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A cruz dos anos

3 out

Neste primeiro de outubro, Dia Internacional do Idoso, veiculei nas redes sociais, uma lista de dez clássicos da história do cinema mundial que trataram da “terceira idade” quando a expressão sequer existia. Na minha postagem, limitei-me a indicar os títulos dos dez filmes, sem comentá-los. Pois aqui os comento.

Na ordem cronológica dos lançamentos, o meu primeiro filme citado, “A última gargalhada”, é de 1924, tempo do cinema mudo. Dirigido pelo genial F. W. Murnau, traz todos os traços do então no auge Expressionismo Alemão. É a deprimente história desse senhor idoso, porteiro de um hotel de luxo em Berlim, que perde o emprego justamente por ser velho. Um dos primeiros filmes a fazer a pergunta: como tratar os nossos idosos? Claro que a pergunta do filme não se refere aos idosos ricos, que estes não precisam de perguntas de cunho social.

Para dizer a verdade, quase todos os filmes por mim listados misturam velhice e pobreza. É o caso do segundo, “Dama por um dia” (Frank Capra, 1933), história dessa mendiga idosa que subsiste vendendo maçãs nas calçadas de Nova Iorque, e que se desespera no dia que tem a notícia de que vai receber a visita de uma filha que não vê há décadas, hoje casada com um nobre espanhol e residente em Madri. O que uma mendiga pode fazer para esconder da filha rica sua gritante pobreza? Veja o filme para saber.

O meu terceiro filme citado, “A cruz dos anos” (Leo McCarey, 1937) enfrenta a questão pais e filhos de modo diferente. Fragilizado e dependente, esse casal de idosos procura apoio nos filhos e suas famílias, e a resposta, afetiva e financeira, não é propriamente a esperada. Como se vê, um tema atual, num filme tão contundente e sintomático que não resisti em dar a esta matéria o seu título.

Ao tema da pobreza na velhice, “Humberto D” (Vittorio De Sica, 1952) – meu quarto filme citado – acrescenta o da solidão. Pensionista do governo, sem parentes nem aderentes, o idoso Humberto vive só com seu cachorro Flick. Vive até o dia em é despejado e, doente, vai parar no hospital. Ao ter alta, será mais um mendicante nas ruas de Roma, sem teto e à procura de um cão desaparecido. Haja tristeza.

O tema da indiferença filial vai reaparecer de modo igualmente cru no japonês “Era uma vez em Tóquio” (Yasujiro Ozu, 1953), o meu quinto citado. Do mesmo modo, quando o casal de idosos residentes no campo, viaja a Tóquio à procura de conforto moral junto aos filhos, hoje todos casados, dá-se conta da gap generation que os separa, e o resultado é desilusão e sofrimento.

Em “Morangos silvestres” (Bergman, 1957), o meu sexto citado, já não temos mais a questão da pobreza. O protagonista é um conceituado médico aposentado que viaja para receber um prêmio de honra ao mérito. A viagem, porém, é um pouco menos espacial e um pouco mais existencial, e o remete ao âmago de seu eu, onde reside o menino lírico – tão diverso do idoso frio e calculista de hoje.

Se no filme de Bergman já fica claro que nem todo idoso é bonzinho, em “O que aconteceu a Baby Jane” (Aldrich, 1962), meu sétimo citado, a coisa se acentua. Movidas pelo rancor, duas irmãs idosas se digladiam até a loucura… e a morte. O gênero é mais terror que outra coisa.

O saldo positivo para a terceira idade retorna com o meu oitavo citado, “Ensina-me a viver” (Hal Ashby, 1971), história tão cômica quanto poética de um casal impossível – essa senhora avançada em anos, mas alegre e pra frente, e esse adolescente deprimido. Um desses filmes inesquecíveis que a gente chama de “lição de vida”.

Juventude num corpo senil: pode? De modo apropriado, o gênero da ficção científica é introduzido com “Cocoon” (Ron Howard, 1985), meu nono citado. Ao lado de um asilo de velhinhos, uma piscina abandonada recebe uma energia revigorante que vem do espaço sideral, e, para o bem ou para o mal, transforma a vida dos idosos que nela haviam se banhado.

