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O céu em teu amor

29 maio

 

Estórias de casais apaixonados pululam na literatura e no cinema. O caso é mais empolgante se os dois amantes são poetas. Mais ainda se o caso é verídico.

Pois, a mais famosa estória real de amor da literatura aconteceu na Inglaterra vitoriana, segunda metade do século XIX, entre a poetisa Elizabeth Barrett e o poeta Robert Browning.

Elizabeth escrevia poesia desde pequena e quando conheceu Robert já era uma escritora consagrada. Doente de um mal espinal, vivia em casa, a maior parte do tempo numa poltrona, rodeada dos muitos irmãos e irmãs. A mãe era falecida havia muito tempo, e, desde então, o pai se tornara um tirano que, estranhamente, não permitia casamentos para nenhum dos filhos. Seis anos mais novo e menos conhecido, Robert apaixonou-se pelos seus versos… e por ela. Iniciaram uma correspondência, e as cartas, cada vez mais frequentes, foram reforçando a reciprocidade dos sentimentos.

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Um dia ele teve a coragem de ir visitá-la em sua mansão da rua Wimpole, e, a partir de então, a saúde da moça começou a melhorar, com a perspectiva de viver um grande amor. Na medida em que melhorava, pioravam as reações desfavoráveis do pai. Este proibiu terminantemente o caso e, numa tarde de setembro de 1846, o casal fugiu, casou, e foi passar a lua de mel em Paris. O pai deserdou-a, mas dinheiro não estava nos planos do casal apaixonado, que foi viver na Itália, e como se diz nos contos de fada, foram felizes para sempre.

Nenhum dos dois parou de escrever, e hoje, como se sabe, Elizabeth Barrett Browning e Robert Browning são dois dos grandes nomes da literatura inglesa, especialmente no terreno poético. Ela autora, entre tantos outros títulos, dos deliciosos “Sonnets from the Portuguese”, e ele, dos belos “Dramatic Lyrics”.

A vida na Itália foi essencial para os dois. Elizabeth desabrochou nos dois sentidos, o literário e o vital. Chegou a gerar um filho, o que não se esperava de seu estado de saúde. Quanto a Robert Browning, encontrou naquele país o cenário renascentista e os personagens perfeitos para os seus sombrios e irônicos ´monólogos dramáticos´ que o consagrariam como um poeta maior.

O casal poético no altar

O casal poético no altar

Sempre achei que a estória do casal dava cinema, mas nunca tive notícia da existência de um filme que contasse o caso.

Agora, meio por acaso, me deparo com este “O céu em teu amor” (“The Barretts of Wimpole Street”), uma produção de 1957 da MGM que, se foi exibida localmente, não sei dizer. Com direção de Sidney Franklin, o filme tem Jennifer Jones e Bill Travers no papel do casal de poetas apaixonados.

Leitor da poesia intensa e lírica de Barrett e da poesia desconcertante e profunda de Browning, esperei muito do filme que, lamentavelmente, não correspondeu às minhas expectativas. Em nenhum momento, vislumbra-se a grandeza dos protagonistas, que mais parecem duas pessoas comuns, vivendo o mais banal dos casos de amor, daquele tipo ´os empecilhos estimulam a paixão´. Não há referências aos poemas, e sequer se mostra Barrett em algum momento envolvida com sua produção poética, ou discutindo-a. A rigor, gasta-se mais tempo com as peripécias de seu cachorrinho de estimação do que com sua vocação poética.

Um quadro da Era Vitoriana...

Um quadro da Era Vitoriana…

A impressão é que os produtores, supondo que o público sabia quem eram os protagonistas, não investiram em nada que fosse de natureza literária. Pode ser que isto tenha valido para as plateias anglo-americanas, que estudaram os dois poetas em sala de aula, mas, suponho que no Brasil, o filme foi visto somente como mais um melodrama, dos muitos que se cometiam nos anos cinquenta, e nada mais. A outra alternativa, talvez mais provável, é que não tiveram os autores do filme a capacidade de compreender, e recriar, a dimensão superior dos personagens. O mais grave mesmo é que o filme não é poético.

