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Tarantino, cinéfilo como nunca

28 ago

Muitas leituras suscita o último filme de Quentin Tarantino, e não tem importância se elas não coincidirem. O que vale é a inquietação provocada.

Para começo de conversa, “Era uma vez em… Hollywood” (2019) é um filme abarrotado de intertextos, tantos que o espectador quase se perde ao meio das referências ao mundo do cinema, especialmente o dos anos sessenta. São tantas que ninguém de bom senso ousaria listá-las por inteiro. Só pra esquentar, menciono algumas, mais ou menos óbvias.

Tarantino e um poster do filme

De passagem por um dos cinemas de L.A. vê-se em cartaz um dos sucessos da época, final dos anos sessenta, o “Romeu e Julieta” de Zeffirelli. Em dado momento ouve-se no rádio a canção “Mrs Robinson”, do filme “A primeira noite de um homem”, da mesma época. Saindo da festa, as garotas de Charles Manson passam aos pés de um outdoor gigante de “Assim caminha a humanidade”, certamente reprisado na ocasião. Em suas eternas lamentações, Rick Dalton, o protagonista, vê-se a si mesmo (e assim nos é mostrado) desempenhando o papel que foi de Steve McQueen em “Fugindo do inferno”, sem contar que o próprio McQueen já aparecera ao lado de Sharon Tate, em cena anterior. Isto pra não dizer que a expressão inicial no título do filme relembra dois filmes do cineasta Sergio Leone, de quem Tarantino é um fã assumido. E ainda há o que nem os especialistas adivinhariam – que o Rancho Spahn, ocupado pelos hippies assassinos, foi, nos anos quarenta, locação do faroeste “O proscrito” (1943), cult movie do cinéfilo Tarantino…

Bem, encher a tela de referências fílmicas não faz milagre estético, mas aqui o efeito é particularmente benéfico para casar o clima da época (final dos anos sessenta) com o clima do filme – um ponto chave na concepção e realização da obra. Não é que Tarantino não tenha sido cinéfilo nos seus filmes anteriores, mas agora sua cinefilia é – no bom sentido – abusiva e, como se não bastasse, engraçada.

Esse abuso, se é deleite para o espectador igualmente cinéfilo, pode vir a ser um problema para aquele espectador sem idade, ou formação cinematográfica, que não curtiu os anos sessenta com a intensidade devida. Especialmente o final da década, quando Hollywood clássica capengava e um novo cinema surgia das cinzas. E se esse espectador não conheceu os escândalos da época, pior então.

Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, ator e dublê…

Para fazer o que ele mesmo chama de “uma saudosa carta de amor a Hollywood”, Tarantino conta, com humor e ironia, a história meio patética da grande amizade entre um ator canastrão de seriados de tv, decadente, melancólico e chorão, e seu fiel escudeiro, um dublê coroa, igualmente lascado, que vive conversando com seu cachorro, quando não está quebrando a cara de quem lhe faz cara feia.

Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) não tem mais o prestígio que tivera nos seus papéis televisivos, e hoje, o que lhe resta de bom é apenas ser vizinho do cineasta Roman Polanski e sua jovem e bela esposa Sharon Tate, vizinhos, aliás, com quem mal tem contato.

Um novo produtor que aparece a Dalton com novas propostas, um tal de Marvin Schwarz (Al Pacino), só agrava a sua crise e lhe provoca mais lágrimas. Uma dessas propostas é fazer “spaghetti western” na Itália onde ele, sem muita convicção, termina casando com uma italiana, e voltando para Hollywood mais deprimido que nunca, inclusive, sem condição financeira de manter o seu sempre tão providencial dublê, Cliff Booth (Brad Pitt). Este, por sua vez, se envolve com uma turma de hippies que fizera residência numa ex-locação de cinema, o afastado Rancho Spahn, o que desencarrilha um ataque violento à casa de seu patrão, só vencido com a ajuda de seu cachorro feroz e um lança-chamas que Rick Dalton usara um dia em um de seus seriados televisivos.

Resumido assim, o enredo parece porcaria, mas, juro, não é. Sim, tem a breguice proposital de Tarantino, com todos os seus ingredientes (personagens caricatos, violência, diálogos impertinentes, muita música, etc…), mas também tem o seu charme sedutor de sempre, e nos mantém interessados e atentos, perguntando, a cada cena, onde isso vai dar… E, claro, o que mais esquenta essa expectativa é a mistura que se constata de fatos ficcionais e … fatos reais, verídicos, históricos.

