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O filme da minha vida

8 ago

Interessante notar como, no cinema de hoje em dia, está se tornando cada vez mais comum a referência ao cinema do passado. Quem faz isto, e o faz muito bem, é o filme de Selton Mello “O filme da minha vida” (2017). Nele o western clássico “Rio Vermelho” (Howard Hawks, 1948) desempenha o papel de intertexto, e um intertexto importante, uma vez que partilha uma porção de sua temática, a saber, o conflito entre pai e filho, no caso, feitos por John Wayne e Montgomery Clift.

Narrado em primeira pessoa, o filme conta a estória desse rapaz de 23 anos, Tony (Johnny Massaro), professor de francês na pequena Remanso, RG, que vive entre a saudade do pai desaparecido (o francês Vincent Cassel) e os conflitos sexuais de seus alunos, conflitos que também são seus, sempre indeciso entre duas irmãs, tão ambíguas quanto ele mesmo. Nessa busca de maturidade, ninguém o ajuda, muito menos o criador de porcos Paco (o próprio Selton Mello), amigo da família, figura sempre presente, meio “candidato a pai”, e que um dia, a contragosto, o leva à Fronteira, para uma experiência com prostitutas. Conduzido pelo trem de um maquinista meio filósofo (Rolando Boldrin), Tony termina por descobrir o paradeiro paterno e isso tem a ver com cinema, especialmente com o sempre citado “Rio Vermelho” de Hawks.

O filme adapta o livro do escritor chileno Antonio Skármeta, “Um pai de filme” (2010), porém, a adaptação é relativamente livre. Por exemplo, o filme referido no livro também é um western de Howard Hawks, mas não é o tão adequado à estória “Rio Vermelho”, e sim, “Rio Bravo” (1959) cujo título brasileiro foi, na verdade, “Onde começa o inferno”.

De qualquer forma, podemos dizer que ambos, livro adaptado e filme adaptador têm intertextos fílmicos. Para dizer a verdade, desconfio que em ambos, digo, no livro e no filme, há mais de passado cinematográfico do que a gente pensa.

Com o risco de fornecer spoilers, faço um breve resumo da estória, na perspectiva de um personagem que não é o narrador Tony. Vejam bem:

Um pai de família, que sempre foi querido e correto, comete, inadvertidamente, um grave deslize por causa de uma mulher, e, assim, desaparece do seio da família e vai viver, anônimo, noutro lugar. Ora, esse argumento está lá atrás, num filmezinho de 1940 que fez meio mundo chorar, chamado no Brasil de “Seu único pecado” e no original “The way of all flesh” (Louis King, 1940).

Em “Seu único pecado” o pai desditoso nunca volta à família, enquanto que no livro de Skármeta e no filme de Mello a narrativa providencia um final meio feliz para todos, porém, o argumento (digo, não o roteiro) é o mesmo.

Os atores Vincent Cassel e Selton Mello

O que desconfio é que, bem antes do filme de Mello, o livro de Skármeta teve, conscientemente ou não, influência de “Seu único pecado”, o que não é nada improvável, já que, ele próprio professor de cinema, Skármeta é um grande conhecedor do passado desta arte. Não é de admirar, portanto, que o filme de Mello – via livro adaptado – carregue um certo cheirinho de melodrama antigo. Vendo-o, senti esse cheirinho e foi ele que me trouxe à lembrança as lágrimas que derramamos, eu e toda uma gama de espectadores, quando assistimos a “Seu único pecado”.

Com esse passado nas costas, ou não, de todo jeito o filme de Mello agrada a todos pelas qualidades intrínsecas que possui. Uma delas é a primorosa fotografia de Walter Carvalho. Lembro que da fotografia de “Rio vermelho”, a crítica americana Pauline Kael dizia que “elevava a paisagem à categoria de personagem”. E eu pergunto, não acontece o mesmo aqui? Não me admiraria se me dissessem que Carvalho inspirou-se no preto e branco do fotógrafo Russell Harlan, pra fazer o seu colorido melancólico que nos encanta.

Em primeiro plano, Johnny Massaro no papel de Tony.

Como no livro, a estória do filme de Mello se passa em 1963, mas a direção não se preocupou muito com o rigor de datas. Alguns exemplos: uma das muitas canções que compõem a rica trilha musical do filme é “Coração de papel”, de Sérgio Reis, como se sabe um sucesso de 1967, quatro anos após o ano em que a estória ocorre. Francesas ou americanas, as outras canções tampouco obedecem a cronologias. E às vezes, assumido ou não, esse anacronismo está no diálogo: conversando com a amiga sobre cinema, Tony a escuta dizer que a atriz hollywoodiana Elizabeth Taylor já ia no terceiro casamento. Ora, o terceiro casamento de Taylor (com Michael Todd) acabou em 58, ou seja, cinco anos antes de 63.

