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Anna Karenina – a história de Vronsky

9 ago

O romance de Tolstoi, Anna Karenina é um dos meus livros mais amados. Por isso fui ver este filme em cartaz “Anna Karenina – a história de Vronsky” (2017) do diretor russo Karen Shakhnazarov.

O outro chamativo para mim foi a segunda parte do título, sugerindo que a história da trágica protagonista de Tolstoi seria, agora, uma versão do seu amante. Tudo indicava que o que eu ia ver era aquele artifício, de que tanto gosto, de ir-se atrás das lacunas que uma obra ficcional oferece e preenchê-las a seu bel prazer. Eu mesmo já praticara essa brincadeira, num livro chamado “Um beijo é só um beijo”.

E, sim, era isso mesmo. Em 1904, trinta anos depois do suicídio de Anna, estamos na China, nos campos de batalha da guerra russo-japonesa. Numa aldeia devastada, o médico que cuida dos feridos é Sergei, filho de Anna, e um dos feridos quem é? Sim, esse militar já maduro que responde pelo nome de Vronsky.

Como esperado – ou inesperado? – depois de tratá-lo, Sergei pede a Vronsky que lhe conte o que de fato teria ocorrido à sua mãe. Este concorda, porém, sabiamente o previne de que “as pessoas só lembram o que elas querem”, certamente um recado aos espectadores, vindo diretamente dos roteiristas. Ou, se for o caso, do autor do conto adaptado “Notas de um médico sobre a guerra russo-japonesa”, do escritor Vikenty Veresaev.

Produção suntuosa e extravagantemente longa, o filme recria o luxo da Rússia aristocrática com gosto. A cena do baile em que Anna e Vronsky se conhecem e dançam é só um exemplo, pois até a desolação da aldeia chinesa destruída é caprichada, para não falar nas explosivas cenas de batalha.

Para mim, o problema do filme não é o luxo da produção. Ele fica mais embaixo, ou seria mais acima: está na construção mesma da personagem central, Anna.

Na primeira parte do filme, Anna é uma mulher imperiosa, decidida, forte, sempre de cabeça erguida e nariz arrebitado, decidida, na sua condição de adúltera num meio extremamente conservador e hipócrita, a enfrentar o marido e a sociedade – possivelmente mais imperiosa do que a triste heroína de Tolstoi. Para conferir este perfil, basta lembrar, no filme em questão, cenas emblemáticas, como: (1) a do referido baile; (2) a dramática cena no hipódromo, com a queda do cavalo de Vronsky; (3) a quase heroica cena no teatro em que ela, de pé no camarote, se impõe ao público como se no palco estivesse.

Pois bem, depois disso, em toda a longa e difícil de engolir segunda parte do filme, ela vai evoluindo (eu diria, involuindo) para se transformar – desculpem a expressão popular – numa chata de galocha. Poupo o leitor da descrição, mas, com toda certeza, nada do que se espera da alma dilacerada e trágica que tomará a atitude drástica do desenlace conhecido de todos.

Ainda sobre personagens, o espectador poderá se indagar sobre a função daquela garota chinesa, na aldeia destruída pela guerra, que tanto atrai o interesse de Vronsky. No conto adaptado é possível que seu papel estrutural esteja mais claro. Aqui ela é um dado solto, sem relação necessária com o caso Anna/Vronsky, e que apenas prolonga o que já está longo demais, um filme com 2 horas e 38 minutos de duração.

Estruturalmente, o espectador curioso vai notar o uso estratégico que é feito disso que a teoria do cinema chamada de paralepse.

Vejam que a estória de Anna nos é contada no ponto de vista limitado de Vronsky, e, no entanto, em várias ocasiões, temos acesso a momentos íntimos, tipo quatro paredes, entre Anna e o esposo Karenin, ou entre Anna e sua criada, ou entre Anna e o irmão Stiva, momentos que Vronsky jamais poderia haver testemunhado. Nessas ocasiões é uma narração onisciente que se infiltra na limitação narrativa do personagem, isto sem que o espectador distraído se dê conta. Mas, atenção, longe de ser defeito, este é o recurso narrativo mais comum na Sétima Arte de todos os tempos. Ironicamente, talvez aqui ele endosse a observação inicial do próprio Vronsky: a de que quem conta uma história, lembra o que quer – e acrescentaríamos… até o que não pode lembrar.

“Anna Karenina – a história de Vronsky”, devo recomendar o filme? Talvez sim, porém, com menos convicção a quem é leitor de Leon Tolstoi.

Yves Saint Laurent na berlinda

6 jun

Vez ou outra, no mundo do cinema, acontece de dois cineastas do mesmo país assumirem, sem contato entre si, projetos sobre o mesmo assunto.

Eu lembro que, no final dos anos oitenta, na Itália, foi assim com Ettore Scola e Giuseppe Tornatore, que assumiram o projeto de contar a história de um cinema e suas plateias ao longo do século vinte. O resultado: dois filmes diferentes mas parecidos, ambos lançados em 1989, respectivamente, “Splendor” e “Cinema Paradiso”.

