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Magia ao luar

7 nov

Coincidência engraçada: esta semana estava relendo – como costumo fazer – o meu Machado de Assis de cabeceira e caio naquele conto “Uma visita de Alcibíades”, quando, no mesmo dia, entra em cartaz na cidade o filme de Wood Allen “Magia ao luar” (“Magic in the Moonlight”, 2014).

Qual é a coincidência? É que ambos, conto e filme, tomam o espiritismo como pano de fundo.

No conto de Machado, um cidadão convertido ao espiritismo resolve “baixar” o espírito do grande militar e político grego Alcibíades, com quem passa a ter um diálogo de longas horas, em que vai ensinando ao pasmo ateniense os costumes do mundo moderno, um dos quais é a maneira de vestir-se. Espantando com as peças da indumentária moderna (a estória se passa em 1875), Alcibíades termina por morrer (de novo) de susto, ou indignação, no momento em que o seu interlocutor põe na cabeça, a peça final de seu traje… o chapéu.

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À primeira vista, o conto parece uma gozação com o espiritismo, mas, na verdade, este é só um pretexto para o bruxo de Cosme Velho rir do seu século e seus costumes.

No filme de Allen, o espiritismo também aparece como pretexto; pretexto para que se desenvolva uma estória de amor entre duas pessoas em situações antagônicas, justamente naquela mesma linha das velhas comédias românticas de antigamente, sim, aquelas que historicamente eternizaram o mote ´rivais que se apaixonam´. Só para provar como o esquema é antigo, uma das primeiras dessas comédias foi o ótimo “Aconteceu naquela noite” (“It happened one night”, 1934), de Frank Capra, com Claudette Colbert e Clark Gable no papel dos rivais relutantemente atados pelas tramas do coração.

Em atuação em Berlim, em 1928, o grande mágico Wei Ling Soo é incumbido de desmascarar uma médium, uma tal de Sophie, jovem americana que vive com a mãe no Sul da França, com fama de entrar em contato com o mundo do além. Contudo, ao se conhecerem, Stanley (Wei Ling Soo sem disfarce) vai sendo convencido pela bela médium e, perplexo e encantando, termina acreditando que ela tem mesmo o dom de se comunicar com os mortos.

Amantes relutantes, em "Acconteceu naquela noite, 1934.

Colbert e Gable, amantes relutantes, em “Acconteceu naquela noite, 1934.

O inevitável e previsível turning point da estória acontece quando Stanley descobre que tudo não passava de uma farsa, promovida por um parente invejoso e vingativo. A partir daí, o espiritismo deixa de ser útil ao enredo e é então que o filme assume de vez o que era desde o início, a comédia de estilo romântico, nos moldes acima referidos. Para não deixar de mencionar o título do filme, pula-se então da magia metafísica para a magia amorosa.

 Trata-se de mais um exercício fílmico do veterano Woody Allen, com todos os seus ingredientes, tudo, como sempre, muito bem concebido e muito bem amarrado, com músicas e paisagens certas nos momentos certos.

Gostei do filme, mas o gostar não me impede de ver os “truques” da direção. Por exemplo, a primeira parte da estória corre rápido demais, e a segunda é muito devagar. Um efeito é a pouca verossimilhança, o outro, é a redundância.

Woody Allen, hiper ativo aos 79 anos de idade.

Woody Allen, hiper ativo aos 79 anos de idade.

Na primeira, o mágico aceita rápido demais o desafio de desmascarar a médium, e, mal o filme se ajeita, lá está ele em pleno Sul da França, disposto ao confronto. Igualmente rápida é a transformação desse grande prestidigitador experiente em um crédulo abestalhado diante dos truques da médium americana, truques estes que até para nós, espectadores, parecem furados, por exemplo, aquelas pancadas nos móveis para indicar as respostas do morto às perguntas dos vivos.

Já na segunda parte, depois do turning point esclarecedor, leva-se um tempo excessivo para se chegar aonde se sabe que vai-se chegar, ou seja, à união dos opostos, repito, das velhas comédias de antigamente. Tanto quanto o espiritismo, o milionário pretendente de Sophie é, neste sentido, só mais um obstáculo para incrementar o drama e retardar o desenlace.

A sensação que tive ao sair do cinema foi a seguinte: dê a Woody Allen qualquer tema (espiritismo ou o que for…) que ele lhe confecciona um filme bonito, divertido, agradável e inteligente.

Espero que não se veja ironia na minha dedução sobre o talento de Allen, afinal de contas, – e para voltar à abertura desta matéria – o mesmo não poderia ser dito de Machado de Assis?

Emma Stone e Colin Firth são os amantes relutantes de "Magia ao luar".

Emma Stone e Colin Firth são os amantes relutantes de “Magia ao luar”.