Rick Dalton e sua esposa italiana

Aparentemente disperso, o enredo conta várias estórias ao mesmo tempo, pelo menos três. A terceira é a da vizinha, Sharon Tate, vista em várias ocasiões diferentes, aparentemente sem qualquer relação ao caso Rick/Cliff, salvo a coincidência casual da vizinhança. Por exemplo, enquanto Rick se lamenta de seu fracasso, e Cliff enfrenta a turma de hippies no rancho, Sharon entra num cinema da cidade para assistir ao filme “Uma arma secreta contra Matt Helm”, que acabara de estrear, e onde ela trabalhara ao lado do astro Dean Martin, nessa estória hilária sobre esse herói do título, uma espécie de James Bond invertido.

Tudo, no entanto, vai se juntar no final, ou, eu diria melhor, mais do que no final, no pós-tela, pois, claro está que, após o massacre ficcional na casa de Rick Dalton, está na iminência de acontecer um outro massacre, este na mansão vizinha –  e quem nos diz isto não é o filme: é a História – a História da década de sessenta nos Estados Unidos. Esse segundo massacre nos é sonegado e essa lacuna diegética é um grande lance de roteiro. Depois de termos estado, várias vezes, em contato com a angélica Sharon Tate, o crime de Charles Manson e sua turma fica assim mais eloquente, do que se tivesse sido encenado onscreen.

Ou seja, a maior curiosidade – e talvez motivo de confusão no entendimento do enredo de “Era uma vez em… Hollywood” – é que as estórias ficcionais se fecham (têm desenlaces, por precários que sejam), enquanto que a história, real, não. Como a gente conhece a predileção de Tarantino pela violência, e lembra muito bem o caso Sharon Tate, o filme inteiro funciona como uma grande, uma enorme pista falsa.

O fato de que, num último momento, Rick Dalton seja convidado à casa de seus vizinhos, é uma maldadezinha a mais de Tarantino, caprichosa como as outras.

“Once upon a time in… Hollywood” – uma sacada fílmica genial, pra se ver muitas vezes.

Atores e diretor em Cannes

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O grande Gatsby

12 jun

Calculo que “O grande Gatsby” seja um dos romances mais conhecidos da juventude americana, talvez o mais. Junto com “As aventuras de Huckleberry Finn” e “Moby Dick”, é, com freqüência, um dos livros constantes no programa do High School lá deles.

Por ter feito curso de Letras, para mim também o livro de Scott Fitzgerald é extremamente familiar: estudei-o na graduação, e, mais tarde, na condição de professor, ensinei-o várias vezes na mesma graduação. E não só isso, “O grande Gatsby” é um dos meus romances favoritos, um dos que colocaria entre os meus dez mais.

Uma das capas mais conhecidas do romance de Fitzgerald

Uma das capas mais conhecidas do romance de Fitzgerald

Adoro a estória desse nouveau riche desatinado, que constrói um mundo de maravilhas materiais, só para repetir o passado, ou seja, só para voltar a ter a mulher que um dia, cinco anos atrás, fora sua. E isto contado por um narrador de primeira pessoa que o conheceu em sua aventura final.

A própria condição histórica do romance de Fitzgerald me interessa. Foi publicado quatro anos depois do ´romance que destruiu o romance´, o “Ulisses” de James Joyce (1922), e, graças a Deus, demonstrou, com sua posterior recepção de crítica e de público, que, apesar de Joyce, o romance tradicional, com começo, meio e fim, não morrera. Outra coisa: o grande protagonista do romance do século XIX tinha sido feminino : Karenina, Bovary, Luisa (de “O primo Basílio”), Hester Pryne (de “A letra escarlate”), Capitu (de “Dom Casmurro”), etc). Com “O grande Gatsby” se introduzia o homem tragicamente apaixonado que se perde pela paixão.

Não conheço a primeira adaptação cinematográfica do livro, a muda de 1926, e se vi a dos anos quarenta (Elliot Nugent, 1949), não lembro. A de Jack Clayton (1974), que vi na época em que li o romance, nunca me convenceu.