Leio que a estória vem de uma peça que, nos anos 30, fez sucesso na Broadway. De fato, o filme tem mais esse pecado, o de limitar-se ao ambiente fechado da mansão Barrett. Ainda que não detenha a informação da origem do texto, o espectador nota a teatralidade das encenações, sempre limitadas por paredes e repletas de diálogos mais longos que o habitual. Esse diálogo quer, às vezes, ecoar o lirismo da poesia dos autores enfocados, mas não consegue: “I shall love you to the end – and beyond”, diz Robert a Elizabeth, em momento de enlevo. E nisso fica.

Fica longe a beleza dos versos que a poetisa dedicou ao amado, no já citado “Sonnets from the Portuguese”, livro cujo título, a propósito, nada tem a ver com a língua portuguesa: era só o apelido carinhoso que Robert dera à amada, por ter ela cabelos negros que lembravam os de uma nativa de Portugal.

Dizem que há uma outra versão fílmica, mais antiga, da estória. Espero um dia lhe ter acesso e me decepcionar um pouco menos.

Jennifer Jones: os cabelos escuros de Elizabeth Barrett

Jennifer Jones: os cabelos escuros de Elizabeth Barrett

 

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Pride

21 abr

Nos anos oitenta, sob o regime da dama de ferro Margareth Thatcher, a Inglaterra conheceu um fato digno de estudos sociológicos: uma greve de mineiros do Interior recebe o apoio voluntário de um grupo de homossexuais de Londres.

A greve é frustrada, mas, um ano depois, quando os gays e lésbicas organizam um grande evento em defesa da diversidade sexual, os mineiros ex-grevistas – para surpresa de todos – comparecem e, publicamente, manifestam o seu apoio, igualmente voluntário.

Histórico, o fato foi, na época, entendido como um sintoma de que é possível a solidariedade entre homossexuais e heterossexuais, cada um na sua, e cada um respeitando as inclinações e os direitos do outro.

Pois agora o fato histórico virou filme. Em “Pride” (2014), o diretor Stephen Beresford reconstitui, ficcionalmente, a estória toda da greve de 1985, e pode se dizer que o faz muito bem.

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O tempo de tela fica dividido entre, de um lado, os gays e lésbicas que em Londres coletam, nas ruas, o dinheiro em apoio à greve mineira, e, do outro, os poucos cidadãos do lugarejo de Onllyin, no vale galês de Dulais, que ousam recebê-los – a eles e à sua grana coletada – claro, de bom grado e com gratidão. E a narração, com bom senso, procura o equilíbrio entre o coletivo e o individual. Assim, ora o grupo é visto como um todo, ora vão se ter as estórias privadas de alguns dos participantes do movimento, quer do lado homo, quer do lado hetero. Um deles é esse rapaz que, ao longo do movimento grevista, adquire a coragem de assumir sua condição homo e enfrentar a família conservadora. Do outro lado (digo, o hetero), temos a estória dessa modesta dona de casa que, no mesmo processo grevista, se descobre uma líder com destino político.

Claro, num filme desses, cenas sobre o preconceito são obrigatórias, um pouco mais ainda em um tempo em que a Aids ainda era um mistério assombroso e sem controle. Por exemplo, quando os gays que apoiam os mineiros grevistas são chamados pela imprensa de ´pervertidos´, a gente lembra que na Inglaterra de vinte anos atrás, ou seja, anos sessenta, a homossexualidade ainda era, por lei, considerada crime.

Lésbicas e gays apoiam mineiros em greve

Lésbicas e gays apoiam mineiros em greve

Mas, um cuidado todo especial do filme é não parecer tendencioso. Homos ou heteros, todos são descritos como seres humanos, capazes de gestos nobres e vis. Como, segundo consta, a roteirização foi elaborada a partir de pesquisa de campo, supomos que o filme faça justiça aos personagens reais.

Uma coisa boa é a reconstituição de época, e, nela, a música tem um papel decisivo. Sucessos dos anos oitenta se repetem em série, sempre acompanhando as cenas coletivas, aquelas em que a ação conjunta, e não os diálogos, mais interessam. Inevitavelmente, a dança, mesmo sendo um elemento pontual, ganha um papel sintomático. Caso daquela cena no baile, em que as mocinhas do lugar ficam fascinadas com um gay que “arrasa” dançando, e esquecem os machos locais que mal conseguem mexer os ombros. Agora, atenção: dando certo com a tentativa de distanciamento do diretor sobre a questão sexual, observemos que não é um grupo de gays que dança: o dançarino que dá seu show é um único gay, enquanto os outros o observam de longe, tão admirados e intrigados quanto os machões presentes.

