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Anúncio de tempestade

21 ago

Na televisão ou nos cinemas, quando a programação do dia ou a local não atrai, o jeito é ir atrás de um velho clássico… É o que sempre faço, e foi o que fiz esta semana.

O filme que vi já começa lhe amarrando a atenção. Vinda de Nova Iorque, essa moça desce do ônibus nessa pequena cidade do Interior americano, e procura a casa da irmã, que vem visitar depois de muito tempo.

É noite escura e, antes de achar a casa, ela, sem ser vista, testemunha, apavorada, um assassinato: numa esquina qualquer, um homem é morto a tiros pela KuKluxKlan, e diante do cadáver, dois ou três deles retiram as máscaras que lhes cobriam os rostos. Ao chegar na casa da irmã, a moça descobre o mais grave: que o cunhado – que ela não conhecia – tinha o rosto do assassino.

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Ora, um filme que começa com uma cena dessas, pode até não ser grande coisa, mas, vai  envolver-nos de modo completo, se for o caso, até o fim. Esse é o tipo de roteiro que obriga o diretor a dar o máximo de si, bem como os atores.

O que faz a pessoa numa situação dessas? Denuncia o cunhado e destrói o feliz casamento da irmã querida? Ou cala-se e, sem ninguém saber, será conivente com um crime hediondo, cometido por um dos membros de uma seita tenebrosa?

O título dado ao filme no Brasil expressa a situação da protagonista: “Dilema de uma consciência”, mas, o original inglês é mais sutil: “Storm warning”, que significa ´aviso, ou anúncio, de tempestade´, sugerindo que, seja qual for a decisão a ser tomada pela moça que visita a irmã, vem mau tempo por ai, sobre essa cidadezinha do sul americano, chamada Rockpoint, dominada pelo obscurantismo.

Produção de 1951, o filme é um noir bem típico da Warner, e tem Stuart Heisler na direção. Como não podia deixar de ser, sua fotografia, de Carl Guthrie, é preto-e-branco, com predomínio de sombras sobre os claros. O elenco é que é inesperado: Ginger Rogers (sim, ela mesma) faz Marsha, a modelo novaiorquina que vem ver a irmã e cai numa fria. A irmã, Lucy, é Doris Day, e o marido assassino, Hank, é Steve Cochran. O promotor público que, mais adiante na estória, deverá enfrentar a KKK é o ator Ronald Reagan, provavelmente em seu melhor desempenho.

Ginger Rodgers, Doris Day e Steve Cochran em querela familiar

Ginger Rodgers, Doris Day e Steve Cochran em querela familiar

O filme quer ser uma denúncia da famigerada KKK, mas também é a estória pessoal de duas mulheres, duas irmãs em perigo, e o seu enredo se equilibra nesse meio tom entre documento e melodrama. E o faz muito bem. Não tive surpresa em saber que um dos roteiristas era o grande Richard Brooks, mais tarde um cineasta de filmes impressionantes, como, “Sementes da violência” e “Doce pássaro da juventude”.

Para voltar à dupla principal, urbana e modelo de profissão, Marsha é uma moça moderna, acostumada a dizer a verdade na ponta da língua, a quem quer que seja. Residente no Interior e sem muita instrução, Lucy, ao contrário, está habituada a dizer sim ao marido dominador, e a não questionar suas atitudes ou o que quer que seja.

O drama se intensifica porque, logo que chega à casa da irmã, Marsha lhe conta o crime que acabara de testemunhar na rua. Em seguida, chega Hank, o marido culpado, e a esposa por sua vez, ainda sem saber que ele era o autor do delito, lhe narra o que ouvira de irmã. A culpa está na cara de Hank e não precisa muito para que a verdade estoure (a primeira tempestade, digamos assim), dentro dessa casa, verdade que – supostamente – deveria ficar entre suas quatro paredes.

KuKluxKlan: terror em Rockpoint.

KuKluxKlan: terror em Rockpoint.

É claro que tal não é possível e logo a cidade vai aos poucos tomando conhecimento de pequenos detalhes que, mesmo confusos e obscuros, conduzirão a uma tempestade maior, a do título do filme. Enquanto isso, o espectador sofre com a angústia de uma irmã que se move, desequilibrada, entre a obrigação moral de delação e o apego a um ente querido inocente; tanto quanto com a dor de uma jovem esposa apaixonada que de repente descobre o que nunca imaginara: a faceta homicida do cônjuge…

O homem assassinado não é – como se poderia supor – de raça negra (alvo habitual da KKK), mas, um jornalista que, corajosamente, vinha se posicionando contra o domínio da seita local.

Não pretendo contar o resto da estória, para que seja mantido o interesse do leitor. Só lembrar que tão corajoso quanto a vítima do KKK, é o próprio filme, rodado numa época em que o WASP era o valor possível no país. Para quem não lembra ou não sabe, estas iniciais significam ´White Anglo Saxon Protestant´, ou seja ´Protestante anglo saxão branco´, o padrão racial, social e religioso, entendido como superior.

“Dilema de uma consciência” não é nenhuma grande obra, porém, um filme bastante apreciável em sua pequenez. Recomendo.

