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Documentários brasileiros

21 mar

A lista sugestiva dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos você já conhece do livro que a ABRACCINE e a Editora Letramento publicaram e lançaram o ano passado (2016), onde os filmes estão devidamente comentados, cada um por um especialista da área.

Agora é a vez dos documentários.

Previsto para estar pronto ainda este ano de 2017, o livro vai se chamar “Documentário brasileiro – 100 filmes essenciais”, e a lista dos títulos eleitos já está sendo divulgada na imprensa.

“Cabra marcado para morrer”, o melhor documentário brasileiro.

Sem surpresa, o cineasta mais assíduo é Eduardo Coutinho, com nove filmes contemplados, dos quais dois estão no topo da lista, em primeiro e segundo lugares, e um outro, no quarto. Vejamos, por enquanto, quais foram os dez mais votados:

 

Cabra marcado para morrer, Eduardo Coutinho, 1984

Jogo de cena, Eduardo Coutinho, 2007

Santiago, João Moreira Salles, 2007

Edifício Master, Eduardo Coutinho, 2002

Serras da desordem, Andrea  Tonacci, 2006

Ilha das flores, Jorge Furtado, 1989

Notícias de uma guerra particular, João Moreira Salles e Katia Lund, 1999

Ônibus 174, José Padilha e Felipe Lacerda, 2002

Di, Glauber Rocha, 1977

Aruanda, Linduarte Noronha, 1960

“Aruanda”, de Linduarte Noronha, em décimo lugar.

 

Com relação à lista completa (veja adiante), nota-se a diversidade de propostas, quando curtas e longas se revezam, com temáticas e enfoques os mais variados. Um fato a ser notado é – contraditoriamente – a presença do elemento ficcional. Alguns dos documentários listados contêm esse elemento, mas o protótipo dessa mistura de realidade com ficção é, com certeza, o filme “Jogo de Cena”, de Coutinho.

Chama também atenção o número enorme de documentários realizados no Novo Milênio. Curiosamente, entre estes “novos” estão os muitos filmes sobre música, enfocando movimentos, cantores, compositores, ou outros aspectos da atividade musical. São tantos que não resisto em citá-los em conjunto: “Uma noite em 67”, “A música segundo Tom Jobim”, “Loki – Arnaldo Batista”, “Dzi Croquetes”, Simonal – ninguém sabe o duro que dei”, “Cássia Eller”, “Nelson Cavaquinho”, “Vinicius”, “As canções”, “Os doces bárbaros”, Raul – o início, o fim e o meio”, e “Bethânia bem de perto”.

De minha parte, não posso deixar de observar que a Paraíba está bem representada. Com certeza é honroso para nós constatar que o “Aruanda” de Linduarte Noronha se encontra entre os dez mais. Um outro paraibano bem situado é Vladimir Carvalho: o seu “O país de São Saruê” (1971) ocupa o décimo segundo lugar na lista, e “Conterrâneos velhos de guerra” (1991), o vigésimo primeiro. Não nos passa despercebido tampouco que o documentário do topo da lista trata de assunto paraibano, com cenário e personagens paraibanos.

“Uma noite em 67”, um dos muitos musicais da lista.

Enfim, confira a lista completa, e veja se seus documentários preferidos foram contemplados:

