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Cinema Novo

13 mar

Já vai fazer um ano que, no último Festival de Cannes o prêmio “L´Oeil d´Or”, de melhor documentário, foi para um filme brasileiro: “Cinema Novo” (2016), de Eryk Rocha. Beleza. Ponto para nós, mas, e o filme? Onde foi possível vê-lo?

Se você não é porventura “barata” de festivais de cinema, teve que esperar que ele chegasse ao circuito comercial de sua cidade. Se é que chegou. Na maior parte dos casos, não. No meu caso, permaneceria como mais um “ilustre desconhecido”, não fosse a iniciativa do Canal Brasil de incluí-lo na sua programação.

O filme é um ensaio audio-visual, com imagens e sons do movimento de cinema que projetou o Brasil cultural e artístico para fora de seus limites geográficos e deixou uma proposta, estética e política, ainda hoje reverberante.

Como afirma o seu autor, não é um filme “sobre”, mas, “com” o Cinema Novo Brasileiro, e essa mudança de preposições é importante. Não há nele, por exemplo, depoimentos atuais de críticos ou historiadores – sequer de cineastas – que pudessem nos dar um, digamos, discurso revisionista desse movimento cinematográfico. Não. Todas as imagens (incluindo os depoimentos) são “de época”, ou seja, é o Cinema Novo Brasileiro falando dele mesmo.

E, para dizer a verdade, falando pouco (se entendermos falar como gesto verbal), pois o que predomina são as muitas imagens dos muitos filmes – somadas às imagens “periféricas” ao movimento cinemanovista, como as dos filmes de Humberto Mauro, Mário Peixoto, Alberto Cavalcanti, Linduarte Noronha e outros – tudo montado de uma maneira pessoal (sem créditos justapostos), conduzindo, menos à informação histórica que a um poema plástico.

Tanto é assim que o autor, em vários momentos, se dá ao luxo de brincar com isotopias visuais, como naquelas séries encadeadas de imagens de filmes diversos que mostram, ora pessoas correndo, ora dançando, ora discursando, isto independentemente das relações temáticas que possam ter existido entre filmes tão diferentes quanto, digamos, “Menino de engenho”, “Terra em transe”, ou “Macunaíma”.

Inspirado – segundo depoimento seu – no conceito de “cinema cachoeira” de Humberto Mauro, o autor buscou, de propósito, essa ressignificação que, propiciada pela edição criativa, transforma o enorme material disponível (cerca de 130 fontes) num novo filme, um filme atual. Como afirmou o autor em entrevista: “Cinema Novo quer falar de hoje, de agora”.

Já que quer falar de agora, fico pensando nos seus receptores. Inevitavelmente, há dois tipos de espectador para ele. Aquele mais coroa, que conheceu o cinema realizado no país nos anos sessenta e, portanto, viu os filmes mostrados dentro do filme; e o jovem de hoje, que só conhece o Cinema Novo Brasileiro de ouvir falar. Eu, que me ponho na primeira categoria, não duvido que o efeito poético pretendido valha para os dois, porém, com certeza, sua forma de acontecer, e mesmo sua intensidade, será diferente para cada caso. Ou estou enganado?

Ainda segundo Eryk Rocha (36 anos de idade, filho de Glauber), uma coisa que o filme retoma do Cinema Novo Brasileiro seria o seu “projeto de formação de público”.

O que nos remete aos anos sessenta, quando o Cinema Novo Brasileiro era novo, com a pergunta inevitável: até onde houve formação de público?

A propósito da questão, ocorreu-me consultar estatísticas que pudessem porventura ajudar na compreensão do fenômeno. Vejam bem, a produção brasileira de cinema, na década de sessenta – a década do CNB – foi exatamente de 442 filmes. Tive o cuidado de repassar, um a um, esses 442 títulos, para identificar quais deles caberiam na rubrica CNB.

Segundo minha observação, apenas 40 comportariam essa rubrica, o que significa dizer que todo o CNB constituiu cerca de 9% da produção realizada na sua década. Se considerarmos que nem todos, dentre esses 40 filmes, foram exibidos em circuitos comerciais, o que deduzimos? Que nos anos 60, o grande público, aquele chamado de espectador comum, conheceu mal, ou não conheceu o CNB. E que, portanto, se houve “formação de público” foi precária, muito precária. Sejamos realistas: o pessoal cinéfilo da época (onde me incluo) saiu de casa correndo para ver “Os fuzis”, “Vidas secas” e “Deus e o diabo na terra do sol”, mas, não consta (e mais estatísticas confirmariam isso) que o espectador comum tenha ido junto.

Sem coincidência, abri esta matéria falando da dificuldade que tive para ver “Cinema Novo”, o filme. E de como só cheguei a ele por interesse particular. Acho que não preciso explicar mais nada. Parece-me que, antes da questão de um projeto de formação de público, há um buraco mais embaixo: a distribuição de cinema brasileiro no Brasil. Formação pressupõe contato: simples assim.

Enfim, gostei do filme de Eryk Rocha, cheguei a emocionar-me em certos momentos, mas quem sou eu? Um cinéfilo solitário, que está muito longe de representar o espectador comum, aquele que realmente precisaria – para respeitar a concepção dos dois Rochas, o pai e o filho – ser “formado”.

O diretor Eryk Rocha, 36 anos, filho de Glauber Rocha.

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Cinquentões em 2015

9 jan

 

 

Neste 2015 que começa, quais são os filmes que estarão completando cinquenta anos? Aqui proponho uma mexida no baú do passado, aquele baú em cuja fechadura está gravado o número 1965.

