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A sociedade literária e a torta de casca de batata

28 ago

Ao tempo do III Reich, se os alemães não chegaram à Inglaterra, chegaram perto. Por exemplo, da costa norte da França ocupada para a ilha de Guernsey foi um pulo. Sim, em 1941 essa ilha britânica foi invadida e sua população, sob o domínio nazista, comeu o pão que o diabo amassou.

A estória está contada, e muito bem contada, no filme de Mike Newell, “A sociedade literária e a torta de casca de batata” (2018), em exibição no NetFlix.

Para o espectador, tudo começa um pouco mais tarde, no ano de 1946, a guerra já finda, e os estragos já feitos. E começa com correspondência. Em Londres, a escritora Juliet Ashton descobre que existia na referida ilha essa curiosa “sociedade literária” do título do filme, espontaneamente formada por pessoas comuns que gostavam de literatura e se juntavam para comer torta e conversar sobre livros e autores.

Depois de um tempo correspondendo-se com um dos membros, o bibliófilo e criador de porcos Dawsey, Juliet resolve viajar para Guernsey e visitar a tal sociedade, com o intuito de escrever, para o “The Times”, uma inspiradora reportagem sobre o caso. É bem recebida pelo pequeno grupo, discute com eles a ficção das irmãs Brontë e come da torta de casca de batata, porém, ao propor a entrevista para a revista, recebe um retumbante não.

Por que a Sra Emilia, a mais idosa do grupo, opõe-se tão terminantemente à entrevista? É claro que Juliet não se conforma com a recusa, e tomada pela curiosidade, passa, a partir daí, a investigar sobre o caso todo, tendo e dando oportunidade ao espectador de vir a saber o que, de fato, teria acontecido nessa ilha isolada do Canal da Mancha ao tempo em que os alemães lá estiveram.

De cada membro do grupo, as revelações vão vindo aos poucos, com muitas reservas, mas, de todo jeito, cada uma delas endossada por flashbacks generosos, que nos revelam talvez mais do que estava no intento de cada um revelar.

Misturando guerra, amor e literatura, o enredo é empolgante e prende a atenção do espectador, como sempre fazem os filmes de Newell. Não pretendo revelar esse enredo, mas apenas nele apontar um eixo actancial essencial, formando por duas figuras, uma presente na estória, a outra, ausente: a primeira é uma garotinha de quatro anos, kit; a segunda é uma mulher apaixonada e corajosa, Elizabeth, que enfrentou o nazismo de várias formas. Aquela é criada pelos membros da Sociedade literária; esta última, já morta, só a vemos em flashbacks. Naturalmente, se trata de filha e mãe. Pois bem, o modo difícil como a escritora Juliet se apazigua com a Sociedade literária e seus membros passa por essa dupla dramática. E mais não conto.

Baseado no romance homônimo de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows, não sei até que ponto o filme tem raízes na História real, mas, se não tem, bem que poderia ter, pelo menos por uma razão: é que a ilha de Guernsey possui background literário. Foi, no século XIX, refúgio do escritor francês Victor Hugo, que lá morou por quinze anos e lá escreveu o seu magistral “Os miseráveis”.

Como sugere o título do filme (no original: “The Guernsey literary and potato peel pie society”), a literatura é uma dominante na estória, e é uma delícia acompanhar as discussões do grupo sobre quem, das irmãs Brontë, seria a maior, ou coisas desse nível. Depois do desenlace, durante a exposição dos créditos, não desliguem a televisão e fiquem atentos às vozes dos personagens lendo trechos chave dos seus autores preferidos, que vão de Virginia Woolf a Shakespeare, passando por Charlotte Brontë e Robert Louis Stevenson.

Enfim, uma estória de amor (para ser mais correto, duas), um filme de guerra, mas também, uma obra sutil e delicada sobre afinidades literárias e o modo como elas formam e transformam as pessoas, eventualmente unindo-as, ou, no caso de faltar, separando-as.

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Shakespeare, o cinema e eu

31 jul

Neste 2016 celebra-se o aniversário de morte – 400 anos – do maior escritor de língua inglesa e um dos maiores em qualquer língua: William Shakespeare (1564-1616).

Calcula-se que seja Shakespeare o escritor com a maior fortuna crítica do mundo, em outros termos, é aquele sobre quem mais se escreveu. Sabe-se com segurança que sua obra constitui o segundo maior intertexto do mundo, só perdendo para a Bíblia. O que significa dizer que, depois do livro sagrado, é o autor mais citado em obras alheias.