Disse acima que a pobreza, mais que a riqueza, recorre nos dez filmes citados. Pois o meu décimo, “Conduzindo Miss Daisy” (Bruce Beresford, 1989) faz, em nível de personagem, o contraste entre as duas coisas O pobre (e negro) motorista dessa tradicional família judia deve conduzir a petulante Sra Daisy, em seus passeios e negócios. Naturalmente, desse convívio forçado nascerá um afeto improvável… e profundo.

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Capra e Bergman

25 fev

Coisa esquisita é a natureza humana.

Tiro por mim. Há dias em que acordo de espírito leve, disposto a curtir a vida, acreditando que ela é maravilhosa. Outros dias há em que me levanto pesado, vendo tudo feio e crendo que a vida é um castigo que me foi imposto.

E mais estranho ainda é que, para esses estados de espírito antagônicos, que perduram pelo resto do dia, nem sempre existem motivações objetivas. Muitas vezes há problemas, sim, no dia em que acordo leve, e, eventualmente, problema nenhum, no dia em que me ergo da cama pesado.

Ao estado de espírito leve eu, cá comigo, dou o nome de “Capra”, e ao pesado, eu chamo de “Bergman”.

Pois é. No dia em que amanheço Capra nada me abala. Os problemas são tirados de letra, pois creio piamente que, para tudo, existe um happy end que nos aguarda em algum lugar, acolhedor e generoso. Estar vivo é um dom divino que deve ser preservado com júbilo e gratidão.

No dia em que amanheço Bergman tudo me derruba e me destrói. Nem precisa ser nada grande, nem grave. Uma torneira quebrada já é o suficiente para conjugar um monte de preocupações, que vão se somar a outras, mais severas e formar um caldo sujo e feio que desagua num oceano escuro e fundo.

Morangos silvestres - o idoso que aprende sobre a vida.

Morangos silvestres – o idoso que aprende sobre a vida.

Mas, não pensem que sou ciclo-tímico.

Não é nada disso. Na verdade, Capra e Bergman não se manifestam com frequência, e, quando o fazem, os espaços de tempo entre um e outro são grandes, enormes. A rigor, na maior parte dos dias, eu saio da cama normal, digo, nem a euforia de Capra, nem a disforia de Bergman, apenas eu mesmo.

Capra e Bergman, nunca os vi juntos. Nem poderia. A bem da verdade, vi-os juntos, sim, mas foi só uma vez.

Foi assim: saído de uma noite de sonhos estranhos, uma certa manhã eu abri os olhos, ainda sonolento, e, em torno de minha cama estavam essas duas figuras ímpares. Do lado direito, sorridente em sua cadeira de diretor, Capra piscava o olho para mim, como a dizer: “Levanta, cara, e vamos curtir esse dom sagrado que Deus te deu: a existência”. Do lado esquerdo, de cara enferrujada, Bergman me fitava, como a admoestar: “Deixa de ilusão, cara, e cai na real, que a vida é só amargura e dor”. Quando os dois se entreolharam, como se fossem dar início a uma disputa filosófica, ou coisa pior, sei lá, uma briga peripatética, com troca de socos e pontapés, dei um pulo da cama, botei minha sunga e corri para o jardim, tomar banho de sol, como faço toda manhã. E nunca mais vi os dois juntos, graças a Deus.

O desespero de George Bailey, no filme de Capra.

O desespero de George Bailey, no filme de Capra.

Uso os nomes desses dois cineastas que admiro para ilustrar a dicotomia entre alegria e tristeza, mas não o faço com tranquilidade. Pensando bem, e procurando com cuidado, a gente até que pode encontrar tristeza em Capra, e, mutatis mutandis, alegria em Bergman.

Vejam o caso de “A felicidade não se compra”, o filme mais pra cima de Frank Capra. Se não fosse pelo final feliz, dir-se-ia que a vida de George Bailey é um amontoado de problemas, desde quando, ainda criança, quase perde um irmão afogado, até a crise financeira que quase leva o banco da família à falência… tudo isso culminando na noite de Natal em que ele mesmo, sem saída, opta pelo suicídio.

Já um dos filmes mais típicos de Ingmar Bergman, “Morangos silvestres”, contém, sim, seus momentos positivos. Tudo bem, é a estória de um senhor idoso, um médico amargo e frio, desencantado com o gênero humano e talvez consigo mesmo, porém, não esqueçamos que a sua viagem para receber a homenagem que lhe cabe também é uma viagem interior em que ele se reavalia e cresce humanamente. O filme termina com o sonho infantil dos morangos catados na floresta, com a doce e poética consideração de que a vida poderia ter sido diferente.

