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Boi Neon

27 jan

 

Super premiado em festivais de cinema, no exterior e no Brasil, finalmente entra em cartaz nos circuitos comerciais “Boi neon” (2015), filme do pernambucano Gabriel Mascaro, parcialmente filmado no município de Picuí, Paraíba.

Aclamado pela crítica, o filme aguarda uma resposta de público e – imagino – aguarda com certa ansiedade, já que o seu ponto forte é a quebra de estereótipos.

O primeiro deles é geográfico e histórico, fazendo a representação de um Nordeste brasileiro diverso do conhecido nas telas, no caso, um Nordeste próspero, de grandes negócios, que são as vaquejadas e toda a gama de atividades que elas incorporam.

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Tudo bem, os personagens são meros empregados dessas grandes empresas, mas, eles próprios não se encaixam no modelo esperado, por exemplo, o de homens machões e mulheres frágeis.

O vaqueiro Iremar, que prepara o gado para o show das vaquejadas, alimenta o sonho de tornar-se um dia um grande costureiro. Quase sempre sujo de bosta de boi (expressão usada no diálogo) adora perfumes caros, e fica fascinado no dia em que adentra uma fábrica de máquinas de costura. O caminhão que transporta a equipe toda no trajeto para as vaquejadas, e que serve a todos de moradia, é dirigido por uma mulher, Galega, separada do marido que cria uma filha adolescente. Essa mesma motorista mãe é quem faz a performance da dançarina com cabeça de cavalo para uma plateia de marmanjos. O vaqueiro novato que se integra ao grupo, Mário, usa aparelho dentário e cabelos longos, muito bem tratados, aliás, que o fazem passar horas diante do espelho. A moça grávida que vende cosméticos tem a profissão, supostamente masculina, de vigilante.

E assim segue a lista de “quebras” do convencional, que, aliás, o diretor do filme alega terem sido baseadas em casos reais.

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Reais ou não, o fato é que o filme desenrola-se em tom enfaticamente documental, um tom que subestima a narratividade e superestima os personagens em si e a paisagem. Neste sentido é que os planos são longos, quase planos sequência, a fotografia hiper caprichada, e os esperados turning points praticamente não existem.

Se não, vejamos. A substituição do vaqueiro Zé, pelo novato Mário sugere um encaminhamento novo para o enredo, um encaminhamento que, contudo, nunca vem: a vida no grupo continua a mesma, e a mesma será até o final. A chegada da moça grávida que vende cosmético tampouco muda muito na estória: Iremar a visita na fábrica onde ela é vigilante, fazem amor (mais um plano quase sequência), mas, aparentemente, nada muda na rotina do vaqueiro, tanto é assim que o fotograma final do filme é bem sintomático, mostrando-o no mesmo cenário de sempre, um homem entre bois.

Os episódios intermediários entre abertura e final são só episódios, com o mesmo sentido descritivo de qualquer paisagem ou de qualquer trecho da labuta diária dos vaqueiros, entre o gado ou em casa. Por exemplo: o caso da tentativa de Iremar e Zé de, nos bastidores do leilão de cavalos, conseguir, às escondidas, o esperma de um puro sangue, para posterior revenda, fica na estória como um detalhe que, se não atrapalha a narração, tampouco a adianta.

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A longa duração dos planos tem um corolário: as grandes elipses diegéticas, que tornam a narração ainda mais frouxa. Ou estas é que motivam a duração dos planos – dá no mesmo. Embora o cenário geográfico seja sempre o interior do Nordeste, para o espectador não ficam claros os locais, ou os percursos com seus pontos de partida e chegada. Em suma, dilui-se um pouco a noção de espaço diegético, e, junto com ela, a de tempo. Sintam como, na primeira metade do filme o espectador ainda não domina a fabulação – se é que há uma – e, mais tarde, só o fará de forma vaga. Isto, bem entendido, não é um defeito, e sim uma proposta.

Não é a primeira vez que o Nordeste recebe uma representação inovadora. Filmes como “Bye bye Brasil”, e “Baile perfumado” já apontavam para esse caminho, porém, “Boi neon” vai adiante na tensão entre o que seria arcaico e o que seria moderno de forma quase radical. Tensão que, se você quiser, já está prometida nas duas palavras do seu título.