Segundo assegura um certo crítico e estudioso apaixonado, foi Shakespeare quem inventou o humano, e eu acredito.

Entrando no clima da celebração, não penso aqui fazer análises, nem revisões críticas. Quero apenas dar um depoimento de ordem pessoal da minha relação com a obra do Bardo de Stratford-upon-Avon. Só isso.

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É claro que os meus primeiros contatos com Shakespeare foram através do cinema. Eu tinha cerca de onze anos de idade quando assisti, no saudoso Cinema Sto Antônio, em Jaguaribe, João Pessoa, a uma versão cinematográfica de “Otelo”, filme russo, ou melhor, soviético, meio tenebroso que, na ocasião, não entendi muito bem, e que era dirigido – soube tempos depois – por Sergei Yutkevich. A estória do Mouro que mata a esposa inocente eu só a entenderia bem, anos mais tarde, lendo o texto da peça.

Nessa mesma época, no mesmo Sto Antônio, vi “Romeu e Julieta” do Renato Castellani, que inaugurara o cinema dos padres da Igreja do Rosário e, que foi depois reprisado. A tragédia do casal de Verona ficou bem clara para os meus onze anos e nunca esqueci suas imagens, mesmo depois de conhecer o texto original e suas muitas outras versões fílmicas.

Creio que o meu terceiro contato fílmico com Shakespeare foi o “Júlio César” de Joseph Mankiewicz, que é de 1953, mas deve ter chegado a João Pessoa atrasado de anos. Ou o vi em reprise? Não sei. Só sei que quando o vi, eu já era mais crescidinho e lembro que me impressionei com a cena do assassinato no Senado, e com as interpretações de James Mason (Brutus) e Marlon Brando (Marco Antonio).

Foi por esse tempo – final dos anos cinquenta – que vi uma reprise do fordiano “Paixão dos fortes” e, claro, passei batido na cena em que Doc Holiday (Victor Mature) recita trecho de Hamlet. Eram palavras cultas para um faroeste cheio de balas: foi só o que pude notar, e isso já foi muito.

Paixão dos fortes - Doc Holiday recitando Hamlet.

Paixão dos fortes – Doc Holiday recitando Hamlet.

Até então eu nunca havia lido Shakespeare e, na medida em que assistia às adaptações de sua obra, as citadas e as outras que foram chegando, ia construindo na minha cabeça uma visão essencialmente cinematográfica de seu universo, assim como se Shakespeare fosse um roteirista de cinema.

No dia em que, pela primeira vez, li as suas páginas tive uma grande surpresa. Ao contrário do que via no cinema, os cenários eram irrelevantes e tudo dependia dos diálogos: estes construíam o enredo, os personagens e a atmosfera. Claro, era teatro, mas que teatro poderoso, perturbador e poético!

De início li traduções, mas foi o AI-5 que me propiciou a leitura dos originais. Explico-me.

O que ocorre é que, até então, eu escondia que falava inglês, língua que aprendi na adolescência, digo, escondia dos companheiros de luta contra a ditadura, com receio de ser tomado por um pelego do capitalismo. Com o estouro do AI-5, no final dos anos sessenta, o clima – vocês lembram – passou a ser de desolação generalizada. Não era mais viável encontrar os amigos, conversar nas esquinas, ou nos bancos de praça, pois tudo parecia suspeito: de repente, ficou cada um na sua, isolado no seu mundo particular. Foi aí que comecei a ler autores ingleses no original, e Shakespeare entrou na fila. Com o AI-5 vigente, não havia mais condição de combate, sequer de contatos, e então, eu pude me entregar ao delicioso pecado solitário de fazer uso de meu inglês para ler anglo-americanos, sem qualquer patrulhamento ideológico.

O sombrio Rei Lear de Peter Brook, 1971.

O sombrio Rei Lear de Peter Brook, 1971.

Onde conseguia esses originais? Fácil: na residência do amigo Archidy Picado (pai), na época, defronte ao Colégio Sagrada Família, também em Jaguaribe, uma verdadeira biblioteca de literatura estrangeira da melhor qualidade, cujas estantes repletas a gente avistava só de passar na calçada. Thanks, Archidy!

Logo depois fui fazer os cursos de Letras na universidade (Português, Inglês e Francês) e pude estudar Shakespeare com mais afinco, sob orientação docente. Vitória Lima foi minha primeira professora de Shakespeare, e mais tarde, Dr. Michael Smith e Dra Letícia Niederauer. Em 1977, já na condição de professor, entrei no Mestrado de literatura anglo-americana e defendi dissertação sobre o “Rei Lear”. A partir daí, passei a ensinar literatura inglesa com foco no Renascimento, e Shakespeare virou pauta das aulas que ministrei na graduação de Letras… durante trinta anos (ufa!), até a aposentadoria.