Lembranças poéticas no filme de Bergman.

Lembranças poéticas no filme de Bergman.

Esses aspectos menos óbvios em Capra e em Bergman, aparentemente contraditórios deles mesmos, eu não os lembro por lembrar. Acho que os lembro interesseiramente, na esperança de que me sirvam de lição. Para, no dia em que eu amanhecer completamente Capra, dar-me conta de que – desculpem o clichê – nem tudo na vida são flores, e quando amanhecer totalmente Bergman, dar-me conta de que nem tudo são espinhos. Aprender a conviver com flores e espinhos, tarefa existencial difícil, que me esforço para cumprir.

Porém, não vou me iludir: não tem jeito, já me antevejo, lá adiante, não sei quando, sendo atacado por aqueles estados de espíritos antagônicos, cada um no seu tempo, uma vez Capra, outra vez Bergman, estados, como disse, que não recorrem com assiduidade, mas que nunca deixam de recorrer. Num caso, teimando em ser feliz, no outro, teimando em ser infeliz.

Não creio que haja cura para isso. A mente humana é mesmo esquisita. Ou o problema seria só meu?

Tomara que o leitor possa me ajudar, – talvez, quem sabe? – com depoimentos análogos. Mesmo que os seus cineastas sejam outros, ou, se for o caso, sequer existam.

Nem tudo é alegria em A felicidade não se compra.

Nem tudo é alegria em A felicidade não se compra.

Médicos no cinema clássico

31 maio

Qual a profissão mais ficcionalizada no cinema? Não detenho as estatísticas, mas, com certeza, a medicina está entre as favoritas. Com efeito, desde os tempos do cinema mudo que o médico aparece na tela, seja como coadjuvante, seja como protagonista. Em 1920, um certo filme já trazia a palavra “doutor” no título: O gabinete do Dr Caligari.

Mas, com que características o médico foi ou tem sido representado na tela? Que perfil lhe é dado? Há dois, antagônicos, que recorrem: o do profissional frio que vê o seu paciente como cobaia a ser analisada, e o do humanista compreensivo que considera o paciente como um ser humano, igual a ele mesmo.

Cena de "Morangos silvestres" (Ingmar Bergman, 1957)

Cena de “Morangos silvestres” (Ingmar Bergman, 1957)

Na época clássica, a que aqui privilegio, essa dualidade comportamental foi constante. Ao redigir esta matéria, lembro dois exemplos bem sintomáticos: (1) o Dr Austin Sloper (Ralph Richardson) de Tarde demais (The heiress, 1949, de William Wyler), médico impessoal que, com palavras cruéis, não hesita em “diagnosticar” a filha como imbecil; e (2) a suave e delicada Dra Han Suyin (Jennifer Jones) de Suplício de uma saudade (Love´s a many-splendored thing, 1955, de Henry King) que trata seus pacientes com um afeto de mãe devotada.

Por sua vez, essa dualidade tende a ser “resolvida” na figura do Dr Isac Borg,  protagonista de Morangos silvestres (Smultronstället, 1957, do sueco Ingmar Bergman), filme que conta a viagem desse profissional aposentado e idoso, para receber uma homenagem pelo seu relevante trabalho de médico: na viagem, o impassível Dr Isac revê toda a sua vida em detalhes e, no processo, se humaniza.

Aqui levanto dez filmes da era clássica cujos protagonistas foram médicos. As especialidades variam, de clínico geral a psiquiatra, passando por cirurgião e/ou dentista, assim como variam os gêneros dos filmes, de romance à ficção científica, passando por western e, sobretudo, drama.

Evidentemente, todos esses médicos vivem conflitos da mais variada natureza, do contrário os filmes não seriam interessantes; conflitos que, quando não são estritamente profissionais, de alguma maneira, atingem a profissão.

O grande ator Ralf Richardson, como o médico frio de "Tarde demais".

O grande ator Ralf Richardson, como o médico frio de “Tarde demais”.

