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A forma da água

28 fev

Vencedor do Oscar de melhor filme e melhor direção, “A forma da água” (“The shape of water”, 2017) de algum modo já se distinguia antes da premiação. Não pelo número de indicações, mas porque é um filme bem diferente dos demais.

Mistura estética de fábula, horror, romance, drama, comédia, musical, e outras coisas mais, essa fantasia sombria e lírica de Guillermo del Toro conta uma estória improvável, deliciosamente improvável, que não pode ser bem apreciada se você se atém a códigos estritamente realistas.

Na Baltimore de 1962, uma moça pobre trabalha como serviçal numa instalação militar subterrânea e parcialmente secreta. Feiosa e muda, Elisa Esposito (Sally Hawkins) vive só e solitária no seu pequeno apartamento. Sem vida amorosa, a masturbação na banheira é uma triste compensação para sua solidão, esta só amenizada pela solidariedade do vizinho, Giles (Richard Jenkins) um homossexual idoso, artista frustrado e tão solitário quanto ela.

No trabalho, uma colega negra, Zelda (Octavia Spencer), a ajuda a entender os demais e a se fazer entender, e assim segue a vida monótona de uma moça modesta mas sonhadora. Segue assim até o dia em que é trazido para o laboratório secreto do prédio uma criatura estranha, que é posta num tanque grande, preso por uma espécie de coleira. Um anfíbio humanoide, a criatura (Doug Jones) fora capturada na Amazônia, e um plano secreto do governo pretende colocá-lo em órbita, ou coisa do tipo.

Primeiro aterrorizada e depois fascinada, Elisa, vai, sem que ninguém ao redor saiba, se afeiçoando ao “monstro”, o qual corresponde aos seus afetos. O “caso” está firme entre os dois, quando Elisa descobre que o plano mudara e que, o seu amado, na verdade, está ameaçado de morte: uma vez atacado pelo “monstro”, o diretor do laboratório, Mr Strickland (Michael Shannon), não o vê com simpatia alguma, e pretende que se faça dele uma dissecação fatal.

O resto da estória vai consistir no sobre-humano esforço de Elisa para resgatar o amado. Os dois amigos ajudam, mas, as peripécias do resgate são mais fantásticas do que se possa imaginar, envolvendo gatos esmagados, correrias dentro de um cinema, tiroteios à beira de um canal, sem contar (cena especial, de rara beleza plástica) um quarto inundado dentro do qual o casal abraçado levita, aquático e sublime.

O filme é narrado por uma voz “over”, meio autoral e sempre ambígua, fazendo mais perguntas do que explicando. O espectador mais objetivo pode se indagar quem é – e o que significa – essa criatura selvagem, capturada na Amazônia para análise científica, e não ter respostas, mas uma coisa é certa: selvagem e monstruosa como é, ela é mais humana do que os humanos que a mantêm em cativeiro. O que prevalece no todo, porém, não é nenhuma lição de moral ou coisa assim: prevalece a poesia da estória.

Sim, repleto de violência e doçura, de ação e pensamento, de intriga e amor, o filme é poético, fantasioso, feérico e encanta por ser assim. Não admira que se encerre com um poema, aliás, tão ambíguo e misterioso, quanto a voz do narrador. Ao lê-lo, pensei em E. E. Cummings, mas constatei que o poeta americano nunca escreveu os versos que se seguem:

“Unable to perceive the shade of you / I find you all around me / Your presence fills my eyes with your love / It humbles my heart, for you are everywhere”.

(Tradução livre: “Incapaz de perceber a tua forma / Eu te vejo todo em torno de mim / Tua presença enche meus olhos com o teu amor / Ela acalma meu coração, pois estás em toda parte”).

Disse acima que o filme não devia ser lido por códigos estritamente realistas. Sim, toda a estória contada – como lembra um cinéfilo amigo meu (André Dib) pode ser entendida como um delírio da protagonista… e por isso é fantasia pura. Neste sentido, Elisa é irmã gêmea da Cecília de “A rosa púrpura do Cairo”, outra mocinha imaginosa…

Em “A forma da água” (o título vem do poema, claro)  até a reconstituição de época é feita do modo mais imaginativo possível, nunca meramente mimético, ao contrário, investindo na “caricaturização afetuosa” do tempo e do espaço, das coisas boas e das coisas ruins.