Em semestres letivos sucessivos, estudei, com turmas diferentes, quase todas as tragédias shakespearianas, embora sempre reservasse um tempo especial para os 154 sonetos, dos quais só dava para ver seis ou sete com cada turma. Tanto mastiguei, com os alunos, os seus pentâmetros jâmbicos que alguns desses sonetos aprendi de cor, e ainda hoje os recito, como se estivesse cantando. Aliás, para os alunos com dificuldade em metrificação, sugeria que cantassem o soneto estudado com a música do Hino Nacional brasileiro, pois os decassílabos deste coincidiam perfeitamente com os pentâmetros shakespearianos, compostos de cinco pés, cada pé com duas sílabas).

Obviamente, quanto mais me familiarizava com Shakespeare, mais crítico me tornava dos filmes que o adaptavam à tela. Por outro lado, ou pelo mesmo, não perdia um. A quantos assisti? Impossível dizer, até porque, a essa altura dos acontecimentos, a lista já é quilométrica.

O Lear de Kurosawa.

O Lear de Kurosawa.

O livro Guiness de Recordes registra 410 adaptações de Shakespeare para o cinema, mas, se o número parece alto, o IMBD (Internet Movie Data Base) afirma que 1.158 filmes já tiveram seus roteiros baseados em obras de Shakespeare.

No geral, os enredos das peças são respeitados, embora, claro, ninguém se livre das operações que são inevitáveis em toda e qualquer adaptação literária para o cinema. Como indico em meu livro “Literatura no cinema” (São Paulo: Unimarco, 2006), vai sempre haver cortes, adições, deslocamentos, transformações, simplificações e ampliações, e isto nos três níveis: dos personagens, do enredo e da linguagem propriamente dita.

Como já disse, aqui não pretendo proceder a análises, muito menos das adaptações shakespearianas, mesmo porque não haveria espaço para tanto, porém, pode ser interessante lembrar alguns casos, sobretudo os que fugiram às convenções.

Um caso até certo ponto estranho, por exemplo, é o de Baz Lurhmann, em seu “Romeo + Julieta” (1997) que traz a estória do casal infeliz para Miami, e, no entanto, mantém a linguagem arcaica da peça, tal como foi escrita pela mão do Bardo – deixando o anacronismo para o espectador resolver.

West Side Story: um amor proibido por gangues

West Side Story: um amor proibido por gangues

Caso bem conhecido é o do musical “West Side Story” (“Amor sublime amor”, 1961) em que Jerome Robbins e Robert Wise transportam o drama de “Romeu e Julieta” para a zona mais pobre de Nova Iorque, os dois amantes agora pressionados, não mais pelas nobres famílias, mas por gangues de rua antagônicas.

Em “Prospero´s Books” (“A última tempestade”, 1991) Peter Greenaway mantém o cenário idílico de “A tempestade”, mas o enredo e a encenação são tão pessoais/experimentais que fica difícil para o leitor/espectador estabelecer as relações com o original.

Em “Ran” de Akira Kurosawa (1985) as três filhas do rei (Lear em Shakespeare) passam a ser homens, e o conflito com o pai idoso e auto-destronado ocorre no Japão medieval. Uma mudança e tanto, e contudo, o tom trágico é o mesmo.

Uma das experiências mais curiosas é a que fez Al Pacino com “Ricardo III”. Ao invés de proceder à adaptação da peça, rodou um filme sobre a impossibilidade de filmá-la, uma espécie de ensaio cinematográfico em que se justapõem cenas da peça original com os bastidores das filmagens e entrevistas com atores e diretores de Shakespeare, além de discussões sobre a linguagem do teatro e do cinema.

"Hamlet", de Kenneth Branah

“Hamlet”, de Kenneth Branah

E nem sempre são as peças que se adaptam. Em “Diálogos angelicais” (“The angelic conversation”, 1985) o cineasta Derek Jarman prefere inspirar-se nos Sonetos shakespearianos, especialmente naqueles do início, em que o interlocutor do eu lírico é o belo e jovem mancebo, o ´handsome young man´ da crítica e historiografia.