Esses conflitos podem ser, por exemplo: uma experiência científica frustrada, uma paixão proibida, uma doença do próprio médico, uma intriga local, uma epidemia incontrolável, uma cirurgia impossível, uma ameaça cósmica, uma patologia rara, uma convulsão social, um problema racial…

Enfim, faço seguir, em ordem cronológica, a lista dos dez filmes clássicos que têm médicos como protagonistas. Em cada caso cito, na ordem: o título brasileiro do filme, o título original, o diretor e o ano de produção. Os dois últimos itens citados são o nome do personagem e o ator que o interpretou.

Se você é da área médica e se gosta de cinema, tente relacionar os conflitos acima mencionados com os filmes abaixo:

 

O homem invisível (The invisible man, James Whale, 1933); Dr Jack Griffin/ Claude Rains.

Desencanto (Brief encounter, David Lean, 1945). Dr Alec Harvey/Trevor Howard).

Quando fala o coração (Spellbound, Alfred Hitchcock, 1945). Dr John Ballantyne/Gregory Peck.

Paixão dos fortes (My darling Clementine, John Ford, 1946). Doc Holiday/Victor Mature.

Pânico nas ruas (Panic in the streets, Elia Kazan, 1950). Dr Clinton Reed/Richard Widmark).

Sublime obsessão (Magnificent obsession, Douglas Sirk, 1954). Dr Bob Merrick/Rock Hudson.

Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers, Don Siegel, 1956). Dr Bennell/Kevin MacCarthy.

As três máscaras de Eva (The three faces of Eve, Nunnally Johnson, 1957). Dr Curtis Luther/Lee J. Cobb.

Dr Jivago (Dr Zhivago, David Lean, 1965). Dr Yuri Zhivago/Omar Sharif.

Adivinhe quem vem para jantar (Guess who is comig for dinner, Stanley Krammer, 1967). Dr John Prentice/Sidney Poitier.

 

Em tempo: esta matéria foi escrita para a Revista da SBH (Sociedade Brasileira de Hepatologia, Ano 3, n 1, 2016)

 

O médico doente de "Quando fala o coração": Gregory Peck.

O médico doente de “Quando fala o coração”: Gregory Peck.

Liv e Ingmar

29 maio

Perdi no cinema, mas agora vejo na televisão paga este “Liv & Ingmar” (2012), documentário sobre os muitos anos de convívio entre a atriz de origem norueguesa Liv Ullman e o cineasta sueco Ingmar Bergman – um belo filme com algumas surpresas.

Creio que a primeira surpresa do espectador, sobretudo do fã de Bergman, é que, ao contrário do clima pesado da obra do diretor sueco, o filme é suave, leve a agradável – afinal de contas, apenas a estória de um caso de amor que, se teve os seus momentos difíceis, terminou em perene e tranqüila amizade. Como diz a sua epígrafe, ´a estória de dois amigos´.

"Liv & Ingmar: uma das belas cenas de arquivo

“Liv & Ingmar”: uma das belas cenas de arquivo

Em ordem mais ou menos cronológica, o relato todo é feito por uma Liv Ullman madura, serena e bastante divertida, que relembra os bons momentos do casal, o nascimento da filha, algum acidente de filmagem, e as eventuais crises, com algum senso de humor. Com extrema simplicidade e delicadeza, ela revisa, saudosa mas pacífica, o passado e a estória que nos conta, à parte as respectivas profissões dos dois, parece a de um casal comum, com os mesmos altos e baixos de qualquer relação amorosa.

Pois é, quem estiver pensando que vai mergulhar no obscuro e terrível fundo do poço do autor de “Persona” está enganado.

O filme está dividido em capítulos que se iniciam, cada um, com uma palavra-chave, e, de fato, um deles se chama “Ódio”, porém, Liv não vai a fundo no sentimento, sendo sempre metonímica no relato de agressões e violência, estas por sua vez, mostradas apenas na forma de ficção cinematográfica (veja adiante).

Talvez a segunda surpresa do cinéfilo bergmaniano seja a de que não há análises aprofundadas, semióticas e/ou filosóficas, dos filmes de Bergman, nem revelações preciosas sobre os processos criativos do cineasta, e muito menos da atriz. O que aliás, já está indicado no título original do filme, com os nomes dos dois protagonistas sozinhos, sem sobrenomes.

