Harper´s Bazaar”.

bacall

A foto chamou a atenção de uma senhora, tão bela e elegante quanto a própria Bacall. Esta senhora, esposa do afamado diretor Howard Hawks, mostrou a foto ao marido, fez a sugestão, e não deu outra: ela foi logo contratada pela Warner Brothers para atuar, ao lado do já famoso Humphrey Bogart, na adaptação do conto de Hemingway “To have and have not”, filme que no Brasil chamou-se “Uma aventura na Martinica” (1944).

A Sra Hawks e Lauren ficaram amigas, tanto que a atriz usou o nome de sua protetora no seu primeiro filme, Slim (é por esse apelido que Bogart a chama, lembram?), e não só isso: dizem que a sua figura pública foi toda moldada em cima do charme e elegância da Sra Hawks. Bem, de todo jeito, o que a Sra Hawks certamente não tinha era a sensualidade daqueles olhos felinos esverdiados e daquela voz rouca e aveludada.

Com Gregory Peck, em "Teu nome é mulher".

Com Gregory Peck, em “Teu nome é mulher”.

Enfim, Hollywood havia descoberto Lauren Bacall, que não parou mais de filmar, pode se dizer até o final do século. Com Bogart, com quem casou em 45 compôs, em pelo menos quatro filmes, uma das duplas mais queridas do cinema… até a morte do ator em 57.

Não tenho espaço para citar todos os filmes da carreira de Lauren Bacall e anexo a esta matéria apenas uma seleção de dez títulos de sua fase clássica. (Veja adiante).

De todo jeito, para não deixar de citar filmes da segunda metade do século XX, relembremos de passagem os seus papéis em: “Assassinato no Expresso Oriente”, “O último pistoleiro”, “O fã – obsessão cega”, “Louca obsessão”, “Pret-à-porter”, “Meus queridos presidentes” e “Dogville”.

Com Humphrey Bogart, em "Prisioneiro do passado"

Com Humphrey Bogart, em “Prisioneiro do passado”

Com filmografia tão vasta, Bacall nunca ganhou um Oscar por seu desempenho em determinado filme. Em 1996 foi indicada como coadjuvante no filme de Barbra Streisand, “O espelho tem duas faces”, mas perdeu. Em 2010, é que foi homenageada pela Academia com um Oscar honorário pelo conjunto de sua carreira.

Atriz talentosa, é difícil escolher o seu melhor desempenho. Fiquemos apenas com o personagem que mais ressaltou seu charme e elegância, possivelmente aquela comédia romântica de Vincente Minnelli onde ela, contracenando com Gregory Peck, faz uma bela estilista, eventualmente mais charmosa que suas freguesas. O filme se chama “Teu nome é mulher” (1957), que, por razões óbvias, julguei um bom título para esta matéria.

Num outro clássico dos anos cinquenta, “Angústia de tua ausência” (1958), infelizmente um filme sem grandes méritos estéticos, o seu personagem é uma dona de casa que vem a falecer e retorna na forma de um anjo da guarda, que passa a proteger o marido e a filha pequena. Agora, na ocasião de sua morte, não duvido nada que algum fã inconformado esteja aspirando a sua benfazeja proteção…

Com Marilyn Monroe e Betty Grable em "Como agarrar um milionário"

Com Marilyn Monroe e Betty Grable em “Como agarrar um milionário”

 

Dez clássicos para lembrar Lauren Bacall (1924-2014):

 

Uma aventura na Martinica (1944)

À beira do abismo (1946)

Prisioneiro do passado (1947)

Paixões em fúria (1948)

Êxito fugaz (1950)

Como agarrar um milionário (1953)

Paixões sem freios (1955)

Palavras ao vento (1956)

Teu nome é mulher (1957)

Angústia de tua ausência (1958)

 

Em "Angústia de tua ausência";  anjo da guarda do lar

Em “Angústia de tua ausência”; anjo da guarda do lar

 

 

 

 

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“A Malvada” às avessas

29 out

Misturar ficção literária e cinema e se sair bem não é para todo mundo. Quem faz isto é o jovem escritor inglês David Nicholls em seu recente romance “The understudy” (Hodder, 2005), no Brasil traduzido para “O substituto”.

A palavra ´understudy´ designa aquela profissão do mundo do teatro que a gente pode chamar livremente de ´ator de reserva´: você decora toda a fala de um dado personagem de uma peça, ensaia com o mesmo rigor dos atores titulares, porém, nunca vai ao palco… a não ser que o ator titular do seu personagem fique, por alguma razão, impossibilitado de atuar. Se isto nunca ocorrer, você nunca atuará, por mais que domine o seu papel.

understudy-logo

No livro de Nicholls esta é a profissão de Stephen C. McQueen, um quarentão descasado, com todo o perfil de ´loser´, que ainda ama a ex-esposa e que vive fazendo esforços para alimentar o afeto da filha, uma garota de oito anos.