Assim, lá estão, transubstanciados pela magia da narração: a guerra fria (com direito a espiões soviéticos e tudo mais), a corrida espacial, o racismo, a homofobia, os ecos do macarthismo, a televisão, e principalmente o cinema, o coetâneo e o antigo. Sem coincidência, os dois apartamentos, de Elisa e seu vizinho, estão localizados sobre uma sala de exibição em que vemos, o tempo todo, os cartazes dos filmes da época, no caso, “As noites de Mardi Gras” (1958) e o drama bíblico “A história de Ruth” (1960).

Quando o diretor do laboratório militar vai comprar seu carrão novo, a música ambiente da concessionária é “A summer place”, trilha de um melodrama que foi sucesso então, “Amores clandestinos” (1960). Em dado momento, em pleno laboratório, a moça muda põe o LP de Benny Goodman pra tocar os ouvidos da criatura e ele escura bem “I can see the sun when it´s raining”… Mas a trilha central é mesmo “You´ll never know just how much I miss you” (Na letra brasileira: “Você jamais saberá, querida, a falta que você faz em mim…” ), motivo poético do casal apaixonado, recorrentemente executado, e até performatizado em cena parentética mas apoteótica que faz a muda falar, cantar e dançar com o seu “monstro”. Esta canção foi primeiramente sugerida por um filme visto na televisão do vizinho Giles: “Aquilo, sim, era vida” (1943), onde atriz e cantora Alice Faye a interpretava. Enfim, mitos do cinema, como James Cagney, Betty Grable, Shirley Temple, Fred Astaire, Ginger Rogers, e até a brasileira Carmem Miranda – com o seu “Chica Chica Boom” – estão sempre, vocal ou visualmente, visitando a tela.

Aliás, o filme em si mesmo é uma grande remissão, alegremente assumida, a um filmezinho do passado que os cinéfilos brasileiros de minha faixa etária com certeza viram nos cinemas de sua infância, e que, pelo espanto ou pelo medo então experimentados, não devem ter esquecido: “O monstro da lagoa negra” (Jack Arnold, 1954), uma produção B da Universal, cujo roteiro, ficcionalmente localizado na Amazônia brasileira, não contava uma estória muito diferente da que se conta agora.

Consta na Imprensa que a produção de “A forma da água” estaria sendo processada, acusada de plagiar uma certa peça teatral de 1969, que teria o mesmo enredo do filme, este fato, podendo vir a influir nas escolhas dos jurados da Academia de Hollywood. Tomara que não, pois o filme de del Toro merece, se não todos os Oscars a que concorre, ao menos o de melhor direção.

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O relatório Kinsey

8 ago

 Acho que poucos séculos foram tão simetricamente duais quanto o século XX. Pelo menos do ponto de vista comportamental, as suas duas metades não poderiam ser mais antitéticas.

E, claro a “dobradiça” que mudou tudo foi a década de 60. No terreno sexual, por exemplo, se porventura na primeira metade já se pintava e bordava, era tudo por debaixo do pano. Quem levantou o pano foi sessenta, com sua badalada “revolução sexual”.

Obviamente, a coisa toda não aconteceu de supetão e houve fatores bem específicos, anteriores no tempo, que contribuíram de modo particular para o “levantamento do pano”.

Universidade de Indiana: portal de entrada

Universidade de Indiana: portal de entrada

Um dos mais decisivos foi a publicação, em 1948 e 1953, de dois livros nos Estados Unidos, que eu saiba sem tradução no Brasil, respectivamente: “Sexual behavior in the human male” (`Comportamento sexual no homem´) e “Sexual behavior in the human female” (´Comportamento sexual na mulher´).

Publicações da Universidade de Indiana, de autoria do professor e pesquisador Alfred Kinsey, os livros viraram imediatos best-sellers que, de início causaram escândalos, mas, com o tempo, foram sendo entendidos e aceitos como um trabalho científico, afinal de contas fundamentado em extensiva e séria pesquisa de campo, tudo financiado pela poderosa Fundação Rockefeller.