  1. Cabra Marcado para Morrer
    2. Jogo de Cena
    3. Santiago
    4. Edifício Master
    5. Serras da Desordem
    6. Ilha das Flores
    7. Notícias de uma Guerra Particular
    8. Ônibus 174
    9. Di
    10. Aruanda
    11. O Prisioneiro da Grade de Ferro
    12. O País de São Saruê
    13. Viramundo
    14. ABC da Greve
    15. Jango
    16. Garrincha, Alegria do Povo
    17. Imagens do Inconsciente
    18. Estamira
    19. Santo Forte
    20. Janela da Alma
    21. Conterrâneos Velhos de Guerra
    22. A Opinião Pública
    23. Martírio
    24. Cidadão Boilensen
    25. Entreatos
    26. Maioria Absoluta
    27. Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos
    28. São Paulo – Sinfonia da Metrópole
    29. Uma Noite em 67
    30. Corumbiara
    31. Elena
    32. Justiça
    33. Peões
    34. Cinema Novo (2016)
    35. A Música Segundo Tom Jobim
    36. Memória do Cangaço
    37. Arraial do Cabo
    38. O Poeta do Castelo
    39. Que Bom Te Ver Viva
    40. A Paixão de JL
    41. Terra Deu, Terra Come
    42. Carro de Bois
    43. Socorro Nobre
    44. Mato Eles?
    45. Lixo Extraordinário
    46. A Cidade É uma Só?
    47. Soy Cuba, o Mamute Siberiano
    48. Os Anos JK – Uma Trajetória Política
    49. Tudo É Brasil
    50. Iracema, uma Transa Amazônica
    51. Loki – Arnaldo Baptista
    52. O Fim e o Princípio
    53. Nelson Freire
    54. Doméstica
    55. Braços Cruzados, Máquinas Paradas
    56. Dzi Croquettes
    57. Brasília – Contradições de uma Cidade Nova
    58. Triste Trópico
    59. O Dia que Durou 21 Anos
    60. Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei
    61. Pan Cinema Permanente
    62. Diário de uma Busca
    63. Theodorico, o Imperador do Sertão
    64. Os Dias com Ele
    65. Um Passaporte Húngaro
    66. Mataram Meu Irmão
    67. Juízo
    68. Pacific
  2. 69. Branco Sai, Preto Fica
    70. Maranhão 66
    71. No Paiz das Amazonas
    72. Cássia Eller
    73. Linha de Montagem
    74. Nelson Cavaquinho
    75. O Porto de Santos
    76. O Mercado de Notícias
    77. Vinícius
    78. Orestes
    79. Glauber, o Filme – Labirinto do Brasil
    80. Moscou
  3. 81. Andarilho
    O Céu sobre os Ombros
    83. 33
    84. As Canções
    85. Os Doces Bárbaros
    86. Já Visto Jamais Visto
    87. Esta Não É a Sua Vida
    88. Raul – O Início, o Fim e o Meio
    89. Subterrâneos do Futebol
    90. Wilsinho Galileia
    91. O Tigre e a Gazela
    92. A Alma do Osso
    93. Hércules 56
    94. Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz
    95. Homem Comum
    96. As Hiper Mulheres
    97. Lacrimosa
    98. Imagens do Estado Novo 1937-1945
    99. Nem Tudo É Verdade
    100. Bethânia Bem de Perto

Mistura de ficção e realidade em “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho.

Cinquentões de 2014

30 mar

Em início de ano costumo fazer a lista dos filmes que completam cinquenta anos, e, desta vez não será diferente.

A lista pode ser levantada por temas, nacionalidades ou gêneros: fiquemos com este último tópico. Naturalmente, como a quantidade de filmes produzidos em um ano é enorme, sou forçado a fazer uma seleção, no caso de vinte e cinco títulos, seleção que baseio livremente nos critérios da repercussão que os filmes tiveram junto ao público e/ou junto à crítica.

Vamos lá?

Começando com os musicais, 1964 é o ano de três importantes.

"Minha bela dama": Audrey Hepburn em um dos musicais do ano.

“Minha bela dama”: Audrey Hepburn em um dos musicais do ano.

O veterano ´cineasta das mulheres´, George Cukor dirigiu “Minha bela dama” (´My fair lady´), adaptação livre da peça ´Pigmaleão´ de Bernard Shaw, em que a bela e suave Audrey Hepburn passa da pele suja de uma mendiga de Londres para a tez sofisticada da dama do título. O outro grande musical do ano vem da França, “Os guarda-chuvas do amor” (´Les parapluies de Cherboug´), com direção de Jacques Demy e Catherine Deneuve no elenco: como vocês talvez lembrem, um musical sem dança, com todo o diálogo cantado. O terceiro a citar é o infanto-juvenil “Mary Poppins” (Robert Stevenson) onde Julie Andrews como a protagonista, ao lado de Dick Van Dyke, faz os encantos da garotada e dos adultos também.

No gênero da comédia há três a mencionar.

“A pantera cor de rosa” (Blake Edwards), grande sucesso de bilheteria, infelizmente com continuações pouco dignas do original. “Beija-me idiota” (´Kiss me, stupid´) é um momento mais fraco do grande Billy Wilder, mas, de qualquer modo, engraçado e bom de ver. E da Itália, vem este “Casamento à italiana”, que o diretor e ator Vittorio De Sica dirigiu, infelizmente sem grande inspiração.

