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CRUELDADE BORDADA

8 jan

De datas não preciso para lembrar a história de minha amiga Cate.

Moça tímida, ingênua, frágil, reservada, não era bonita, mas também não acho que fosse feia. Filha de um médico conceituado, morava numa mansão sólida num dos melhores setores da cidade. Já falecida, a mãe lhe deixara uma boa herança, e o pai com certeza, lhe legaria um outro tanto, já que era filha única, e por lei, sem concorrentes. Vivia com o pai, uma tia, uma empregada, e não tinha muitas amigas, pois não era muito sociável.

Diziam que sua mãe fora uma mulher extraordinariamente bela, talentosa e brilhante, e provavelmente a comparação que alguns faziam com a platitude de Cate a prejudicava. O pai, aqui e acolá, trazia à tona a comparação e, nesses momentos, Cate sentia, no fundo da alma, o que lhe parecia desprezo paterno. E sem mais alternativas, se enfiava no seu único dote natural – o bordado.

Não ia muito a bailes, mas quando – por insistência da tia – decidia ir, normalmente passava a noite quase toda sentada, simplesmente porque nunca era tirada para dançar. Às vezes acontecia de – com um empurrãozinho da tia – um moço lhe chamar para dançar, mas, no primeiro intervalo, o moço desaparecia, supostamente atrás de uma bebidinha, e quando ela o avistava de novo, ele já estava no meio do salão, bailando, sorridente, com outro par mais atraente. E, em casa, resignada, voltava aos seus bordados.

Foi sempre assim. Até o dia em que um certo rapaz bonitão, novato no lugar, tirou Cate para dançar sem ninguém sugerir, e não largou-a mais, mesmo depois dos intervalos. E mais, no fim da noite, perguntou se podia visitá-la, e, no dia seguinte, lá estava ele, em sua sala de estar, tocando piano pra ela, uma bela canção de amor. E, claro, em pouco tempo a tímida e inexperiente Cate estava perdidamente apaixonada.

Tudo ia tomando bons rumos, quando o pai de Cate começou a desconfiar do seu pretenso futuro genro – um rapaz de família humilde e sem recursos, nem sequer emprego. Não seria um caça-dotes, já que a herança de Cate era considerável? Investigou o que pôde e descobriu que estava certo. Assim, opôs-se peremptoriamente ao namoro, e, o que aconteceu? Cate e o rapaz decidiram – com a conivência da tia – que fugiriam. Marcaram uma data e Cate viveu o tempo mais ansioso e também o mais feliz de sua vida.

Ao deixar claro que amava o rapaz, o pai foi mais peremptório que antes: se continuasse com o namoro, iria deserdá-la. Ou seja, herança, neco. Pois Cate não deu a mínima, e alegou firmemente que o caso nada tinha a ver com dinheiro, e, sim, com amor. E não fez só isso: na sua ingenuidade, contou ao próprio rapaz sobre a decisão do pai de deserdá-la.

Alguns dias depois, numa noite fria e chuvosa, no local e horário marcados para a fuga do casal, lá estava Cate de malas feitas, esperando ansiosa, a chegada do seu futuro esposo, seu príncipe encantado. O rapaz não apareceu.

Primeiro foi o choque. Depois a tomada de consciência; então era isso: sem herança, nada de fuga, nada de amor, nada de casamento. Até hoje não sei como minha amiga sobreviveu ao golpe. Uma coisa é certa: naquela noite, de uma tacada só, ela amadureceu décadas… E os solitários bordados foram retomados com mais empenho.

Em cima deste golpe, veio outro, quando o pai lhe jogou na cara uma preleção cruel sobre sua pessoa, listando, impiedosamente, uma atrás da outra, as suas limitações, as físicas e as outras: sua falta de beleza, de graça, de atrativos, de inteligência, de desenvoltura. E ela sabia: por trás daquele precário retrato seu, estava o esplendoroso retrato da mãe.

Passou-se o tempo. O rapaz realmente desapareceu do mapa, o pai de Cate veio a falecer, e ela, só em casa, com a tia e a empregada, continuava na solidão dos seus eternos bordados.

Anos adiante, veio a notícia. Segundo a tia, o rapaz estava de volta à cidade. E, sabendo da morte do pai, iria procurar Cate. Dito e feito. Ela o recebeu com afabilidade, e, como ele esperava, renovou os votos de uma união futura. Na próxima visita, selariam essa união, assim teria ficado combinado. E o rapaz se despediu efusivo e esperançoso.

Na próxima visita, de novo uma noite fria como a de anos atrás, ao ouvir as batidas na porta, Cate – rematando um belo bordado que tecia havia anos – deu ordens à empregada para não abrir, e não só isso, para travar bem a porta. As batidas e os gritos lá fora eram tão desesperadores que a tia, diante de tamanha frieza da sobrinha, perguntou-lhe, alarmada, como era que ela, Cate, a Cate que ela conhecia desde criança, podia ser tão cruel.

Sua resposta, fria como a noite: bordado aprendi sozinha; já crueldade fui ensinada: tive na vida dois grandes mestres.