Estes são casos especiais, mas acho que vai haver reclamações dos leitores se eu não citar as adaptações canônicas, aquelas referenciadas pela crítica internacional e pela academia. Destas cito dez, em ordem cronológica:

“Romeu e Julieta” (George Cukor, 1936); “Hamlet” (Laurence Olivier, 1948), “Macbeth” (Orson Welles, 1948); “Otelo” (O. Welles, 1952); “Júlio César” (Joseph Mankiewicz, 1953); “Trono manchado de sangue” (Akira Kurosawa, 1957); “Romeu e Julieta” (Franco Zeffirelli, 1968); “Rei Lear” (Peter Brooks, 1971); “Macbeth” (Roman Polanski, 1971); “Hamlet” (Kenneth Branah, 1996).

Voltando ao Shakespeare literário, não posso encerrar este depoimento sem uma referência aos seus leitores. Sim, porque tão fascinante quanto Shakespeare são, às vezes, os shakespearianos.

Solha (de barba) ao tempo em que o conheci...

Solha (de barba) ao tempo em que o conheci…

O shakespeariano mais fascinante que conheço chama-se W. J. Solha. Uma das cenas indeléveis da minha vida foi o dia em que o conheci, lá por volta de 1981. Eu havia publicado no Correio das Artes uma matéria sobre o Bardo, chamada “Bakhtin e o carnavalesco em Shakespeare” – resumo de minha dissertação de mestrado – que Solha leu, e sem me conhecer, pediu a Sérgio de Castro Pinto, o editor, para lhe passar o número do meu telefone. Conversamos e um dia fui visitá-lo ali no Banco do Brasil, agência do Centro.

Entrei na sala do primeiro andar e lá estava ele, alto, alvo, simpático, falastrão, rodeado de papéis e números que, ao me ver, abandonou, e me abriu um sorriso largo de quem encontrava um cúmplice de paixão shakespeariana. E foi me bombardeando com cenas, citações e temas, discorrendo sobre os personagens das muitas peças de Shakespeare como se fossem seus vizinhos, ou amigos de longa data.

Ao longo de minha vida acadêmica participei de muitos seminários e colóquios literários, e estive em contato com scholars que dominam a fortuna crítica e os vastos conceitos sobre a poética de William Shakespeare, porém, nunca conheci ninguém que tivesse do Bardo o conhecimento empírico que Solha tem. Se precisássemos de prova, uma seria o seu belo Painel dos personagens shakespearianos, em exposição perene na reitoria da Universidade Federal da Paraíba. Aliás, prova também de seu assombroso talento.

Enfim, fecho esta matéria com o clichê inevitável. É impressionante como, quatrocentos anos após sua morte, a obra de William Shakespeare continua pulsando em nossas veias. Em um de seus dísticos ele mesmo o previra: “So long as men can breathe or eyes can see, so long lives this…” O verso refere-se ao Soneto 18, mas, claro, vale para a obra inteira.

“O mercado de notícias”

12 set

Antes da existência da imprensa eram os mensageiros os responsáveis pela transmissão das notícias, esses verdadeiros ´moleques de recado´ da antiguidade, que percorriam distâncias para levar informação aos interessados.

Um mensageiro vagaroso podia provocar tragédia, como foi o caso daquele que, correndo entre Verona e Mantua, não chegou a tempo de avisar a Romeu sobre o entorpecente ingerido por Julieta. Conta-se que, no antigo Egito, a rainha Cleópatra castigava com chicotadas nas costas os mensageiros que lhe traziam notícias ruins, e agradava com prendas, quando as notícias eram boas.

Gutenberg mudou tudo, e já no século XVII os jornais tomaram o lugar dos vetustos mensageiros, despejando notícias a quem quisesse recebê-las, ou não. Rápido os jornais viraram empresas poderosas e, em 1625, o escritor inglês Ben Jonson já encena sua peça “The Staple of News”, satirizando o poder da imprensa no mundo.

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Pois é essa peça inglesa, tão pouco conhecida entre nós, que serve de pretexto para o filme de Jorge Furtado “O mercado de notícias” (2013), em cartaz na cidade e no país.

O filme se apoia nos dois pilares do cinema, a ficção e o documento, para discutir o mesmo tema: a imprensa e seu papel na sociedade. Assim, cenas da peça de Jonson se intercalam a depoimentos atuais de jornalistas brasileiros. Eu disse dois pilares, mas talvez sejam três, pois o cineasta inclui, no corpo do filme, cenas metalinguísticas de bastidores da produção.