No meu entender, esses e outros anacronismos têm uma justifica convincente. E ela ocorreu, ainda na elaboração do roteiro, no momento em que se teve o bom senso de substituir o “Rio Bravo” do livro por “Rio vermelho”. Como já dito, estória de conflito entre pai e filho, “Rio vermelho” tem tudo a ver com a temática de “O filme da minha vida”, ao passo que “Rio bravo” era, no livro, uma mera ilustração. O problema é que, enquanto “Rio Bravo”, sendo de 1959 era viável no tempo, “Rio vermelho” é de 1948, quinze anos antes da estória contada. Parece-me que essa distância temporal abriu caminhos para outras distâncias, retroativas ou prospectivas.

E, afinal de contas, nada disso atrapalha a curtição de “O filme da minha vida”, o terceiro precioso item na filmografia de um jovem talentoso cineasta que, cada vez mais, e merecidamente, conquista público e crítica.

O fotógrafo Walter Carvalho e o cineasta Selton Mello, durante as filmagens.

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A pioneira Ida Lupino

25 ago

Hoje em dia, no mundo inteiro, o número de mulheres dirigindo filmes está próximo ao número de homens. Mas não foi sempre assim. Até a primeira metade do Século XX, mulher por trás das câmeras, só se fosse continuísta, ou maquiadora, ou figurinista.

A primeira mulher a romper a barreira profissional e impor-se como diretora de cinema foi a até então atriz Ida Lupino (1918-1995). E isto já nos anos quarenta/cinquenta. Nos Estados Unidos, antes dela, uma ou outra havia experimentado a mise-en-scène, mas sem sucesso nem prosseguimento – exceção feita apenas a dois nomes: Lois Weber e Dorothy Arzner.

Entre 1949 e 1966, Ida Lupino rodou seis filmes de longa metragem, e – por razões óbvias – nem estamos contando sua participação na televisão.

Ida Lupino, pioneira na direção.

Ida Lupino, pioneira na direção.

Com o título de “Never fear” (no Brasil, “Quem ama não teme”, 1949), seu primeiro filme era a estória de uma dançarina acometida de Polio que ficava paraplégica, e com muito sofrimento, recuperava a capacidade de se locomover.

No ano seguinte, enfrenta um tema difícil, sobretudo para a época, o estupro. O filme – que comentarei com mais detalhes adiante – é “Outrage” (´ultraje´), entre nós, “O mundo é culpado”, 1950.

Em 1951 vem “Laços de sangue” (“Hard, fast and beautiful”) a estória de uma tenista hesitante entre a profissão e o amor. Em 1953 ela se rende ao gênero noir e faz esse “Hitchhiker” (“O mundo odeia-me”), sobre um carona que se revela psicopata – tema, como sabemos, de muitas refilmagens posteriores. Neste mesmo ano também roda um filme de tema curioso em que um homem bem casado, mas sem filhos, é descoberto como pai em outro casamento: “The bigamist” (“O bígamo”).

O cartaz de "Outrage" : "O mundo é culpado", 1950.

O cartaz de “Outrage” : “O mundo é culpado”, 1950.

Seu último filme para o cinema passa-se todo em um convento onde três noviças cometem uma traquinagem atrás da outra, até o dia em que vestem o hábito e, então, passam a dar lições de vida. “Anjos rebeldes” (1966) só não fez mais sucesso por causa de “A noviça rebelde”, lançado no mesmo ano.

Voltando a “O mundo é culpado”, o filme conta a trágica estória de Ann Walton, essa mocinha de família modesta, filha única que ajuda os pais como funcionária de uma firma local. Tem um namorado e agora que o rapaz conseguiu um aumento de salário, resolvem pedir aos pais o consentimento para o noivado.

Tudo vai bem, até aquela noite em que, saindo do trabalho mais tarde, Ann é perseguida por um estranho. O estupro se consuma e, a partir de então, a vida de Ann passa a ser um inferno. Sentido-se observada por todos, na rua, no trabalho, onde vá, ela entra em crise e, embora o noivo mantenha a ideia de casamento, ela foge e vai viver anônima noutro lugar, bem longe de casa. No dia em que um rapaz de sua nova vizinha, cortejando-a, tenta beijá-la ela, apavorada, o atinge com um golpe fatal e vai terminar no tribunal de justiça, na condição de ré.