O promotor público Ronald Reagan.

O promotor público Ronald Reagan.

Real beleza

13 ago

 

Uma dona de casa apaixona-se por um fotógrafo que visita sua casa. “As pontes de Madison”? Não, “Real beleza” (2015), filme de Jorge Furtado, em cartaz na cidade e no país.

Pois é, mas as semelhanças com o filme de Clint Eastwood ficam por aqui. João, o fotógrafo de Furtado, não está interessado em paisagens, mas em pessoas, no caso, modelos, mais especificamente, na modelo de seus sonhos que, no início da narrativa, ele ainda não tem ideia de quem seja, ou que traços tenha.

Para encontrar essa real beleza, ele fotografa muitas centenas de adolescentes, todas descartadas logo em seguida, uma atrás da outra. “O que você procura?” lhe pergunta o colega de trabalho, intrigado com os descartes. E a resposta não demora a vir: “Não sei, mas quando achar, você verá!”

A novata Vitória Strada como Maria.

A novata Vitória Strada como Maria.

Ao encontrar Maria, João reconhece de imediato a beleza que procura. O encontro é epifânico, porém, quando o caminho parece ser este, digo, a estória de João e Maria, vem o turning point, bem ao estilo Furtado.

Como os pais de Maria (a novata Vitória Strada) não consentem na carreira de modelo, João (Vladimir Brichta) toma a iniciativa de visitá-los, para o devido convencimento. Nessa idílica casa de campo do interior gaúcho, só encontra a mãe da moça, Anita (Adriana Esteves), e é aqui que Eastwood dá uma mãozinha. Nos poucos dias em que, a convite de Anita, fica hospedado, uma paixão vai surgindo entre os dois, de modo que quando o marido, Pedro (o veterano Francisco Cuoco) – um senhor idoso e quase cego – aparece, o mal, ou seria o bem, já está feito.

Mas, ao contrário do que ocorre nos grandes melodramas sobre ´mulheres apaixonadas fora do casamento´, aqui a figura do marido traído não é nada pequena. Para João, essa figura já se agigantara antes do anfitrião chegar, ao ver sua vasta biblioteca, e agora, na sua presença, as impressões favoráveis aumentam, por exemplo, com a descrição incrivelmente minuciosa que esse cego faz de uma fotografia de Cartier-Bresson, aquela famosa, em que um cidadão anônimo salta sobre o calçamento molhado de uma rua qualquer.

Vladimir Brichta e Adriana Esteves em cena do filme.

Vladimir Brichta e Adriana Esteves em cena do filme.

Aliás, erudição é o que não falta nessa mansão, e desde que chegou João escuta citações de autores que leu ou que só conhece de ouvir falar: Molière, Shakespeare, Borges… Até a ideia que defende da indefinição da beleza, vem da boca da mãe da moça, via Guimarães Rosa: “ só conhecemos o que não entendemos”.

Tudo bem, são certamente preferências literárias de Furtado, mas elas entram no diálogo, nas caracterizações dos personagens e nas situações, de modo mais que apropriado e, inevitavelmente, enriquecem o efeito geral do filme.

Tão grande é a figura de Pedro o marido, esse intelectual refinado que nunca escreveu uma linha, que ela determina o desenlace. Ao invés de acompanhar a filha na viagem para São Paulo (como querem todos, sobretudo João), Anita decide que vai ficar em casa, como sempre faz, a ler para o esposo sem visão.

Numa cena sintomática, ela dele se aproxima na sala de estar para comentar e perguntar: “A mesma cadeira, a mesma música, a mesma mulher: você não se cansa?” O que ele responde é irrelevante para o espectador, pois, como nos grandes melodramas de David Lean, Michael Curtiz ou Douglas Sirk é muito mais o conflito dela o que nos interessa.

Um pouco mais tarde, indagada pelo próprio marido (que, cego, vê mais do que se pensa), ela responde que a relação com João foi boa, e acrescenta, “muito boa”, mas “nada é tão bom que substitua isso” e lhe desfere um beijo na boca.

Fotografia e amor...

Fotografia e amor…

Que o amante também se dobra ao desenlace, fica claro, em dois momentos: (1) quando ri ao descobrir que a mentirosa estória da mulher que manda bilhetes eróticos ao cego idoso, é uma apropriação do “Decameron”; e (2) quando, na despedida, esse mesmo cego sabendo-se idoso e doente, consola o rival dizendo “Você não vai esperar muito”, e a resposta de João é: “Não tenho pressa”.

E parte, com a jovem modelo ao seu lado, confiante em, no futuro, vir a ter a mãe da moça, uma mulher de meia idade, igualmente bela.

Mais do que sobre a busca do belo, o filme é sobre o conceito mesmo de beleza. Afinal de contas, o que é o belo e para que o queremos? Apesar do adjetivo “real” no título, o filme de Furtado não oferece resposta, e nos deixa com o benefício do paradoxo: a beleza da adolescente Maria, o fotógrafo profissional João só a quer em fotos; a beleza de Anita, ele a quer entre seus braços. Uma espécie de esquizofrenia estética que o espectador aceita… ou não.

