Tag Archives: licença poética

Poesia na tela

26 abr

Ontem fui cascavilhar uma parte meio empoeirada de minha estante onde repousam os livros de literatura anglo-americana, disciplina que lecionei na UFPB por tanto tempo. Tirei a poeira e reabri as páginas de William Carlos Williams, poeta maior que tanto admiro.

O responsável por esta visita tardia e culposa é o cineasta Jim Jarmusch, com o seu filme “Paterson” (2016), em cartaz no Cine Bangüê. Conheço bem a curta filmografia de Jarmusch, mas este me surpreendeu, para não dizer que me pegou. O filme é uma homenagem a William Carlos Williams, feita de uma forma graciosamente “mimética”.

Sim, seria possível fazer cinema como W. Carlos Williams fez poesia? Jarmuch enfrenta o desafio e – impressionante – se sai bem, muito bem.

No estilo objetivista do poeta (“Say it, no ideas but in things”: ´Diga-o, não em ideias, mas em coisas`), o filme conta a vida singela de um motorista de ônibus em Paterson, New Jersey, e o faz em sete dias da semana, de segunda a domingo. Com o mesmo nome da cidade onde mora (e, não esquecer, o mesmo nome do famoso livro de W. Carlos Williams), o jovem motorista leva uma vida sem surpresas, com sua jovem esposa e um buldogue  inglês. Dirigir durante o dia, levar o cachorro para passear à noite e tomar uma cervejinha no bar da esquina são ações repetidas… Tão repetidas que nos fazem pensar no título daquele filme antigo de Ozu “A rotina tem seu encanto”.

O encanto na rotina de Paterson é rabiscar poemas no seu caderno secreto. Tudo começa descritivamente, com a visão e lembrança de uma caixa de fósforo, e vai crescendo, até ´explodir numa bola de fogo´. Na medida em que escreve em seu caderno, suas palavras manuscritas são transpostas para a tela, como se esta fosse uma página do caderno secreto.

Entre o casal, Paterson e a esposa Laura, não há conflitos. Ela faz cupcakes para vender e quer uma guitarra para tocar, mas isso não é problema. No ônibus Paterson escuta conversas mirabolantes dos passageiros; no bar presencia cenas melodramáticas entre os fregueses, mas nada disso altera sua rotina. Na sexta-feira, o ônibus quebra, mas isto tampouco é o fim do mundo. Para ser franco, este seria, de cabo a rabo, um filme sem conflitos, não fosse o desenlace proporcionado pelo cachorro da família, que, assumindo o papel do vilão que faltava na estória, estraçalha o caderno poético de Paterson e o deixa melancólico.

A licença poética vem na forma de um senhor japonês, em visita à cidade, sem coincidência leitor de W. Carlos Williams, que, misteriosa e oportunamente, doa a Paterson um caderno em branco… supostamente para nova aventura poética que deverá começar em algum tempo pós-tela.

Um japonês providencial…

Um motorista de ônibus que escreve poesia? Quando a esposa lhe diz que ele devia publicar seus poemas, Paterson pergunta se ela está tentando apavorá-lo. A sinceridade modesta desta reação fica, porém, suspensa, ao divisarmos no quarto de Paterson os muitos livros que ele possui – de Baudelaire a Poe, passando, naturalmente e bem à vista, pelos de W. Carlos Williams.

Falei em licença poética a respeito da aparição misteriosa do japonês, mas, na verdade, o filme inteiro é uma grande e deliciosa licença poética em que as coisas banais se misturam com as fantasiosas, para dar ao todo o lirismo a que o autor aspira – e isto sem muita preocupação com verossimilhança.

Pensando bem, aquela adolescente que, na calçada, recita o poema sobre o tema da chuva, enquanto espera a mãe e a irmã gêmea, já parecera, antes do japonês, licença poética. A repetição por vários personagens ao longo do filme da expressão ´explosão numa bola de fogo´ tem esse mesmo efeito, como o têm as aparições de irmãos gêmeos na trajetória diária de Paterson, a gente lembra, tudo motivado por um sonho da esposa, em que tinha filhos gêmeos. Lembrar, mais um exemplo, que quando o casal vai assistir ao terror com Lou Costello, a personagem feminina é a cara de Laura, a esposa: “podia ser sua irmã gêmea”, lhe diz um Paterson inocente.