Pois recentemente aconteceu na França: sem contato, os diretores Bertrand Bonello e Jalil Lespert tomaram a vida do estilista Yves Saint Laurent como tema e já estavam adiantados, cada um nas suas filmagens, quando souberam do projeto do outro. Ambos os roteiros tratavam da carreira de Laurent e ambos desenvolviam o caso entre Laurent e o seu sócio e amante Pierre Bergé.

Yves 0

A diferença é que Bonello estava trabalhando sem autorização dos envolvidos na vida do biografado, ao passo que Lespert tinha todo o apoio do próprio Bergé, que lhe cedeu todo o arquivo biográfico do estilista e todas as demais facilidades, incluindo encargos financeiros. Aliás, Bergé não fez só isso: também tomou a iniciativa de, através de processo, tentar embargar a produção de Bonello que terminou o seu filme com extrema dificuldade.

O que não impediu de o filme de Bonello, chamado “Saint Laurent”, ser aceito na mostra competitiva de Cannes 2014, enquanto que o de Lespert, com o título de “Yves Saint Laurent”, não o foi. Como se sabe, Bonello perdeu a Palma de Ouro para o turco “Winter Sleep” de Nuri Bilge Ceylan, e seu filme ainda não chegou por aqui.

Quanto ao de Lespert, que vi há pouco, não sei que chances teria tido em Cannes. Imagino que a depender do quesito produção ele teria alguma vantagem. Luxuosa, a direção de Arte – comme il faut num filme sobre moda – é impecável e a projeção do filme, em si mesma, já é um “desfile”.

No filme de Lespert, Laurent e seu amante Bergé.

No filme de Lespert, Laurent e seu amante Bergé.

Um exemplo é a reconstituição perfeita e deslumbrante do famoso desfile de 1976, repleto de figuras renomadas do mundo da moda, como, entre outras, as modelos Victoire Doutreleau e Betty Catreux – um desfile que foi possivelmente o ponto alto na brilhante trajetória profissional desse estilista que abalou o sistema da haute couture, com conceitos estéticos ousados e inovadores, responsáveis, no final das contas, pela criação e sucesso internacional da griffe que leva o seu nome.

O filme começa em 1957, quando um jovem Yves Saint Laurent, com 21 anos de idade, é indicado para presidir a Maison do recém-falecido Christian Dior.

Viciado, inseguro, dependente, depressivo, Laurent enfrenta problemas sérios para se afirmar, mas o faz, especialmente por dois fatores: seu enorme talento e a devotada e eterna ajuda do amante Bergé, que, não apenas apaixonado, mas deslumbrado com a criatividade do companheiro, fez questão de permanecer – uma estória de vida inteira – no papel imprescindível de “escada”. Aliás, como se vê, como “escada” permanece até hoje, seis anos depois da morte de Laurent, no empenho de produzir e promover o filme.

Para dar um só exemplo da vida atribulada de Laurent, argelino de nascimento, enfrenta logo cedo o difícil problema do alistamento militar… com a incômoda situação francesa perante a Guerra da Argélia. Conforme ele repete várias vezes durante o filme “não sei fazer nada na vida, além de desenhar roupa. Nem quero”. E, de fato, quem poderia imaginar – e o filme nos conduz a fazer a pergunta – as suas mãos delicadas pegando em armas?

Desfiles em "Yves Saint Laurent".

Desfiles em “Yves Saint Laurent”.

Bem, infelizmente já é tempo de dizer que a tão ostensiva riqueza da cenografia no filme de Lespert não possui um correspondente no conteúdo. Apesar dos muitos problemas que enfrentam, os já citados e outros, os seus personagens não exibem a profundidade esperada e o conflito é mal desenvolvido e, sufocado pelo contexto biográfico, dilui-se no desenlace, fraco e inoperante.

Um elemento que agrava esses defeitos é a narração em over, e, no caso, a voz ouvida é a do próprio Bergé, sempre em função conativa, e o receptor dessa voz é sempre o próprio Laurent. Explico-me, exemplificando: a voz over de Bergé conta “você foi a Marrakesh” e a imagem mostra Laurent em Marrakesh; “Você fez isso e aquilo” e aparece Laurent fazendo isso e aquilo. Depois de meia hora de projeção a tautologia do esquema começa a soar enfadonha e aborrecida, sem contar que o espectador começa a se sentir subestimado em sua inteligência.

Não sei como vão reagir a “Yves Saint Laurent” as pessoas ligadas ao mundo da moda. De minha parte, só posso dizer que a beleza da indumentária e a elegância do seu uso não são suficientes para salvar o filme, o qual, por sua vez, desfiles à parte, nem belo é.

Se for o caso, aguardemos o outro filme, o “Saint Laurent” de Bonello.

