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Secessão e rancor

19 jun

Neste ano de 2015 está se comemorando o término da Guerra Civil americana, conhecida como Guerra de Secessão (1861-1865).

Agrário e racista, o Sul queria a manutenção da escravidão negra, enquanto o Norte, mais urbano e liberal, pedia a sua abolição. Nem a clarividência de Lincoln conseguiu evitar o conflito. Propondo a separação (secessão) do país, os estados sulistas se auto-denominaram Confederação e partiram para a briga, forçando os estados nortistas a lutar pela União. A guerra foi sangrenta e fez, de lado a lado, um número apavorante de vítimas. Depois de quatro anos de lutas, a vitória, para o Norte, se pôs fim à guerra, nunca apagou o rancor sulista.

Inevitavelmente, essa guerra, junto com esse rancor, teve representações no cinema. A lista de filmes americanos sobre a guerra civil americana é enorme e aqui me limito a citar apenas alguns, os que considero mais importantes.

the birth of a nation

O primeiro a mencionar é de 1915, apenas 50 anos após o conflito. Assumidamente racista, a superprodução de três horas e meia de duração, “Nascimento de uma nação” (“The birth of a nation”) fazia a apologia do Ku klux klan e dava a presença da raça negra como a desgraça do país. Em suas exibições nos cinemas do Norte, provocou protestos, tantos e tão inflamados que o seu diretor D. W. Griffith rodou, no ano seguinte, um filme ´humanitário´, (“Intolerância”, 1916), como que para desculpar-se do erro cometido.

O segundo filme de citação obrigatória também foi uma superprodução, mas desta vez ideologicamente bem mais moderada. Baseado no romance de Margareth Mitchell, “E o vento levou” (“Gone with the Wind”, 1939) contava a estória dos efeitos da guerra sobre uma aristocrática família sulista, mas não tomava partido. Com um elenco de primeira, fotografia e música grandiosas, o filme do produtor David Selznick (assinado por Victor Fleming) fez um sucesso tão avassalador que chegou a inibir a representação da guerra civil em outras realizações hollywoodianas.

Cena de ...E o vento levou.

Cena de …E o vento levou.

Produção bem mais modesta, o terceiro filme que cito também foi baseado em literatura, no caso, o desencantado romance de Stephen Crane “The red badge of courage”, que deu o filme homônimo de John Huston, no Brasil chamado de “A Glória de um covarde” (1951). Sem endosso dos executivos de Hollywood, esse filme sombrio sobre a crueldade nos campos de batalha, foi cortado e, infelizmente, o que dele resta não corresponde ao talento do seu diretor.

O quarto filme que gostaria de citar é pouco lembrado, até pelos cinéfilos. Refiro-me a “Sublime tentação” (“Friendly persuasion”, 1956), de William Wyler, que narra o drama de uma família Quaker, no estado de Indiana, que sendo pacifista por princípio religioso, é obrigada a decidir o que fazer no dia em que, em plena guerra, tropas sulistas invadem o seu aparentemente neutro território.

Encerro minha lista com estes quatro clássicos e deixo ao leitor o exercício de lembrar os filmes mais recentes que abordaram a temática. Com certeza, o leitor não vai esquecer, por exemplo, “Tempo de glória” (1989), “Cold Mountain” (2003) e, naturalmente “Lincoln” (2012).

Afirmei, acima, que a vitória do Norte pôs fim à guerra de secessão mas nunca apagou o rancor sulista. Pois esse rancor teve talvez um número maior de representações cinematográficas que a própria guerra, representações sutis, em alguns casos, subliminares, mas, nem por isso, menos efetivas.

