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Almodóvar diferente

13 jul

Em cartaz na cidade e no mundo, o novo filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, “Julieta”, (2915) está intrigando os seus fãs.

Eu mesmo, na saída do cinema, fui abordado por um grupo deles que, indignados, queriam saber o que foi que aconteceu com o cineasta de “Má educação” e “Fala com ela”.

Almodóvar, como se sabe, é um cineasta de estilo forte, e como tal, deu-se sempre ao luxo de ser redundante. Todo cineasta de estilo forte redunda forma e conteúdo numa boa, e todo mundo aplaude: que o digam Bergman, Kurosawa, Fellini, Hitchcock, Ford, etc.

julieta 2

O problema começa – se é que isso é problema – quando o cineasta resolve driblar o básico de seu estilo e experimentar um pouco. É o caso deste “Julieta”.

Mais contido, menos debochado, ou para usar o nome da produtora do cineasta, bem menos “desejo”, o filme conta a estória sofrida de uma mãe que perdeu contato com a filha adolescente e passa a viver em função dessa ausência e dessa angústia.

No início do filme, Julieta está para viajar a Portugal com seu companheiro quando, por mero acaso, encontra uma amiga que lhe dá notícia de sua filha, hoje vivendo na Suíça, com três filhos pequenos. Pronto. Isto é o suficiente para ela desistir da viagem e do companheiro e ir residir no velho prédio onde, muitos anos atrás, morara com a filha, na esperança de receber alguma correspondência.

Um estória de mães e filhas...

Um estória de mães e filhas…

Não só isso: passa a escrever a estória toda, desde a concepção da filha, estória escrita que vira imagem e vai constituir o grosso do filme.

O que exatamente aconteceu a Antia, a filha de Julieta, não se sabe durante o filme inteiro, e a espera da revelação final é custosa para a protagonista… e para o espectador. E, mais, não tenho certeza se o desenlace o revela satisfatoriamente. Para muitos comentaristas do filme, tem-se sonegação diegética prolongada demais, para um fornecimento final que, em vista do esforço para chegar lá, parece pífio.

Baseado em três contos da escritora canadense Alice Munro, “Julieta” é um filme sobre o sentimento da maternidade, junto com um certo ingrediente que lhe é  inerente, a culpa.

a atriz Adriana Ugarte como a Julieta jovem.

a atriz Adriana Ugarte como a Julieta jovem.

A iniciativa de adaptar literatura é outra quase novidade em Almodóvar – um diretor conhecido pela criatividade de seus roteiros originais – mas, parece-me que bem mais que Munro, quem está por trás deste novo Almodóvar é a Hollywood clássica, como se sabe, uma fonte de inspiração sua, embora nem sempre explícita.

Com efeito, o tempo todo, “Julieta” me lembrou o grande melodrama de King Vidor, 1937, “Stella Dallas, mãe redentora”, também uma estória sobre a dor de ser mãe. No filme de Vidor, Barbara Stanwyck faz uma mulher que se sacrifica pela filha até o extremo de perdê-la para que ela possa ser feliz. Em “Julieta”, a mãe perde a filha a contragosto e passa o resto da vida no seu encalço, mas as ressonâncias dramáticas são as mesmas.

Mas, atenção, não exageremos: um Almodóvar diferente?

Maternidade, ausência e angústia...

Maternidade, ausência e angústia…

Pensando bem, nem tanto assim. Não é a primeira vez que o cineasta toca em questões maternas (Conferir, e o título já diz: “Tudo sobre minha mãe”) e não é a primeira vez que lhe interessa a condição feminina.

Ademais, “Julieta” tem o mesmo capricho cromático dos outros filmes do diretor; o mesmo bom gosto na direção de arte, e o mesmo rigor na direção de atores. A sofisticação da mis-en-scène é a mesma, se você prestar atenção a detalhes. Por exemplo, os bolos que marcam a passagem de anos da filha ausente; a cópula no trem, mostrada como reflexo no vidro da janela; a passagem do tempo na idade da protagonista, indicada pela toalha que cobre e, anos depois, descobre o seu rosto, agora mais idoso – permitindo, aliás, a substituição das atrizes (ambas ótimas) Adriana Ugarte e Emma Soares.

As atrizes Susi Sanchez e Adriana Ugarte: mãe e filha.

As atrizes Susi Sanchez e Adriana Ugarte: mãe e filha.

Alguns lances de roteiro chegam a ser óbvios, como a interpretação que faz para seus alunos a jovem professora Julieta do simbolismo do mar na Odisseia, astutamente jogada na trama do filme como uma premonição de duas mortes: a do pescador Xoan (em tempestade marítima) e a do seu neto, também chamado Xoan, num lago suíco.

No terreno temático, aqui também estão os mesmos elementos disfóricos que atormentam os personagens almodovarianos: comas, doenças, suicídios, acidentes e depressões. Talvez aqui eles pesem mais que os “desejos”, não sei. De todo modo, se o filme começa com um mau presságio (a cena do senhor desconhecido, no trem) termina com uma esperança – o carro na estrada em direção à Suíça.

Enfim, Almodóvar diferente ou igual a si mesmo, um belo filme.