De todo jeito, o filme é assistido com extremo interesse. Mais ainda, por quem conhece a curiosa trajetória fílmica de Jorge Furtado.

A equipe do filme, posando para a imprensa.

A equipe do filme, posando para a imprensa.

 

Lauren Bacall, teu nome é mulher

21 ago

De ascendência judia, a pequena Betty Joan Perske nasceu em Nova Iorque, em 16 de setembro de 1924 – o pai um comerciante próspero e a mãe, secretária. Seu sonho de menina era ser bailarina, mas a vida lhe reservara outro métier. Aquele que nós conhecemos.

Ao terminar a escola secundária a jovem Betty Joan matriculou-se na Academia Americana de Artes Dramáticas e descobriu-se atriz. Mas os caminhos para a fama são tortuosos, mesmo para quem tinha garra, talento e beleza.

Enquanto não apareciam as grandes oportunidades para a ribalta, seguiu a carreira de modelo, e, já com o nome artístico de Lauren Bacall, fez tanto sucesso que uma foto sua foi parar na capa de uma das mais badaladas revistas de moda da época, a “Harper´s Bazaar”.

bacall

A foto chamou a atenção de uma senhora, tão bela e elegante quanto a própria Bacall. Esta senhora, esposa do afamado diretor Howard Hawks, mostrou a foto ao marido, fez a sugestão, e não deu outra: ela foi logo contratada pela Warner Brothers para atuar, ao lado do já famoso Humphrey Bogart, na adaptação do conto de Hemingway “To have and have not”, filme que no Brasil chamou-se “Uma aventura na Martinica” (1944).

A Sra Hawks e Lauren ficaram amigas, tanto que a atriz usou o nome de sua protetora no seu primeiro filme, Slim (é por esse apelido que Bogart a chama, lembram?), e não só isso: dizem que a sua figura pública foi toda moldada em cima do charme e elegância da Sra Hawks. Bem, de todo jeito, o que a Sra Hawks certamente não tinha era a sensualidade daqueles olhos felinos esverdiados e daquela voz rouca e aveludada.

Com Gregory Peck, em "Teu nome é mulher".

Com Gregory Peck, em “Teu nome é mulher”.

Enfim, Hollywood havia descoberto Lauren Bacall, que não parou mais de filmar, pode se dizer até o final do século. Com Bogart, com quem casou em 45 compôs, em pelo menos quatro filmes, uma das duplas mais queridas do cinema… até a morte do ator em 57.

Não tenho espaço para citar todos os filmes da carreira de Lauren Bacall e anexo a esta matéria apenas uma seleção de dez títulos de sua fase clássica. (Veja adiante).

De todo jeito, para não deixar de citar filmes da segunda metade do século XX, relembremos de passagem os seus papéis em: “Assassinato no Expresso Oriente”, “O último pistoleiro”, “O fã – obsessão cega”, “Louca obsessão”, “Pret-à-porter”, “Meus queridos presidentes” e “Dogville”.

Com Humphrey Bogart, em "Prisioneiro do passado"

Com Humphrey Bogart, em “Prisioneiro do passado”

Com filmografia tão vasta, Bacall nunca ganhou um Oscar por seu desempenho em determinado filme. Em 1996 foi indicada como coadjuvante no filme de Barbra Streisand, “O espelho tem duas faces”, mas perdeu. Em 2010, é que foi homenageada pela Academia com um Oscar honorário pelo conjunto de sua carreira.

Atriz talentosa, é difícil escolher o seu melhor desempenho. Fiquemos apenas com o personagem que mais ressaltou seu charme e elegância, possivelmente aquela comédia romântica de Vincente Minnelli onde ela, contracenando com Gregory Peck, faz uma bela estilista, eventualmente mais charmosa que suas freguesas. O filme se chama “Teu nome é mulher” (1957), que, por razões óbvias, julguei um bom título para esta matéria.

Num outro clássico dos anos cinquenta, “Angústia de tua ausência” (1958), infelizmente um filme sem grandes méritos estéticos, o seu personagem é uma dona de casa que vem a falecer e retorna na forma de um anjo da guarda, que passa a proteger o marido e a filha pequena. Agora, na ocasião de sua morte, não duvido nada que algum fã inconformado esteja aspirando a sua benfazeja proteção…

Com Marilyn Monroe e Betty Grable em "Como agarrar um milionário"

Com Marilyn Monroe e Betty Grable em “Como agarrar um milionário”

 

Dez clássicos para lembrar Lauren Bacall (1924-2014):

 

Uma aventura na Martinica (1944)

À beira do abismo (1946)

Prisioneiro do passado (1947)

Paixões em fúria (1948)

Êxito fugaz (1950)

Como agarrar um milionário (1953)

Paixões sem freios (1955)

Palavras ao vento (1956)

Teu nome é mulher (1957)

Angústia de tua ausência (1958)

 

Em "Angústia de tua ausência";  anjo da guarda do lar

Em “Angústia de tua ausência”; anjo da guarda do lar