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LEITURAS DA QUARENTENA (3)

22 abr

NO GABINETE DO DR. CALLIGARIS

 

Não. Não me refiro ao filme de Robert Wiene (1922), “O gabinete do Dr. Caligari”. O sobrenome do doutor aqui é outro, embora parecido.

Refiro-me a Contardo Calligaris, esse psicanalista ítalo-brasileiro que, há tempos, nos brinda com suas cativantes crônicas na Folha de São Paulo. Mais especificamente refiro-me a seu livro “Terra de ninguém” (Publifolha, 2004) que reúne cento e uma dessas crônicas, veiculadas pelo jornal entre 2000 e 2005.

O título do livro já tem origem curiosa. Segundo consta, no período da escritura, o autor estava viajando com frequência, entre Boston e São Paulo, e, portanto, passava muito tempo em aeroportos, mais especificamente, naquele setor do “Duty free” que, do ponto de vista financeiro é, como se sabe, “terra de ninguém”. E a metáfora pegou.

Em vista do período abarcado, algumas das crônicas nos soam datadas, sobre questões – politicas, econômicas, culturais, ou outras – que foram notícia na ocasião, mas que hoje, embora resguardem sua importância histórica – parecem coisas esquecíveis. Não há como negar, a melhor parte do livro é a que diz respeito a problemas atemporais, como os de ordem mais subjetiva, sobre questões morais, comportamentais, ou sobre o relacionamento entre as pessoas, casais, pais e filhos, etc.

Um leitor atento poderia, se quisesse, levantar uma tipologia dessas crônicas. Há as de efemérides (o Natal é uma constante); as fundadas em notícias, nacionais ou internacionais (a guerra do Iraque, a posse de Lula, etc); as da vida diária (as mais frequentes, sobre relacionamentos). E assim por diante.

Um destaque dou para a relação do autor com o cinema, arte muitas vezes mencionada ao meio do texto, como ilustração de um conceito ou problema. Sem contar, as que diretamente comentam filmes, nem sempre os dramas esperados, mas também os blockbusters, como as séries do Homem Aranha, e, mais um pouco, de Harry Porter, de quem o autor se revela um aficionado, tanto dos livros como dos filmes.

Um caso todo especial, que, por ser raro, não sei se encontraria lugar na tipologia, é o da crônica que trata de um pequeno incidente da vida do autor, um incidente aparentemente sem importância, mas que a abordagem eleva à condição de pura poesia. Um texto dentro desse raro padrão é aquele terceiro (página 27), chamado “Um conto de fim de ano”, onde a personagem descrita é uma jovem desconhecida sem nome que bate à porta do autor, e ele, sem ouvir uma só palavra de sua fala, se deslumbra com sua figura, como se se tratasse de um anjo benfeitor que foi mandado pelo céu para enfeitar seu triste final de ano. Uma página de poesia.

Nesse livro tão pessoal, haveria um posicionamento ideológico identificável? Nem os textos “políticos” nos dão uma pista clara. Sintomaticamente, na introdução, falando de si mesmo, o autor conta que toda vez que se vê, na vida, convicto de uma opinião, tende a se sentir incômodo. E ele próprio lembra que por vezes foi chamado, por amigos ou familiares, de “do contra”, ou de “em cima do muro”.

Para o bem ou para o mal, ostensiva é sua aversão à abstração e sua queda – várias vezes formulada – pelo concreto. E aí o leitor talvez sinta a voz do psicanalista que luta (em vão?) para conciliar conceitos psicológicos com as dores concretas dos seus pacientes.

De toda forma, há conceitos – digamos – sócio-antropológicos que são detectáveis. O de “modernidade”, por exemplo, é um deles, usado (nas variantes “o homem moderno”, “o moderno que há em nós”, etc) com uma assiduidade que dá na vista. A essa modernidade se opõe uma tradição, de acepção tão vasta – e, portanto, vaga – quanto seu antônimo.

No todo, o que emerge desse livro sincero e sentido é a experiência de uma mente criativa, inquieta, insatisfeita, com vasta experiência no terreno do humano, demasiadamente humano, e que conosco partilha suas dúvidas, mais que suas certezas. Evidentemente, entra nisso sua lida de psicanalista e em muitas dessas crônicas percebe-se, sim, a referência a casos “concretos” (vide acima) de seus muitos pacientes, ouvidos, sentidos, e assimilados aparentemente como lições de vida.

Esse “aprendizado de consultório” é uma lenha fina que acende a lareira no gabinete do Dr. Calligaris. E nos aquece…

 

Em tempo: veja, abaixo, os números 2 e 1 desta série.

Café Alvear

10 ago

Tarde fria de agosto. Vento forte lá fora e eventual neblina. A sesta já feita, na rede como sempre, vontade de ver um filme, ou ler um livro. Qual dos dois? Sem convicção, me levanto e, hesitante, espio em torno de minhas estantes, e o acaso decide por mim.

Bem na minha cara, cobrando leitura havia dias, o “Café Alvear” do mestre Gonzaga Rodrigues, a cujo lançamento compareci e deixei para ler em momento propício. Tarde fria de agosto: há momento mais propício para ler Gonzaga Rodrigues? Volto à rede, abro o livro e não paro mais.