Preparar a cauda do boi para a vaquejada ou desenhar modelitos? Dirigir caminhão ou dançar no palco? Vender perfume ou ser policial vigilante? Esses paradoxos actanciais misturam e desconstroem a dicotomia masculino/feminino, com a consequência inevitável de suscitar a revisão dos conceitos, não tanto de gênero, mas de violência e sensibilidade, de crueldade e delicadeza, de agrura e sonho.

Enfim, aguardemos para ver a reação das platéias, dela dependendo, o paradeiro comercial de “Boi neon”. Sim, porque, em cinema, comércio é importante.

Iremar, o vaqueiro que gosta de Moda...

Iremar, o vaqueiro que gosta de Moda…

 

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Yves Saint Laurent na berlinda

6 jun

Vez ou outra, no mundo do cinema, acontece de dois cineastas do mesmo país assumirem, sem contato entre si, projetos sobre o mesmo assunto.

Eu lembro que, no final dos anos oitenta, na Itália, foi assim com Ettore Scola e Giuseppe Tornatore, que assumiram o projeto de contar a história de um cinema e suas plateias ao longo do século vinte. O resultado: dois filmes diferentes mas parecidos, ambos lançados em 1989, respectivamente, “Splendor” e “Cinema Paradiso”.

Pois recentemente aconteceu na França: sem contato, os diretores Bertrand Bonello e Jalil Lespert tomaram a vida do estilista Yves Saint Laurent como tema e já estavam adiantados, cada um nas suas filmagens, quando souberam do projeto do outro. Ambos os roteiros tratavam da carreira de Laurent e ambos desenvolviam o caso entre Laurent e o seu sócio e amante Pierre Bergé.

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A diferença é que Bonello estava trabalhando sem autorização dos envolvidos na vida do biografado, ao passo que Lespert tinha todo o apoio do próprio Bergé, que lhe cedeu todo o arquivo biográfico do estilista e todas as demais facilidades, incluindo encargos financeiros. Aliás, Bergé não fez só isso: também tomou a iniciativa de, através de processo, tentar embargar a produção de Bonello que terminou o seu filme com extrema dificuldade.

O que não impediu de o filme de Bonello, chamado “Saint Laurent”, ser aceito na mostra competitiva de Cannes 2014, enquanto que o de Lespert, com o título de “Yves Saint Laurent”, não o foi. Como se sabe, Bonello perdeu a Palma de Ouro para o turco “Winter Sleep” de Nuri Bilge Ceylan, e seu filme ainda não chegou por aqui.

Quanto ao de Lespert, que vi há pouco, não sei que chances teria tido em Cannes. Imagino que a depender do quesito produção ele teria alguma vantagem. Luxuosa, a direção de Arte – comme il faut num filme sobre moda – é impecável e a projeção do filme, em si mesma, já é um “desfile”.

No filme de Lespert, Laurent e seu amante Bergé.

No filme de Lespert, Laurent e seu amante Bergé.

Um exemplo é a reconstituição perfeita e deslumbrante do famoso desfile de 1976, repleto de figuras renomadas do mundo da moda, como, entre outras, as modelos Victoire Doutreleau e Betty Catreux – um desfile que foi possivelmente o ponto alto na brilhante trajetória profissional desse estilista que abalou o sistema da haute couture, com conceitos estéticos ousados e inovadores, responsáveis, no final das contas, pela criação e sucesso internacional da griffe que leva o seu nome.

O filme começa em 1957, quando um jovem Yves Saint Laurent, com 21 anos de idade, é indicado para presidir a Maison do recém-falecido Christian Dior.

Viciado, inseguro, dependente, depressivo, Laurent enfrenta problemas sérios para se afirmar, mas o faz, especialmente por dois fatores: seu enorme talento e a devotada e eterna ajuda do amante Bergé, que, não apenas apaixonado, mas deslumbrado com a criatividade do companheiro, fez questão de permanecer – uma estória de vida inteira – no papel imprescindível de “escada”. Aliás, como se vê, como “escada” permanece até hoje, seis anos depois da morte de Laurent, no empenho de produzir e promover o filme.