Como os outros filmes dirigidos por Lupino, “O mundo é culpado” é uma produção barata, distribuída pela RKO, realizada por um grupo pequeno, chamado de “The filmakers”, do qual faziam parte amigos e o então esposo de Lupino, Collier Young, na função de co-roteirista e produtor.

Cena de "Outrage", o estupro discutido.

Cena de “Outrage”, o estupro discutido.

Vocês hão de convir que, em pleno 1950 deve ter sido difícil rodar um filme com tal temática, e enfrentar o rigoroso e ainda vigente Código Hays de Censura. Tanto é assim que não há, na narrativa, nada que se diga explícito e, da atriz que faz Ann (Mala Powers) muito se exige em termos de expressões faciais, sem qualquer enfoque em outras partes de seu corpo.  Por exemplo: a cena da perseguição da vítima é longa e cheia de suspense, mas, o ataque mesmo acontece off-screen, e, mais tarde, em toda a sequência do júri, o crime de estupro é sempre referido pelo advogado como “Criminal attack” ou “Assault”, nunca como “rape” – a palavra inglesa para ´estupro´.

De todo jeito, uma coisa que impressiona em “O mundo é culpado” é a sua (lamentável) atualidade.

É possível que Ida Lupino não seja muito lembrada como cineasta, mas, com certeza, o espectador/leitor de mais idade recorda-se dela como a grande atriz que foi, trabalhando com astros de primeira grandeza e dirigida por mestres da direção em filmes que fizeram a história do cinema clássico. Ao todo, entre os anos de 1932 e 1978, ela atuou em mais de sessenta filmes, dos quais, para refrescar a memória do leitor, cito apenas cinco, sem coincidência, todos noir, um gênero em que ela sempre esteve muito à vontade:

“Seu último refúgio”, 1941, de Raoul Walsh, com Humphrey Bogart; “Dentro da noite”, 1940, de Walsh, com George Raft; “A taverna do caminho”, 1948, de Jean Negulesco, com Cornell Wilde: “Cinzas que queimam”, 1951, de Nicholas Ray, com Robert Ryan; “No silêncio de uma cidade, 1956, de Fritz Lang, com Dana Andrews.

A atriz Mala Powers: expressões faciais.

A atriz Mala Powers: expressões faciais.

Fazendo (melo)drama

4 ago

Como se faz um melodrama? Hoje em dia não sei, mas nos velhos tempos da Hollywood clássica havia uma fórmula corriqueira e… eficaz. Ou fórmulas que se combinavam.

O tema, obviamente, tinha que ser o amor, e, claro, amor com conflito. Quanto mais intenso o amor, melhor; quanto mais ameaçador e intransponível o conflito, melhor.

A estória funcionava bem se fosse assim: os dois, homem e mulher, se conheciam por acaso, ficavam amigos e, dentro de pouco tempo, apaixonavam-se perdidamente. Depois de apaixonados é que o conflito ia se intrometendo – por exemplo: ela era solteira, porém, ele era casado.

Um acidente aéreo pode ser conveniente ao melodrama...

Um acidente aéreo pode ser conveniente ao melodrama…

O cenário ideal era um lugar romântico, se possível no exterior; a Itália, por exemplo. Mas, o que fariam na Itália esses dois americanos? Estavam de férias, livres de compromissos e rotinas, e por isso, mais abertos a novas experiências, ora.

Até aqui, todos estes itens estão dentro do roteiro de um monte de filmes que você já viu…

Mas, atenção: os roteiristas mais tarimbados tinham o direito de ampliar os contornos da fórmula e, por vezes, metiam desdobramentos narrativos mais complicados e mais ousados.

Suponhamos, portanto, que no dia do retorno à América – o dia do adeus – o casalzinho apaixonado, entre beijos, drinques e passeios turísticos, chegasse atrasado ao aeroporto e… perdesse o avião.

Elaboremos mais: suponhamos que no dia seguinte, os dois, tomando o seu café da manhã na pousada, lesse no jornal, abismados, que o avião sofrera um acidente do qual ninguém, ninguém mesmo, escapara.

Roma, cenário romântico de muitos melodramas...

Roma, cenário romântico de muitos melodramas…

Vejam só: de repente, os dois davam-se contas de que estavam “mortos” (entre aspas) para os seus respectivos familiares nos Estados Unidos e – assim quis o destino – vivinhos da silva na bela Itália, apaixonados e dispostos a viver um grande amor.

Pois é, vamos supor que ousassem fazer o gesto supremo de assumir novas identidades e nova vida, bem longe dos proibitivos grilhões domésticos. E assim, vão ser felizes para sempre, nesse paraíso romântico que é a bela e acolhedora Itália.