Notícia, fato, mentira, verdade, parcialidade, jornalista, jornalismo… os tópicos vão se sucedendo, introduzidos por legendas e discutidos pelos profissionais da área, e/ou ilustrados por cenas da peça. Praticamente, todas as grandes questões atinentes à imprensa aparecem, algumas exemplificadas com casos locais, dos quais menciono dois:

Aquela bolinha de papel que, durante a campanha para Presidente, atingiu a careca de José Serra e, incrivelmente, o levou ao hospital, como se se tratasse de um grave atentado dos adversários. Ou o caso daquele quadro comprado pelo INSS de Brasília, e lá ainda hoje exposto, como um autêntico Picasso, quando não passa de um pôster do original, este perfeitamente visitável no Museu Guggenheim de Nova Iorque.

A cobiçada Pecúnia

A cobiçada Pecúnia

Inevitavelmente, o tópico mais quente na pauta do filme é a questão do até que ponto o jornalista reproduz fielmente o fato noticiado… ou o ´retoca´ e, eventualmente, o deforma. Também inevitavelmente, o último item discutido (denominado “revolução”) tinha que ser o novo rumo que tomam as coisas com o advento da Internet – fator tecnológico tão novo e inquietante hoje quanto o foi a imprensa escrita nos tempos de Jonson.

Aliás, além de demonizar os jornais da época, a peça de Jonson tinha um plot próprio, sobre a família Pennyboy (o sobrenome já diz tudo) e seu ardiloso intento de desposar a bela Pecúnia (outro sobrenome óbvio). Como, no filme de Furtado, a peça não é encenada em sua compleição, esse plot fica obscuro e confuso para o espectador que desconhece o original.

Outra coisa: gostei do filme, inteligente e – como a peça de Jonson – irônico, porém, francamente, não vejo por que o cineasta se absteve de fazer referências cinematográficas, que, creio eu, tornariam o filme mais interessante do que já é.

Por exemplo, uma que vejo como obrigatória num filme desses é a da famosa cena final de “O homem que matou o facínora” (John Ford, 1962), no momento em que o jornalista afirma que “quando a lenda supera o fato, imprima-se a lenda”. Acho que, na sequência em que se discute o problema da verdade na imprensa a famosa fala teria que ser mencionada.

Cena da peça dentro do filme.

Cena da peça dentro do filme.

A outra seria qualquer cena ou fala de “Última hora” (Lewis Milestone, 1930) e por quê? Ora, se a peça de Jonson foi a primeira na história do teatro e da literatura a tratar da imprensa, este filme, por sua vez, foi o primeiro a fazê-lo na história do cinema. Teria sido legal apontar o elo entre os dois começos.

Não sei que desempenho está tendo “O mercado de notícias” nos circuitos comerciais de exibição, mas, de uma coisa estou certo: sua cópia em DVD vai fazer o maior sucesso nos cursos de comunicação e jornalismo das universidades brasileiras.

E aproveito o ensejo para lembrar, a quem for usá-lo didaticamente – ou simplesmente a nossos leitores – outros filmes, além dos dois já citados, sobre a grande temática da imprensa, escrita, falada ou vista. Eis pelo menos dez títulos, em ordem cronológica:

Jejum de amor (Howard Hawks, 1940); Cidadão Kane (Orson Welles, 1941); A montanha dos sete abutres (Billy Wilder, 1951); Um rosto na multidão (Elia Kazan, 1957); A embriaguez do sucesso (Alexander McKendrick, 1957); A doce vida (Federico Fellini, 1960); Viver por viver (Claude Lelouch, 1967); A primeira página (Billy Wilder, 1974); Todos os homens do presidente (Alan Pakula, 1976); e Rede de Intrigas (Sidney Lumet, 1976).

O cineasta gaúcho Jorge Furtado filmando.

O cineasta gaúcho Jorge Furtado filmando.

 

“A Malvada” às avessas

29 out

Misturar ficção literária e cinema e se sair bem não é para todo mundo. Quem faz isto é o jovem escritor inglês David Nicholls em seu recente romance “The understudy” (Hodder, 2005), no Brasil traduzido para “O substituto”.

A palavra ´understudy´ designa aquela profissão do mundo do teatro que a gente pode chamar livremente de ´ator de reserva´: você decora toda a fala de um dado personagem de uma peça, ensaia com o mesmo rigor dos atores titulares, porém, nunca vai ao palco… a não ser que o ator titular do seu personagem fique, por alguma razão, impossibilitado de atuar. Se isto nunca ocorrer, você nunca atuará, por mais que domine o seu papel.

understudy-logo

No livro de Nicholls esta é a profissão de Stephen C. McQueen, um quarentão descasado, com todo o perfil de ´loser´, que ainda ama a ex-esposa e que vive fazendo esforços para alimentar o afeto da filha, uma garota de oito anos.

