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Elsa e Fred

13 dez

Por alguma razão estranha, Hollywood nunca foi lá muito boa em homenagear o cinema, digo, em lhe declarar o seu amor. Nota-se isso claramente na acareação com outras cinematografias do mundo.

Por exemplo, a Meca do cinema nunca fez nada com a dimensão emotiva e poética de “Cinema Paradiso” (Itália, 1989), “Splendor” (Itália, 1989) ou “A noite americana” (França, 1973).

Os grandes filmes hollywoodianos sobre cinema, como “Crepúsculo dos deuses” (1950), “Cantando na chuva” (1952), e “Assim estava escrito” (1952) são obras primas, porém, não eram propriamente declarações de amor à sétima arte, a qual só neles aparecia como pano de fundo de dramas ou de comédia.

A exceção a essa regra – já que toda regra tem exceções – veio da Costa Leste, e não de Hollywood: “A rosa púrpura do Cairo” (Woody Allen, 1985).

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As tentativas hollywoodianas de tratar do amor ao cinema que me ocorrem, se comparadas aos filmes estrangeiros acima citados, não chegam aos seus joelhos. Para confirmar, vejam os casos de “No mundo do cinema” (1976) de Peter Bogdanovich e “Cine Majestic” (2001) de Frank Darabond.

Este “Elsa e Fred” (Michael Radford, 2014), que está em cartaz, bem que poderia ter sido uma bela homenagem à sétima arte, mas não é. Nem quis ser, aliás. De novo, o cinema nele é só o pano de fundo para uma outra coisa, no caso, uma estória de amor entre dois idosos, e não é o cinema como um todo: é só um filme, no caso, o famoso “A doce vida” (1960) de Federico Fellini. Notem que inexistem referências a outras películas, de forma a que se pudesse pensar em cinefilia.

Além do mais, nem no plano emotivo o filme convence, sendo apenas uma estória previsível em dois sentidos: o enredo o é, e os recursos expressivos para veicular esse enredo o são. Começa o filme, e o espectador já sabe no que ele vai dar, o que fica, a cada cena e a cada sequência, reforçado pela quase nenhuma inspiração do diretor, com seu apelo ao convencional, já visto em centenas de filmes sobre estórias de amor, entre idosos ou entre jovens, tanto faz.

Shirley McLaine no papel de Elsa.

Shirley McLaine no papel de Elsa.

Quando Elsa bate no carro e dribla o neto dos vizinhos novatos no seu prédio é porque vai conhecer o avô do garoto; quando Fred diz a Elsa que detesta parques, já sabemos que iremos vê-lo, mais tarde, passeando no parque, com ela; quando a filha de Fred lhe pede dinheiro emprestado para os negócios do marido, deduzimos que esse dinheiro vai terminar nas águas da Fontana di Trevi, em Roma, etc, etc, etc…  São regras de um tipo de comédia romântica que remonta aos anos trinta e que podem ser resumidas no chavão: /a rivalidade conduz ao amor/.

E vejam que o enredo é interessante, aliás, muito interessante.

Na estória Elsa, essa senhora idosa, mas ativa e cheia de vitalidade e bom humor, é fã do filme de Fellini, e não só isso: sonha um dia viver um grande amor e repetir a famosa cena da Fontana di Trevi, ela no lugar de Anita Ekberg e o seu amado no de Marcelo Mastroiani, e isso sem faltar o banho nas águas da fonte, com direito ao gatinho e ao copo de leite.

A possibilidade de Elsa realizar o seu sonho romântico aparece no momento em que muda-se para o apartamento vizinho ao seu esse senhor idoso, viúvo, e portanto, disponível. O viúvo é mal humorado e não tem, nem de longe, a vitalidade de Elsa, mas, em tudo se dá um jeito.

Christopher Plummer é o idoso Fred.

Christopher Plummer é o idoso Fred.

Com a ajuda do filme, Elsa dá um jeito, sim, e a Fontana di Trevi acontecerá. Mesmo que, na hora h, o gatinho não tenha sido da mesma cor, e o leite tenha sido apenas um copo de iogurte, encontrado de última hora.

Inevitavelmente, o filme tem uma pitada de humor de “Ensina-me a viver” (“Harold and Maude”, 1971, de Hal Ashby), misturada com um pouquinho do sentimentalismo de “Love Story” (1970), mas isso é tudo.

Nos papéis título estão dois nomes de peso que devem arrastar espectadores ao cinema (eu fui por causa deles!), Shirley MacLaine e Christopher Plummer, mas isso é tudo.

Porém, o mais drástico sobre “Elsa e Fred” ainda não foi dito: o filme é um remake de uma produção homônima argentina com muito mais qualidade do que ele. Confira, se puder, “Elsa y Fred” (Marcos Carnevale, 2005), um filme empolgante, completamente disponível no Youtube.

Enfim, um remake aquém do filme original, e feito apenas nove anos depois dele: só mais uma prova de que a Hollywood de hoje em dia vive em desastrosa crise de inspiração. Ou estou enganado?

A cena Fontana di Trevi no filme de Fellini.

A cena Fontana di Trevi no filme de Fellini.