Como se trata de melodrama, naturalmente não serão felizes para sempre. E é aqui que entrará a parte mais grossa do conflito.

Que tal se, algum tempo depois de curtir o luto, a esposa dele – digo, a pseudo viúva – decidisse, junto com o filho adolescente, conhecer o país que o marido havia escolhido para gozar suas férias solitárias? E, evidentemente, por maior que seja a Itália, os roteiristas darão um jeito de perpetrar o desastroso encontro.

Não será muito legal que a “viúva” encontre o marido. Será bem mais efetivo que ela, por algum acaso, venha a conhecer a sua rival, a qual, por sua vez, depois do encontro, vai sofrer com a culpa e providenciar, para o filme, o desenlace melodramático que ele requer.

Um trabalho adicional da produção de um filme desses vai ter a ver com a música. Sim, terá que haver uma trilha sonora bem romântica, falando de perda, saudade e dor, alguma coisa assim como “September Song”, ou como o segundo concerto para piano de Rachmaninoff. Ou os dois juntos, combinados em arranjo perfeito.

Joan Foantaine e Joseph Cotten poderiam estar no elenco...

Joan Foantaine e Joseph Cotten poderiam estar no elenco…

Um lance interessante será dar à amante a profissão de pianista, de modo que isto facilite a intromissão da música no enredo.

O elenco terá que ser também bem especial, para agradar ao público pagante. Que tal Joan Fontaine e Joseph Cotten para o casal fujão e Jessica Tandy para a esposa chorosa? Acho que daria certo.

Não sei se, a essa altura dos acontecimentos, você identificou, mas o melodramático enredo aqui construído, com música, elenco e tudo mais, é de um filme existente. Talvez seja muito pedir a identificação do filme, mas, com certeza, os cinéfilos de carteirinha, já chegaram lá.

La vai: o filme é “Paraíso proibido” (“September affair”), uma produção em preto-e-branco da Paramount que o mestre William Dieterle dirigiu em 1950.

O interessante não é tanto que “Paraíso proibido” caiba, inteiro, dentro de fórmulas. O interessante é que, do jeito que está feito, as fórmulas funcionam. E muito bem.

Revi há pouco, e confirmo.

Na abertura desta matéria, digo que não sei como se fazem melodramas hoje. Na verdade, desconfio que não se fazem mais.

O cartaz original de "Paraíso Proibido".

O cartaz original de “Paraíso Proibido”.

Almodóvar diferente

13 jul

Em cartaz na cidade e no mundo, o novo filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, “Julieta”, (2915) está intrigando os seus fãs.

Eu mesmo, na saída do cinema, fui abordado por um grupo deles que, indignados, queriam saber o que foi que aconteceu com o cineasta de “Má educação” e “Fala com ela”.

Almodóvar, como se sabe, é um cineasta de estilo forte, e como tal, deu-se sempre ao luxo de ser redundante. Todo cineasta de estilo forte redunda forma e conteúdo numa boa, e todo mundo aplaude: que o digam Bergman, Kurosawa, Fellini, Hitchcock, Ford, etc.

julieta 2

O problema começa – se é que isso é problema – quando o cineasta resolve driblar o básico de seu estilo e experimentar um pouco. É o caso deste “Julieta”.

Mais contido, menos debochado, ou para usar o nome da produtora do cineasta, bem menos “desejo”, o filme conta a estória sofrida de uma mãe que perdeu contato com a filha adolescente e passa a viver em função dessa ausência e dessa angústia.

No início do filme, Julieta está para viajar a Portugal com seu companheiro quando, por mero acaso, encontra uma amiga que lhe dá notícia de sua filha, hoje vivendo na Suíça, com três filhos pequenos. Pronto. Isto é o suficiente para ela desistir da viagem e do companheiro e ir residir no velho prédio onde, muitos anos atrás, morara com a filha, na esperança de receber alguma correspondência.

Um estória de mães e filhas...

Um estória de mães e filhas…

Não só isso: passa a escrever a estória toda, desde a concepção da filha, estória escrita que vira imagem e vai constituir o grosso do filme.

O que exatamente aconteceu a Antia, a filha de Julieta, não se sabe durante o filme inteiro, e a espera da revelação final é custosa para a protagonista… e para o espectador. E, mais, não tenho certeza se o desenlace o revela satisfatoriamente. Para muitos comentaristas do filme, tem-se sonegação diegética prolongada demais, para um fornecimento final que, em vista do esforço para chegar lá, parece pífio.