Carey Mulligan e Leonardo DiCaprio no filme de Luhrmann

Carey Mulligan e Leonardo DiCaprio no filme de Luhrmann

De modo que aguardei com curiosidade esta versão nova, do Baz Luhrmann. A par do passado fílmico de Luhrmann (“Moulin Rouge”, “Romeu + Julieta”), calculei que iríamos ter um considerável privilégio de plástica, especialmente na combinação entre coreografia, som e movimento.

E temos. Até a primeira meia hora de “O grande Gatsby” (2013) é tanta parafernália, velocidade, dança e delírio sonoro que senti vontade de sair do cinema. Os ´frenéticos anos vinte´ (Cf ´the roaring twenties´) parecem aqui hipertrofiados.

Mas enfim, depois de ficar provado que a megalomania de Luhrmann é do tamanho da do protagonista Gatsby, a coisa toda acalmou-se um pouco mais, e – ufa! – passamos ao lado humano e dramático da estória.

Com relação ao texto original, algumas mudanças foram feitas, mas nada que comprometa o conjunto significativo – em Luhrmann, Nick Carraway é um alcoólico que escreve a estória como uma tarefa psiquiátrica. De todo jeito, esses escritos parecem conter o essencial diegético do livro.

O narrador Nick (Tobey MacGuire) nos conta como, meio por acaso, vai ser vizinho desse magnata (Leonardo DiCaprio) que, em seu palacete de Long Island, oferece festas suntuosas à elite novaiorquina. E como um dia ele, pobre e anônimo, é convidado pelo anfitrião. Logo descobre o que está por trás do convite – Nick é primo de Daisy Buchanan (Carey Mulligan), a amada do passado, hoje casada, que Gatsby pensa reconquistar. A estória toda – que não vou contar – é trágica, porém, a maior descoberta de Nick sobre o seu misterioso vizinho é mesmo de ordem espiritual: a dimensão de sua alma de apaixonado.

Tobey Maguire, aqui visto em Cannes, faz o papel do narrador Nick Carraway

Tobey Maguire, aqui visto em Cannes, faz o papel do narrador Nick Carraway

Sim, nos filmes ou no romance – como negar? – Gatsby é um herói à antiga, um incomensurável romântico cuja ideologia gira em torno do coração. É mesmo possível que, com o livro, Fitzgerald estivesse escrevendo o epitáfio do Romantismo, claro, pelos olhos da modernidade, aliás, olhos obsessivamente representados naquele enorme Outdoor onde um monstruoso par ocular espia os personagens e nos espia…  mas, deixo a questão para os críticos especializados.

Apesar da ênfase excessiva na parafernália plástica, no filme de Luhrmann os atores estão perfeitos em seus papéis e o doloroso confronto entre os Buchanan e Gatsby – um ponto alto na escala dramática da estória – é descrito e narrado com competência: o drama flui bem e – ninguém pode negar – os personagens nos parecem de carne e osso. Acho que para o público presente na lotada sessão dominical em que estive, um bom filme.

No mais, pergunto: um filme perdurável? Sei que, de hoje em diante, vai suscitar centenas de teses de mestrado e doutorado sobre o tema da adaptação cinematográfica, porém, o que não sei é se vai permanecer no imaginário do mundo.

Oitenta e sete anos depois de publicado, o livro permanece.

Scott Fitzgerald, autor de "O grande Gatsby" (1926), romance que retomava um certo tema do Século XIX

Scott Fitzgerald, autor de “O grande Gatsby” (1926), romance que retomava um certo tema do Século XIX

Django livre

8 fev

Com sua fama de ´cineasta cult´, Quentin Tarantino é o dono da fórmula que o tornou famoso desde “Pulp Fiction”, a saber, diálogos inteligentes e violência gráfica. Com um particular: nem sempre a inteligência dos diálogos teria a ver com a situação dramática que gera o grafismo da violência.

Será que a fórmula persiste neste “Django livre” (“Django unchained”, 2012), concorrente ao Oscar e em exibição local e mundial?

Dois anos antes da guerra de secessão, um escravo negro, de apelido Django (Jamie Foxx), é feito livre por um Dr Schutz, dentista disfarçado (Christoph Waltz), na verdade, um profissional do tiro cuja atividade consiste em perseguir e exterminar malfeitores cujas cabeças estão a preço, e, naturalmente, receber a recompensa em dinheiro vivo. Os dois, Schutz e Django, se associam, fazendo parte da sociedade a posterior operação de resgatar a amada deste segundo, hoje escrava num feudo chamado Candiland.