 

Viva o contraste

14 nov

Foi na Revista Língua Portuguesa que li o excelente ensaio do Professor Roberto Sarmento Lima “Se conselho fosse bom…”, parcialmente sobre os malefícios de se resumir um texto de ficção (conto ou romance), tarefa geralmente cobrada aos alunos secundaristas pelos professores de literatura.

Muito bem escrito, o ensaio de Sarmento Lima argumenta com sabedoria que, ao resumir, perde-se o essencial do texto, justamente aquilo que o torna literário. Para ilustrar, Sarmento Lima apresenta um resumo de A Cartomante e demonstra como ficou de fora de seu resumo aquilo que o teórico russo Boris Eikhenbaum chamava de ´motivos livres´, estes, no caso, os responsáveis pela qualidade artística do conto machadiano.

Também sou (fui) professor e concordo em tudo com Sarmento Lima quando conclui que (cito) “ao fazer o resumo, fica-se com o conteúdo, joga-se a forma – que é o mais importante e artístico, com seu conteúdo próprio – na lata do lixo. Um verdadeiro desserviço à instituição do ensino da literatura.”

 Concordo com tudo e, no entanto, saí do ensaio de Sarmento Lima com uma inquietação. Não tenho nenhum retoque a lhe fazer, mas, acredito que esse ensaio suscita um desenvolvimento conceitual interessante, que passo a propor.

É que, além de professor, também sou crítico e, nesta condição, me ocorre que o recurso ao resumo (do livro ou do filme, se for o caso) pode ser lucrativo, e, – ironicamente – pelo mesmo motivo apontado por Sarmento Lima: seu momentâneo descarte dos elementos formais.

Explico-me, a partir de minha prática.

No comentário crítico de um livro (ou de um filme) costumo, sim, apresentar um resumo do enredo que eventualmente serve para o leitor relembrar o romance ou o filme lido/visto, mas não serve só para isso – e aqui vai a chave da minha proposta.

Resumo o enredo somente para poder demonstrar que o livro/filme não se resume ao resumo. E a ironia é esta: uma vez feito o resumo, fica mais fácil (leia-se: mais didático, pedagógico) demonstrar ao leitor quais são os elementos que tornam o romance, literário, e o filme, cinematográfico. E que elementos são estes? Por tabela, tudo que ficou fora do resumo, ou seja, os ´motivos livres´ de Eikhenbaum.

Nessa perspectiva, o resumo é uma etapa necessária da leitura, construída para ser, logo adiante, questionada. Não é um enchimento de lingüiça, mas, um recurso heurístico importante que, por contraste, vai evidenciar os aspectos artísticos da obra. E dou à expressão ´por contraste´ toda a ênfase que puder, pois ela contém o segredo da minha proposta.

Notar que o resumo, em si mesmo, é o espaço do que os teóricos modernos chamam de ´diegese´, o universo ficcional que a obra cria, em oposição ao conceito de ´discurso´. Se o ´discurso´ são todos os efeitos de linguagem criados para dar qualidade artística a uma obra, a exposição da diegese (i.é: o resumo) torna-se utilíssima na determinação do que, repito,  por contraste, seriam esses efeitos.

Dentro desta proposta contrastiva (e não substitutiva), o expediente de resumir (e contrapor) não joga na lata do lixo a forma – muito pelo contrário, a traz para a sala de visita e obriga o dono da casa a dialogar com ela. Para dar um nome bonito a essa estratégia de leitura, chamemo-la de ´pedagogia do contraste´.

Estou falando no âmbito da crítica literária e cinematográfica, mas, gostaria de voltar ao contexto da sala de aula, interesse do prof. Sarmento Lima.

Quer me parecer que a mesma atitude contrastiva para com o resumo pode ser adotada pelos professores do curso secundário. Por que não? Continuaria, assim, a ser cobrado aos alunos um resumo do livro a analisar. Só que agora o professor, ao invés de apenas checar se o aluno leu o livro (pelo que entendi, o resumo só vem servindo para isto!), procederia ele, junto com o aluno, a um confronto entre o resumo feito e tudo aquilo que estiver fora dele, automaticamente, os efeitos de linguagem que interessam literariamente. Claro que, não tendo tempo para cobrir tudo, o professor faria uma seleção de ´motivos livres´, como, aliás, sempre fazem os críticos.

Para o aluno creio que seria interessante descobrir sua natural habilidade de – via resumo – fugir do que, no livro, é literário, e, logo em seguida, pela mesma via, chegar ao literário em um expediente prático de natureza comparativa. Quem sabe se esse método não seria assimilado e usado em aventuras literárias futuras… Sem esquecer que, mal formado, o professor do curso secundário, ele próprio, também precisa de métodos, quanto mais eficazes, melhores.

Bem, o aqui sugerido funciona no âmbito da crítica (e outros críticos, literários e/ou cinematográficos, hão de concordar comigo); espero que também funcione na sala de aula… Fica a proposta.