"Dr Fantástico": Peter Sellers em vários papéis.

“Dr Fantástico”: Peter Sellers em vários papéis.

A ficção científica do ano também pode ser dada como comédia, o hilário “Dr Fantástico” (`Dr Strangelove`, de Stanley Kubrick), em que Peter Sellers desempenha vários papéis.

Os policiais mais lembrados seriam: “Marnie, confissões de uma ladra”, um Hitchcock não tão louvável; “Topkapi”, de Jules Dassin, outro grande diretor pouco inspirado no momento; e o grande sucesso de bilheteria “007 contra Goldfinger” (Guy Hamilton).

Houve westerns? Houve: dois bem sintomáticos das transformações do gênero. Em “Crepúsculo de uma raça” (´Cheyenne Autunm´), o velho John Ford fazia, não apenas uma despedida, mas um mea culpa com relação aos maus tratos que os índios receberam em seus muitos faroestes. E o italiano Sérgio Leone, por sua vez, investia na renovação do gênero com o seu “Por um punhado de dólares”.

O gênero terror será lembrado por duas experiências com algum ponto coincidente, embora meramente casual. Nos Estados Unidos o mago do filme artesanal, Roger Corman, faz a sua aterrorizante adaptação de Edgar Allan Poe, em “The mask of the red death” (em português, ´A orgia da morte´), e, no Japão, o cineasta Shindo Kaneto comete esse curioso “Onibaba”, uma estória que, curiosamente, também envolvia máscaras.

Um dos mais prestigiados filmes do ano: "Zorba, o grego"

Um dos mais prestigiados filmes do ano: “Zorba, o grego”

Como esperado o drama foi o gênero mais numeroso.

O mais recordado de todos é, com certeza, “Zorba, o grego” (Michael Cacoyannis) onde, no papel-título, Anthony Quinn fez um de seus desempenhos mais geniais e mais queridos: quem não recorda a cena final, ele e o inglês Alan Bates dançando o inesquecível tema musical? Da Itália, veio “Seduzida e abandonada”, de Pietro Germi, filme cujo enredo já está no título; e do Japão esse impressionante “A mulher da areia (de Hiroshi Teshigahara), uma alegoria cruel sobre a relação a dois. Hollywood cooperou com “O homem do prego” (“The pawnbroker´ de Sidney Lumet), com Rod Steiger no papel de um comerciante judeu que não esquece o holocausto; “O trem” (´The train´, de John Frankenheimer), com Burt Lancaster com um maquinista francês que tenta evitar o furto nazista de obras primas da pintura francesa, e, finalmente, a adaptação da peça de Tennessee Williams, “A noite do iguana” (´The night of the iguana´) que o grande John Huston dirigiu para um elenco brilhante, Richard Burton, Ava Gardner e Deborah Kerr.

Históricos, ou filmes de época, há pelo menos três obrigatórios.

De Pier Paolo Pasolini: "O evangelho segundo São Mateus"

De Pier Paolo Pasolini: “O evangelho segundo São Mateus”

O primeiro é o inglês “Beckett, o favorito do rei”, com Richard Burton e Peter O´toole nos papéis titulares. O outro é a grande produção hollywoodiana “A queda do império romanco” (´the fall of the Roman empire´), dirigido pelo grande Anthony Mann. O terceiro não poderia deixar de ser o ousado e original “O evangelho segundo São Mateus” (Píer Paolo Pasolini) um ´bíblico´ na contramão dos bíblicos.

E fechamos com um documentário, o instigante “Eu sou Cuba” (´Soy Cuba´) do russo Mikhail Kalatozov, uma mais ou menos polêmica versão soviética do país de Fidel Castro.

Enfim outros há, mas, fiquemos com estes vinte e cinco cinqüentões. Para lembrar, rever, ou, se for o caso, checar.

Em tempo: esta matéria foi publicada no “Correio das Artes”, suplemento literário do jornal “A União”.

Cinema japonês: "Onibaba", impressionante terror de Shindo Kaneto.

