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Sidney Lumet

5 maio

Nascido em 1924, Sidney Lumet estaria, neste ano, completando noventa anos, se vivo fosse, e aproveito o pretexto para tratar de um dos cineastas americanos mais importantes da segunda metade do século XX e, claro, um dos meus preferidos.

Lumet foi um daqueles ´cineastas da crise´, digo, que começaram a desabrochar numa época – anos sessenta – em que o sistema dos grandes estúdios hollywoodianos começava a desabar. E que teve, mais tarde, de lidar com esse desabamento. Tanto é assim que quase nunca filmou na Meca do Cinema (só uma vez). Seu território foi sempre Nova Iorque, o que faz dele – como Woody Allen – um autêntico ´cineasta da Costa Leste´.

Doze homens e uma sentença: o primeiro filme de Lumet (1957.

Doze homens e uma sentença: o primeiro filme de Lumet (1957).

Outra peculiaridade sua, também ligada à Costa Leste, está na formação teatral, visível, por exemplo, nas muitas adaptações que cometeu, embora nunca tenha se permitido subjugar o específico fílmico a trejeitos teatrais. Foi, muito antes de rodar filmes, co-fundador do Actors Studio e, quando chegou o tempo de ir para trás das câmeras, sempre soube distinguir muito bem palco de tela.

Sem coincidência, o primeiro filme de Lumet que vi (na verdade, o seu segundo) era sobre teatro. “Quando o espetáculo termina” (“Stage struck”, 1958) foi, aqui, exibido no Plaza, e o vi numa matinée de uma segunda-feira. Devia ser um daqueles títulos que, para os exibidores locais, vinham junto num mesmo pacote como item complementar e, assim, eram jogados para dias de semana. Apesar da presença de Henry Fonda, sua intriga de bastidores teatrais não me empolgou: não dizia muito a quem, como eu, não era “atacado de palco” (conferir o título original). Na época o Teatro Sta Roza era para mim, confesso, só um prédio bonito e a Broadway ficava muito longe.

Henry Fonda: o presidente americano em "Limite de Segurança"

Henry Fonda: o presidente americano em “Limite de Segurança”

Meus próximos contatos com Lumet também tiveram a ver com teatro. Um era a adaptação da peça de Arthur Miller “O panorama visto da ponte” (“A view from the bridge”, 1961), filme que preciso rever urgentemente, pois as boas impressões que dele guardo estão estragadas pelas críticas negativas dos guias de filmes. O outro adaptava Eugene O´Neill num filme longo como seu título: “Long day´s journey into night” (“Um longo dia de viagem dentro da noite”, 1962).

De qualquer forma, até então o nome de Sidney Lumet não me ocorrera. Vai ocorrer três anos depois, quando da exibição local do seu perturbador “Limite de segurança” (“Fail safe”, 1964), filme sombrio e desencantado sobre os perigos da guerra atômica. Com a ajuda da crítica local, fiquei então sabendo quem era Lumet e que tipo de cinema propunha.

Rod Steiger é o judeu atormentado em "O homem do prego".

Rod Steiger é o judeu atormentado em “O homem do prego”.

Quando, no ano seguinte, estreou “O homem do prego” (“The pawnbroker”, 1965) Lumet já era meu conhecido. Neste filme nunca esqueci Rod Steiger no papel daquele judeu de meia idade, dono de uma casa de penhor no Harlem, atormentado pela lembrança dos campos de concentração nazistas onde sua família fora dizimada. Os planos relâmpagos de sua dolorosa memória constituíram uma novidade semiótica da qual, mais tarde, a propaganda subliminar faria amplo uso.

Não tenho espaço para me deter em todos os itens da carreira de Lumet que, ao todo, rodou exatamente cinquenta películas, e por isso, faço acrescentar abaixo uma lista de alguns outros títulos de sua filmografia para consideração do leitor.

Um jovem Al Pacino assaltando banco em "Um dia de cão".

Um jovem Al Pacino assaltando banco em “Um dia de cão”.

Mas não sem antes destacar uma de suas realizações mais bem sucedidas e também mais queridas. Refiro-me a “Um dia de cão” (“Dogday´s afternoon”, 1975) que conta a estória mais ou menos verídica de um assalto a banco em Nova Iorque. Sendo casado e tendo filhos, o assaltante (feito por um jovem e já brilhante Al Pacino) o comete para levantar fundos para a operação cirúrgica de seu amante, um homossexual que quer mudar de sexo. Rodado em estilo realista, o filme é, sob qualquer critério, uma aula de cinema, em todos os sentidos da expressão.

Outros títulos de Sidney Lumet:

Doze homens e uma sentença, 1957.

A colina dos homens perdidos, 1965.

O grupo, 1966.

O encontro, 1968.

Serpico, 1974.

Assassinato no Oriente Expresso, 1974.

Rede de intrigas, 1976.

Equus, 1977.

Príncipe da cidade, 1981.

O veredito, 1982.

A manhã seguinte, 1986.

