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Pipocando

17 set

Não sei se vocês conhecem esse programa sobre cinema, na televisão paga, chamado “Pipocando” – aliás, também disponível no Youtube onde, na verdade, originou-se.

A rigor, são dois jovens comentando cinema – normalmente filmes atuais, relançamentos, bastidores das produções, ou coisas temáticas do tipo cenas de ação, de amor, etc. Ou curiosidades cinematográficas, como filmes que fizeram predições sobre o futuro, filmes que conduziram a escândalos, filmes sem finais, filmes com finais alternativos, filmes estragados pelos finais, filmes com sexo de verdade, os piores filmes do ano, coisas assim.

Ficam os dois frenéticos rapazes sentados no mesmo sofá, de frente para o espectador e falam, falam, falam… enquanto mastigam uma montanha de pipoca.. Isto numa velocidade incrível, com gestos igualmente céleres, um interrompendo o outro o tempo todo. Até caretas valem, ou mímicas ridículas, imitando certas interpretações de atores. O alvoroço é tão grande que nas primeiras vezes que assisti, tive dificuldade de entender do que falavam, e só com certo esforço auditivo pude acompanhar.

Claro, é um programa dirigido a adolescentes e a linguagem – a plástica e a verbal – é de adolescentes. Tanto é assim que, nas falas, dá pra contar quantas vezes é usado, por exemplo, o vocativo “galera” – sempre metido no meio das frases, como se a querer saber se o espectador “está ligado”. Erros de português são comuns (“ele viu ela”) e mesmo palavrões (“vá se ferrar”), eventualmente dirigidos aos espectadores.

Se porventura você abstrair o assunto, vai ter a impressão de que se trata de dois jovens contando um pro outro, as peripécias ocorridas na balada da noite anterior – quem comeu quem -, ou, se for o caso, as últimas fofocas picantes do colégio onde estudam.

A pergunta é: há crítica cinematográfica em “Pipocando”? Há sim, e em alguns casos, até bem fundamentada. Uma instância legal é quando a dupla discorda entre si na avaliação do filme comentado… e assume a discordância.

Com certeza, o programa tem uma boa audiência e deve ser um meio interessante para despertar, no adolescente, o interesse pelo cinema. Afinal, queiramos ou não, cinema também é cultura de massa e qualquer abordagem é válida, se consegue atrair um público jovem que, mais tarde, pode amadurecer e tornar-se mais criterioso. Criado pela dupla de apresentadores Rolandinho e Bruno Bock, originalmente para o Youtube, o programa já gerou até um livro: “Pipocando – os bastidores do maior canal de cinema da América Latina”.

Pessoalmente, o meu receio com esse “internético/televisivo estilo jovem” de discutir cinema está em como ele vai tratar o cinema clássico. Até agora não vi nenhum grande clássico do passado sendo ´discutido´ pelos dois frenéticos apresentadores. Nem sei se quero ver.

De repente, me vejo imaginando – digamos – “Casablanca” (1942) sendo recriado nesse descontraído estilo teen de hoje em dia, algo assim como:

“Dono de cassino beberrão se topa com velho xodó, só que agora ela tem um maridão a tiracolo, e, pior, comete a maluquice de pedir ao negão do piano que toque a musiquinha que embalou o chamego dos dois, no passado”.

Ou “Cidadão Kane” (1941) assim:

“Figurão da imprensa fica puto ao perder eleição e, só de teima, casa com a rapariga que fora o assunto do escândalo. Vive e morre à procura de uma palavra que, segundo uns, seria o nome de um brinquedo infantil, e, segundo outros, mais maliciosos, seria uma referência subliminar à xoxota que o fez perder a eleição.”

Ou “Crepúsculo dos deuses” (1950) assim:

“Roteirista fodido se refugia no casarão de coroa que tinha sido atriz do cinema mudo. Desmiolada, ela quer voltar às telas, e quando ele discorda, leva um balaço nas costas e vai morrer no fundo da piscina de onde (milagres do cinema) nos conta a encrenca toda.”

Pensando bem, volto atrás: até que seria interessante ouvir o que os dois jovens pipoqueiros do programa teriam a dizer sobre estas obras primas… e outras. Enfim.

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