Cinema japonês: “Onibaba”, impressionante terror de Shindo Kaneto.

Raul sem fim

20 dez

Chave de ouro que fechou o Fest-Aruanda deste ano foi “Raul – o início, o fim e o meio” (2011), do cineasta Walter Carvalho – filme ainda inédito em circuito comercial e, até então só exibido no Festival do Rio e no Festival Internacional de São Paulo.

Vigoroso e vibrante documentário sobre Raul Seixas, o homem e o mito, o filme de Walter Carvalho reconstitui momentos significativos na vida e na carreira do “maluco beleza”, esse ícone controverso da MPB que ainda hoje assombra o imaginário de multidões de fãs.

Como filmar a trajetória de um astro tão sui generis, polêmico, escorregadio e inexplicável? A partir daquela velha opinião formada sobre tudo, ou, ao contrário, com a explosão de uma metamorfose ambulante?

Carvalho parece ter encontrado um meio termo aristotélico (onde o fim fica no meio!) que deu certo, na medida exata. Se tivesse dado mais certo do que deu, não ficaria legal.

Na verdade, o seu filme tem dois movimentos, mais ou menos antagônicos – um racional, objetivo, lógico; o outro, apaixonado, carnal, entregue. O primeiro movimento é o do pesquisador que, perdido ao meio de um monstruoso material recolhido e a recolher, viu-se na obrigação sensata de dar ao espectador um fio condutor que fosse fiel à História; o outro movimento é o do fã envolvido na estória do seu ídolo, que empenhou-se em não trair o espírito libertário, irreverente e indócil do cinebiografado.

Não que esses dois movimentos – lucidez e maluquez, se vocês quiserem chamá-los assim! – se explicitem ou se distingam no filme. Ao contrário disso, estão imbricados, em tensão, e o belo equilíbrio dessa delicada antítese autoral é perfeito. De forma que a projeção flui fácil, que nem uma canção que faça bem aos ouvidos e… aos olhos.

Sim, para o espectador é uma beleza (!) poder reviver a carreira conturbada e delirante desse pequeno gênio da MPB, eventualmente estabelecendo as relações viáveis entre letras de canções e aspectos biográficos, e, de sobra, penetrando sorrateiramente os desvãos mais privados e mais sombrios de sua frenética e desconcertante personalidade.

Rebeldia, instabilidade, desobediência civil, irresponsabilidade, inconsequência, impulso criativo, humanismo, doçura, misticismo, esoterismo, satanismo, paroxismo, alcoolismo e outros vícios mais pesados – está tudo lá, e o conjunto é enriquecido por depoimentos de familiares, colegas, amigos e por falas ou lágrimas de ex-amantes e/ou filhos, ou, se for o caso, corroborado por farta iconografia, sem falar nos preciosos registros de seus shows – tudo isso num ritmo oportuno que transforma as execuções musicais em elementos de pontuação.

Por sorte, mas sem coincidência, as três palavras da frase na canção que deu subtítulo ao filme tem esta e não outra ordem – o início, o fim e o meio – pois o núcleo proposital do filme, se existe um, é justamente o de que não há fim para o mito Raul Seixas.

Para não nos alongarmos na questão, digamos apenas que, no início, era Elvis e o Baião… e deixemos para os espectadores de “Raul” a tarefa hermenêutica de identificar e ordenar os dois outros termos da equação.

De minha parte, amei o filme e fico aguardando sua exibição comercial para uma segunda curtição. Não posso, porém, deixar de observar que ele possui um contexto: perfila-se nessa curiosa corrente de filmes brasileiros recentes – documentais ou ficcionais – em que a música é o assunto.

Aparentemente, tudo teria começado com “Cazuza – o tempo não para”, do próprio Walter Carvalho e Sandra Werneck (2004), um sucesso de público que fez platéias dançarem e cantarem nas salas de projeção. Digo “aparentemente” porque três anos antes disso, o cineasta Eliseu Ewald já rodara a ficção “Nelson Gonçalves – o filme” (2001).