Assistindo a Lou Costello…

Esse recurso audio-visual de entrelaçar as coisas simples da vida e a fantasia vem, naturalmente, da poética de W. Carlos Williams que, por sua vez, conhecera muito bem Paterson (digo, a cidade), e eternizou em seus livros as suas ruas, prédios e esquinas, ou seja, as suas “coisas”, (o termo “things” do verso citado acima).

Fico pensando se o espectador que não conhece a poesia de W. Carlos Williams – ou que sequer gosta de poesia – perde parte do prazer de assistir a “Paterson”. Espero que não. E, provavelmente influenciado por Jarmusch, cometo a “licença crítica” de supor que esse espectador vai, depois de ver o filme, se interessar por poesia.

Se porventura for o seu caso, me procure que lhe empresto as antologias de William Carlos Williams, culposamente empoeiradas na minha estante.

Um motorista de ônibus que escreve poesia.

Estrelas além do tempo

31 jan

Dentre os filmes concorrentes ao Oscar 2017, um dos mais interessantes é, com certeza, este “Estrelas além do tempo”, (“Hidden figures”), direção do novato Theodore Melfi.

E o mais interessante nele é contar o que ninguém sabia – que por trás do sucesso americano na corrida espacial estava uma mulher negra. Gênio da matemática e da física, Katherine Goble fez os cálculos definitivos, sem os quais a viagem sideral do astronauta John Glenn, em 1961, não teria tido o bom resultado que teve.

No começo dos anos sessenta, em um país racialmente segregado, uma mulher negra em posição de destaque na NASA – isto parece ficção, e, no entanto, “Estrelas” é completamente baseado em fatos históricos.

1

A rigor, o filme conta a história de um trio – além de Katherine, duas outras mulheres negras, amigas suas, trabalharam na NASA em posição destacada, a saber, Dorothy Vaughan, que veio a chefiar o setor de computação, e Mary Jackson, que veio a ser a primeira engenheira negra no país.

Obviamente, estas conquistas não foram nada fáceis. Contra o trio, havia, na verdade, dois preconceitos confluentes – o de serem mulheres e o de serem negras.

No caso de Katherine, um aliado que ela logo conquistou foi o próprio diretor da NASA, Al Harrison, que, por cima da questão racial, estava interessado em vencer a todo custo os soviéticos, os quais já haviam enviado Gagarin ao espaço com tranquilo sucesso. Afinal, era o tempo da guerra fria e o Pres. Kennedy queria vitórias.

Na medida em que se deparava com as sacadas geniais de Katherine – mais avançadas do que as dos seus colegas brancos – Harrison foi lhe dando os privilégios de que ela precisava para ser útil na difícil tarefa de calcular o que nunca antes fora calculado – um voo para fora de nosso campo gravitacional.

Fazendo cálculos - as cifras ocultas...

Fazendo cálculos – as cifras ocultas…

Um lance de roteiro que ilustra bem a crescente relação de identificação entre funcionária e diretor é a seguinte: primeiramente encarregada de conferir cálculos, Katherine se atrasava na tarefa, simplesmente porque não havia, na NASA, banheiros para negros e, cada vez em que ela precisava de um, tinha que correr a um edifício vizinho. Ao saber disso, o diretor da NASA, munido de um martelo, destrói, ele mesmo, a placa de aço na porta do banheiro que proibia a entrada de gente da raça negra. Sua frase, depois do feito, é uma das melhores do filme: “Here at NASA we all pee the same color” / “Aqui na NASA nós todos mijamos da mesma cor”.

O acesso ao banheiro branco é um pequeno passo que conduz Katherine a muitas outras conquistas profissionais. Termina sendo aceita na sala de reuniões da alta cúpula, aquela que decide os passos políticos da NASA, uma sala que, até então, nenhuma mulher adentrara, muito menos uma negra. Fora aconselhada a ficar calada, porém, quando a reunião chega a um impasse matemático é ela quem, a pedido do diretor, resolve a equação, diante de rostos descrentes e, em seguida, perplexos.