É verdade que a cena final parece apoteótica, com os ônibus chegando ao local da manifestação Gay Pride, deles desembarcando os mineiros, que vêm do Interior só para apoiar um evento homossexual, mas, nisso o autor do filme tem um atenuante em seu favor: como já dito, o fato aconteceu!

Os bastidores do movimento

Os bastidores do movimento

Nos créditos finais, são acrescidas informações sobre o destino dos personagens principais. Por exemplo: o jovem homossexual que encabeçou o movimento pro-mineiros grevistas morreu de Aids dois anos depois, e a aquela humilde dona de casa, acima referida, que entrou de corpo e alma na greve, fez brilhante carreira política e ainda hoje ocupa importante cargo no Parlamento Britânico.

Para quem já conhecia a história verídica da greve inglesa, “Pride” deve talvez parecer previsível. Por sua vez, previsível vai ser a sua recepção, a depender das tribos. Com certeza, a tribo dos homófobos vai subestimá-lo e, mutatis mutandis, a dos homossexuais vai superestimá-lo.

Para aqueles – como eu – sem tribo, trata-se de uma boa realização fílmica, feita com talento e humor, com o adicional de trazer à tona questões importantes para a construção disso que se chama cidadania, essa palavra que, hoje em dia, circula de boca em boca, sem que aparentemente os seus usuários compreendam bem a extensão de seu significado.

Mineiros em greve contra o terror Thatcher

Mineiros em greve contra o terror Thatcher

 

Mary Poppins e Walt Disney

11 mar

Faço esforços e não lembro as reações locais a “Mary Poppins”. O filme dos Estúdios Disney é de 64 e deve ter sido exibido por aqui no ano seguinte. Fico pensando se o clima ´político´ da época não teria interferido. Pessoalmente, me recordo de tê-lo visto numa matinée melancólica do Plaza, como se estivesse diante de algo bonito, mas anacrônico, retrô, sei lá.

Meio século depois, está de volta a questão, no filme de John Lee Hancock “Walt nos bastidores de Mary Poppins” (2013), em cartaz na cidade e no país.

Um dos posters de "Walt nos bastidores de Mary Poppins" (2013)

Um dos posters de “Walt nos bastidores de Mary Poppins” (2013)

O grande personagem agora, porém, não é a governanta mágica que, na Londres do início do século XX, com a chegada do vento oeste, aparece às crianças da família Banks e modifica suas vidas, mas a sua criadora, a escritora anglo-australina Pamela Lyndon Travers, que só cedeu os direitos autorais do seu livro a Walt Disney depois de muita briga.

É justamente a briga o que está narrado no filme, aliás, para os estudiosos do problema da adaptação, um bom exemplar dos conflitos entre literatura e cinema. Para dar apenas um exemplo: embora estivesse falida (seu livro não vendia havia muito) e precisasse da grana, Pamela Travers não queria que de sua obra fosse feito um musical, não queria cores, e não queria cenas com desenho animado. Como sabemos, perdeu nos três itens, três que por ironia fazem o encanto do filme – disso eu lembro.

De qualquer forma, o filme de Hancock não se limita a isso, e, baseando-se na vida pessoal de Pamela, acrescenta todo um subplot do ´passado´, onde acompanhamos a infância da menina Pamela e seu apego ao pai alcoólatra. A cada situação atual, há um equivalente no passado: por exemplo, viajar de trem para Allora, Austrália, versus viajar de avião a L. A., no presente, etc.

O passado australiano de Pamela Travers...

O passado australiano de Pamela Travers…

Mais que isso, o filme se dá ao luxo de ´interpretar´ a vida de Pamela, nos explicando, a partir dos dramas vividos na infância, as suas reações negativas ao mundo de Hollywood. Um exemplo entre muitos: ao chegar no Hotel de Los Angeles, joga na piscina as peras que haviam sido colocadas pelos empregados do Estúdio no seu apartamento, e não entendemos por que – só mais tarde, saberemos que foi a fruta que comprou no dia em que o pai faleceu.

“Essa mulher é um enigma”, diz um Walt Disney perplexo diante de tantos caprichos, que só entenderá no dia que descobre o verdadeiro nome de Pamela, Helen Lyndon Goff, este o sobrenome do pai, enquanto que, um pouco antes de Disney, o subplot do passado já nos encaminhava para a decifração.

