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A caixa de Pandora

15 ago

Há filmes clássicos, por alguma razão semiótica ou de outra ordem, importantes na história do cinema, que a gente conhece mais de ouvir falar que de ver. Um cinéfilo aqui viu trechos, outro lá teve acesso a uma cópia precária, um outro acolá apenas leu sobre e cita sem conhecer.

Acho que este é o caso de “A caixa de Pandora” (“Die Buchse der Pandora”) que o alemão Georg Wilhelm Pabst dirigiu em 1928 e que, no mundo inteiro, estreou no ano seguinte, para regozijo de alguns e indignação de outros.

pandora 1 poster

Eu mesmo conhecia uma versão truncada do filme de Pabst, que vi, no começo dos anos oitenta, num cineclube de Bloomington, Estados Unidos – cópia tão precária que, nem de longe, me deu a idéia da grandiosidade da obra. Agora, em uma matinal toda especial do Cine Mirabeau, vejo, para o meu deleite e de alguns espectadores privilegiados, o filme inteiro, com legendas em português e tudo mais.

Embora o enredo seja longo e desdobrado, trata-se de um filme de personagem, e a personagem é Lulu, essa mulher nada honrada, fascinante assim mesmo (ou por isso mesmo), que se sabe bela e usa sua beleza para fazer conquistas e conseguir o que, no momento, deseja, e pode deixar de desejar no momento seguinte. Ousada e marcante, a interpretação é da atriz americana Louise Brooks que, para decepção de divas alemães, foi fisgada de Hollywood e tomou o lugar de Marlene Dietrich.

O sex appeal de Louise Brooks

O sex appeal de Louise Brooks

Alta, elegante, sensual, provocadora, inconseqüente, acho que Lulu, com seus cabelos de seda e seus decotes generosos, foi a primeira “vamp” da história do cinema. Se não foi a primeira, foi a mais renomada. Dizem que quando, dezessete anos mais tarde, em 46, estreou o filme de Charles Vidor de cuja protagonista (Rita Hayworth) se dizia que “nunca houve mulher como Gilda”, alguns cinéfilos da época protestaram, alegando que antes de Gilda, houvera Lulu. Acho que faz sentido.

De profissão Lulu é dançarina e atriz, mas a expressão ´prostituta de luxo´ vem mais ao caso. O seu sex appeal é tão forte que até mulheres atraia e, com efeito, um certo subplot de lesbianismo é desenvolvido ao longo do enredo, com certeza, o primeiro caso na história do cinema.

No começo da estória a encontramos como amásia desse executivo de meia idade que está para contrair matrimônio com moça da sociedade berlinense. Por capricho, Lulu o força a casar com ela, e na festa do casamento, já é encontrada pelo marido nos braços de outro. O fato redunda em disparos de revolver, morte, prisão, júri, e revolta popular, mas, ao invés de reconstituir o roteiro prefiro lembrar ao leitor o mito que inspira o filme e o intitula.

Subplot lésbico em A Caixa de Pandora

Subplot lésbico em A Caixa de Pandora

Nos tempos míticos do Olimpo grego, Zeus andava de mal com os irmãos Prometeu e Epimeteu. Combina, assim, com outros deuses, em criar uma mulher que leve os dois à ruína. Cada um dando um contributo, os deuses confeccionam essa mulher perfeita, que chamam de Pandora, já que ´pan´ significa tudo e ´dora´, dons. Desconfiado, Prometeu (literalmente: ´aquele que vê antes´) não quer saber de Pandora, e previne o irmão Epimeteu (´aquele que só vê depois´). Como está no seu nome, Epimeteu não vê o mal que está em Pandora e se dá mal: casa com ela e abre a caixa (um presente de grego) que ela traz consigo. Dentro da caixa estavam todos os males do mundo (doença, envelhecimento, morte…) que emergem de lá e que – por extensão metafísica – até hoje nos castigam, a nós todos e não apenas a Epimeteu. Somente um ingrediente não saiu da caixa de Pandora, que foi a esperança – único consolo da humanidade até hoje e para sempre. Ufa, haja sufoco.

Não sei até que ponto o mito grego de Pandora contém uma moral, porém, o filme de Pabst, sim. Havendo escapado das garras da lei e fugido para a Inglaterra, a pecadora Lulu, agora em Londres, não escapará das garras de um assassino muito afamado da época, Jack o estripador…

Lulu: adorada pelos homens

Lulu: adorada pelos homens

Se você for atrás de “A caixa de Pandora”, não esqueça que o filme é mudo, com legendas intercaladas entre as cenas. Contudo, a direção de atores é tão enfática e a montagem tão fluente que as legendas quase se tornam dispensáveis.

Se o estilo ainda é o do Expressionismo, movimento artístico que prevaleceu na Alemanha das primeiras décadas do século XX, o intento de narrar com lógica e de construir um personagem vivo e vibrante ameniza os traços expressionistas. Aqui não há mais, por exemplo, cenários sufocantes, sombras em excesso nem vestuários temáticos. A mim ocorreu-me que “A caixa de Pandora” parece moderno, adiante de sua época – um pouco mais “noir” que propriamente expressionista, sem esquecermos que a mulher fatal (cf a figura vamp de Lulu) foi um actante decisivo no típico filme noir dos anos quarenta e cinquenta.