Laurent e suas modelos

Laurent e suas modelos

Blue Allen

22 jan

O último filme de Woody Allen “Blue Jasmine” (2013), que por alguma razão estranha, foi anunciado e não veio para o circuito comercial local, teve sessão especial, quinta-feira passada, no Cine Mirabeau, como sempre, com direito a debate.

Aqui resumo alguns dos pontos levantados pela seleta plateia presente, da qual tive o prazer de fazer parte.

Comecemos com o intertexto. Sim, “Blue Jasmine” é tão parecido com “Uma rua chamada pecado” (“A street car named desire”, 1951) que mais parece uma refilmagem. O argumento é o mesmo e várias situações ou detalhes de roteiro trazem à tona o filme de Elia Kazan.

jasmine

Uma mulher em crise nervosa e dificuldade financeira vem residir com a irmã, que é casada com um cara meio grosseiro e sem modos. Isto já bastaria para se fazer a associação, mas as semelhanças vão mais adiante. Por exemplo, em ambos os filmes, essa mulher em crise, acentuada pela sua condição estranha no ambiente inóspito onde se encontra, tenta uma nova relação amorosa, a qual não dá certo. Ambas terminam mentalmente descontroladas, vocês lembram, Blanche Dubois sendo levada por enfermeiros para um sanatório, e Jasmine French, sentada em um banco de praça, falando sozinha.

 Se o espectador ainda tiver dúvidas sobre a relação entre os dois filmes, pequenos detalhes as tiram. Exemplo: quando a irmã de Jasmine diz ao marido que não ´vá contar piadas polonesas´, a gente lembra o sobrenome polaco do cunhado grosseiro de Blanche no filme de Kazan: Kowalski. E o falso sobrenome de Jasmine (uma pessoa em que tudo é falso) é ´French´(francês), assim como a origem de Dubois.

O que torna a relação entre os dois filmes interessante é que cada um ataca uma camada da sociedade americana em seu tempo: em Kazan (via Tennessee Williams, base do roteiro) tinha sido a aristocracia sulista; em Allen é a alta burguesia nortista. O que há de comum entre elas – além da posição no topo da pirâmide social – é a decadência. Para fazer trocadilhos com o título de outro filme, ambas, no caso, ´levadas pelo vento´.

Pobreza em San Francisco

Pobreza em San Francisco

Se você quiser mais semelhanças entre os dois filmes, seria o caso de pensar no protagonismo e no elenco, já que ambos são – digamos – “filmes de atriz em desempenho destacado e marcante”: Vivien Leigh como Blanche e Kate Blanchet como Jasmine.

Antes de passar adiante, uma observação sobre esta relação fílmica: ela pode ser um fator favorável à apreciação (o espectador acharia que o intertexto enriquece a significação) ou desfavorável (o espectador pode achar que foi falta de originalidade se agarrar a Kazan)…

Evidentemente, os mesmo traços típicos do estilo Allen estão presentes. Dois deles que podem incomodar são: a tagarelice dos personagens, que parece colocar o verbal na frente do visual; e, aquela maneira sempre meio sacana de vulgarizar a psicanálise.

No terreno da construção narrativa, o que se repete aqui é o conflito entre pobres e ricos, incultos e cultos, tão recorrente em outros filmes do diretor. Vejam o caso das duas irmãs, figuras decisivas no desenvolvimento da estória, em que pese ao protagonismo de Jasmine: uma com seu mais que modesto trabalho de empregada de supermercado, a outra, com seus delírios de ex-socialite que só veste roupas de griffe, voa de primeira classe e consome os melhores vinhos – mesmo que não exista mais fundo para pagar as contas.

Luxo em Nova Iorque

Luxo em Nova Iorque

Um mérito do filme está na edição. Observem que, a rigor, ele conta duas estórias (digamos: Jasmine casada e rica em Nova Iorque, e Jasmine separada e pobre em San Francisco, dois extremos, não apenas geográficos) e o faz de modo quase simultâneo, pulando de um tempo a outro, sem nenhuma marcação gráfica. Com a desvantagem de, de início, confundir o espectador, mas, com a vantagem de, no decorrer da narração, as cenas do passado explicarem as do presente, de uma forma sutil e inteligente.

Woody Allen, a gente sabe, sempre se dividiu entre seus dois mitos mais queridos: a alegria dos irmãos Marx e a tristeza de Bergman. Aqui ele está mais para o sentido figurado da palavra “blue” (triste, e não azul), e não me perguntem se isto é bom ou ruim…

Enfim, sobre “Blue Jasmine”, uma camada da crítica americana e mundial parece estar se dividindo, com apreciações díspares que vão do “melhor Woody Allen já feito” ao “pior Woody Allen de todos”.

Minha impressão pessoal é que a verdade está localizada no meio desses julgamentos extremados. Bem no meio!

Em tempo: “Blue Jasmine” entrou em cartaz em João Pessoa, no dia seguinte à publicação deste post.

Woody Allen dirigindo o elenco

Woody Allen dirigindo o elenco