Se há uma coisa bem feita no filme de Hancock é o desenvolvimento do conflito, todo explorado a partir de duas personalidades fortes: Pamela e Walt. Aquela, uma escritora antiquada e cegamente presa ao universo verbal da literatura; este, um visionário que, muito adiante dos grandes estúdios de Hollywood, divisou os caminhos recepcionais do cinema moderno. Como duas pessoas tão diferentes poderiam chegar a um acordo? Em ambos os casos temos a chance de adentrar um pouco o imaginário de dois adultos que (com meios tão diversos) tentaram manter as crianças que foram, vivas dentro de si.

Como esperado, Tom Hanks faz um Walt Disney convincente, e, no papel de Pamela, Emma Thompson tem a chance de fazer o que ela sempre faz no cinema: manter a mesma cara, aqui pelo menos sendo esta manutenção pertinente.

Walt Disney na fachada do Disneyworld, aguardando a visita de Pamela

Walt Disney na fachada do Disneyworld, aguardando a visita de Pamela

Bem conduzido, engraçado e comovente, o filme de Hancock, como não podia deixar de ser, traz o selo dos Estúdios Disney, coisa já indicada no seu título original “Saving Mr Banks” (´salvando o Sr Banks´) e a salvação é de um final infeliz. Sem coincidência, Pamela e Walt se entendem no dia em que este conta a ela a sua infância gelada em Missouri, entregando jornais nas residências, serviço cobrado por um pai rigoroso e sovina, e, no entanto, ´salvo´ pela imaginação do filho. Mais tarde, assistindo à première do filme em Hollywood, Pamela se comove até as lágrimas, embora tenha o cuidado de dizer a Walt a seu lado que é só porque ´detesta desenho animado´.

Evidentemente, perde um pouco do melhor em “Walt nos bastidores de Mary Poppins” quem não conhece o filme “Mary Poppins” (direção de Robert Stevenson, com Julie Andrews em sua estreia no cinema) e/ou o livro adaptado.

Em tempo: esta matéria é dedicada a três paraibanos que lidam com o imaginário infantil: Neide Medeiros, Marília Arnaud e André Ricardo Aguiar.

O Walt Disney do filme e o real.

O Walt Disney do filme e o real.

A caixa de Pandora

15 ago

Há filmes clássicos, por alguma razão semiótica ou de outra ordem, importantes na história do cinema, que a gente conhece mais de ouvir falar que de ver. Um cinéfilo aqui viu trechos, outro lá teve acesso a uma cópia precária, um outro acolá apenas leu sobre e cita sem conhecer.

Acho que este é o caso de “A caixa de Pandora” (“Die Buchse der Pandora”) que o alemão Georg Wilhelm Pabst dirigiu em 1928 e que, no mundo inteiro, estreou no ano seguinte, para regozijo de alguns e indignação de outros.

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Eu mesmo conhecia uma versão truncada do filme de Pabst, que vi, no começo dos anos oitenta, num cineclube de Bloomington, Estados Unidos – cópia tão precária que, nem de longe, me deu a idéia da grandiosidade da obra. Agora, em uma matinal toda especial do Cine Mirabeau, vejo, para o meu deleite e de alguns espectadores privilegiados, o filme inteiro, com legendas em português e tudo mais.

Embora o enredo seja longo e desdobrado, trata-se de um filme de personagem, e a personagem é Lulu, essa mulher nada honrada, fascinante assim mesmo (ou por isso mesmo), que se sabe bela e usa sua beleza para fazer conquistas e conseguir o que, no momento, deseja, e pode deixar de desejar no momento seguinte. Ousada e marcante, a interpretação é da atriz americana Louise Brooks que, para decepção de divas alemães, foi fisgada de Hollywood e tomou o lugar de Marlene Dietrich.

O sex appeal de Louise Brooks

O sex appeal de Louise Brooks

Alta, elegante, sensual, provocadora, inconseqüente, acho que Lulu, com seus cabelos de seda e seus decotes generosos, foi a primeira “vamp” da história do cinema. Se não foi a primeira, foi a mais renomada. Dizem que quando, dezessete anos mais tarde, em 46, estreou o filme de Charles Vidor de cuja protagonista (Rita Hayworth) se dizia que “nunca houve mulher como Gilda”, alguns cinéfilos da época protestaram, alegando que antes de Gilda, houvera Lulu. Acho que faz sentido.