Baseado em três contos da escritora canadense Alice Munro, “Julieta” é um filme sobre o sentimento da maternidade, junto com um certo ingrediente que lhe é  inerente, a culpa.

a atriz Adriana Ugarte como a Julieta jovem.

a atriz Adriana Ugarte como a Julieta jovem.

A iniciativa de adaptar literatura é outra quase novidade em Almodóvar – um diretor conhecido pela criatividade de seus roteiros originais – mas, parece-me que bem mais que Munro, quem está por trás deste novo Almodóvar é a Hollywood clássica, como se sabe, uma fonte de inspiração sua, embora nem sempre explícita.

Com efeito, o tempo todo, “Julieta” me lembrou o grande melodrama de King Vidor, 1937, “Stella Dallas, mãe redentora”, também uma estória sobre a dor de ser mãe. No filme de Vidor, Barbara Stanwyck faz uma mulher que se sacrifica pela filha até o extremo de perdê-la para que ela possa ser feliz. Em “Julieta”, a mãe perde a filha a contragosto e passa o resto da vida no seu encalço, mas as ressonâncias dramáticas são as mesmas.

Mas, atenção, não exageremos: um Almodóvar diferente?

Maternidade, ausência e angústia...

Maternidade, ausência e angústia…

Pensando bem, nem tanto assim. Não é a primeira vez que o cineasta toca em questões maternas (Conferir, e o título já diz: “Tudo sobre minha mãe”) e não é a primeira vez que lhe interessa a condição feminina.

Ademais, “Julieta” tem o mesmo capricho cromático dos outros filmes do diretor; o mesmo bom gosto na direção de arte, e o mesmo rigor na direção de atores. A sofisticação da mis-en-scène é a mesma, se você prestar atenção a detalhes. Por exemplo, os bolos que marcam a passagem de anos da filha ausente; a cópula no trem, mostrada como reflexo no vidro da janela; a passagem do tempo na idade da protagonista, indicada pela toalha que cobre e, anos depois, descobre o seu rosto, agora mais idoso – permitindo, aliás, a substituição das atrizes (ambas ótimas) Adriana Ugarte e Emma Soares.

As atrizes Susi Sanchez e Adriana Ugarte: mãe e filha.

As atrizes Susi Sanchez e Adriana Ugarte: mãe e filha.

Alguns lances de roteiro chegam a ser óbvios, como a interpretação que faz para seus alunos a jovem professora Julieta do simbolismo do mar na Odisseia, astutamente jogada na trama do filme como uma premonição de duas mortes: a do pescador Xoan (em tempestade marítima) e a do seu neto, também chamado Xoan, num lago suíco.

No terreno temático, aqui também estão os mesmos elementos disfóricos que atormentam os personagens almodovarianos: comas, doenças, suicídios, acidentes e depressões. Talvez aqui eles pesem mais que os “desejos”, não sei. De todo modo, se o filme começa com um mau presságio (a cena do senhor desconhecido, no trem) termina com uma esperança – o carro na estrada em direção à Suíça.

Enfim, Almodóvar diferente ou igual a si mesmo, um belo filme.

Imitação da vida

31 dez

Com esta matéria, retorno ao meu ofício preferido: o de escrever sobre filmes antigos, os grandes clássicos do passado, que ninguém esquece.

Estávamos no comecinho dos anos sessenta. Minha irmã, Genilda, tinha visto “Imitação da vida” (“Imitation of life”, Douglas Sirk, 1959) em sua estreia local, no Cine Plaza, e dele falara em casa, emocionada. Segundo ela, era um dos melhores que já vira, e ela via muitos filmes.

Com esses comentários entusiasmados, prometi a mim mesmo que iria ver. O filme saíra de cartaz no Plaza, mas, para minha sorte, estava no então já decadente Cine Brasil, e o vi numa melancólica matinée de domingo. Saí do cinema quase chorando, mas feliz. Minha irmã tinha razão: era um filme acima da média.

Um encontro casual na praia decide tudo...

Um encontro casual na praia decide tudo…

A cena final – vocês lembram – é uma armadilha para o espectador sensível, e muito bem montada. Desprezada pela filha, a empregada negra adoece e vem a falecer. De última hora, a filha quase branca comparece ao enterro, banhada em lágrimas. Mas, um momento, estou contando o final, o que não é bom para quem não viu o filme.

A estória começa na praia, quando duas senhoras, uma branca, a outra negra, se conhecem. Aquela primeira é atriz desempregada; esta segunda doméstica, também desempregada. Uma emprega a outra, e daí nasce uma amizade de vida inteira.

Cada uma tem uma filha e as duas meninas crescem juntas e até irmãs parecem, mesmo porque Sarah Jane, a filha da empregada negra, puxando ao pai, tem pele alva e passa por branca.