Audie Murphy em "A glória de um covarde"

Audie Murphy em “A glória de um covarde”

Vejam, por exemplo, o caso de todo um gênero do cinema americano, o chamado Western, ou faroeste, cujas estórias geralmente ocorrem num período histórico pós-guerra de secessão, mais ou menos em torno da década de 1880. Pois bem, muitos de seus heróis, e muitos de seus bandidos, gente de meia idade – os conhecidos conquistadores do Oeste bravio – carregam um passado que tem a ver com os tempos duros da guerra, geralmente sulistas rancorosos que nunca engoliram a derrota.

Não vou dar exemplos, pois não disponho de espaço, mas resumo tudo na figura emblemática de Ethan Edwards, o matador de índios de “Rastros de ódio” (“The searchers”, 1956), feito por um John Wayne de physique de role impecável. Se você lembrar bem o filme de John Ford, vai dar-se conta de que o amargor perene de Ethan não vem apenas da querela com os índios, mas muito mais, da frustração de estar do lado dos perdedores numa guerra que, finda, não pôs fim ao orgulho sulista de ser branco e dominador. Em alguns momentos chave do diálogo, esse rancor vem à tona, e, repito, não é só neste filme, nem só em John Ford, que ele vem à tona.

Os melhores autores de westerns tiveram a coragem de encená-lo em momentos pontuais de seus filmes, com certeza por saberem que esse rancor ainda estava vivo em, geograficamente falando, metade do país.

John Wayne e Natalie Wood na obra prima de John Ford, "Rastros de Ódios".

John Wayne e Natalie Wood na obra prima de John Ford, “Rastros de Ódios”.

Oscar 2013

21 fev

Todas as vezes que se fala em Oscar me lembro dos grandes injustiçados, sem coincidência, filmes que amo.

Já escrevi sobre o assunto várias vezes, mas aqui recordo os casos mais escandalosos, os de 1952 e 1977. Em 52, “Depois do vendaval” (John Ford), “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann) e “Moulin Rouge” (John Huston) perderam para “O maior espetáculo da terra” de Cecil B. DeMille. Em 77, “Rocky o lutador” (George Avildsen) ganhou para “Todos os homens do presidente” (Alan Pakula) e “Taxi driver” (Martin Scorsese).

Essas injustiças têm sido menos frequentes, ou mais atenuadas, nos últimos tempos, ainda bem.

Matar ou morrer, vencido por O maior espetáculo da terra

Matar ou morrer, vencido por O maior espetáculo da terra

Nos últimos anos, uma curiosidade que noto – e tenho escrito sobre – é que os grandes concorrentes nas categorias mais importantes (melhor filme, melhor direção, melhor interpretação) têm, por coincidência ou não, se perfilado dentro de uma certa linha temática. Senão vejamos.

Em 2011 a linha temática parece ter sido a própria linguagem, abstratamente concebida. Filmes como “O discurso do rei”, “Rede social” e “Cisne negro” tinham em comum a investigação do funcionamento da linguagem, respectivamente, a oral, a internética e a teatral. Em si, são filmes diferentes, porém, quando você se detém nas suas construções, é esse lance semiótico que os une de uma forma indiscutível.

2012 foi dedicado à cinefilia, como fica claro com “O artista”, “A invenção de Hugo Cabret” e, ainda, “Uma semana com Marilyn”.

E para 2013, existe uma linha temática? Parece-me que sim, e ela está nos principais concorrentes, a saber, “Django livre” (Quentin Taratino), “Lincoln” (Steven Spielberg), “Argo” (Ben Affleck) e “A hora mais escura” (Kathryn Bigelow).

Essa linha temática são os próprios Estados Unidos da América, evidentemente, em fases diversas de sua história: durante a escravidão em “Django”, no período da abolição em “Lincoln”, nos anos 1970 em “Argo”, e, por fim, nos tempos atuais em “A hora mais escura”. Acho que dentro dessa mesma linha temática também pode se incluir esse delirante “Indomável sonhadora” (Benh Zeitlin) que, de alguma maneira, ficcionaliza os efeitos, em 2004, do furacão Katrina na região sul dos Estados Unidos.