De qualquer forma, depois de “Cazuza” vieram: “Vinicius” (Miguel Faria, 2005), “2 filhos de Francisco- a história de Zezé di Camargo e Luciano” (Bruno Silveira, 2005), “Noel, o poeta da vila” (Ricardo Van Steen, 2006), “Cartola – música para os olhos” (Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, 2007), “O homem que engarrafava nuvens” (Lírio Ferreira, 2008), “Waldick – sempre no meu coração” (Patrícia Pillar, 2008) e “Loki” (Paulo Henrique Fontanelle, 2008).

Em 2009 o número engrossou com: “Simonal – ninguém sabe o duro que dei” (Micael Langer e Calvito Leal), “Herbert de perto” (Roberto Beliner), “O milagre de Sta Luzia” (Sérgio Roizenblitz), “Cantoras do rádio” (Gil Baroni) e “Zé Ramalho, o herdeiro de Avohai” de Elinaldo Rodrigues.

É interessante notar que até os cineastas tradicionalmente documentaristas, como Vladimir Carvalho e Eduardo Coutinho estão aderindo ao motivo da música, como comprovam os recentes “Rock Brasília” e “Canções”, respectivamente.

Como se vê, para o périplo abarcado – pouco mais de cinco anos, se “Cazuza” tiver sido mesmo o ponta-pé inicial – o número de filmes nacionais tratando de música é mais do que significativo. Com ficção ou em linguagem documental, até parece que estamos fundando um gênero.

O que não seria de estranhar num país musical como o Brasil.

Um cinema tosco

8 jul

Neste ano de 2008 está fazendo cem anos que foi lançado o primeiro filme ficcional brasileiro em metragem padrão e a data me remete ao Cinema Mudo Brasileiro, este desconhecido de todos nós.

Embora o nosso primeiro filme falado seja de 1929 (“Acabaram-se os otários”, de Luiz de Barros), os historiadores concordam em que, somente a partir de 1933 o emprego do som se sistematizaria no cinema brasileiro. De modo que, o que aqui chamo de o Cinema Mudo Brasileiro seria, a rigor, o período que vai de 1908 (como dito, data do primeiro filme ficcional de metragem padrão) até o ano de 1932.

Sendo a filmografia da época de difícil acesso, recorro em parte a historiadores que porventura a conheceram mais de perto, ou que, como nós, basearam-se em fontes históricas para reconstituir o período em questão. Nesse sentido, obras como as de Paulo Emílio Salles Gomes, Alex Viany, Carlos Alberto de Souza, Fernão Ramos, Jean-Claude Bernardet e Jurandyr Noronha, entre outros, são preciosas.

De qualquer forma, comecemos do começo.  Se foi em 28 de dezembro de 1895 que, em Paris, os irmãos Lumière expuseram ao público, pela primeira vez, o seu invento, o cinematógrafo, menos de um ano depois disso, no Brasil já acontecia a primeira sessão pública de cinema, numa rua do Rio de Janeiro, segundo consta, em oito de julho de 1896. E no ano seguinte, 1897, já se inaugurava a primeira sala exibidora, na Rua do Ouvidor, 141. Foi por esse mesmo tempo – para ser exato, a 19 de julho de 1896 – que se rodou a primeira metragem de película em solo brasileiro, quando Affonso Segreto filmou, de um navio que retornava da Europa, a paisagem da Baía da Guanabara.

A partir de então inúmeros pequenos filmes passaram a ser rodados no país, tantos e tão pequenos que o seu registro se perdeu no tempo. Segundo os historiadores, a maior parte dessas películas de poucos minutos de duração, eram documentários dando conta de fatos políticos, ou de eventos familiares, ou então, eram os chamados na época de “cantantes”, filmes com números musicais, de óperas ou de canções populares, que os atores-cantores, por trás ou ao lado da tela, performatizavam.

O nosso primeiro filme de ficção um pouco mais longo foi um média-metragem de 1906. “Os estranguladores”, de Antônio Leal tratava de um horrendo assassinato acontecido na cidade, e era o nosso primeiro “filme posado”, expressão da época para definir uma película não-documental. Esse lance mercadológico de ficcionalizar crimes verídicos pegaria e vários outros filmes desse período primitivo de nosso cinema apelaram para ele, como – dois exemplos citados ao acaso – “O crime da mala” (Francisco Serrador, 1909) e “Noivado de sangue” (Antonio Leal, 1909).