Turismo cinéfilo

23 jul

Sabe como cinéfilo é, não? Adora associar tudo a cinema. A todo lugar que vai, está sempre vendo imagens fílmicas a sua frente. Um carro que dobra uma esquina de modo furtivo, uma folha que dança no ar e cai na relva, um sorriso generoso de desconhecida no meio da multidão: qualquer detalhe pode lhe lembrar tal cena, de tal filme, que ele viu em tal data, em tal cinema…

E quando ele viaja, então! E se a viagem for ao estrangeiro, por ventura um país com cinematografia vasta, nem se fala.

Eu mesmo me lembro dos meus poucos dias em Nova Iorque assim. Por exemplo, toda vez em que entrava num daqueles cafés, para o breakfast, e lá vinha o garçon, todo de preto, com aquela toalhinha branca por sobre o braço, perguntando ´what can I do for you´. Hum, aquilo, para mim, era puro cinema. A via Broadway e suas calçadas apinhadas, o central park, o Harlem, a Quinta Avenida (às vezes eu tinha a ilusão de que ia encontrar Audrey Hepburn na próxima esquina, brechando jóias nas vitrines da Tiffany´s) – tudo isso, e, muito mais, está nas nossas retinas cinéfilas e, ao vê-los ao vivo, parecem deslocados, fora da tela.

Duvido que um cinéfilo visite o terraço do Empire State Building e não se lembre do pobre do Cary Grant esperando, até anoitecer, a Deborah Kerr, que não vai vir mesmo. Ou que suba à Estátua da Liberdade e não perca o fôlego com aquele vilão de Hitchcock, pendurado só pela manga do paletó, que está se rasgando e – uai! – o cara vai cair lá embaixo e se esfacelar.

Quando estive em Paris a coisa não foi muito diferente. Cheguei de trem, à noite, e da estação, tomei um taxi direto para o “Hotel des Étrangers”, ali no começo do Quartier Latin. De manhã, segui a pé, pelo Boulevard Saint Michel e fui, direto, sem hesitação, para a Île de France, já sabendo que lá encontraria a Notre Dame, e, atravessando a ponte, o Louvre, e de lá, a Place da La Concorde, o Champs Élisées, Arco do Triunfo, e tudo mais. Minha colega de viagem, que na época também era novata na cidade, se impressionou, pensando que eu já estivera em Paris e estava escondendo o leite. Não estava. De tantos filmes situados em Paris que vi na vida, o mapa da cidade luz, pelo menos a parte mais óbvia, estava na minha cabeça de cinéfilo, e, caminhando ruas afora, eu só fazia confirmá-lo.

Estou tratando disso a propósito de um livrinho que tenho em mãos, chamado “Europa de cinema” (Pulp Edições: Curitiba, 2011), com o subtítulo de ´roteiros e dicas de viagem inspirados em grandes filmes´. Viajante inveterado e cinéfilo, o autor é esse Vicente Frare, que nos convida a percursos regados a filmes em pelo menos cinco capitais européias: Berlim, Londres, Madri, Paris e Roma.

Para cada uma, ele fornece dicas de filmes recentes em que estas cidades são o cenário; resume os enredos e aponta os locais particulares que foram retratados, e ainda informa como o viajante pode visitá-los. Em seguida, vem uma lista maior e menos detalhada de filmes antigos cujos enredos se passam nessas cidades. Há ainda um setor de curiosidades sobre o cinema de cada país, seguido sempre de cinco locais particularmente cinematográficos (tipo: o Sacré Coeur em Paris, ou o Coliseu em Roma), cinco livros para entrar no clima, e cinco músicas para colocar no ipod. Como é coisa dirigida a quem vai viajar, o livro é pequeno, de modo a caber na bolsa ou mesmo no bolso. E claro, muito colorido e todo ilustrado com os devidos cenários a serem visitados.

Agora, ou você é de fato um aficcionado da sétima arte, ou o livro não lhe serve muito. Para se ter uma idéia, a quantidade de filmes resenhados, por exemplo, na primeira lista de Paris (chamada de “Filmes para viajar por…”) chega a dezessete, isto sem falar na segunda lista (chamada de “Outras Sugestões”), aquela que só fornece os créditos: no caso de Paris, são quarenta e duas películas. Claro, para o cinéfilo, não há problema, pois, quem é que não conhece – digamos – “Os incompreendidos” de François Truffaut (1959), ou “Playtime” de Jacques Tati (1968)?

Naturalmente, o cinéfilo obsessivo, como eu, vai até apontar lacunas: por exemplo, sobre Paris, não está lá o belo e comovente “Por ternura também se mata” (René Clair, 1958) cujo título original é, por sinal, o nome de um certo setor da cidade luz “Porte de Lilás”.

Dois comentários finais, um preso ao outro.

(1) a mera edição de um livro desses é prova de como, independentemente do fenômeno da cinefilia propriamente dita, a recepção ao cinema, de um modo geral, cresceu nas últimas décadas, e como o cinema passou a fazer parte da vida das pessoas, como talvez nunca fizera antes; (2) sem a eletrônica, que viabiliza os filmes em formato doméstico, um livrinho desses não faria sentido, ou melhor, nem seria possível.