“Estrelas além do tempo” não é nenhum filme extraordinário, apenas mediano, mas é eficaz, sim, em contar uma estória verídica de modo convincente.

A sua recepção eu já imagino qual vai ser – os interessados na temática vão superestimá-lo, enquanto que os mais exigentes com o resultado artístico vão lhe apontar defeitos.

Três mulheres negras e a NASA

Três mulheres negras e a NASA

Um desses defeitos talvez seja o esquematismo do roteiro na descrição da vida privada dos personagens negros: filhos, pais, mães, maridos, pretendentes, todos são mostrados como impecavelmente bonzinhos, todos vivendo uma vida de harmonia e afeição incondicional. Claro, tudo isso contrastando com as caras feias dos brancos, nas dependências da NASA.

Eu disse talvez porque, de fato, esse contrate entre negros e brancos soa, na verdade, intencional, uma espécie de “licença poética”, visivelmente homologada pelo uso sistemático das cores no filme todo: sempre um tom frio, meio cinza, na NASA, e tons quentes nos cenários dos personagens negros.

O título brasileiro, “Estrelas além do tempo”, não é dos piores, mas, vale notar que ele não contém o jogo de sentido do original “Hidden figures” em que ´hidden´ significa ´oculto(a)s´, e “figures” tanto significa ´figuras´ (as três mulheres negras) quanto ´cifras´ (os números nos cálculos astronômicos, domínio mental da matemática Katherine Goble).

Gostei do filme e, de minha parte, me vieram à mente as primeiras películas, na história de Hollywood, a tematizar o preconceito racial como entrave na vida de profissionais. Um deles, que recomendo, é de 1949 e se chama “Fronteiras perdidas” (“Lost boundaries”), estória também verídica de um médico negro, enfrentando a antipatia de uma comunidade branca, papel desempenhado por Mel Ferrer, e sua estreia no cinema.

Katherine Goble e a equipe da NASA.

Katherine Goble e a equipe da NASA.

Que estranho chamar-se Federico

6 nov

Não veio ao circuito comercial local, mas, acabou de entrar na programação da TV paga o belo e comovente “Que estranho chamar-se Federico” (2013), filme-homenagem de Ettore Scola ao seu colega, amigo e compatriota Fellini.

O filme de um cineasta que amo sobre um cineasta que amo. Vocês não imaginam a ansiedade com que me preparei para ver, e a alegria com que o vi, a mesma com que escrevo.

Sem mais nem menos, “Que estranho chamar-se Federico” é o esperado, um filme com a sofisticação de Scola e a fantasia de Fellini, as duas coisas juntas e inconsúteis. Sim, porque o filme é sobre os dois, e não apenas um. De forma solta e imaginativa, sem se preocupar em ser documental, Scola faz questão de centrar-se na amizade e nos pontos de contato entre os dois, deixando o resto de lado.

1

Para tanto, inventa um narrador que, primeiro se insinua como voz, e depois de corpo inteiro. Não um narrador qualquer, mas um que tem todo aquele jeito de personagem felliniano, inclusive, o de intrometer-se no narrado. Uma vez encontra-se num café da época e a garçonete vem lhe trazer a conta, e ele retruca que “sou o narrador, e narrador não paga”, ao que a moça responde que sim, senhor.

O filme começa com o mestre Fellini em sua cadeira de diretor, de costas para nós, olhando a paisagem a sua frente, que deve ser o mar de sua Rimini natal. E aí, magicamente, uma luz de cenário se acende, e passam a desfilar diante dele, dançarinos, saltimbancos, palhaços, acrobatas, tudo como se num show circense.

A partir daí, mas sem obedecer a cronologias, vai-se narrando episódios na vida do cineasta. O primeiro deles, e talvez o mais demorado, é a sua entrada na revista romana de humor “Marc´Aurelio”, como chargista. Seus desenhos e suas charges são motivos de pequenas encenações e o espectador tem a chance de constatar o cineasta inventivo que esses rabiscos prometiam.