Com a inauguração da Usina Ribeirão das Lajes, em 1907, a cidade do Rio de Janeiro passou a dispor de energia elétrica em escala industrial, e isso estimulou consideravelmente a atividade cinematográfica, tanto na exibição, como na produção. De 1908 a 1911 vai se ter o que os estudiosos do assunto chamam de a “belle époque” do cinema brasileiro, período em que se realizaram, “posados” ou não, nada menos que 42 filmes de metragem padrão (mais de uma hora de projeção), isto para não se falar dos filmezinhos curtos que continuavam sendo feitos.

Assim, no primeiro ano da “belle époque”, 1908, estão registradas cinco produções, uma delas – não se sabe exatamente qual – teria sido o nosso primeiro longa de ficção. “O comprador de ratos”, de Antônio Serra, era uma comédia sobre o Rio do passado, quando a Secretaria da Saúde, para fins higiênicos, pagava à população por ratos mortos ou vivos. “Telegrama número nove”, de Eduardo Leite, era uma farsa sobre um episódio diplomático entre a Argentina e o Brasil. “O triunfo de Nero” era um drama dirigido por Júlio Ferrez, e “Viúva alegre”, um musical de Giuseppe Labanca, com os atores cantando nas sessões; um sucesso repetido pelo mesmo Labanca, agora com um protagonista masculino em “Viúvo alegre”.

Contudo, o período “belle époque” foi curto, pois, a produção carioca já começava a sentir os efeitos da concorrência dos Estados Unidos. Em 1911, a americana Vitagraph já inaugurava, na cidade, o circuito Avenida, para exibição exclusiva de filmes americanos. Com o advento da Guerra, em 1914, a situação piorou, já que a matéria prima para filmagens, vinda da Europa, começou a escassear, até desaparecer de todo.

A produção cinematográfica nacional só vai retomar o fôlego na década de vinte, quando, seguindo o exemplo dos cariocas, empresários ou simples aventureiros paulistas, passaram a se interessar por cinema. Em 1925, por exemplo, chegou-se a rodar 38 filmes de metragem padrão em um ano só, um número que – diga-se de passagem – está acima da média brasileira no século, que é de 35 filmes por ano. Dessa década, além dos filmes “sanguinários sobre crimes verídicos” e “musicais” com perfomances in loco, que continuaram sendo rodados, fazem parte as freqüentes adaptações de romances brasileiros, principalmente de José de Alencar.

Não apenas no eixo Rio-São Paulo se fez cinema nessa época muda, mas também em outras capitais brasileiras, como Manaus, Belém, Porto Alegre, Recife e, como sabemos, João Pessoa. Um verdadeiro pólo cinematográfico surgiria, na segunda metade dos anos vinte, em Cataguazes, Minas Gerais, com a intensa atividade de Humberto Mauro.

Bem, a essa altura, creio que vale a pena perguntar o que, para a posteridade e em termos qualitativos, ficou desse cinema mudo brasileiro. Os historiadores são cautelosos sobre o assunto. Segundo a maioria, tratou-se de um cinema casual, esporádico, doméstico, artesanal que nunca conquistou um público de modo definitivo, e que nunca foi capaz de pular do nível do artesanato caseiro para a indústria. Nas palavras do competente e lúcido Paulo Emílio Salles Gomes. “um cinema tosco”

Normalmente, os elogios dos historiadores e críticos restringem-se aos filmes de Humberto Mauro (atenção: na fase muda, apenas cinco) e ao caso excepcional de “Limite” (Mário Peixoto, 1931), uma realização ímpar, vanguardista, hermética e impopular, que destoa de tudo que se fez na época, e mesmo depois. Excetuados estes dois casos, não parece existir a grande obra que, em dimensão de qualidade, represente o cinema mudo brasileiro, e que possa ser dada como fundante de nossa cinematografia. Pelo visto, não fizemos o nosso “Nosferatu”, ou o nosso “Encouraçado Potemkin”, ou o nosso “Metropolis”, ou o nosso “A general”, ou o nosso “Em busca do ouro”, ou, muito menos ainda, o nosso “Nascimento de uma nação”.

Em suma, o Cinema Mudo Brasileiro é um desconhecido do brasileiro, porém, nada casual, esse desconhecimento parece ser sintomático.