Uma cena em Indomável Sonhadora

Uma cena em Indomável Sonhadora

Ninguém tem bola de cristal, porém, não creio que constituirá admiração para espectador algum se os principais prêmios forem entregues aos autores desses quatro ou cinco filmes.

Nesta mesma página, escrevi sobre “Lincoln” e “Django livre”, mas, de minha parte, dos já citados, o que mais gostei foi esse “Argo”, um filme inegavelmente bem construído sobre aquele caso verídico dos seis cidadãos americanos que, em 1979, depois da queda do Xá Reza Pahlavi, ficaram presos na embaixada canadense no Iran, e só conseguiram sair através de uma estratégia ardilosa do governo americano que envolvia cinema, no caso, a simulação da rodagem de uma película de ficção científica no país do Aiatolá Khomeini. A recriação dos fatos pode não ser autenticamente histórica, porém, é extremamente funcional do ponto de vista cinematográfico. Patriotadas à parte, um belo exercício de suspense.

Ben Affleck atuando e dirigindo Argo

Ben Affleck atuando e dirigindo Argo

Fora dessa linha temática etnocêntrica, estão, entre os nove indicados a melhor película do ano, – é verdade – filmes que emocionam e eventualmente convencem público e crítica.

 “A aventuras de Pi” mistura metafísica e diversão infanto-juvenil de um modo que só um mestre como Ang Lee saberia fazer. Dirigido pelo mesmo caprichoso Tom Hooper de “O discurso do rei”, “Os miseráveis” reconta, agora com música, uma estória que, de tão lida, ouvida e vista, já faz parte do imaginário ocidental, a do ex-presidiário Jean Valjean e seu eterno perseguidor, o maligno inspetor Javert. Sobre um caso de bipolaridade, “O lado bom da vida” (David O Russell) se assume como uma comédia romântica e, infelizmente, transfere a chatice do protagonista para o filme.

Beleza plástica em As aventuras de Pi

Beleza plástica em As aventuras de Pi

Resta citar o – no meu entender – mais comovente de todos os nove indicados à categoria de melhor filme do ano, esse “Amor” (Michael Haneke), que conta uma estória de terceira idade, confesso, particularmente dolorosa para os de minha geração, ou mais velhos. Afinal de contas, aos oitenta anos, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva são ícones cinematográficos que, “se despedindo”, despedem uma época de ouro do cinema mundial. Como diria o poeta Drummond, ele também um fâ de cinema, farewell.

Emmanuelle Riva e as mãos de Jean-Louis Trintignant: "Amor"

Emmanuelle Riva e as mãos de Jean-Louis Trintignant: “Amor”

X e Y sobre “Lincoln”

31 jan

Vejo “Lincoln” (2012) e saio do cinema meio às escondidas, apelando para não encontrar conhecidos e ter que de chofre emitir opinião sobre o filme de Steven Spielberg. Não se trata de um filme difícil – muito pelo contrário – mas, mesmo assim, ou por isso mesmo, precisava de um tempo para organizar minhas impressões.

A primeira impressão é certamente a de previsibilidade. Um filme de Spielberg sobre o Presidente Lincoln? Convenhamos: antes de comprar o ingresso a gente já tem uma idéia do que vai ver e, ao ver, inevitavelmente, confirma. No meu caso, antes de ouvir falar que o diretor escolhera o tema, já quase adivinhava que um dia na sua vida ele o escolheria. Ele tem o perfil para…

A segunda impressão não é uma impressão, e sim, um desejo. Não de me deter sobre o filme e analisá-lo – o que, para o meu leitor, iria também soar previsível. “João Batista de Brito escrevendo sobre “Lincoln”? Já sei no que vai dar” – antevejo meu leitor dizendo de si pra si.