Dentro do maior rigor, as pesquisas de Kinsey e seu grupo de estudos entrevistavam milhares de homens e mulheres de diversas faixas etárias sobre os seus hábitos sexuais e as constatações e dados estatísticos derrubavam tabus.

Residência típica em Bloomington, cidade onde fica a Indiana University.

Residência típica em Bloomington, cidade onde fica a Indiana University.

Hoje, decorrida a segunda metade do século e um pouco mais, não seria novidade, mas, na época foi certamente constrangedor ver revelado, por exemplo, que a masturbação, em homens e mulheres, era uma prática generalizada, mesmo entre casados e/ou idosos. Que a relação sexual antes do casamento já era, na época, comum… Que um número significativo de pessoas casadas haviam tido experiências amorosas fora do casamento, etc…

Um dos pontos mais polêmicos foi, certamente, o das diversidades sexuais, quando, a partir dos relatos de seus depoentes, Kinsey desenvolveu sua famosa tabela hetero/homoerótica, segundo a qual, ao invés da polaridade conhecida e aceita, haveria uma variação de preferências que ia de 1 (heterossexualidade exclusiva) a 7 (homossexualidade exclusiva), os números intermediários indicando, com surpreendente frequência, a gradação entre os dois extremos. Numa sociedade machista, essa quebra dos limites entre as duas práticas era um problema e um escândalo.

Com uma pequena ironia: as pesquisas de campo de Kinsey foram predominantemente realizadas numa das regiões mais conservadoras dos Estados Unidos, o Meio Oeste americano, onde estava situada a Universidade de Indiana.

Cena do filme "Kinsey - vamos falar de sexo" (2004)

Cena do filme “Kinsey – vamos falar de sexo” (2004)

Cientista sério, Kinsey não queria a fama e muito menos os seus efeitos deletérios. Não queria, mas teve os dois, a fama e os efeitos.

Quem relata a difícil vida profissional e privada de Kinsey é o diretor americano Bill Condon no seu filme “Kinsey – vamos falar de sexo” (2004), ainda hoje em cartaz nas redes de televisão paga.

Nele Liam Neeson faz muito bem o puritano zoólogo e sexólogo Kinsey: sua ousadia em fundar o departamento de pesquisas sexuais na Universidade de Indiana; sua determinação em conceber e executar o projeto que resultaria nos livros; as objeções e os obstáculos que enfrentou, e, pior, os muitos mal-entendidos decorrentes de seu sucesso.

E vejam que os problemas não vinham só dos oponentes, mas também dos concordantes, como foi o caso daquele senhor de meia idade, um dos seus depoentes, que o colocou em impasse, profissional e ético, ao relatar os seus numerosos casos de prática pedófila.

Uma depoente confessa ter sido salva por Kinsey.

Uma depoente confessa ter sido salva por Kinsey.

Uma cena comovente no filme mostra Kinsey já idoso, doente e desanimado com a falta de apoio financeiro para novos projetos. Nessa ocasião, ele recebe a visita de uma senhora que, emocionada, lhe confessa ter sido salva por ele: descobrindo-se lésbica ainda jovem, estivera à beira do suicídio, quando leu seus livros e pôde constatar que, no país, milhares de mulheres tinham as suas mesmas preferências sexuais e não eram monstros, mas seres tão humanos quanto quaisquer outros.

De minha parte, assisti a “Kinsey” com interesse particular. É que, por coincidência, fui, nos anos oitenta, bolsista-pesquisador Fulbright na Universidade de Indiana, em Bloomington, onde cheguei a fazer amizade com duas ou três pessoas de certa idade que haviam sido depoentes no hoje chamado “Relatório Kinsey”.

Fazendo gracejo, um deles me garantiu que seu relato ficou com certeza na categoria da “normalidade”, mas, ora, o que o trabalho de Kinsey pergunta é isto: no terreno sexual, o que é normal?

Liam Neeson faz bem o papel de Alfred Kinsey

Liam Neeson faz bem o papel de Alfred Kinsey