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Da série velhos faroestes: “Choque de ódios”

5 dez

A essa altura, todo mundo sabe como o Oeste americano foi conquistado. Com violência, injustiça e crimes. No meio desse pandemônio, houve, contudo, justiceiros que se destacaram pela honradez e pela coragem. Um deles foi Wyatt Earp (1848-1929), cujos feitos heróicos transformaram-se em lenda, na boca do povo, nos livros, nos gibis, e no cinema.

O mais conhecido desses feitos ocorreu ao tempo em que Earp era delegado em Tombstone, Arizona. Foi o duelo no Curral OK, onde, junto com os irmãos e Doc Holliday – outro mito vivo do Oeste – venceu a famigerada gangue dos Clanton, e trouxe a paz ao lugar. De tão evocado, esse feito apareceria, mais tarde, numa série de filmes hollywoodianos, dos quais o primeiro foi o belo “Paixão dos fortes”, de John Ford (1946).

wichita 2

Mas, bem antes de Tombstone, houve Wichita, no Kansas, e é disso que trata o bom western de Jacques Tourneur “Choque de ódios” (“Wichita”, 1955), que acabo de ver.

Nesse tempo de mocidade Wyatt Earp havia deixado a profissão de caçador de búfalos e, com um bom dinheiro no bolso, cavalgava Oeste afora, com o propósito de entrar de sócio em algum promissor empreendimento comercial. Assim chegou a Wichita, mas, as circunstâncias mudaram o seu propósito. Cidade pecuária, progressista, mas extremamente violenta, Wichita fervilhava de saloons onde vaqueiros, bêbados e armados, faziam badernas que terminavam nas ruas, com gente ferida ou morta.

Instado, logo que chegou, a pôr a insígnia de delegado no peito, Earp recusou peremptoriamente. Recusou até ver um garoto de dez anos morto por uma bala advinda dos tiroteios. Nesse momento dramático, assumiu a missão de pôr ordem no lugar, custasse o que custasse. Sua primeira medida de delegado foi o desarmamento obrigatório, o que causou um rebuliço, não apenas entre vaqueiros, mas também junto a cidadãos de bem que, comercialmente, dependiam da atividade pecuária, e portanto, dos vaqueiros.

Vera Miles e Joel McCrea em cena

Vera Miles e Joel McCrea em cena

Baseado em fatos históricos, o roteiro do filme vai por aí, mas não quero contar mais. Só dizer que, depois de muita bala trocada, a ordem é imposta e o filme termina com Earp, casado com garota local, indo embora para outra cidade do Kansas, Dodge City, onde, mais tarde, os anais da História registrariam mais um dos seus grandes feitos, também antes de Tombstone.

Outro fato histórico que o filme recria é o encontro de Earp com o então jovem e ainda inexperiente Bat Masterson, como se sabe, mais um mito da vida no Oeste. Aqui Masterson é, por enquanto, um mero jornalista que, corajosamente, cobre as desavenças do lugar e, eventualmente, ajuda Earp na sua missão ordeira.

O filme tematiza bem a hesitação entre barbárie e civilização, típica daquela fase da vida americana que vai do pós-guerra civil (1865) até a consolidação da indústria (cerca de 1890), período histórico de tantos outros faroestes.

“Choque de ódios” não é nenhum grande western, mas, de todo jeito, é bom ver como Hollywood clássica sabia, quando queria, fazer um filme menor com competência e mesmo com bom gosto. Afinal de contas, era preciso atrair um público pagante que apreciasse uma estória bem contada, ainda que esse público porventura nem soubesse quem tinha sido a figura verídica de Wyatt Earp. Por isso mesmo a direção foi dada ao competente e seguro Jacques Tourneur.

Violência e desordem em Wichita

Violência e desordem em Wichita

O ator que faz Wyatt Earp é o famoso Joel McCrea, bem conhecido dos fãs do gênero, e a namorada e depois esposa é a ótima Vera Miles. Já o vilão mor, Gyp Clemens, que enfrenta Earp no duelo final, é Lloyd Bridges, sim, aquele que os espectadores tinham visto, três anos antes, como o adverso subdelegado de Gary Cooper em “Matar ou morrer”. Ainda jovem e desconhecido, quem faz uma ponta é o futuro cineasta Sam Peckimpah, que aparece naquela cena inicial do assalto ao banco, no papel do caixa que efetua o depósito de Earp. Seis anos mais tarde – vocês lembram – Peckimpah daria início ao soerguimento do gênero, com o seu “Pistoleiros do entardecer” (1961)…