De profissão Lulu é dançarina e atriz, mas a expressão ´prostituta de luxo´ vem mais ao caso. O seu sex appeal é tão forte que até mulheres atraia e, com efeito, um certo subplot de lesbianismo é desenvolvido ao longo do enredo, com certeza, o primeiro caso na história do cinema.

No começo da estória a encontramos como amásia desse executivo de meia idade que está para contrair matrimônio com moça da sociedade berlinense. Por capricho, Lulu o força a casar com ela, e na festa do casamento, já é encontrada pelo marido nos braços de outro. O fato redunda em disparos de revolver, morte, prisão, júri, e revolta popular, mas, ao invés de reconstituir o roteiro prefiro lembrar ao leitor o mito que inspira o filme e o intitula.

Subplot lésbico em A Caixa de Pandora

Subplot lésbico em A Caixa de Pandora

Nos tempos míticos do Olimpo grego, Zeus andava de mal com os irmãos Prometeu e Epimeteu. Combina, assim, com outros deuses, em criar uma mulher que leve os dois à ruína. Cada um dando um contributo, os deuses confeccionam essa mulher perfeita, que chamam de Pandora, já que ´pan´ significa tudo e ´dora´, dons. Desconfiado, Prometeu (literalmente: ´aquele que vê antes´) não quer saber de Pandora, e previne o irmão Epimeteu (´aquele que só vê depois´). Como está no seu nome, Epimeteu não vê o mal que está em Pandora e se dá mal: casa com ela e abre a caixa (um presente de grego) que ela traz consigo. Dentro da caixa estavam todos os males do mundo (doença, envelhecimento, morte…) que emergem de lá e que – por extensão metafísica – até hoje nos castigam, a nós todos e não apenas a Epimeteu. Somente um ingrediente não saiu da caixa de Pandora, que foi a esperança – único consolo da humanidade até hoje e para sempre. Ufa, haja sufoco.

Não sei até que ponto o mito grego de Pandora contém uma moral, porém, o filme de Pabst, sim. Havendo escapado das garras da lei e fugido para a Inglaterra, a pecadora Lulu, agora em Londres, não escapará das garras de um assassino muito afamado da época, Jack o estripador…

Lulu: adorada pelos homens

Lulu: adorada pelos homens

Se você for atrás de “A caixa de Pandora”, não esqueça que o filme é mudo, com legendas intercaladas entre as cenas. Contudo, a direção de atores é tão enfática e a montagem tão fluente que as legendas quase se tornam dispensáveis.

Se o estilo ainda é o do Expressionismo, movimento artístico que prevaleceu na Alemanha das primeiras décadas do século XX, o intento de narrar com lógica e de construir um personagem vivo e vibrante ameniza os traços expressionistas. Aqui não há mais, por exemplo, cenários sufocantes, sombras em excesso nem vestuários temáticos. A mim ocorreu-me que “A caixa de Pandora” parece moderno, adiante de sua época – um pouco mais “noir” que propriamente expressionista, sem esquecermos que a mulher fatal (cf a figura vamp de Lulu) foi um actante decisivo no típico filme noir dos anos quarenta e cinquenta.

Mas, o que é que estou dizendo? As obras superiores não cabem em categorias, e, fruto da cabeça criativa de um gênio do cinema, “A caixa de Pandora” se impõe por si mesmo como um filme original e, ainda hoje, perturbador.

Seios à mostra e outras ousadias

Seios à mostra e outras ousadias

Rosa da esperança

24 out

Não é para fazer inveja aos amigos – ou seria? – mas, nada como ter o raro privilégio de poder assistir a filmes no charmoso, reservado e aconchegante “Cine Mirabeau”…

Lá pude ver, a semana passada, esse “Rosa da esperança” (“Mrs Miniver”) que o grande William Wyler dirigiu, para a MGM, em 1942, como parte do esforço americano de apoio à luta contra o nazismo, então espantosamente emergente.

Desse filme Churchill teria dito que fez mais pelo esforço de guerra do que toda uma frota de destroieres. Se fez ou não, o filme foi um sucesso que deu seis Oscar à equipe: melhor filme, melhor direção, melhor atriz principal (Greer Garson), melhor atriz coadjuvante (Teresa Wright), melhor fotografia (Joseph Ruttenberg), e melhor roteiro.