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Seis anos depois, à mesma “Marc´Aurelio”, chega o jovem Ettore Scola, com o mesmo propósito, sendo aceito do mesmo modo. A essa altura Fellini já saíra do jornal e já fazia sucesso como cineasta premiado, mas isto não impede que os dois se encontrem e se tornem companheiros de trabalho e amigos. Até porque são muitos parecidos: como assegura o narrador, “ambos meio abstratos, sem jeito para atividades físicas, nunca chutaram uma bola, os dois apaixonados por desenho, pintura e cinema”.

E não podiam faltar os percalços. É o que se tem nos primeiros sketches de um Fellini ainda tateante, encenados no palco modesto de um teatro de revista: sem achar graça no humor dos textos, a platéia começa a jogar lixo no velho ator que performatiza o quadro. Claro, tudo muito felliniano!

Muitas das cenas em que os dois cineastas aparecem juntos soam como fictícias, sem que isso tenha propriamente importância. Para quem conhece a filmografia de Fellini, são, na verdade, cenas poeticamente necessárias, como aquela em que, numa noite qualquer, a dupla dá uma volta pelas ruas de Roma, e, na calçada das putas, oferece carona a uma delas, a qual, no banco de trás do carro, lhes relata quase toda a sua vida. Se se prestar atenção, nesse relato descontraído estão elementos que alimentariam muitos dos roteiros fellinianos, entre os quais o de “La strada”, ou de “Noites de Cabíria”.

Sempre o teatro de revista...

Sempre o teatro de revista…

Pontos comuns entre os dois também são pessoas. Marcelo Mastroiani, por exemplo. E o filme remonta a “A doce vida” para o qual o ator indicado pela produção era Paul Newman, e não o “tipo comum” (palavras de Fellini) Mastroiani, por sua vez, quase recusado, anos mais tarde, por Scola, para o seu “Casanova e a revolução”. Uma canja histórica são as verídicas ´auditions´ que Sordi e Gassman fizeram para ganhar o papel.

Uma das poucas cenas documentais é o funeral de Fellini que, encerraria o filme, não fossem os protestos dos produtores. E então, Scola dá um jeito de jogar em cena mais uma de suas licenças poéticas. Matreiro, Fellini dribla os dois enfeitados carabinieri que guardam o féretro, e às escondidas, escapole pelos becos da cidade, até chegar ao que queria, um carrossel onde vai se divertir feito menino. E com o movimento do carrossel vêm as imagens de seu mundo fantasioso, um caleidoscópio frenético com que dele nos despedimos a rever as cenas mais queridas de suas películas…

É claro que essa licença poética não foi exigência dos produtores. Com certeza, ela já estava no roteiro que o hoje idoso Scola bolou com a ajuda preciosa de suas duas filhas queridas, Paola e Silvia.

Em tempo: a frase que intitula o filme (no original: ´Che strano chiamarsi Federico´) é reprodução de um certo verso de um poeta espanhol que foi xará de Fellini: Federico Garcia Lorca.

O mestre Fellini.

O mestre Fellini.

Benditos defeitos (1)

16 dez

No cinema americano, se o protagonista faz uma ligação telefônica, a pessoa do outro lado da linha geralmente atende imediatamente, como se estivesse ao pé do aparelho, esperando que tocasse. Se esse protagonista necessita encontrar um certo objeto (uma caderneta escolar do tempo em que era estudante secundário, por exemplo) esse objeto é achado, dentro de casa, com incrível facilidade. E se, na rua, precisa de um meio de transporte, os táxis estão sempre disponíveis a qualquer hora do dia ou da noite – é só estender a mão e gritar “táxi!”?

Quem é que, na internet ou alhures, já não se deparou com pelo menos uma daquelas “Listas de defeitos dos filmes americanos”, defeitos estes que parecem agredir a lógica e a inteligência do espectador?

Rapidez no atendimento, só no cinema americano.

Rapidez no atendimento, só no cinema americano.

Espectadores assíduos e bons observadores, os autores dessas listas têm alguma razão em reclamar desses defeitos, porém, sinto muito em dizer, não têm razão completa. A rigor, se refletissem mais, ficariam gratos por esses defeitos existirem.