“Choque de ódios” foi o primeiro cinemascope da pequena Allied Artists, um recurso técnico que, como se viu, caiu como uma luva no gênero western. E neste caso não é só nas paisagens a céu aberto que dele se tira proveito estético, mas também em cenas na cidade de rua larga, onde sempre se mostra uma verdadeira multidão de vaqueiros e cavalos, cortando a tela de um lado a outro. Ao tempo da estréia do filme – imagino -, um belo espetáculo para a criançada, ou, se for o caso, para os adultos que não haviam deixado de ser.

 

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Não dê bronca

31 jul

Do anedotário brasileiro faz parte a gozação com os títulos que os filmes estrangeiros receberam em Portugal. Os cinéfilos que consultam livros de cinema editados naquele país adoram citar esses títulos para provocar o riso. E provocam.

É fato que em todo país – e não apenas em Portugal – os filmes estrangeiros recebem por vezes títulos estapafúrdios, mas, mantém a lenda que os portugueses seriam mais engraçados.

Digamos de início que, nas brincadeiras dos cinéfilos brasileiros, há verdades e mentiras. A mentira mais frequente é que “Psicose” tenha sido reintitulado em Portugal como ´O filho que amava a mãe´. Não é verdade: o título lusitano do filme é só a tradução literal do original: “Psico”.

"O rapaz que vendeu a pomba" é o título lusitano do filme de Oshima

“O rapaz que vendeu a pomba” é o título lusitano do filme de Oshima

Muitas vezes o engraçado do título lusitano consiste na diferença vocabular entre Brasil e Portugal. Por exemplo, aquele drama do japonês Nagisa Oshima, de 1959, sobre um jovem que vendia aves (no original: “Ai to kibou no machi” : `a cidade do amor e da esperança´) teve em Portugal um título para nós ambíguo e ridículo: “O rapaz que vendeu a pomba”.

Poucos contêm o riso, é fato, ao ler ou ouvir o título daquela comédia de Roman Polanski sobre mortos vivos, que traduzimos do original como “A dança dos vampiros” (1966). Em Portugal o título do filme é mais longo: “Por favor, não me morda o pescoço”.

Certamente, um que está perto de ser o campeão da criatividade é o título lusitano dado ao filme de Richard Lester, com os Beattles, “Os reis do ye ye ye” (1964). O título português (juro) é: “As quatro cabeleiras do Após-Calipso”.

Como o assunto é vasto, vou, por questão de economia, aqui me limitar a mencionar e comentar brevemente alguns títulos que os distribuidores portugueses deram a filmes produzidos em Hollywood. Vejamos.

"As quatro cabeleiras do Após-Calipso": sem comentários.

“As quatro cabeleiras do Após-Calipso”: sem comentários.

“A culpa foi do macaco” é, com certeza, um título engraçado para o filme de Howard Hawks “O inventor da mocidade” (1952), com a justificativa de ter uma palavra chave do original “Monkey business”. “Doido com juízo” também é curioso para o filme de Frank Capra “O galante Mr Deeds” (em inglês “Mr Deeds goes to town”). “A menina dos telefones” soa igualmente hilário para designar a protagonista do filme de Vincente Minnelli “Bells are ringing” (1960), entre nós “Essa loura vale um milhão”. “Não há como a nossa casa” eis um título lusitano impensável para “Meet me in St Louis” (1944), do mesmo Minnelli, e que nós traduzimos de modo igualmente estranho “Ainda seremos felizes”. “A mulher que viveu duas vezes” é outro título lusitano que é motivo das chacotas cinéfilas, dando pistas sobre o que acontece à protagonista de, em inglês “Vertigo” (´vertigem´), no Brasil, “Um corpo que cai” (1958).

Com certeza, a gozação predileta dos cinéfilos brasileiros recai no título lusitano do faroeste de Fred Zinnemann, “High Noon” (´meio dia em ponto´) que no Brasil se chamou “Matar ou morrer” (1952). Em Portugal o filme foi intitulado como “O comboio apitou três vezes”, com o constrangedor detalhe de que, na estrutura do enredo, a quantidade de apitos do trem que chega a essa pequena cidade do Oeste, não tem absolutamente nenhuma relevância.

