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Filmes atípicos

7 nov

O que é um filme atípico? Estou usando esta expressão para designar aquele filme que, dentro da carreira de um cineasta, se destaca por ser diferente. A diferença pode ser de gênero, de temática, de estilo, ou de outra coisa menos denominável.

Se, na filmografia de um cineasta que sempre fez filmes policiais, pessimistas e sombrios, se encontra um alegre e colorido musical, este vai ser atípico. Um autor consagrado por comédias românticas de final feliz que, no meio de sua filmografia exibe um trágico e deprimente melodrama… E por aí vai. Mas, a melhor maneira de esclarecer o conceito de filme atípico é mostrando os exemplos.

Seguindo a cronologia, o primeiro caso que me ocorre é do diretor Tod Browning, conhecido pelos muitos filmes de terror que cometeu lá pelos anos trinta. No entanto, se você se detiver sobre sua filmografia vai encontrar essa comédia romântica, leve e pra cima, chamada “Perdão, senhorita” (“Fast workers”, 1933).

Velhinhas assassinas num filme de Capra: “Este mundo é um hospício”.

Existe, na carreira do mago Orson Welles, um filme mais “diferente” do que aquele que ele rodou no Brasil, em 1942, sobre os jangadeiros cearenses que viajaram, mar a dentro, de Fortaleza ao Rio para falar com o presidente Getúlio Vargas? O filme levou o nome bem literal de “Four men on a raft”, ou seja, “Quatro homens numa jangada”.

Em Hollywood, e no mundo, o diretor George Cukor é conhecido como o autor de belas histórias românticas. No entanto, lá pelo meio de sua filmografia, procurando bem você vai achar um filme noir cheio de suspense e horrores: “À meia luz” (“Gaslight”, 1944), que em nada lembra a sua edulcorada linha mestra.

O mais otimista dos cineastas do cinema clássico foi com certeza Frank Capra. Ninguém, portanto, iria imaginar um filme dele em que os personagens fossem impiedosos assassinos de velhinhos. O filme existe, é de 1944 e se chama “Este mundo é um hospício” (“Arsenic and old lace”), sim, ainda uma comédia, mas que comédia malvada.

Quem fez os melhores melodramas dos anos 40/50, se não o mestre Douglas Sirk, que a gente lembra de filmes emocionantes como “Tudo que o céu permite”, “Palavras ao vento”, “Imitação da vida”? E, contudo, você vai encontrar nele um noir autêntico, com todas as sombras do gênero. O filme é “Emboscada”(“Lured”, 1947).

Como no caso de Capra, Charles Chaplin, o imortal Carlitos que fez, e faz, todo mundo rir, cometeu um filme em que o protagonista é um assassino convicto e cínico: “Monsieur Verdoux” (1947). Vocês lembram, Verdoux é um barba azul que vive de procurar viúvas solitárias, que desposa e assassina para ficar com a herança – nada esperável do “descendente” do vagabundo tão amado das comédias mudas.

Monsieur Verdoux; Chaplin atípico.

Vamos supor que você ligou a tv e pegou o filme já iniciado. É a história tola de um tolo vendedor de gramofone que, acompanhado de seu cachorro, quer vender o aparelho ao Imperador da Áustria e, por isso, se mete em várias enrascadas. Duvido que você identifique o autor como sendo o genial Billy Wilder. Mas é. O filmezinho tolo é “A valsa do imperador” (“The emperor waltz”, 1948).

O mestre superior do noir é, como se sabe, Fritz Lang, cineasta expressionista que fugiu do nazismo para ir fazer em Hollywood o melhor e mais perfeito desse gênero pessimista e sombrio. Pois bem, o seu “Guerrilheiros das Filipinas” (“American guerrilla in the Philippines”, 1950) não tem nada de noir, salvo a sua assinatura.

Tenho dúvidas se incluo, mas decidi incluir “Os brutos também amam” (“Shane”, de George Stevens, 1953) nessa categoria de atípico. É verdade que o filme traz os traços estilísticos ostensivos de Stevens, mas, a minha decisão se baseia no fato de que se trata de um gênero, o western, nunca praticado pelo autor, salvo neste caso.

Até o mestre do suspense, Alfred Hitchcock, tem o seu filme atípico. Vejam ou revejam “O terceiro tiro” (“The trouble with Harry”, 1955) e me deem razão. O que é que esse filme tem do autor de “Janela indiscreta”, “Um corpo que cai” e “Os pássaros”? Dizer que um morto é pouco para justificar a relação.

Ao lado de Lang, o diretor Robert Siodmak foi um dos grandes do gênero noir, com um número enorme de títulos mais que significativos. Já o seu faroeste tardio “Os bravos não se rendem” (“Custer of the West”, 1967) fica longe de seu fazer e contradiz o seu estilo.

A rigor, a pergunta que fica no ar sobre a ocorrência de filmes atípicos na carreira de cineastas famosos seria: quais as suas consequências estéticas? Mas, a questão fica para outra matéria.

(Em tempo: esta matéria não teria sido escrita sem a ajuda de Joaquim Inácio Brito, que não é meu parente de sangue, mas parente muito próximo de cinefilia)

O que há de Hitchcock em “O terceiro tiro”?