Parecem irmãs, mas não são. Não esqueçamos que estamos nos Estados Unidos dos anos cinquenta, quando os ´colored people´ sequer tinham acesso aos banheiros dos brancos.

Sarah Jane: a garota que não aceita a mãe negra.

Sarah Jane: a garota que não aceita a mãe negra.

Desde criança, Sarah Jane tem problemas com a cor. Na escola, passa por branca e se faz de… Até o dia em que a mãe negra, inocentemente, aparece para lhe trazer um lanche. Na adolescência, é espancada por um namorado branco que descobre, enojado, a sua origem.

As humilhações vão tornando-a uma pessoa amarga, rebelde e especialmente agressiva com a mãe. A família que a adota prospera, já que a patroa torna-se uma grande estrela dos palcos da Broadway, mas isso em nada ajuda à condição de ´mestiça´ de Sarah Jane, que termina por fugir de casa e da mãe, para ser chorus line girl em boates suspeitas de Los Angeles.

Um dia a mãe, já idosa e cansada, toma um avião e a procura, e ela, embora sofrendo, a despacha, categórica. O que nos conduz ao final já mencionado.

Lana Turner e Sandra Dee em conflito familiar.

Lana Turner e Sandra Dee em conflito familiar.

Do jeito que reconstituí o enredo, até parece que “Imitação da vida” é um filme apenas sobre o racismo. E não é: o seu temário está no título.

Paralelamente à vida dos empregados (Sarah Jane e a mãe), acompanhamos a da patroa branca, essa mulher que alimenta o sonho de ser uma grande atriz, e, quando as chances aparecem, é capaz de sacrificar uma relação amorosa, e/ou o afeto da filha adolescente. Em nome da fama a todo custo, faz tanto isso, tantas vezes, que o seu pretendente mais honesto e sincero termina por desistir, e pior, a filha dela é quem por ele se apaixona…

No final, essa mulher ambiciosa toma consciência de que, no brilho da ribalta o que teve não foi propriamente a vida, mas, uma imitação dela…

Juanita Moore e Susan Kohner em desempenhos estupendos.

Juanita Moore e Susan Kohner em desempenhos estupendos.

Quem faz a patroa branca é Lana Turner, e a empregada negra, em excelente desempenho, é Juanita Moore. A filha da patroa é Sandra Dee, e a mestiça Sarah Jane é feita pela ótima Susan Kohner. Nesse elenco bem anos cinquenta, o pretendente repetidamente descartado pela atriz em ascensão é o bonitão John Gavin, e o namorado agressivo de Sarah Jane é, numa ponta, Troy Donahue.

Naquela época eu ainda não era ligado a diretores, e, embora visse tudo que por aqui passava de Douglas Sirk, nunca ouvira falar do seu nome. Filmes como “Sublime obsessão”, “Tudo o que o céu permite”, “Hino de uma consciência”, “Palavras ao vento”… eu os achava parecidos entre si, correlatos na forma e nos assuntos, porém, o estilo charmoso e a força dramática que os uniam eu atribuía à companhia produtora, a Universal. Na época eu não sabia que um homem só, o cineasta, podia ser muito maior que uma companhia cinematográfica inteira.

Só com o tempo, e muita leitura, cheguei a Douglas Sirk e, ao chegar, me apaixonei cada vez mais pela sua arte de mestre. Hoje é um dos meus cineastas preferidos.

E “Imitação da vida”, uma das minhas ´imagens amadas´.

Anúncio de tempestade

21 ago

Na televisão ou nos cinemas, quando a programação do dia ou a local não atrai, o jeito é ir atrás de um velho clássico… É o que sempre faço, e foi o que fiz esta semana.

O filme que vi já começa lhe amarrando a atenção. Vinda de Nova Iorque, essa moça desce do ônibus nessa pequena cidade do Interior americano, e procura a casa da irmã, que vem visitar depois de muito tempo.

É noite escura e, antes de achar a casa, ela, sem ser vista, testemunha, apavorada, um assassinato: numa esquina qualquer, um homem é morto a tiros pela KuKluxKlan, e diante do cadáver, dois ou três deles retiram as máscaras que lhes cobriam os rostos. Ao chegar na casa da irmã, a moça descobre o mais grave: que o cunhado – que ela não conhecia – tinha o rosto do assassino.

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Ora, um filme que começa com uma cena dessas, pode até não ser grande coisa, mas, vai  envolver-nos de modo completo, se for o caso, até o fim. Esse é o tipo de roteiro que obriga o diretor a dar o máximo de si, bem como os atores.