Mas, se o cenário do livro é o teatro, o imaginário, não. O imaginário é definitivamente o cinema, conforme já está ironicamente prometido no nome do protagonista, quase o mesmo do famoso ator hollywoodiano Steve McQueen. Só que, ao contrário do astro americano, Stephen vive, como quebra-galho, fazendo pontas em produções cinematográficas locais, geralmente em papéis obscuros e pouco visíveis, em muito casos, e sintomaticamente, como mortos, vítimas descartáveis, ou equivalentes. A peça todo dia encenada, em que Stephen é reserva, versa sobre a vida do poeta Byron, e, no entanto, os grandes intertextos do livro não são literários, nem teatrais.

capa da edição brasileira de "The Understudy"

capa da edição brasileira de “The Understudy”

O fato é que Stephen é um cinéfilo viciado que, quando não está diante da tela, está pensando cinema o tempo todo. Claro, essa cinefilia obsessiva é partilhada pelo próprio narrador da estória, que, quase sempre, antes de introduzir um novo episódio, gasta tempo imaginando como ele seria se se tratasse de um filme.

Isto para não dizer que os capítulos do livro têm títulos sempre – digamos – “cinematográficos”, nomes de atores/atrizes, fatos do show business, ou títulos de filmes conhecidos. Por exemplo, o capítulo em que se descrevem os dotes físicos da ex-esposa de Stephen é, por causa de uma vaga semelhança, intitulado “Lauren Bacall”. Outro exemplo: um capítulo do livro se chama: “The awful truth”, e aqui confesso que li o livro no original, e fico imaginando as dificuldades do tradutor da edição brasileira, já que este filme teve, no Brasil, um título completamente diferente, e que não se coaduna com o conteúdo do capítulo que encabeça. Sim, “The awful truth” (´a terrível verdade´) se chamou por aqui “Cupido é moleque teimoso”.

Na verdade, o que não dá para esconder é que o livro todo foi concebido para virar cinema, aliás, como a maior parte da literatura ficcional que se escreve hoje em dia mundo afora. Não sei se dará um bom filme, tão bom quanto o é, de fato, o romance, irônico, engraçado, divertido.

A estória é simples. Esse deprimido e atropelado Stephen C. McQueen está sendo o reserva de um famoso ator londrino, Josh Harper, um astro que as revistas especializadas já consideram o décimo segundo homem mais sexy do mundo. Mesmo sem maldade, Stephen vive sonhando com a chance de alguma coisa acontecer ao astro, para que possa substituí-lo no palco e – quem sabe? – a crítica especializada notar sua presença e seu desempenho, e daí, ele deslanchar sua própria carreira. Mas, o que pode acontecer a Josh? Um piano cair na sua cabeça? Stephen chega a ter um sonho politicamente incorreto com o tal providencial piano, mas foi só um sonho…

David Nicholls, autor de "The Understudy"

David Nicholls, autor de “The Understudy”

Enquanto isso, trabalhando de garçon numa festa na mansão de Josh, Stephen conhece Nora, a esposa do anfitrião, e uma improvável amizade começa a brotar entre os dois. Não pretendo contar o resto da estória, mas não resisto em dizer que o andamento da narrativa, e mais ainda o desenlace, sugerem um certo emprego dúbio para a palavra titular ´understudy´, ao mudar o contexto profissional do teatro para o universo amoroso.

Fazia tempo que não me divertia tanto lendo um livro; bem entendido, não que ele tenha me provocado risadas, mas, o tempo inteiro, do primeiro ao último parágrafo, aquele estado de espírito de leveza que nos acomete ao nos darmos conta de estarmos lendo um texto extremamente inteligente e inspirado.

Voltando à presença do cinema no livro, quer me parecer que o intertexto mais forte é justamente o não nomeado e que funciona como um escondido mas ubíquo contraponto à narrativa. Refiro-me à estória, bem conhecida dos espectadores de cinema, de uma certa “understudy” que cometeu todas as incorreções políticas – todas as que o nosso Stephen não ousou – para tomar o lugar da atriz titular… e tomou.  Sim, de alguma maneira sutil, o livro de Nicholls é “A malvada” às avessas.

E lembro ao leitor que o filme de Joseph Mankiewicz, 1950, foi há pouco comentado neste blog.