Para dar um só exemplo da vida atribulada de Laurent, argelino de nascimento, enfrenta logo cedo o difícil problema do alistamento militar… com a incômoda situação francesa perante a Guerra da Argélia. Conforme ele repete várias vezes durante o filme “não sei fazer nada na vida, além de desenhar roupa. Nem quero”. E, de fato, quem poderia imaginar – e o filme nos conduz a fazer a pergunta – as suas mãos delicadas pegando em armas?

Desfiles em "Yves Saint Laurent".

Desfiles em “Yves Saint Laurent”.

Bem, infelizmente já é tempo de dizer que a tão ostensiva riqueza da cenografia no filme de Lespert não possui um correspondente no conteúdo. Apesar dos muitos problemas que enfrentam, os já citados e outros, os seus personagens não exibem a profundidade esperada e o conflito é mal desenvolvido e, sufocado pelo contexto biográfico, dilui-se no desenlace, fraco e inoperante.

Um elemento que agrava esses defeitos é a narração em over, e, no caso, a voz ouvida é a do próprio Bergé, sempre em função conativa, e o receptor dessa voz é sempre o próprio Laurent. Explico-me, exemplificando: a voz over de Bergé conta “você foi a Marrakesh” e a imagem mostra Laurent em Marrakesh; “Você fez isso e aquilo” e aparece Laurent fazendo isso e aquilo. Depois de meia hora de projeção a tautologia do esquema começa a soar enfadonha e aborrecida, sem contar que o espectador começa a se sentir subestimado em sua inteligência.

Não sei como vão reagir a “Yves Saint Laurent” as pessoas ligadas ao mundo da moda. De minha parte, só posso dizer que a beleza da indumentária e a elegância do seu uso não são suficientes para salvar o filme, o qual, por sua vez, desfiles à parte, nem belo é.

Se for o caso, aguardemos o outro filme, o “Saint Laurent” de Bonello.

Laurent e suas modelos

Laurent e suas modelos

Tudo sobre Holly

4 jan

Não. Não se trata de Hollywood. É Holly mesmo, aquela mocinha magricela, de sobrenome Golightly, que veio do Interior para Nova Iorque, fazer a vida fácil, e que tem o costume de comer sanduíche nas calçadas da joalharia Tiffany´s, de madrugadinha. Aquela que nasceu da cabeça perversa de Truman Capote e que, das páginas de seu romance, pulou para as telas do cinema, nas poucas carnes de Audrey Hepburn. Ok, tudo bem, termina sendo Hollywood, sim.

Quem conta tudo sobre Holly Golightly é o jornalista e crítico americano Sam Wasson, no seu divertido livro “Quinta Avenida, cinco da manhã” (Zahar, 2011). E isto, desde o surgimento de Holly nas páginas de Capote, até o seu ressurgimento no filme de Blake Edwards, “Bonequinha de luxo” (“Breakfast at Tiffany´s”, 1961).

Mas, se o livro de Wasson é um duplo making of do livro e do filme, não fica nisso. Pesquisando em arquivos e entrevistando envolvidos, o autor reconstitui todo o contexto da escritura de um e da produção do outro, e, inevitavelmente, pinta um quadro do que foi o cinema americano entre o final dos anos cinqüenta e o começo dos sessenta. Sem contar que ilustra a contento, os bem ou mal resolvidos conflitos entre literatura e cinema – um bom estudo de caso para o que se chama de adaptação.

Dos mais centrais aos mais periféricos, Wasson abarca praticamente todos os envolvidos na concepção de “Bonequinha”, para cada um reservando capítulos biográficos que explicam suas relações com a feitura do livro e do filme.

Os centrais são, naturalmente, Truman Capote, Blake Edwards e Audrey Hepburn. E o leitor fica sabendo: que mulheres teriam sido as inspiradoras da protagonista Holly, ganhando de sobejo a pintura do mundo society da Nova Iorque da época; o quanto Edwards, então um diretor sem grande projeção, se empenhou em fazer uma obra que se equilibrasse entre o código de censura de Hollywood e a libertinagem do romance original; como Audrey, ao ser convidada, recusou um papel que supostamente mancharia sua imagem, e o quanto a equipe pelejou para convencê-la.