Um trio famoso: Bibi, Liv e Ingmar

Um trio famoso: Bibi, Liv e Ingmar

O que não quer dizer que não vejamos cenas dos filmes de Bergman. Além das esperadas fotos de arquivo, as cenas dos filmes costuram sempre a fala de Liv e, mais que isso, a comentam. Este é, na verdade, o lado mais criativo e menos documental do filme. Sim, quase sistematicamente, o diretor Dheeraj Alkokar faz com que o tópico momentaneamente tratado na fala da atriz seja “visto” em cenas dos filmes bergmanianos, estas naturalmente escolhidas a dedo. Convenhamos, uma boa saída para demonstrar o quanto de biográfico porventura houve/há na filmografia do autor de “Morangos silvestres”.

O resto são, em tomadas atuais, as belas paisagens da ilha de Faro – onde o casal residiu e onde lhes nasceu a filha – e do litoral sueco, espaços revisitados por Liv Ullman no final do filme, seguramente uma exigência do roteiro – e uma exigência que deu certo.

Em resumo, as informações novas para o espectador em “Liv e Ingmar” dizem respeito apenas ao lado pessoal do casal famoso, aquele mesmo tipo de informação que se acha em livros biográficos e em revistas do show business.

O cineasta Ingmar Bergman

O cineasta Ingmar Bergman

Quem salva tudo do puro mexerico é a própria Liv Ullman que narra sua estória de vida junto a Bergman com sabedoria, bom senso, amor e saudade, nisso ajudada, claro, pela mise-en-scène do diretor que soube escolher bem as cenas fílmicas certas para os episódios biográficos certos. E que, com certeza, soube cortar o que, no longo depoimento da protagonista, porventura não casasse com esse clima de homenagem lírica e saudosa.

Obviamente, o Bergman que vemos em “Liv & Ingmar” é o que Liv Ullman viu, ou o que ela e o diretor Akolkar viram juntos, mas, nem por isso, o filme é menos interessante. Ou, quem sabe, talvez por isso mesmo seja ainda mais interessante. Enfim, aquela estória da grande mulher por trás de todo grande homem.

No seu métier Ingmar Bergman foi um dos gênios do século XX, um dos cineastas que mais contribuíram para conceder ao cinema o estatuto definitivo de arte.

Ver um filme desses, simples, pessoal e afetuoso, sobre uma faceta de sua vida, é comovente e, inevitavelmente, nos enche de nostalgia dos bons tempos – anos cinquenta e sessenta – quando esperávamos ansiosos para assistir, nas telas locais, a cada uma das obras primas de Ingmar Bergman, algumas das quais com o desempenho magnífico e a beleza de sua companheira de vida e profissão, Liv Ullman.

Saudades.

A atriz Liv Ullman, relembrando o passado.

A atriz Liv Ullman, relembrando o passado.

Personagens maiores que a vida

11 out

As razões que temos para nunca esquecer os filmes que amamos são muitas, algumas às vezes até inconfessáveis, eu sei. Mas uma das mais determinantes é, com certeza, os seus personagens, em alguns casos especiais tão fortes que parecem maiores que os próprios filmes, ou – por que não? – maiores que a vida.

São personagens complexos, profundos, intensos, que encarnam uma fundamental contradição de natureza estética, a de nos parecerem reais, gente como a gente, e ao mesmo tempo, originais, sem par na ficção ou na realidade. Outra contradição é a de serem iguais a si mesmos e ao mesmo tempo mutáveis.

Os personagens de que falo possuem traços físicos e psicológicos bem definidos, mas não são estáticos: evoluem na proporção do enredo e, a miúde, sofrem – para o bem ou para o mal – grandes transformações. Podem ser vítimas da narrativa, ou feitores dela, não importa, de todo jeito as transformações virão.

É comum que as peripécias do enredo os conduzam a situações-limite em que uma crise não pode deixar de ser enfrentada. Podem começar o filme mais ou menos definidos dentro de uma linha tímica, ou ética, ou ideológica, porém, dificilmente se mantêm nessa mesma linha até o final: normalmente a crise os ambuiguiza e os bons, se for o caso, vão tangenciar o Mal, como os maus vão receber um sopro do Bem.

Fracos ou fortes, covardes ou corajosos, mesquinhos ou magnânimos, perversos ou nobres, patéticos ou trágicos, não importa – são figuras fascinantes que nos encantam pela verdade humana que encarnam.

Aos interpretá-los, os atores ou atrizes dão mais de si que de costume, pois, precisam convencer o espectador da profunda verdade do personagem que encarnam e, quando conseguem, deixam sempre a impressão de que iremos, a partir de então, lembrar mais do personagem que do ator/atriz.