Mas, se o cenário do livro é o teatro, o imaginário, não. O imaginário é definitivamente o cinema, conforme já está ironicamente prometido no nome do protagonista, quase o mesmo do famoso ator hollywoodiano Steve McQueen. Só que, ao contrário do astro americano, Stephen vive, como quebra-galho, fazendo pontas em produções cinematográficas locais, geralmente em papéis obscuros e pouco visíveis, em muito casos, e sintomaticamente, como mortos, vítimas descartáveis, ou equivalentes. A peça todo dia encenada, em que Stephen é reserva, versa sobre a vida do poeta Byron, e, no entanto, os grandes intertextos do livro não são literários, nem teatrais.

capa da edição brasileira de "The Understudy"

capa da edição brasileira de “The Understudy”

O fato é que Stephen é um cinéfilo viciado que, quando não está diante da tela, está pensando cinema o tempo todo. Claro, essa cinefilia obsessiva é partilhada pelo próprio narrador da estória, que, quase sempre, antes de introduzir um novo episódio, gasta tempo imaginando como ele seria se se tratasse de um filme.

Isto para não dizer que os capítulos do livro têm títulos sempre – digamos – “cinematográficos”, nomes de atores/atrizes, fatos do show business, ou títulos de filmes conhecidos. Por exemplo, o capítulo em que se descrevem os dotes físicos da ex-esposa de Stephen é, por causa de uma vaga semelhança, intitulado “Lauren Bacall”. Outro exemplo: um capítulo do livro se chama: “The awful truth”, e aqui confesso que li o livro no original, e fico imaginando as dificuldades do tradutor da edição brasileira, já que este filme teve, no Brasil, um título completamente diferente, e que não se coaduna com o conteúdo do capítulo que encabeça. Sim, “The awful truth” (´a terrível verdade´) se chamou por aqui “Cupido é moleque teimoso”.

Na verdade, o que não dá para esconder é que o livro todo foi concebido para virar cinema, aliás, como a maior parte da literatura ficcional que se escreve hoje em dia mundo afora. Não sei se dará um bom filme, tão bom quanto o é, de fato, o romance, irônico, engraçado, divertido.

A estória é simples. Esse deprimido e atropelado Stephen C. McQueen está sendo o reserva de um famoso ator londrino, Josh Harper, um astro que as revistas especializadas já consideram o décimo segundo homem mais sexy do mundo. Mesmo sem maldade, Stephen vive sonhando com a chance de alguma coisa acontecer ao astro, para que possa substituí-lo no palco e – quem sabe? – a crítica especializada notar sua presença e seu desempenho, e daí, ele deslanchar sua própria carreira. Mas, o que pode acontecer a Josh? Um piano cair na sua cabeça? Stephen chega a ter um sonho politicamente incorreto com o tal providencial piano, mas foi só um sonho…

David Nicholls, autor de "The Understudy"

David Nicholls, autor de “The Understudy”

Enquanto isso, trabalhando de garçon numa festa na mansão de Josh, Stephen conhece Nora, a esposa do anfitrião, e uma improvável amizade começa a brotar entre os dois. Não pretendo contar o resto da estória, mas não resisto em dizer que o andamento da narrativa, e mais ainda o desenlace, sugerem um certo emprego dúbio para a palavra titular ´understudy´, ao mudar o contexto profissional do teatro para o universo amoroso.

Fazia tempo que não me divertia tanto lendo um livro; bem entendido, não que ele tenha me provocado risadas, mas, o tempo inteiro, do primeiro ao último parágrafo, aquele estado de espírito de leveza que nos acomete ao nos darmos conta de estarmos lendo um texto extremamente inteligente e inspirado.

Voltando à presença do cinema no livro, quer me parecer que o intertexto mais forte é justamente o não nomeado e que funciona como um escondido mas ubíquo contraponto à narrativa. Refiro-me à estória, bem conhecida dos espectadores de cinema, de uma certa “understudy” que cometeu todas as incorreções políticas – todas as que o nosso Stephen não ousou – para tomar o lugar da atriz titular… e tomou.  Sim, de alguma maneira sutil, o livro de Nicholls é “A malvada” às avessas.

E lembro ao leitor que o filme de Joseph Mankiewicz, 1950, foi há pouco comentado neste blog.