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O preço da fama

2 jul

Eis uma estória que a Charles Chaplin não ocorreria conceber. Sequer ao triste palhaço Calvero de “Luzes da Ribalta” ela ocorreria. Nem mesmo ao cínico Monsieur Verdoux.

E, contudo, a estória aconteceu. Foi entre o Natal e o Ano Novo de 1977, na Suiça francesa: três dias depois do enterro, o esquife de Charles Chaplin foi roubado (sim, isso mesmo!) e os dois autores do furto pediram à família, por telefone, a soma de um milhão de francos, para a devolução. Baseado neste fato verídico, o cineasta francês Xavier Beauvois fez um belo filme, “O preço da fama” (“La rançon de La gloire”, 2014), um dos melhores entre os exibidos no último Festival Varilux do Cinema Francês. 0 O filme tem esse argumento de roteiro que, assim resumido, dá uma impressão errônea do que está na tela. Na verdade, os dois autores do plano não foram (e não são no filme) perigosos meliantes. Eddy Ricart e Osman Bricha são dois pobres coitados, imigrantes que, na rica Suiça, vivem na miséria. Aquele saído da prisão há pouco, este um sub-empregado e residente numa espécie de trailer precário, onde, com todas as dificuldades do mundo, cria uma filha pequena, pois, gravemente enferma, a esposa se encontra no hospital local, à espera de uma cirurgia, pela qual a família não pode pagar. Concebido num momento de delírio de Eddy, o plano só é executado com muita relutância, a rigor, para cobrir a cirurgia salvadora. Tanto é que, no decorrer das negociações, a quantia exigida cai de um milhão, para meio, e, logo em seguida, para os 55 mil francos que o sistema de saúde cobrava para efetuar a cirurgia. O filme começa um pouco antes da concepção do desastroso plano – que claro, só podia dar em esparrela – e, na medida em que avança, os dois protagonistas, curiosamente, vão ficando cada vez mais parecidos, eles próprios, com personagens chaplinianos.

Dois meliantes atrapalhados

Dois meliantes atrapalhados

Pensando bem, por uma estranha coincidência que só o acaso explica, um bocado dos ingredientes do universo chapliniano está presente na estória desses dois coitados: uma criança pobre, uma mãe que precisa de uma quantia para ser operada, dois vagabundos desastrados. Um deles, Eddy, até trabalha em circo e, como o palhaço de “O Circo” (Chaplin, 1928) foi parar lá por puro acaso, em parte por causa de uma bela figura circense. Enfim, melodrama e miséria, como no Chaplin da vida toda. Naturalmente, a direção tem o cuidado de contar toda a estória na perspectiva dos dois autores do plano, e é isso que nos ajuda a entender o seu drama, e aceitá-los como são, seres humanos indefesos, desesperados, mais vítimas das circunstâncias que autores dela. Não é sem razão, por exemplo, que um tempo grande de tela é dado à menina, a qual tem uma participação crucial no diálogo, com suas perguntas sobre o que está acontecendo e sua insatisfação óbvia com as respostas recebidas. Não esqueçamos que, por ironia, é o seu choro noturno (“eu quero minha mãe…”) que faz com que Osman decida dizer sim ao amigo e partir para a execução do plano. Aliás, tão intrigantemente chaplinianos são os personagens que, no júri que os julga, depois do plano malogrado, o advogado de defesa não tem muita dificuldade em convencer os jurados de sua inocência, fazendo uso justamente do argumento de que, neste caso pelo menos, a vida imitou a arte. Mas, atenção, essa similaridade entre os dois mundos, o de Chaplin e o de seus “algozes”, não nos é dada de chofre: ela vai sendo construída devagarzinho, com sutileza e com afeto, até, não apenas os personagens ficarem chaplinianos, mas o próprio filme. Sim, um pouco antes do desenlace, aquela cena no circo em que Eddy é preso em plena perfomance, é, cinematograficamente falando, puro Chaplin!

Tudo por uma cirurgia cara

Tudo por uma cirurgia cara

Um fator que ajuda nesse efeito camaleônico é, naturalmente, a trilha sonora de Michel Legrand, principalmente ao fazer evoluções em torno do “Smile” de Chaplin, que, no final das contas, o espectador associa, não só ao mito do cinema, mas a todo mundo. O jeito chapliniano do filme de Xavier Beauvois está reforçado até pelo elenco. Duas bisnetas do cineasta de “Luzes da cidade” trabalham em “O preço da fama”, Dolores (no papel de uma das filhas do cineasta) e Eugene Chaplin (como a moça do circo que conquista Eddy). No mais, o elenco está ótimo, com destaque para o par de protagonistas: Benoit Poelvoorde (Eddy) e Roschdy Zem (Osman). A esposa finalmente cirurgiada é feita por Chiara Mastroiani, a filha de Catherine Deneuve e Marcelo Mastroianni, e o “fiel escudeiro” da família Chaplin, o americano John Crooker, é o ator Peter Coyote. “O preço da fama”, uma forma sofisticada e agradável de entabular diálogo entre o cinema do passado e o cinema do presente. Fico tentado a supor que Chaplin gostaria.

Carlitos, faminto como os seus algozes...

Carlitos, faminto como os seus algozes…