O que faz a pessoa numa situação dessas? Denuncia o cunhado e destrói o feliz casamento da irmã querida? Ou cala-se e, sem ninguém saber, será conivente com um crime hediondo, cometido por um dos membros de uma seita tenebrosa?

O título dado ao filme no Brasil expressa a situação da protagonista: “Dilema de uma consciência”, mas, o original inglês é mais sutil: “Storm warning”, que significa ´aviso, ou anúncio, de tempestade´, sugerindo que, seja qual for a decisão a ser tomada pela moça que visita a irmã, vem mau tempo por ai, sobre essa cidadezinha do sul americano, chamada Rockpoint, dominada pelo obscurantismo.

Produção de 1951, o filme é um noir bem típico da Warner, e tem Stuart Heisler na direção. Como não podia deixar de ser, sua fotografia, de Carl Guthrie, é preto-e-branco, com predomínio de sombras sobre os claros. O elenco é que é inesperado: Ginger Rogers (sim, ela mesma) faz Marsha, a modelo novaiorquina que vem ver a irmã e cai numa fria. A irmã, Lucy, é Doris Day, e o marido assassino, Hank, é Steve Cochran. O promotor público que, mais adiante na estória, deverá enfrentar a KKK é o ator Ronald Reagan, provavelmente em seu melhor desempenho.

Ginger Rodgers, Doris Day e Steve Cochran em querela familiar

Ginger Rodgers, Doris Day e Steve Cochran em querela familiar

O filme quer ser uma denúncia da famigerada KKK, mas também é a estória pessoal de duas mulheres, duas irmãs em perigo, e o seu enredo se equilibra nesse meio tom entre documento e melodrama. E o faz muito bem. Não tive surpresa em saber que um dos roteiristas era o grande Richard Brooks, mais tarde um cineasta de filmes impressionantes, como, “Sementes da violência” e “Doce pássaro da juventude”.

Para voltar à dupla principal, urbana e modelo de profissão, Marsha é uma moça moderna, acostumada a dizer a verdade na ponta da língua, a quem quer que seja. Residente no Interior e sem muita instrução, Lucy, ao contrário, está habituada a dizer sim ao marido dominador, e a não questionar suas atitudes ou o que quer que seja.

O drama se intensifica porque, logo que chega à casa da irmã, Marsha lhe conta o crime que acabara de testemunhar na rua. Em seguida, chega Hank, o marido culpado, e a esposa por sua vez, ainda sem saber que ele era o autor do delito, lhe narra o que ouvira de irmã. A culpa está na cara de Hank e não precisa muito para que a verdade estoure (a primeira tempestade, digamos assim), dentro dessa casa, verdade que – supostamente – deveria ficar entre suas quatro paredes.

KuKluxKlan: terror em Rockpoint.

KuKluxKlan: terror em Rockpoint.

É claro que tal não é possível e logo a cidade vai aos poucos tomando conhecimento de pequenos detalhes que, mesmo confusos e obscuros, conduzirão a uma tempestade maior, a do título do filme. Enquanto isso, o espectador sofre com a angústia de uma irmã que se move, desequilibrada, entre a obrigação moral de delação e o apego a um ente querido inocente; tanto quanto com a dor de uma jovem esposa apaixonada que de repente descobre o que nunca imaginara: a faceta homicida do cônjuge…

O homem assassinado não é – como se poderia supor – de raça negra (alvo habitual da KKK), mas, um jornalista que, corajosamente, vinha se posicionando contra o domínio da seita local.

Não pretendo contar o resto da estória, para que seja mantido o interesse do leitor. Só lembrar que tão corajoso quanto a vítima do KKK, é o próprio filme, rodado numa época em que o WASP era o valor possível no país. Para quem não lembra ou não sabe, estas iniciais significam ´White Anglo Saxon Protestant´, ou seja ´Protestante anglo saxão branco´, o padrão racial, social e religioso, entendido como superior.

“Dilema de uma consciência” não é nenhuma grande obra, porém, um filme bastante apreciável em sua pequenez. Recomendo.

O promotor público Ronald Reagan.

O promotor público Ronald Reagan.

Só para relembrar Omar Sharif

14 jul

A morte do ator Omar Sharif (1932-2015) foi assunto da imprensa nestes dias. Aqui o relembramos através do seu filme mais amado, “Doutor Jivago” (1965), que por sinal, neste 2015, está completando cinquenta anos.

Se pudermos começar o nosso relato com um close, vamos nos centrar na mão iluminada de um grande poeta russo, que, debaixo da dureza do regime totalitário, rabiscava – e quando podia publicava – os seus poemas de tom místico e humanista que em nada batiam com a fechada ideologia vigente.