Uma vez que se trata em parte de adaptação, uma figura também chave é o roteirista George Axelrod, que lutou – e venceu – para transformar o baixo astral literário de Capote em uma estória de amor, eliminando o homossexualismo do amiguinho de Holly e, disfarçando, tanto quanto possível as suas respectivas profissões: ela, uma prostituta de luxo, ele um garoto de programa também de luxo.

E há as figuras que começaram periféricas e terminaram centrais, caso de Henri Mancini, que foi contratado pelos produtores sem convicção, e que terminou levando, junto com Johnny Mercer, os únicos Oscar do filme. Acompanhar essa dupla na confecção da melodia e depois da canção, que Mercer chamou de “Blue River” e Mancini mudou para “Moon River”.é emocionante – principalmente se você, como eu, ainda a tem na cabeça.

E há os centrais que terminaram periféricos, caso da toda poderosa figurinista Edith Head (35 indicações ao Oscar!), que perdeu terreno para o estilista francês Givenchy, o escolhido para vestir a Sra Hepburn com o seu “preto básico”, ficando a magoada Head com os figurinos secundários.

Por sugestão do próprio Capote, o filme foi todo pensado para Marilyn Monroe e só não a teve no elenco por motivos de força maior. Pensou-seem Debbie Reynolds, Doris Day, Elizabeth Taylor e Sandra Dee, as musas da época, e, por sorte, houve entraves para cada caso.

O ator George Peppard foi imposto pelos estúdios ao diretor Blake Edwards que, depois de assistir a um de seus filmes, literalmente ajoelhou-se na calçada do cinema, perante os produtores e implorou que não o contratassem… e perdeu. Além de mal elencado, Peppard se revelou um megalomaníaco que massacrou toda a equipe, inclusive a suave e delicada Audrey. Como, no livro adaptado, o seu personagem é o narrador da estória, ele botou na cabeça que o filme fora concebido para ele. Nada a ver.

Outro problema para a produção foi o marido de Audrey, o ciumento e intolerável Mel Ferrer, se revelando um frustrado com o sucesso da esposa, tanto é que se separariam logo depois do estrondoso sucesso do filme.

Mas, claro, o livro transcende os mexericos e o show business em vários aspectos, o melhor deles sendo mesmo o sociológico. O seu melhor argumento é demonstrar como “Bonequinha de luxo”, o filme, funcionou como um termômetro para as mudanças que estavam por vir, na década que começava – mudanças de toda ordem, sobretudo as comportamentais e as estéticas.

Com o código Hays de censura em crise, os roteiristas já não precisavam fazer os contorcionismos narrativos que o mesmo George Axelrod fora obrigado a fazer cinco anos atrás, em “O pecado mora ao lado” (1955), para por na tela uma peça onde o adultério era um fato consumado e a consumir. Aliás, mulheres diferentes do padrão ´dona de casa´ já estavam nas telas do momento, por exemplo, a Elizabeth Taylor de “Disque butterfield8”e a Shirley MacLaine de “Se meu apartamento falasse”, ambos de 1960.

Apesar da assunção do gênero romântico, a protagonista Holly Golightly aparecia como uma representação da nova mulher emergente, até certo ponto livre, dona de seus caminhos. A mera aceitação do público da princesinha Audrey (lembrar de “A princesa e o plebeu”, 1953, e “Sabrina”, 1955) no papel de uma prostituta já era o sintoma de muitas mudanças. Tanto assim que o subtítulo do livro de Wasson é: ´Audrey Hepburn, Bonequinha de luxo e o surgimento da mulher moderna´.

Ao mesmo tempo criativo e informativo, o livro de Wasson está dividido em oito capítulos cujos nomes são verbos que expressam gestos ou atitudes humanas (´querer´, ´ver´, etc), o que é seguido de um roteiro da Nova Iorque de Holly Golightly´, com direito a um precioso mapa da cidade. Não poderia faltar uma seção iconográfica onde se vê uma foto histórica de Audrey Hepburn obedecendo às ordens da prefeitura para manter a cidade limpa, depositando o papel de sanduíche (o que Holly comeu na frente da Tiffany´s?) numa lata de lixo. Só faltou um detalhe, ao menos na edição brasileira: o cartaz original do filme, a cuja confecção, afinal de contas, se dedica um capítulo inteiro. Nada é perfeito.