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Ao morrer o pistoleiro no confronto com o todo poderoso senhor de Candiland (Leonardo DiCaprio), Django, sozinho, assume o comando da operação para o resgate da amada (Kerry Washington), o que vem a ser feito com um sucesso ´estrondoso´, inclusive no sentido auditivo da palavra. E o filme se encerra com um apaixonado beijo no melhor estilo happy end de antigamente.

Criada no seio de família alemã, embora escrava, a amada de Django recebera educação refinada junto com o nome de Broomhilda, e o nome não é nada gratuito: era o nome de heroína de uma antiga lenda germânica, que é contada por Schutz a Django e a nós. Tal fato justificaria o modelo narrativo dado ao filme que é, do mesmo modo, o de uma lenda, com todos os ingredientes dessas fantásticas estórias infantis, inclusive a estrutura tripartite – primeiro, o sofrimento do casal heróico, separado e subjugado a poderosos; depois a longa e difícil superação do jugo, e por fim, o glorioso reencontro.

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Notem, por exemplo, que o papel do dentista-pistoleiro Schutz, por sinal ele também um alemão perdido no Sul dos Estados Unidos, é o mesmo do ´facilitador´ das lendas antigas (o mágico ou a fada) que vai fornecer ao herói os meios (intelectuais e/ou físicos) de reverter a sua situação de jugo e chegar à amada e ao final feliz.

Evidentemente, Tarantino não está preocupado com veracidade histórica – o filme é uma fantasia feérica que se assume como tal e os dados da história americana só são aproveitados em benefício da lenda. Vejam, por exemplo, que a data da narrativa, indicada na abertura do filme, está em ´poucos anos antes da guerra de secessão´  – obviamente para garantir o happy end no pós-tela: depois de Broomhilda salva, virá necessariamente o que? A abolição da escravatura, em 1865!

A rigor, portanto, não se trata de um western, já que historicamente este gênero cinematográfico se situa nos anos 1860/1890, e, além do mais, o cenário é todo ele o Sul americano, ao ponto de, indagado sobre o gênero, o próprio Tarantino propor o termo “southern”, ao invés de “western”.

Como sugere o nome do protagonista, houve, de todo jeito, uma homenagem ao Western Spaghetti, que Tarantino deve ter curtido em sua juventude, e, de fato, o filme se abre com a mesma bela música de Luis Bakalov, que foi trilha sonora do filme “Django” (1966) do italiano Sergio Corbucci, com Franco Nero no papel-título.

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Django livre” é um filme sobre vingança, como muitos westerns o foram, porém, mais interessante é lê-lo no contexto da recente filmografia de Tarantino onde a vingança tem sido mais histórica, e menos individual: em “Bastardos inglórios” eram os judeus que, de forma fantasiosa e espetacular, se vingavam dos nazistas; agora são os escravos negros que, de forma igualmente fantasiosa e espetacular, se vingam dos seus patrões brancos – e, sem coincidência, em ambos os casos, com o mesmo elemento: fogo.

Dá até para esperar o próximo “episódio” desse delírio tarantiniano e tentar adivinhar quem serão os implacáveis vingadores do futuro: talvez as mulheres, ateando fogo aos machistas? Ou os homossexuais, queimando os defensores da homofobia? Aguardemos.

  Não sei o que os fãs de Tarantino vão achar deste seu “Django livre”, porém, quer me parecer que, com o passar do tempo e do uso, a fórmula a que me referi na abertura desta matéria (diálogos versus violência) sofre sutis transformações, comprometedoras ou não, do estilo Tarantino. Parece-me que, com a repetição, a deliciosa gratuidade do diálogo diminui e este, como num filme convencional, tende a ficar mais preso ao drama narrado, ao mesmo tempo em que o grafismo da violência se apresenta menos realista e mais estilizado, em filmes mais consumíveis para um público que passa, assim, a transcender o círculo dos fãs.

Com “Django livre”, e já com “Bastardos inglórios”, estaríamos diante de um Tarantino menos livre (do cinema convencional)? Ou mais livre (de sua própria fórmula)?

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