"Faça a coisa certa", em Portugal: "NÃO DÊ BRONCA".

“Faça a coisa certa”, em Portugal: “NÃO DÊ BRONCA”.

Ao invés de rir, há quem dê bronca das intitulações lusitanas. De minha parte, ao contrário, reservei para este artigo um título solidário aos portugueses, o mesmo que eles deram ao filme “Faça a coisa certa” (1989): “Não dê bronca”.

Pois, digamos a verdade: nem sempre os títulos portugueses são risíveis, e, nem sempre os nossos são melhores que os deles. Para a consideração do leitor, faço seguir uma lista de 18 (re)intitulações lusitanas e brasileiras de filmes famosos. De propósito não cito os títulos originais, apenas o ano da produção, em ordem cronológica. E decida você, leitor, quem deu títulos mais impertinentes a estes filmes americanos, se Portugal ou Brasil.

“Duas feras” vs “Levada da breca” (1938); “Cavalgada heróica” vs “No tempo das diligências” (1939); “A raposa matreira” vs “Pérfida” (1941); “O mundo a seus pés” vs “Cidadão Kane” (1941); “Mentira” vs “A sombra de uma dúvida” (1942); “A casa encantada” vs “Quando fala o coração” (1943); “Suprema decisão” vs “Um retrato de mulher” (1944); “Do céu caiu uma estrela” vs “A felicidade não se compra” (1946); “Há lodo no cais” vs “Sindicato de ladrões” (1953); “Fúria de viver” vs “Juventude transviada” (1955); “A terra em perigo” vs “Vampiros de almas” (1956); “A desaparecida” vs “Rastros de ódio” (1956); “O espírito e a carne” vs “O céu é testemunha” (1958); “Corações na penumbra” vs “Doce pássaro da juventude” (1962); “Música no coração” vs “A noviça rebelde” (1965); “Fim de semana alucinante” vs “Amargo pesadelo” (1972); “Juventude inquieta” vs “O selvagem da motocicleta” (1982).

Em tempo: para mais sobre a temática, consultar meu livro “Hollywood em outras línguas: a tradução de títulos de filmes e seus problemas” (Editora da UFPB, 2009), inteiramente disponível neste blog.

"O comboio apitou três vezes" - A quantidade de apitos é irrelevante em "Matar ou Morrer".

“O comboio apitou três vezes” – A quantidade de apitos é irrelevante em “Matar ou Morrer”.

 

Meus dez

4 abr

Não tem jeito: cinéfilo que se preza adora fazer a sua listinha de filmes preferidos, e o número padrão é dez.

No mundo literário pode ser diferente, mas, no território do cinema, o hábito é tão generalizado que até os profissionais da crítica se entregam a ele, aproveitando para, no cruzamento dos escolhidos por muitos, elegerem os melhores filmes do mundo. A mais prestigiada dessas listas internacionais é a da Revista inglesa “Sight & Sound” que, a cada dez anos, desde 1952, apresenta os dez filmes mais perfeitos já feitos em todos os tempos e espaços, e isto em ordem qualitativa.

Mas, no caso dos espectadores comuns, digo, não-profissionais, ninguém quer saber de perfeição, e as escolhas recaem mesmo sobre o gosto pessoal… e pronto!

Todos, ou quase todos, os meus amigos cinéfilos têm a sua listinha e eu não fujo à regra. A depender do cinéfilo e de suas idiossincrasias, a lista pode ser fixa, imutável, ou pode ser mais ou menos flexível, móvel. No meu caso, acho que fico numa espécie de meio termo: entre os meus dez preferidos, uma parte é fixa e outra vem se modificando com o passar do tempo e do meu processo constante de revisitação fílmica.

Por coincidência, há poucos dias, me caiu nas mãos um número da Revista “A Tela Demoníaca”, onde, no ano do centenário do cinema, 1995, dei entrevista à jornalista Thamara Duarte, e lá ela me cobrava a minha dezena preferida. Pois, cotejando a lista que divulguei à Thamara na época – portanto, dezoito anos atrás – com a atual, a que tenho na cabeça agora, constato o que já disse acima: seis filmes permanecem os mesmos nas duas listas e quatro, saíram para dar lugar a outros. Os que saíram, não porque os ame menos, mas porque outros se impuseram ao meu afeto com maior força, são: “Luzes da cidade”, “Crepúscuplo dos deuses”, “Morangos silvestres” e “Jules et Jim”.