Para mim, foi uma oportunidade e tanto poder ver “Rosa da esperança”, pois era a minha grande lacuna em relação à filmografia de William Wyler (1902-1981). Dos seus grandes filmes, que são muitos (Vide adiante), era o único que eu desconhecia.

Aos jovens de hoje “Rosa da esperança” deve parecer datado, talvez incomodamente datado. Conta a estória dessa família inglesa classe média que leva sua vidinha perfeita, até ser obrigada a lidar com as imperfeições da guerra, quando os nazistas dão início aos bombardeios em Londres.

Na longa Exposição (primeira das três partes do clássico roteiro hollywoodiano), nada acontece entre os Miniver, salvo futilidades: a mulher compra um chapéu extravagante, o marido adquire um carro caro, o filho chega da universidade com ideias esquerdizantes, etc. O conflito que faz qualquer enredo ir para frente só aparece, quarenta minutos de projeção decorridos, quando o padre anuncia que o país declarou guerra à Alemanha e, por questão de segurança, encerra o culto religioso.

A partir daí os Miniver vão experimentar de perto os efeitos de uma guerra cada vez mais próxima. O filho se alista como piloto e o pai é convocado para o famoso bloqueio de Dunquerque, enquanto a mulher, só em casa com as crianças, se depara com um soldado nazista que aterrissara no seu jardim.

Porém, não se trata de um filme de ação, e os efeitos da guerra, se cada vez mais ameaçadores, serão mais psicológicos que de outra ordem.

Não testemunhamos Dunquerque e não pilotamos aviões com o jovem piloto da família. Única presença física do inimigo, o soldado alemão na casa dos Miniver é pouco ativo e a cena com ele é quase que só emocional. Durante os bombardeios, por exemplo, quando a família se abriga no porão da casa, tudo que se tem são sons e reflexos de luz. Entre um lampejo e outro, vemos rostos apavorados, mas, o que ouvimos com ênfase são os estrondos das bombas que caem lá fora e destroem a residência da família. Mais tarde, na cena do carro parado na estrada, com a Sra Miniver e sua nora debaixo de um céu repleto de aviões inimigos, os recursos expressivos serão os mesmos: quase que só sons e reflexos luminosos. O que não quer dizer que o resultado emocional não seja grande.

Para ser franco, do ponto de vista semiótico não há novidades em “Rosa da esperança”; nenhuma inovação que revolucione a linguagem do cinema. Como em toda a obra de Wyler, estamos diante de um filme “diegético”, ou seja, um filme onde todo o trabalho da câmera resulta propositadamente invisível, porque pensado para fazer – só isto e mais nada – as três coisas básicas que tornam um filme consumível: descrever bem o espaço ficcional, desenvolver com lógica o enredo e acentuar as emoções do drama. Eu disse ´só isto e mais nada´? Ora isto já é o suficiente para envolver o espectador e fazer a magia da chamada Hollywood clássica.

Aliás, Wyler foi, nesse sentido, tão “diegético”, que a crítica costuma ter dúvidas se lhe cabe o epíteto de autor, alguns o dando como apenas acadêmico, um grande artesão sem aquela genialidade que produzisse um estilo.

Só para fazer justiça ao cineasta, encerro esta matéria com uma pequena antologia de títulos que ele assinou com algo mais que mera competência acadêmica, grandes filmes cujas qualidades evidentes deveriam desfazer as dúvidas dos seus críticos.

“Fogo de outono” (1936), “Jezebel” (1938), “O morro dos ventos uivantes” (1939), “A carta” (1940), “Pérfida” (1941), “Os melhores anos de nossas vidas” (1946), “Tarde demais” (1949), “Chaga de fogo” (1951), “Horas de desespero” (1955), “Sublime tentação” (1956), “Da terra nascem os homens” (1958), “Infâmia” (1962), “O colecionador” (1965).

Em tempo: superprodução de estúdios, deixo de mencionar “Benhur” (1959).

Sete dias com Marilyn

18 abr

Embora viesse de família ilustrada e ilustre, esse senhor inglês, chamado Colin Clark, nunca foi grande coisa na vida e nunca fez nada de relevante para sê-lo.

Não? Bem, lá por volta de 1957, quando tinha apenas 23 anos de idade, ele foi terceiro assistente de direção do mitológico Sir Laurence Olivier no filme “O príncipe encantado” (“The Prince and the showgirl”).