Acho que de chofre todo mundo vai lembrar-se de “A noviça rebelde” (“The sound of music”, Robert Wise), “Dr Jivago” (David Lean) e “A maior história de todos os tempos” (“The greatest story ever told”, George Stevens), os três maiores sucessos de bilheteria de 1965, mas, claro, a lista é grande e pede uma triagem.

Omar Sharif e Julie Christie em "Dr Jivago".

Omar Sharif e Julie Christie em “Dr Jivago”.

Sugiro que comecemos com as cinematografias menores, e a primeira pode ser a brasileira. Em 1965, auge do chamado Cinema Novo, pelo menos quatro filmes não podem deixar de ser mencionados: “A grande cidade” de Carlos Diegues, “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, “Menino de engenho” de Walter Lima Jr, e “São Paulo S/A”, de Luiz Sérgio Person.

No Japão, o grande Akira Kurosawa lançou o seu drama hospitalar “O barba ruiva”, filme de tom existencial, baseado no escritor Shugoro Yamamoto, com o seu ator predileto Toshiro Mifune.

Na Índia é a vez do não menos grande Satyajit Ray mostrar ao mundo ocidental o comovente drama conjugal “A esposa solitária”, título, aliás, bem sintomático para todas as estórias (no viés de “Desencanto” ou “Casablanca”) sobre mulheres apaixonadas fora do casamento.

Música nas montanhas em "A noviça rebelde".

Música nas montanhas em “A noviça rebelde”.

Já no México, e quase solitariamente, o sempre perturbador Luis Buñuel lança a sua fantasia pseudo-religiosa “Simão do deserto”.

Com o que passamos à Europa. Na Checoslováquia, um país até então sem grande destaque cinematográfico, um certo boom ocorria na época e um dos seus mais ativos cineastas era um jovem ainda pouco conhecido no mundo, chamado Milos Forman, que em 1965, produziu o interessante “Os amores de uma loura”.

Na França ainda se estava em plena Nouvelle Vague, embora o ano de 1965 não tenha sido particularmente significativo. É verdade que Jean-Luc Godard lançou, neste ano, dois petardos bem típicos de sua proposta cinemática, “O demônio das onze horas” e “Alphaville”, mas, foi só. A não ser que se queira citar a comédia aventuresca de Louis Malle “Viva Maria”, com as musas Bardot e Moreau.

"Thunderball" - James Bond e suas mulheres.

“Thunderball” – James Bond e suas mulheres.

A Itália era outra cinematografia em ebulição, que, no ano em questão, estranhamente também não foi lá muito expressiva. Dignos de nota são apenas: o drama social “De punhos cerrados” de Mario Bellocchio, o esteticamente indeciso “Vagas estrelas da Ursa” de Lucchino Visconti, e o fraco “Julieta dos espíritos” de Federico Fellini. Por outro lado, na terra das massas finas começava a dar os primeiros passos um novo gênero, o faroeste spaghetti de Sérgio Leone, e o seu representante do ano foi “Por uns dólares a mais”.

Quem balançou o coreto no ano foi certamente a Inglaterra, com produções próprias, engrossadas por co-produções interessantes. Considerados expressões do movimento Free Cinema foram os filmes “Darling a que amou demais”, de John Schlessinger, “O ente querido” de Tony Richardson, “Help” e “A bossa da conquista”, estes dois últimos do criativo e inovador Richard Lester. Isso era o lado cult da ilha, mas também houve o comercial, com uma das maiores bilheterias do ano: “007 contra a chantagem atômica”, de Terence Young. Somem-se a isso as muitas co-produções, principalmente com os Estados Unidos, por exemplo: “O espião que saiu do frio” (Martin Ritt), “Bunny Lake desapareceu” (Otto Preminger), “Lord Jim” (Richard Brooks) e “Repulsa ao sexo” (Roman Polanski).

"Pierrot le fou - Belmondo e Ana Karina.

“Pierrot le fou” – Belmondo e Ana Karina.

Em processo de transformação, Hollywood hesitava entre superproduções (as citadas na abertura desta matéria) e filmes menores, dirigidos a públicos específicos. Podiam ser filmes históricos, como “O senhor da guerra (Franklin Schaffner) e “Agonia e êxtase” (Carol Reed); ou dramas existenciais como “A nau dos insensatos” (Stanley Kramer); ou suspenses tipo noir, como “Eu vi que foi você” (William Castle) e “O colecionador” (William Wyler); ou policiais mais convencionais como “O gênio do mal” (Robert Mulligan); ou dramas raciais como “Quando só o coração vê” (Guy Green), ou filmes de guerra, como “A colina dos homens perdidos” (Sidney Lument), ou então comédias faroeste como “Dívida de sangue” (“Cat Ballou” de Elliot Silverstein)…

Um óbvio sintoma de que a velha Hollywood clássica estava cansada de guerra vinha numa estória de amor com grande elenco (Elizabeth Taylor, Richard Burton, Eva Marie Saint e Charles Bronson) e bela música, dirigida por um dos grandes do passado, ninguém menos que Vincente Minnelli, mas que não conquistava mais ninguém, nem críticos nem público. Refiro-me melancolicamente a “Adeus às ilusões” (“The sandpiper”), localmente exibido no nosso saudoso Plaza, a que assisti junto com alguns poucos espectadores tão melancólicos quanto eu mesmo.

E, assumido o risco das omissões, fecho o baú.

Liz Taylor e Richard Burton em "Adeus às ilusões".

Liz Taylor e Richard Burton em “Adeus às ilusões”.