Em ordem cronológica (e não hierárquica), e seguidos de alguns dados da ficha técnica, eis, portanto, a quem interessar possa, a lista atual dos meus dez filmes mais amados.

Casablanca (Idem, 1942), de Michael Curtiz, com Ingrid Bergman e Humprhey Bogart.

1 Casablanca

Desencanto (Brief encounter, 1945), de David Lean, com Celia Johnson e Trevor Howard.

2 brief encounter

A felicidade não se compra (It´s a wonderful life, 1946), de Frank Capra, com Donna Reed e James Stewart.

3 its a wonderful life

Um lugar ao sol (A place in the Sun, 1951) de George Stevens, com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift.

4 a place in the sun

Matar ou morrer (High Noon, 1952) de Fred Zinnemann, com Grace Kelly e Gary Cooper.

5 high noon

Janela indiscreta (Rear window, 1954) de Alfred Hitchcock, com Grace Kelly e James Stewart.

6 rear window

Vidas amargas (East of Eden, 1955) de Elia Kazan, com James Dean e Raymond Massey.

7 east of eden

Noites de Cabíria (Le notti di Cabíria, 1957) de Federico Fellini, com Giulietta Masina.

8 le notti di cabiria

Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960) de Billy Wilder, com Shirley MacLaine e Jack Lemmon.

9 the apartment

O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valence, 1962) de John Ford, com Vera Miles e James Stewart.

10 the man...

Como se percebe, não são os filmes mais destacados na história do cinema, e não foram escolhidos pela importância, e sim, por motivos subjetivos. Que motivos são estes, nem eu mesmo sei, e acho que até meu analista – se eu tivesse um – teria dificuldade em dizer. Em uma coisa ao menos creio que todos concordam: a nenhum deles falta qualidade artística. O que deve chamar a atenção do leitor desta matéria são as datas. De fato são filmes antigos, quase todos da primeira metade do Século XX. Nisso sou, sim, um assumido “classicista” que encontra certa dificuldade em empolgar-se com a produção contemporânea.

Uma angústia de quem elabora sua lista é, pressionado pela restrição numérica, ter que deixar de fora tantos filmes maravilhosos. Como pude retirar, da lista anterior, “Crepúsculo dos deuses”? Meu pretexto é que o substituí por outro do mesmo autor, “Se meu apartamento falasse”. Como manter fora filmes como “Aurora”, “O anjo azul”, “Os incompreendidos”, “A balada do soldado” “Rocco e seus irmãos”, “Vidas secas”? Em outras palavras, não dá para escapar do efeito “escolha de Sofia”.

Enfim, os meus dez escolhidos são estes, com tendência – confesso – a tornar-se esta lista imutável a partir de agora.

E você, caro leitor, quais são os dez filmes que você mais ama? Comente esta matéria, apresentando a sua lista. Que tal?

Estreia de “O homem que vê no escuro”: um registro verbo-visual

2 jan

 Faço aqui o registro verbo-visual da estréia do filme O homem que vê no escuro (Mirabeau Dias, 2012), para quem não pôde comparecer, e também para quem compareceu, os muitos amigos, colegas e conhecidos que ocuparam as 150 cadeiras do recém fundado Cine Linduarte Noronha, nas dependências do prédio da Funjope, rua Duque de Caxias, 352, em João Pessoa, na noite de 28 de dezembro de 2012, dia Mundial do Cinema.

Cena do filme

Cena do filme

O homem que vê no escuro é um longa documental (101 minutos) sobre a minha pessoa, meu trabalho, minha militância na crítica cinematográfica e minha vida.

Concebido, roteirizado, dirigido, editado e produzido por Mirabeau Dias, o filme faz um passeio por minha linha existencial, a partir de entrevistas que, em momentos diferentes, concedo ao professor Luiz Antônio Mousinho, aos jornalistas Renato Felix e Astier Basílio e ao próprio Mirabeau Dias.

Cena do filme

Cena do filme

Nessas entrevistas fica delineada a minha trajetória de ser humano, de escritor e de pensador do cinema, os dados pessoais (o primeiro filme que vi, por exemplo) se misturando ao embate conceitual (livros que li, pessoas que me influenciaram, etc) que me conduziu à posição teórica que caracteriza meus escritos e minha maneira de interpretar o cinema. Naturalmente, toda a minha fala é emoldurada por cenas de filmes, imagens amadas de nós todos.