Mas, o que é que estou dizendo? As obras superiores não cabem em categorias, e, fruto da cabeça criativa de um gênio do cinema, “A caixa de Pandora” se impõe por si mesmo como um filme original e, ainda hoje, perturbador.

Seios à mostra e outras ousadias

Seios à mostra e outras ousadias

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Oz antes de Dorothy

13 mar

oz posterAlguma razão especial para ir ver “Oz, mágico e poderoso”? Não sei vocês, mas comigo foi somente saudades de Dorothy e seu sonho de transpor o arco-íris.

Claro, o tempo ficcional do filme de Sam “aranha” Raimi é anterior à visita de Dorothy (Conferir: “O mágico de Oz”, 1939) e nada tem a ver com ela e seus companheiros de aventura.

Ou tem?

Bem, o protagonista Oscar Diggs, como Dorothy, também é de Kansas, e sua estória, como a de Dorothy, também pode ser lida como um sonho: vejam que uma das três bruxas no reinado de Oz, Glinda, a boa, tem o mesmo corpo de Annie, a mulher amada que, na vida “real”, Oscar teve que entregar a outrem. A lógica aqui é, manjadamente, aquela de que nos sonhos, realizamos desejos irrealizáveis.

Acontece que Oscar Diggs (James Franco), o homem de carne e osso, é dono de um circo onde pratica mágicas, nem sempre honestas e nem sempre efetivas. Desmascarado, foge de balão e no caminho é levado por um tornado (outro ponto em comum com Dorothy?) para a terra mágica de Oz, lá sendo entendido como o grande salvador da pátria, posição que assume, quase de bom grado – aquele que vai livrar o lugarejo da bruxa má. `De bom grado´ porque todo o ouro de Oz vai estar ao seu dispor; ´quase´ porque, para tanto, ele precisa destruir a bruxa má, que, meio indefinida, reina desde a morte do Rei do lugar.

Evidentemente, as melhores mágicas do filme não são de Oscar Diggs, e sim da equipe de filmagem, e já começam quando Oscar pousa em Oz e faz amizade com aqueles que seriam seus companheiros de aventura: o macaquinho alado Finley, e a bonequinha de louça cujas pernas ele faz o milagre de consertar.

oz 1

Como sói acontecer no cinema atual, a mirabolante estória de como esse falso mágico virou o Mágico de Oz nos é mostrada com um monte de efeitos especiais, só possíveis na era da computação, e o filme é um show de visualidade que deslumbra, ao menos os desacostumados a esse excesso de plástica.

Em dado instante da narração, quando Oz, em pleno confronto com os malignos poderes das bruxas, aparentemente, foge da raia no balão, uma das bruxas (são três!) desabafa: “quão previsível”.

Talvez a expressão valha para o filme, porém, uma coisa que me agradou foi a solução engenhosa de Oscar Diggs – e dos roteiristas! – para vencer os seus adversários, no que o filme se revela uma grande homenagem ao cinema.

Ocorre que o mágico Oscar Diggs era um fã de Thomas Edison, como se sabe, depois dos irmãos Lumière, o segundo inventor do cinema – conforme ele revela à bonequinha de louça, em comovido tom confessional “o maior mágico de todos os tempos”, cuja grandeza ele queria ter. E, assim, o esquema de Oscar para ludibriar e conquistar os inimigos é com uma mega projeção cinematográfica, aprendida de Edison, que espanta a todos, ingênuos habitantes de Oz e malvadas bruxas.

Inevitavelmente, ao espectador ocorre a relação com filmes recentes que vêm homenageando o cinema do passado, especialmente com “A invenção de Hugo Cabret” (Martin Scorsese, 2011) cuja remissão é ao primitivo cineasta George Méliès, ele também, na origem, um homem de circo.

Oz 3

A prequela toda (no sentido de ´estória anterior a outra´) se inspira claramente nas lendas infantis conhecidas, mas há intertextos que vão além disso: um deles é certamente o shakespeariano, já que as três bruxas de Oz (sendo duas más e uma boa) configuram uma mistura de personagens em “O Rei Lear” (três filhas, sendo duas más e uma boa) e “Macbeth” (três bruxas).

Como a aventura de Dorothy em “O mágico de Oz”, a de Oscar Diggs também termina em lição de moral. A dela – vocês lembram, não é? – concluía que ´não há lugar como a nossa casa´; aqui, o edificante ensinamento consiste na mudança entre dois valores humanos, de ´grandeza´ (termo de Oscar Diggs, no início do filme usado em conversa com Annie, a amada) para ´bondade´ (termo da boa bruxa Glinda, no final, a mesma que tem o corpo de Annie, papel da atriz Michelle Williams).

A propósito de prequela, fico pensando se a moda pega. Será que alguém vai um dia fazer a de “Cidadão Kane”, contando a vida pregressa do protagonista antes de ele se tornar o grande magnata? No filme de Orson Welles o vemos criança e – grande elipse, semelhante a de Cristo – pulamos para o adulto.

Mas, enfim, valeu a pena ter visto “Oz, mágico e poderoso” (Oz, the great and powerful”, 2013)? Sei lá, acho que sim.

Oz 2