Uma estranha entre nós, 1992.

Tão culpado como o pecado, 1993.

Peter Firth em cena ousada: "Equus", 1977.

Peter Firth em cena ousada: “Equus”, 1977.

Preto e branco

9 abr

As premiações de “O Artista” (2011) têm suscitado discussões em torno da ausência/presença da cor no cinema. A mim mesmo, perguntas têm sido feitas sobre o sentido de se lançar um filme preto e branco quando todo mundo está, há tanto tempo, acostumado à tela colorida.

Normalmente as pessoas se indagam sobre o assunto sem terem muita noção do tempo que faz que a cor surgiu na história do cinema, e tampouco da permanência do preto e branco, mesmo depois da cor implantada. Vamos, portanto, por etapas.

Comecemos dizendo que a “intenção de cor” existiu desde o início, ainda no século XIX, quando George Méliès pintava, um a um, os fotogramas de suas películas, fato que, aliás, é mostrado no filme que perdeu o Oscar para “O artista” – “A invenção de Hugo Cabret”.

Porém, o primeiro filme longa-metragem registrado como realmente em technicolor data de 1935; foi dirigido por Rouben Mamoulien e se chamou “Becky Sharp”, no Brasil: “Vaidade e beleza”. Partindo desta data, podemos dizer, portanto, que faz 77 anos que o cinema tem cor.

Em “Vaidade e beleza” o processo cromático se resumia a três cores e o resultado deixava tanto a desejar que um crítico da época chamou o filme de “um salmão cozido salpicado de maionese”, mas, o aperfeiçoamento veio rápido e, quatro anos mais tarde, já se tinha a beleza plástica de “O mágico de Oz” e “E o vento levou”, ambos de 1939.

O que acontece, porém, é que o advento da cor nunca descartou o preto e branco completamente. Estatísticas precisam ser levantadas, mas, é visível a olho nu que nas décadas seguintes ao surgimento da cor, os dois processos co-existiram, creio que em pé de igualdade. Qualquer cinéfilo que se preze consegue citar um número relativamente grande de sucessos das décadas de quarenta e cinqüenta, fotografados em preto e branco.

Sim, é verdade que, na Hollywood dos anos cinquenta, a cor foi um dos trunfos usados para vencer o avanço da televisão (até então sem cor!), mas, mesmo assim o preto e branco persistiu heroicamente e acho que só “entregou os pontos” – se é que o fez – na segunda metade século XX.

Uma evidência da persistência do preto e branco, ao lado do colorido, está na filmografia hollywoodiana da próxima década, a de sessenta.

Por coincidência, levantando recentemente os grandes filmes do ano de 1962 (Conferir post anterior: “Cinquentões em 2012”), deparei-me com cerca de 90% de películas americanas em preto e branco, e, suponho, se formos aos outros anos desta década, o percentual não muda tanto.

Quer me parecer que, nesse tempo, se certo setor de Hollywood continuava investindo na cor para fazer frente ao preto e branco da televisão, um outro, artisticamente mais comprometido, corria na direção contrária, consumindo, aplaudindo e imitando as vanguardas européias que eclodiam na época com estardalhaço e, sim, com muito mais filmes em preto e branco que coloridos: nouvelle vague, free cinema, novo cinema italiano, etc…

Somando à lista dos filmes americanos citados entre os meus cinquentões deste ano, acrescento, só para ilustrar, mais alguns grandes filmes hollywoodianos dos anos sessenta fotografados em preto e branco: “Se meu apartamento falasse” (1960), “Psicose” (1960) “Julgamento em Nuremberg” (1961), “Sob o domínio do mal” (1962), “Infâmia” (1962), “Hud, o indomado” (1963), “Limite de segurança” (1964), “Beija-me idiota” (1964), “Dr Fantástico” (1964), “O homem do prego” (1965), “A nau dos insensatos” (1965), “Quem tem medo de Virginia Woolf?” (1966), “O segundo rosto” (1966), “A sangue frio” (1967)… E deixo para o leitor completar a seu gosto.

Hoje em dia, olhando para trás, é fácil constatar que, com o passar do tempo, quanto mais raro no emprego, mais o preto e branco foi ganhando em status artístico e hoje é um processo cromático meio cult, todo envolto em charme – uma opção estilística, e não uma limitação.

Se não fosse assim, por que filmes da segunda metade do século XX e adiante, quando a cor era/é praticamente obrigatória, foram, opcionalmente, fotografados em preto e branco? Cito alguns: “A última sessão de cinema” (1971), “Lua de papel” (1973), “Manhattan” (1979), “Touro indomado” (1980), “O homem elefante” (1980), “O selvagem da motocicleta” (1983), “Daunbailó” (1986), “A lista de Schindler” (1993), “O balconista” (1994), “Ed Wood” (1994), “Celebridades” (1998), “O homem que não estava lá” (2001), “Sobre café e cigarros” (2003), “Sin City” (2005), “Boa noite, boa sorte” (2005) e tantos outros.

E vejam que só estou citando americanos…