Aqui convido o leitor a considerar quem seriam os seus “personagens maiores que a vida”.

De minha parte, ofereço a sugestão de alguns nomes.

Só para refrescar a memória do leitor, adiciono, com dados do enredo do filme, pequena descrição do personagem, ao que faço seguir, entre parênteses, o nome do ator/atriz que o interpretou, título brasileiro do filme, título original, diretor e ano de produção.

IMMANUEL RATH – Respeitado professor alemão de literatura inglesa se envolve com prostituta e sucumbe. (Emil Jannings em “O anjo azul” / “Der blaue Engel”, Joseph Von Sterberg, 1930).

WALTER NEFF – Empregado de companhia de seguro, junto com a esposa da vítima, planeja golpe perfeito e se dá mal. (Fred McMurray em “Pacto de sangue” / “Double indemnity”, Billy Wilder, 1944).

CATHERINE SLOPER – Solteirona sem dotes físicos aprende com a cruel imparcialidade do pai a ser imparcial. (Olivia De Haviland em “The heiress” / “Tarde demais”, William Wyler, 1949).

CAL TRASK – Filho rebelde tem dificuldades em adentrar o hermético coração paterno. (James Dean em “Vidas amargas” / “East of Eden”, Elia Kazan, 1955).

DR ISAK BORG – Idoso médico sueco vive crise existencial que o remete à infância e a outras dores. (Victor Sjöström em “Morangos silvestres” / “Smutonstrället”, Ingmar Bergman, 1957).

CABÍRIA – Um golpe atrás do outro, a pobre prostituta romana consegue sorrir depois de tudo. (Giulietta Massina em “Noites de Cabíria” / “Notte de Cabiria”, Federico Fellini, 1957).

JUJU – Homem comum de pouca inteligência aprende que amar e matar podem fazer parte do mesmo contexto. (Pierre Brasseur em “Por ternura também se mata” / “Porte de Lilàs”, René Clair, 1957).

GRIMALDI – Durante a II Guerra, cafajeste italiano entra por acaso em território da Resistência e vive uma farsa de consequências trágicas. (Vittorio DeSica em “De crápula a herói” / “Il generale della Rovere”, Roberto Rosselini, 1959).

ANTONIETTA – Simplória dona de casa italiana tem a vida mudada quando o seu passarinho vai pousar na janela de um vizinho subversivo. (Sophia Loren em “Um dia muito especial” / “Una giornatta particolare”, Ettore Scola, 1977).

TRAVIS HENDERSON – Acolhido pelo irmão, homem desmemoriado reencontra o passado em domésticos filmes Super 8, e depois, numa janela de peepshow. (Harry Dean Stanton em “Paris, Texas”, Wim Wenders, 1984).

Obrigado, Mr Allen

25 mar

Depois da estréia de “Meia noite em Paris”, de Woody Allen, muita gente boa se viu no direito de ter o seu sonho nostálgico e relatá-lo.

Pois eu, que também sou filho de Deus, tive o meu e, vejam lá, nem era meia noite, nem a cidade era Paris.

Era João Pessoa mesmo, entre tarde e noite, só que em alguma data indefinida na década de cinqüenta, e, como o personagem de “Morangos silvestres”, eu não sabia se, nessa dimensão mágica do passado, estava velho ou se ainda era criança.

Quem me tomou pela mão e me guiou por esse tempo antigo não sei se foi o Virgílio de Dante, ou os três espíritos de Charles Dickens, ou o anjo Clarence de Frank Capra.

Só sei que, de repente, lá estava eu às portas do Cinema Astória, ali no comecinho da Rua da República, quase vizinho à extinta Fábrica Sanhauá, não muito longe da ponte do mesmo nome, aquela que liga João Pessoa a Bayeux. O filme que estava em cartaz era “Beau Geste”, mas nem comprei ingresso.

Certificado de que eu contemplara a fachada do velho Astória, o meu guia, fosse quem fosse, me fez subir a rua em direção à Praça da Pedra, e lá, dobrou comigo para o lado direito, e seguimos por aquela rua estreita e curva, a São Miguel, até o Cinema São Pedro, que estava exibindo – vi logo – o “Fantasia” de Walt Disney.