Lincoln 1

O desejo, digo, não de analisar o filme, mas de proceder a uma pesquisa de campo com os espectadores e levantar opiniões. Isto, sim, seria algo que gostaria de fazer sobre “Lincoln”… e para o que diviso um resultado interessante. Como não dispondo dos meios para tanto, ponho minha imaginação a funcionar e realizo, mentalmente, um estudo de Estética da Recepção ficcional. Com certeza, vou me divertir muito mais…

Para simplificar, concebo dois espectadores que tivessem estado sentados comigo no cinema, X do meu lado direito, e Y do meu lado esquerdo.

X achou o filme excelente, seguramente merecedor das tantas indicações ao Oscar. A reconstituição de época é impecável, a direção perfeita, o roteiro fiel à história, as interpretações soberbas, sobretudo a titular, de Daniel Day Lewis. Mas X tampouco esquece a de Sally Field no papel da Sra Lincoln, angustiada com o destino do filho e o peso moral nas costas do marido; e ainda a de Thomas Lee Jones como Thaddeus Stevens, o líder dos republicanos, a de David Strathairn como William Seward, o Secretário de Estado, e a de Lee Pace como Fernando Wood, o grande rival democrata na tribuna. X gostou imensamente da fotografia quase sempre escura, centrada em ambientes fechados, para dar ideia do sufocamento do protagonista, premido entre sustar a guerra civil, onde centenas morriam por dia, ou fazer passar, por fim e à força, uma lei que sabia decisiva para o futuro do país. A música de John Williams, como esperado, veio a contento, na opinião de X, e fez o discreto comentário do temário. No geral, o esperado da confluência de um grande diretor, um grande ator, um grande personagem e um grande tema – a abolição da escravatura na primeira democracia do mundo. Em especial, X achou o final interessante, quando o roteiro evita a famosa (tantas vezes reconstituída) cena do assassinato do Presidente no Teatro Ford, fazendo a notícia chegar ao filho menor, Tad, que, noutro teatro, assistia a uma outra peça. Para X, a licença poética do discurso pos-mortem foi uma maneira bem adequada de fechar a homenagem a esse imenso vulto. Enfim, um filme inesquecível.

Lincoln 2

Já Y não gostou: achou que o filme só está com tantas indicações porque o presidente enfocado é o americano – fosse o de um outro país e neco. Y cansou-se com as duas horas e meia de projeção. Pensou que fosse assistir à narrativa da empolgante vida desse proeminente americano e, para sua decepção, tudo girou em torno de intermináveis e cansativas discussões políticas sobre a aprovação, ou não, da Décima Terceira Emenda que abolia a escravidão no país. Até pareceu que a abolição foi o tema do filme, e não Lincoln, um mero coadjuvante em relação a ela. No filme todo, se se contarem empregados domésticos e eventuais soldados, são mais de cem personagens, todos com direito a voz, e numa situação em que quase tudo no desenvolvimento da estória depende da argumentação oral, pró ou contra, uma mesma questão. Republicanos, democratas, líderes de partidos, figuras secundárias… são tantos envolvidos no tema da escravatura que Y os confundiu e nem depois do filme findo foi capaz de reconstituir o quadro político descrito. Foi falação em excesso, para Y, que ficou de vista fatigada de ler a legenda. De Lincoln só se tem mesmo alguns momentos breves de seus últimos meses e mesmo assim nada que dê a dimensão de sua grandeza, nem as querelas com os familiares, muito menos aquelas piadinhas deslocadas que ele conta. Y achou a fotografia exageradamente escura e a música de John Williams foi somente correta. Em especial, o final lhe soou decepcionante – tão decepcionante quanto o filme, aliás – quando se substitui o cenário na noite do assassinato, de um teatro para outro, o que lhe pareceu gratuito. Para Y aquele discurso final, depois de Lincoln morto, é uma licença sem poética, óbvia e desnecessária. Enfim, um filme perfeitamente esquecível.

Caro leitor, quem lhe parece mais certo: X ou Y? Ou sua impressão do filme equivale a uma outra letra, Z talvez?

Lincoln 3