Do filme também fazem parte lances criativos, nada documentais – evidentemente, todos soluções expressionais do diretor – que ilustram a minha paixão pelo cinema de várias formas, em alguns casos de forma brincalhona. James Stewart enredando de mim por telefone a Hitchcock em “Janela indiscreta”, ou, eu, na pele de Gary Cooper, dando meia volta na carroça para ir pegar o livro “Imagens amadas” (começo de “Matar ou morrer”) são dois lances que vêm ao caso. Cito mais dois: uma dramatização que, a pedido do diretor, faço do mini-conto “Flor de Cacto” (conferir neste blog meu livro “Um beijo é só um beijo”) e minha enxerida ingerência no ato de desenhar, um hobby secreto que sempre escondi de todos.

Cena do filme

Cena do filme

A exibição do filme fez parte do evento que celebra o Dia Mundial do Cinema, evento este organizado pela Academia Paraibana de Cinema, sob a presidência do jornalista e historiador Wills Leal. Na ocasião, foram entregues prêmios aos melhores filmes paraibanos realizados em 2012, que passo a citar em suas respectivas categorias:

Presidente da APC, Wills Leal

Presidente da APC, Wills Leal

“Tudo que Deus criou” de André da Costa Pinto (Longa metragem de ficção); “Radegundis Feitosa” de Anthur Lins e Niu Batista (Longa metragem documental); “Ato instituicional” de Helton Paulino (curta de ficção); “Fogo pagou” de Ramon Batista (curta documental).

A atriz Marcélia Cartaxo

A atriz Marcélia Cartaxo

Houve ainda a entrega dos troféus do Festcine Digital do Semiárido, para: “A Ninhada” de Nivaldo Miranda (ficção) e “Quebra quilos” de Haroldo Vidal. O produtor e realizador Durval Leal recebeu um prêmio especial pelo conjunto de sua obra, e a atriz Marcélia Cartaxo fez o anúncio oficial do prêmio Walfredo Rodriguez, recém instituído pela Funjope.

Após a exibição de O homem que vê no escuro foi servido um coquetel aos presentes. (Confira fotos).

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigos

JBBrito entre amigas

JBBrito entre amigas

JBBrito, Sérgio de Castro Pinto, Mirabeau Dias e Suely

JBBrito, Sérgio de Castro Pinto, Mirabeau Dias e Suely

Silvino Espínola, JBBrito e o diretor Mirabeau Dias e esposa, Suely.

Silvino Espínola, JBBrito e o diretor Mirabeau Dias e esposa, Suely.

Coquetel

Coquetel

Coquetel, vendo Wills Leal à direita, de costas

Coquetel, vendo-se Wills Leal à direita, de costas

Antes de High Noon

27 nov

Na historiografia do gênero faroeste, “High Noon”, (“Matar ou morrer” Fred Zinnemann, 1952) é sempre dado como um marco. Além de perfeito na sua confecção cinemática, o filme de Zinnemann era o primeiro western a, de forma sistemática, introduzir psicologia ao meio do excesso de ação, típico do gênero. Não é que o faroeste, nascido ao tempo do cinema mudo, não tivesse psicologia. Apenas os seus elementos eram simplificados, na maior parte dos casos, se resumindo à dualidade entre os bons e os maus. “High Noon” implodiu esse maniqueísmo e o fez de modo radical.

Naturalmente “High Noon” teve precursores no emprego da psicologia ao faroeste, basta checar certos filmes chave de John Ford, como “No tempo das diligências” (1939) e “Paixão dos fortes” (1946).

Pois, incrivelmente próximo no tempo, na temática e mesmo na construção, um dos precursores mais curiosos de “High Noon” é esse modesto faroeste B que o cineasta André de Toth co-roteirizou e que Henry King dirigiu para a Columbia, dois anos antes, em 1950. Refiro-me ao obscuro e por muito tempo pouco prestigiado “O matador” (“The gunfighter”, 1952)

Ao invés de contar a estória de um Xerife, “O matador” conta o drama desse pistoleiro afamado, Jimmy Ringo, que, em 1880, chega à pequena Cayanne onde, com outro sobrenome e incógnitos, residem a mulher e o filho, que ele não vê há cerca de oito anos. O objetivo de Ringo é aposentar as armas e viver uma vida normal, ao lado da amada e do filho, em algum sítio afastado de tiroteios e violências, porém, a sua fama o persegue e, onde quer que ele vá, os que dele se aproximam, ou estimulam sua valentia com bajulações, ou a questionam com desacatos, geralmente fatais para os desafiadores.