De repente, esse poeta inspirado, Boris Pasternak, decide escrever em prosa e produz – ironicamente – a obra pela qual ficaria internacionalmente conhecido: o romance semi-autobiográfico que conta a estória de um certo médico perdido entre a Revolução, a literatura e um amor adúltero.

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Inaceitável na URSS, “Doutor Jivago” é editado na Itália em 1957 e – surpresa! – ganha o prêmio Nobel, que Pasternak, evidentemente, é obrigado a recusar, vindo a falecer três anos depois, em 1960.

Uma estória dramática, um romance premiado, um autor injustiçado e morto… Os grandes estúdios americanos ficam de olho, até porque a grandiosidade da narrativa cabia nos parâmetros das superproduções a que a Hollywood decadente da época se agarrava com unhas e dentes.

Foi a já cambaleante MGM quem assumiu a realização da adaptação, chamada pelos comentaristas de “salada russa”, com referência à mistura das nacionalidades envolvidas: rodado na Finlândia, na Espanha e no Canadá, a companhia produtora foi a italiana de Carlo Ponti, e do elenco faziam parte alemães (Klaus Kinski), americanos (Rod Steiger), ingleses (Alec Guiness), e, claro, o egípcio Omar Sharif no papel-título. A trilha sonora foi para o francês Maurice Jarre e a fotografia para o inglês Freddie Young. Aliás, música e fotografia, as duas juntas, são um destaque estético que torna o filme memorável – acho que o leitor concorda comigo.

Omar Sharif e Julie Christie em "Doutor Jivago"

Omar Sharif e Julie Christie em “Doutor Jivago”

A direção vai para as mãos hábeis de um inglês que já provara ser bom em grandes produções. David Lean tinha feito “A ponte do rio Kwai” (1957), e em 1962 deslumbrara o mundo com o seu – também uma adaptação e também épico – “Lawrence da Arábia”, onde Sharif – vocês lembram – já estava. Ninguém melhor que Lean, sem contar que esse romântico inveterado já revelara, desde o intimista “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945) que, independente do tamanho da produção, a sua temática preferida, aquela em que mais rendia, era a da ´mulher apaixonada fora do casamento´, sim, aquela mesma dos grandes romances do século XIX.

Mas como adaptar à tela um romance tão vasto, apesar do lirismo, de escala épica, cuja narrativa se iniciava no início do Século XX e se estendia para além da Segunda Guerra Mundial? A missão do roteirista Robert Bolt (o mesmo de “Lawrence”) foi reduzir a extensão da história e centrar-se no caso de amor entre o médico Yuri Jivago e a sua bela enfermeira Lara – uma imposição dos estúdios que o diretor – imagino – deve ter abraçado de muito bom grado.

Não vou resumir o enredo de um filme que todo mundo conhece, mas, cabe referir as críticas que o filme recebeu na época de sua estreia: o de trair a dimensão lírica e mística do romance de Pasternak, de cujas páginas fazem partes muitos de seus poemas mais inspirados. O outro ponto crítico foi a exploração do lado melodramático da narrativa, no investimento que faz no desafortunado romance entre Jivago e Lara, a Revolução Russa e seus efeitos aparecendo como pano de fundo.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

O público é que não quis saber de nada disso e, não apenas acorreu aos cinemas, como, passado o tempo, incluiu o filme no imaginário da comunidade cinéfila do planeta. Hoje, quem tem dúvidas de que “Doutor Jivago” é um dos clássicos mais lembrados?

Do ponto de vista estrutural, uma mudança básica na adaptação está na escolha do foco narrativo, a estória inteira sendo contada a partir de um longo flashback, quando, tempos depois da Revolução de Outubro, o irmão do protagonista, Yevgraf (Guiness), encontra essa moça, operária nesse novo país, a URSS, que teria sido a filha do casal adúltero, Jivago e Lara.

Acho que o flashback funciona bem, agora, aqui para nós, o que nunca me pareceu apropriada foi a escolha de Rita Tushingham – uma das atrizes mais feias na história do cinema – para ser justamente a filha dos belos Julie Christie e Omar Sharif. Atriz talentosa, Rita esteve ótima naqueles filmes sobre ´gente como a gente´ do Free Cinema (Cf “Um gosto de mel”, por exemplo), porém, aqui lhe faltou o que a natureza não lhe deu: physique du rôle, ou seja, o físico apropriado ao papel.

Enfim, “Doutor Jivago”, um belo filme. Vamos ligar o aparelho de DVD e, entre outras coisas, relembrar Omar Sharif.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.