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Inventação não tem fim

6 nov

– anotações sobre “O vôo da guará vermelha” –

 Impressionante como continua rendendo o velho esquema “rapaz conhece moça”, aquele de todas as estórias de amor, recitadas, escritas, encenadas e filmadas. Que o diga a escritora Maria Valéria Rezende no seu romance recente “O vôo da guará vermelha” (Objetiva, 2005), cujo esqueleto narrativo, se você quiser, coincide com o de “Love Story”, o filme que Umberto Eco ironizou com o seguinte resumo: “Ele a ama; ela o ama; ela morre: fazer o que com o resto da estória?”

Ora, Valéria Rezende sabe o que fazer com o começo, o meio e o fim de sua estória, e o faz muito bem. Mas vamos por etapas.

De fato, a trama principal de “O vôo da guará vermelha” não é extensiva, e poderia talvez ser resumida numa sinopse tão breve quanto a de Eco. Mas ora, o que mais interessa no livro é justamente o que não se submete a resumos.

Um operário analfabeto conhece uma prostituta enferma e esta, antes de morrer, lhe ensina a ler. Este “esquema narrativo” nem parece suficiente para compor um romance, e, no entanto, quando se lê “O vôo da guará vermelha” a impressão é a de que qualquer coisa, quase nada, é o bastante para encher o corpo de qualquer romance. É só ter o poder criativo de Valéria Rezende, que conta a sua estória como quem pinta um arco-íris, ou melhor, como quem monta um caleidoscópio, com combinações de duas cores para cada capítulo, exigindo do leitor o dom poético de transitar entre o abstrato cromático e o – digamos assim – figurativo.

Sim, salvo o gesto obsessivo de contar estórias, quase nada acontece entre Rosálio e Irene, e, contudo, o leitor não sente necessidade de ação. Até porque, quase toda mnemônica, a ação aparece na voz de Rosálio que, obsessivamente, conta à companheira as estórias que ouviu ou que vivenciou.

Depois da própria Valéria Rezende, Rosálio é o grande narrador em “O vôo da guará vermelha”, mas o que se constata é que ele não é a rigor um auto-narrador, e o alheio (João dos Ais, Suécio, o Bugre, o Gago, Maria Flora, João e Joana e tantos outros personagens fascinantes) lhe interessa do mesmo modo, pois, como já posto, o que, de dentro para fora, o move é o ato mesmo de narrar.

Entre outras coisas, são essas estórias, e o seu gesto de narrar-se, que vão unindo os dois protagonistas, porque, como a autora, ambos partilham essa pulsão de contar/ouvir narrativas que a vida, o mundo, ou os outros criaram, ou que eles mesmos criam para preencher a existência com o sentido que lhes falta.

De modo que, se o livro tiver um tema, este deve ser a pulsão de narrar, nele tão forte que ultrapassa os limites da verossimilhança. Vejam que Rosálio é um operário que, sem saber ler, carrega consigo, para todo lugar, uma caixa de livros, com a vaga esperança de que um dia aprenderá a desvendar os mistérios das letras. Do mesmo modo saudavelmente improvável, Irene é uma pobre e sofrida prostituta que conhece as lendas de Sherezade e tantas outras.

Com tantas estórias em trânsito, o livro possui, inevitavelmente, uma estrutura frouxa, móvel, aberta, como se se tratasse, não de um romance, mas de obra de gênero indefinido, talvez um estranho livro de contos; contos unidos – entre outras coisas menos evidentes – por esse elo diegético que é o mundo precário, frágil, efêmero, e ao mesmo tempo, forte e belo, de Rosálio e Irene.

Contos? Gênero indefinido? Romance? Não seria demais dizer que, inovador, ousado, pessoal, genuíno, o “Vôo da guará vermelha” se alimenta de deliciosos paradoxos. Se o leitor prestar bem atenção vai notar, por exemplo, que, assim como a sua unidade é parcial e as suas partes, unitárias, o seu realismo é fantasioso, e a sua fantasia, real; do mesmo modo, a sua simplicidade é complexa, e a sua complexidade, simples. Qualquer uma das estórias contadas por Rosálio evidencia estas verdades, porém, a melhor evidência talvez esteja na lírica caracterização da dupla protagonizante e na sutil mas perturbadora construção de sua estória de amor.

É fato que, no desenlace, como previsto por ela mesma, Irene morre, mas Valéria Rezende não se preocupa com “o que fazer com o resto da estória” (Vide Eco acima). Antes de partir para o “azul sem fim” – título do último capítulo, o único monocromático – essa “guará vermelha” havia legado a seu amado o dom maravilhoso de decodificar letras, e o havia deixado preparado para assumir um novo ofício, mais visceral e mais verdadeiro, esse de juntar o povo na praça e encantá-lo com estórias inventadas ou a inventar, pois, como mantém a frase que, sem concluir, fecha o livro: “inventação não tem fim”.

Contrariando os dicionários, a guará de Valéria Rezende é feminina, como tinha de ser para sustentar uma metáfora fundante no livro. É dessa tríplice metáfora titular que desabrocham os campos semânticos que perpassam o livro inteiro – o cinético em “vôo”, o ornitológico em “guará” e o cromático em “vermelha” – e que se entrecruzam em instâncias especiais para conceder ao conjunto do texto, se não a forma, a postura de um poema. Um poema a ser lido com sofreguidão, sobretudo se, como Valéria Rezende e seus personagens, o leitor também partilha dessa “fome de palavras” – conceito chave que, simetricamente, abre o livro.