Isso é pouco? Ora, o filme era com Marilyn Monroe e a bombshell americana– sabe Deus por que – engraçou-se dele de modo que, interrompendo as filmagens, os dois passaram cerca de uma semana em contato mais ou menos privado.

Depois de velho e sem maiores realizações a exibir, Clark resolveu contar a estória dessas filmagens e em 1995 publicou o livro “The Prince, the showgirl and me” (´O príncipe, a corista e eu´), que foi bem recebido pela crítica.

Não conformado com este pequeno sucesso tardio, publicou, em 2000, uma continuação do livro, com o título de “My week with Marilyn” (´Minha semana com Marilyn`), desta feita sendo mais ousado e adiantando coisas bem mais íntimas de seu contato privado com a atriz americana, como beijos e outras carícias, palavras de amor pronunciadas por debaixo de lençóis e banhos de lago, os dois despidos, nos arredores de Londres.

A crítica anglo-americana não gostou dessa continuação e não lhe deu créditos, mas que importa? Verídica ou não, era uma estória bem mais estimulante do ponto de vista, digamos, artístico.

Tão estimulante que o diretor e homem de televisão Simon Curtis decidiu que daria uma boa realização cinematográfica.

E é o que temos em “Sete dias com Marilyn” (“My week with Marilyn”, 2011).

Seguindo o livro, o filme narra os bastidores das filmagens de “O príncipe encantado” – primeira produção da recém fundada companhia da própria Marilyn Monroe. Nessa época, de saco cheio de ser apenas famosa, a atriz abandonara Hollywood e agora, casada com o dramaturgo e intelectual Arthur Miller, viviaem Nova York, estudando arte dramática no Actors Studios de Lee Strasberg.

Para dirigir e atuar nessa comédia semi-musical com cenário londrino, foi contratado ninguém menos que Laurence Olivier, e, para as filmagens, Marilyn vem a Londres com a sua pequena entourage, o marido e a inseparável professora de arte dramática Paula Strasberg.

É aí que as confusões começam. Doente e cheia de problemas pessoais, Marilyn atrapalha a rodagem do filme e leva o orgulhoso e fleumático Sir Olivier a ataques histéricos. Para se ter ideia, uma discordância básica residia no modo mesmo de interpretar: o célebre “método” do Actors Studios, assumido por Marilyn, batia contra toda a experiência teatral de Olivier.

Foi então que o insignificante terceiro assistente de direção, o nosso Colin Clark, começou a ganhar relevância. Com o marido de volta aos States e a relativa conivência de Paula Strasberg, a atriz famosa descobriu esse rapazinho de 23 anos, moleque de recado da produção (como ele mesmo se define), e o caso entre os dois passou, contraditoriamente, a se tornar importante para o andamento das filmagens, na medida em que, entre outras coisas, abrandava os chiliques da Monroe.

Em “Sete dias com Marilyn” o diretor Simon Curtis chega a romantizar o caso por conta própria, compondo a cena de despedida do casal com um desfile de imagens bucólicas, ao som da belíssima canção “Autumn leaves”, na voz de Nat King Cole. O efeito é duplo de remeter à época e reforçar a emoção do desenlace.

Será que houve mesmo esse nível de envolvimento sentimental entre Marilyn e Colin? Mais uma vez, não importa: no filme de Curtis, há.

Narrado em primeira pessoa pelo personagem de Colin, o filme de Curtis é agradável e flui bem, do começo ao fim. Nada extraordinário, mas ao menos decente. Naturalmente, ajuda muito o elenco escolhido: Kenneth Branagh como Laurence Olivier, e mais especialmente, Michelle Williams no papel chave de Marilyn Monroe, ambos, como se sabe, indicados ao Oscar.

Não sei até que ponto seria interessante para o espectador conhecer o filme dentro do filme, digo, “O príncipe encantado” (1957). De qualquer modo, Curtis apelou para a estratégia de não mostrar nenhuma cena dele, nem tampouco da Marilyn real, de forma a que o espectador se acostume com o que está vendo no momento, nesta tela, e não nas outras, Uma boa saída, suponho.

Em tempo: “Sete dias com Marilyn” não compareceu ao nosso circuito de exibição, e o espectador fica, assim, limitado a suas edições em formato eletrônico.