De repente, estou na João Pessoa dos anos cinquenta, no antigo Café do Ponto de Cem Réis, em companhia de figuras que fizeram a vida jornalística, cultural, intelectual e política da Paraíba e/ou do Brasil, figuras que só conheci de nome, ou, alguns, sequer de nome.

Quase sempre (auto)descrito como modesto coadjuvante, Gonzaga está lá, ainda bem. Mas não só como personagem, digo, Gonzaga está lá, com seu estilo original, peculiar, elegante, atraente, saboroso, poético. O estilo, afinal de contas, a que estamos acostumados há tanto tempo, e que continuamos amando, como se ama, a vida inteira, um ente querido.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

O cronista maior Gonzaga Rodrigues.

Esforço de memorialista, o livro reconstitui uma época, com suas paisagens, seus episódios e seus vultos, tudo verídico e tudo sincero. Esse é um dos prazeres que nos proporciona. O outro é o de só chegarmos lá pelo viés poético do narrador/descritor. Mas não façamos rupturas: o conjunto das duas coisas é o que nos encanta, e o que dá personalidade a um livro de crônicas.

Autônomas, as crônicas podem ser lidas fora de ordem, porém, na organização do índice, chega a haver uma cronologia intencional que o leitor acompanha com interesse. Do governo de Getúlio à Ditadura de 64, do tempo local de José Américo governador da Paraíba à data de sua morte, segue-se um roteiro elástico e móvel que abrange tanto os acontecimentos históricos propriamente ditos, como os estritamente autobiográficos.

Na maior parte das vezes o histórico e o biográfico se fundem de forma inconsútil e tocante. Para dar um só exemplo, um caso assim é o da crônica “Brahms, Brahms, Brahms” em que Gonzaga magistralmente trata do suicídio do presidente Getúlio Vargas e sua repercussão local e bem pessoal, fechando o texto com a frase lapidar: “O sol daquela hora começava a incomodar. Era noite em todos nós.”

Como admitido pelo autor no capítulo inicial que explica o título, o livro foi montado a partir de crônicas que deviam refazer a memória política e cultural do próprio Gonzaga.

Sempre Gonzaga...

Sempre Gonzaga…

E, contudo, é tocante como o espaço concedido ao alheio é enorme – grande lição de alteridade. Com efeito, os muitos personagens da vida pessoense – políticos, empresários, funcionários públicos, militantes, colegas de trabalho, amigos ou meros conhecidos, até desafetos – tomam às vezes conta da diegese e como que “apagam” o nosso Gonzaga, na maior parte dos casos, humildemente posto em posição de mera testemunha. Apagariam, se – para o leitor – o estilo do narrador não o mantivesse em primeiríssimo plano.

Dentre os vultos locais recriados, confesso que o que mais me tocou foi o retrato de Juarez da Gama Batista, “o magro de olhos poderosos” que dirigiu o jornal “A União” ao tempo em que Gonzaga lá começava sua carreira de jornalista. Tocou-me particularmente porque esse eu conheci mais de perto, quando o tive como professor de literatura na UFPB. O que dele diz Gonzaga casa com o que presenciei no eventual convívio que tive com Juarez, não apenas grande professor, mas homem fino e atencioso que trocava figurinhas literárias comigo nos corredores da FAFI, onde falávamos dos autores que amávamos, um deles lembro bem, Aldous Huxley. Eu tinha lido “Time must have a stop” que Juarez, profundo conhecedor de Huxley, por acaso não conhecia e a conversa foi longe e abriu porteiras para outros assuntos.

Mesmo quando é protagonista da crônica, notem que Gonzaga nunca aparece como herói. Seus momentos de glória – que na vida os teve, sim – não aparecem. Nesse aspecto, uma crônica sintomática – aliás, bela crônica – narra o dia do Golpe Militar, que vai encontrar o comunista Gonzaga no Hospital havia quatro meses, acometido de tuberculose. “Da janela do hospital”, ele vê, ou melhor, ouve tudo acontecer, impotente, mas, ao mesmo tempo, protegido pela sua condição de paciente grave. Densa narração cheia de medos e culpas…

No lançamento de "Café Alvear", com o autor e amigos.

No lançamento de “Café Alvear”, com o autor e amigos.

Talvez no espírito do “poema em linha reta” de Fernando Pessoa, quase sempre os papéis a ele reservados por ele mesmo são problemáticos, tensos, sofridos, e mesmo patéticos, como naquele incidente em que, encarregado de, pela primeira vez, entrevistar um figurão em uma mansão da João Machado, ridiculamente vestido com paletó de tamanho maior que seu corpo então franzino, tomba do pufe onde estava sentado e espalha seus papéis pelo piso da sala, entre os sapatos dos visitantes – para quem visualiza seu relato, verdadeiro Carlitos, fazendo comédia sem querer.

Enfim, ao fechar as páginas de “Café Alvear” a noite tinha chegado e me espojei na rede, ainda saboreando a leitura, feliz de viver numa cidade em que Gonzaga Rodrigues, com seu enorme talento de cronista, escondido por trás de sua folclórica modéstia, pontifica.

O vento passara, mas a chuva persistia. Ergui-me da rede e fui tomar a minha habitual taça de vinho antes da janta… desta vez com um brinde a Gonzaga, claro.

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