Como “High Noon”, “O matador” trabalha com a unidade de espaço e tempo. Depois de chegado a Cayenne, Ringo permanece recluso à circunscrição de um hotel, e o resto da narrativa é cronologicamente marcado – também em um relógio – pelo prazo de ir embora que lhe dá o Xerife – o momento em que vir o filho. Vejam só: como o Will Kane de”High Noon”, Ringo é um homem pressionado a partir, e como o mesmo Kane, momentaneamente abandonado pela esposa. Aliás, com forma de quiasmo, a simetria entre os dois personagens é curiosa: Kane seria um cidadão de bem agindo como bandido (isto é, apelando para a violência), enquanto Ringo seria um bandido agindo – ou tentando agir – como cidadão de bem.

Outro elemento de afinidade entre os dois filmes está na construção do suspense, gradativa e crescente, até um ponto de ebulição. Na medida em que corre o tempo, vão surgindo, cumulativamente, os fatores desfavoráveis ao sonho de paz doméstica de Ringo. Para citar alguns poucos: (1) os três cavaleiros que vêm de Santa Fé, no seu encalço, para vingar a recente morte do irmão; (2) aquele senhor que perdeu um filho em duelo e pensa ter sido Ringo o autor do tiro; (3) esse rapaz de Cayenne que não vê a hora de mostrar que Ringo “não é assim tão durão”; (4) embora ex-colega de aventuras, o Xerife Mark, que não compreende os seus planos e não o quer na cidade; (4) a esposa, que não acredita na possibilidade de uma recuperação; (5) os habitantes de Cayenne, que se prostram na frente do hotel para espiar o mito Ringo, e, assim, inviabilizam a sua estada na cidade; (6) a Liga Feminina, que exige do Xerife uma medida efetiva contra a presença desse malfeitor em Cayenne.

Com tantos pontos em comum, uma pergunta inevitável para o espectador que compara os dois filmes é se Zinneman e sua equipe conheceram o filme de King, e se nele porventura se inspiraram. Se assim foi, não vejo problemas: os dois filmes são excelentes.

Na época de seu lançamento, por alguma razão estranha, “O matador” não chamou a atenção, e nem a indicação ao Oscar de roteiro original (William Bowers) despertou o interesse da crítica. Somente nas ultimas décadas, com o advento das cópias eletrônicas, o filme de King tem sido revisto e reavaliado como merece. Hoje, a crítica revisora atribui a “O matador” uma estrutura de tragédia grega e o faz com razão, o que, aliás, marca uma diferença básica com “High Noon”, que tem – para incômodo de alguns comentadores – um relativamente arranjado “happy end”.

Outros elementos destacados pela revisão são a fotografia e as interpretações. Daquela primeira diz, por exemplo, o crítico Robert Warshow: “o filme está feito em tons parados e frios de cinza, e todo objeto nele – rostos, roupas, mesas, o pesado bigode do herói – sugere aquelas opacas fotografias do Oeste do século dezenove”. Faço questão de citar a observação, não só pela pertinência, mas porque faz justiça ao genial profissional da iluminação que foi Arthur Miller, sem coincidência, já na época o detentor de três Oscar: por “Como era verde o meu vale” (1941), “A canção de Bernadete” (1943), “Ana e o rei” (1946).

Com relação às interpretações, todo o elenco está ótimo, do interesseiro dono do hotel (o grande Karl Malden) ao “pistoleiro vindouro” com cuja imagem o filme se fecha (Skip Homeier), mas, o destaque é mesmo para Gregory Peck – hoje a crítica concorda – em um de seus melhores desempenhos. Peck foi um dos atores preferidos de Henry King, com quem fez seis filmes no período de dez anos. Em “O matador” é possível sentir que a química entre diretor e ator principal foi perfeita e fluiu, se se puder dizer, como uma arma sacada por uma mão profissional.

Entre os reavaliadores de “O matador”, o crítico Tom Milne o dá como “soberbo, clássico, trágico” para concluir que está num patamar qualitativo acima de “High Noon”. Concordo com os adjetivos, mas não com a sua conclusão. No meu entender, é exagero, mas, vale a chamada para um faroeste por tanto tempo e tão injustamente subestimado.