É verdade que, na vida real, normalmente, as pessoas não atendem seus telefones com tal presteza, ou sequer estão em casa quando eles tocam; é verdade que a gente não encontra o que procura dentro de casa com tanta facilidade, principalmente se se trata de um objeto antigo; é verdade que táxis não estão sempre disponíveis em todos os setores da cidade…

São situações improváveis que os filmes americanos assumiram como lances de roteiro que agilizam a narrativa e fazem o filme andar, e que o espectador comum engole sem prestar atenção ao seu grau de inverossimilhança.

A primeira coisa a ser dita, contudo, sobre a questão toda, e em favor desses “defeitos”, é que cinema e realidade são duas coisas completamente diferentes.

A narrativa cinematográfica – qualquer roteirista profissional sabe disso – trabalha por elipses, e o faz por uma razão simples: precisa contar uma estória em cerca de duas horas. Detalhes que não tenham uma significação especial em relação à temática do filme precisam ser pulados, descartados, subtraídos.

Para ficar nos três exemplos citados, se o roteiro fosse manter na tela o provável tempo real de cada uma dessas ocorrências, o filme se estenderia indefinidamente, se tornaria insuportável e o espectador seria o primeiro a reclamar.

Táxis sempre disponíveis.

Táxis sempre disponíveis.

Vamos supor que os nossos exemplos fizessem parte de um mesmo filme. Vamos supor que o nosso personagem – como é comum na vida real – tivesse que esperar em torno de meia hora para falar com seu interlocutor no telefone; mais meia hora para encontrar a caderneta escolar; mais meia hora para conseguir o táxi. Somando tudo, uma hora e meia teria que ser adicionada à duração normal da estória, e o filme inteiro, de – digamos – duas horas de projeção, pularia para três horas e meia.

O espectador desse filme iria morrer de impaciência e tédio, mas, isto não seria o pior. O pior é que todo esse período de espera (a ligação se completar, a caderneta ser achada, o taxi aparecer) funcionaria como “tempo morto”, ou seja, não teria nenhuma função semiótica dentro do filme – seria realismo puro, oco de sentido como todo realismo puro. Quem, na vida real, já passou três horas numa sala de consultório médico esperando para ser atendido, sabe a que me refiro com “realismo oco de sentido”.

Para fazer comparações com outras linguagens, em literatura a verossimilhança é fácil de ser obtida e não incomoda. Basta o autor de um romance escrever que “o personagem esperou ´por horas´ até a ligação telefônica se completar”, e tudo está resolvido. O leitor lê rápido a frase e não há desperdício de tempo. Em cinema, esse ´por horas´ custaria muitos metros de fita, para não dizer que custaria uma nota, além, como já posto, de torrar inutilmente a paciência do espectador.

Aqui cabe um parêntese: no cinema, uma certa demora na conclusão das três situações citadas será viável se o gênero do filme for Suspense, porém, mesmo assim, com certeza, o tempo de espera, num thriller, é geralmente bem menor do que o suposto tempo real, embora, justamente por causa do suspense, pareça enorme. A esse propósito, confiram qualquer Hitchcock.

Citamos apenas três exemplos, mas claro, os filmes estão repletos de situações semelhantes e, enfim, fosse o cinema mostrar o tempo real desses eventos diários, e de tantos outros que costumam fazer parte das estórias contadas na tela, um filme, qualquer que fosse o seu gênero, teria que durar, não horas, mas dias.

Conclusão: dispostos com tanta malícia nas listas referidas, esses “defeitos”, não deveriam ser amaldiçoados, e sim, abençoados.

Foi a sua inevitável repetição ao longo do tempo o que fez com que essas elipses temporais entrassem, indiscriminadamente, no rol dos chichês. Porém, ao contrário dos clichês propriamente ditos, elas são premências narrativas que, se fôssemos lhes atribuir um nome mais justo, poderiam muito bem ser chamadas de “licenças poéticas”. Sim, licenças poéticas, no sentido em que se quebram regras (aqui as da verossimilhança), com o objetivo estético de tornar a obra mais compacta e digerível. Uma forma mais sofisticada de denominar essas elipses seria enquadrando-as no conceito – já popular entre teóricos da linguagem narrativa – de “verossimilhança interna”.

Prosseguirei com o assunto num próximo post.

Como achar um objeto perdido dentro de casa...

Como achar um objeto perdido dentro de casa…