Olhamos o cartaz, cubamos o movimento da garotada trocando gibis na calçada do cinema, e nos mandamos, não em direção ao cemitério – graças a Deus – mas, de volta à Praça da Pedra, de onde continuamos subindo a Rua da República, até o seu final. No encontro desta rua com a General Osório, lá estava o que eu já sabia que ia encontrar – a fachada do Cine Filipéia, cheia de cartazes vistosos, dos quais o maior era o de “Paixão dos fortes”, o filme do dia.

Pensam que ficamos para a matinée com Henry Fonda? Que nada, o meu guia me arrastou Beaurepaire Rouhen abaixo, até a esquina dos antigos Correios, onde dobramos e fomos subindo a calçada da Guedes Pereira até o Cine Brasil.

Fiquei louco para ver o filme do dia, o hitchcockiano “A sombra de uma dúvida”, mas, de novo, o meu guia não permitiu. Demos alguns passos subindo a rua e dobramos à esquerda, General Osório acima. Na primeira esquina, o guia nem precisou sinalizar: tomamos a Peregrino de Carvalho e logo estávamos na frente do belo e grandioso Cine Rex que, com algum alarde, exibia naquele dia “Sansão e Dalila”.

Mal deu tempo de me embevecer com, no cartaz, o rosto perfeito de Hedy Lamarr e os peitos estufados de Victor Mature, descemos a rua Duque de Caxias, viramos à esquerda no Ponto de Cem Réis, e eis-nos diante do não menos belo e grandioso Cine Plaza, onde uma fila enorme se estendia até a calçada do vizinho Pronto Socorro, esperando para ver nada menos que “Gilda”.

Com certa impaciência perante o meu demorado deslumbramento com a pose audaciosa de Rita Hayworth, o meu guia me puxou pelo braço e seguimos pela Praça 1817. Antes disso, eu supusera que prosseguiríamos pela Visconte de Pelotas, na direção do Cine Municipal, mas lembrei-me que, de fato, nesse tempo, esse cinema ainda não existia.

Cruzamos em diagonal a Praça João Pessoa, tomamos a rua das Trincheiras e fizemos uma longa caminhada, até encontrarmos a rua Capitão José Pessoa, já no bairro de Jaguaribe; aí dobramos e formos ter com o Cine Jaguaribe, que entre um seriado e outro, exibia “As minas do rei Salomão”, Deborah Kerr e Stuart Granger no cartaz.

Daí seguimos a Capitão José Pessoa e na próxima esquina, à esquerda, Rua Floriano Peixoto, dobramos e nos dirigimos – precisa dizer? – ao Cine São José, onde o filme do dia era “O manto sagrado”. Tratava-se, como se sabe, do primeiro cinemascope e muita gente esperava para ver a novidade.

Mas nós, não. Retornamos pela mesma Floriano Peixoto, e, sempre em linha reta, cruzamos várias esquinas do bairro de Jaguaribe, até chegar à Av. Primeiro de Maio, onde tomamos a direita e, ladeando o muro alto do imenso e imponente Clube Cabo Branco, atravessamos o calçamento da Vasco da Gama, e nos detivemos no pátio frontal do Cine Teatro Sto Antônio. Tive ânsias de me livrar do meu guia e entrar para ver Gene Kelly e Debbie Reynolds “Cantando na chuva”, mas não foi possível. Pela resistência que ofereceu, estava visível em seu rosto impaciente que ainda havia outros cinemas a visitar. Sim, eu saiba que havia pelo menos mais quatro, em Cruz das Armas, o Glória e o Bela Vista, e na Torre, o Metrópole e o Cine Torre.

Por que ver tantos cinemas sem entrar para o que interessava? Devo ter me oposto com certa veemência ao incompreensível propósito do guia, e, por certo, foi essa oposição que desfez o sonho.

Acordei nostálgico, me dando conta de que, havia décadas e décadas, nenhum desses cinemas existia mais. Nostálgico e um pouco perplexo, sem ter decifrado a mensagem do meu vago e misterioso guia.

 O poeta Dante, Scrooge, o velho sovina de Dickens, e George Bailey, o honesto pai de família de Capra, entenderam os seus respectivos guias e lucraram com isso: eu não.

De todo jeito, como os sonhos do personagem de “Meia noite em Paris” têm “continuações”, estou aguardando sonhar de novo. Se sonhar, prometo que relatarei. Enquanto isso, agradeço a Woody Allen pela motivação.