YESTERDAY

10 set

E se os Beatles nunca tivessem existido?

O filme “Yesterday” (2019), do cineasta inglês Danny Boyle, em cartaz na cidade, cria essa hipótese e viaja em cima dela.

Depois de sofrer um acidente de automóvel, o jovem compositor e cantor frustrado Jack Malic (Himesh Patel) vem a descobrir que, ao seu redor e no mundo todo, ninguém tem a mínima ideia de quem são os Beatles. Descobre esse fato estranho numa roda de amigos e amigas quando canta, no violão, o belo “Yesterday” e o pessoal pergunta que música era aquela.

Intrigado com o fato, Jack corre para o Google e lá, para seu espanto, comprova a inexistência do genial quarteto de Liverpool. Ao digitar a palavra “Beatles” o aplicativo a transforma em “beetle” (´besouro´), lhe fornecendo os dados e as imagens do tal inseto.

A primeira providência de Jack é tentar recordar, uma por uma, as letras das canções, já que ele é, agora, a única criatura no planeta que as conhece – uma espécie de museu musical ambulante. Tem trabalho com “Eleanor Rigby” e canções de letras mais longas, porém, no geral recorda quase todas, e não só isso, passa a cantá-las publicamente e, inevitavelmente, se transforma de repente no maior compositor e cantor do mundo – reconhecido até pelo astro pop Ed Sheeran, que, no filme é interpretado por si mesmo.

A fama, e uma série de pequenos mal-entendidos, fazem com que Jack perca a amizade e o amor de uma amiga íntima – Ellie Appleton, sua primeira agente – mas, esse desdobramento do enredo, que, da metade em diante, transforma o filme numa ´historinha romântica´, pode ficar pra lá.

O bom mesmo é a criação desses dois universos paralelos (um sem os Beatles versus o outro, com os Beatles), tão bom quanto as performances musicais do ator Patel, executando, no seu estilo, as canções que amamos, mais tarde acompanhado por conjuntos, em super-shows para plateias gigantescas.

Jack seria o engate entre os dois universos paralelos, porém, lá adiante, vamos descobrir que não é o único: um senhor e uma senhora, bem mais coroas que ele, um belo dia lhe aparecem do nada para lhe dizer – sem levantar nenhuma questão jurídica sobre falsidade ideológica – que ele está fazendo um belo trabalho e que estão gostando. E não fazem só isto: lhe dão um endereço secreto e, aí, Jack vai ter com ninguém menos que John Lennon. Pode? Em filmes de universos paralelos tudo pode.

O ator Himesh Patel e o músico Ed Sheeran em cena no filme

No desenlace, o cantor Jack assume a verdade, desiste da falsa carreira e volta ao grande amor reprimido do passado, o que, no meu entender, comprometeu um pouco a qualidade do filme, lhe tirando o ritmo e deixando no ar um certo cheiro de “não sabemos o que fazer com o final da estória e vamos encerrá-la assim,  desculpem”.

De todo jeito, gostei daquela cena bem no finalzinho, quando, Jack, conversando com a companheira Ellie, se refere por acaso a “Harry Potter” e ela pergunta: o que é isso? E aí se abre o espaço pós-tela para um novo mundo onde o best-seller de J. K. Rowling jamais teria existido, muito menos os filmes deles derivados…

Ufa! Ainda bem que era só Harry Potter, e não, por exemplo, William Shakespeare…

Até certo ponto, o filme tem as ousadias e as peripécias de Danny Boyle, que a gente lembra de “Cova rasa” (1994), “Trainspotting” (1996), “A praia” (2001) e “Quem quer ser um milionário” (2008), mas, aqui, com mais descontração e mais ludicidade.

À parte a questão da qualidade, “Yesterday” é um filme agradável, para se assistir com a mesma descontração nele proposta, se possível acompanhado de amigo(a)s com a mesma faixa etária sua e amantes dos Beatles. Foi o que ocorreu comigo.

Aliás, para dar a esta matéria um toque charmoso de Estética da Recepção, relato que, depois da sessão, comendo um delicioso spaghetti com as duas amigas com quem assisti ao filme, fiquei pensando em outros “universos paralelos”, no caso, no contexto brasileiro. Na verdade, confesso encabulado, que fiquei imaginando escrever uma estória em que Chico Buarque não existiria, e eu seria a única privilegiada criatura no universo a ter na memória as suas canções.

Não daria um conto legal, no estilo André Ricardo Aguiar? Só que iriam logo dizer que imitei o Danny Boyle – o que, obviamente, seria verdade.

Hemish Patel fazendo esforços para interpretar os Beatles…

A última aventura de Robin Hood

9 abr

Quem ainda lembra Errol Flynn, o espadachim bonitão que, nas matinées de antigamente, vencia todos os inimigos, sobretudo ao encarnar a bravura de Robin Hood?

Pois é, parte de sua estória está veridicamente contada em “A última aventura de Robin Hood” (2013), filme que, se não veio ao circuito comercial de exibição, está disponível em DVD e na programação da televisão paga.

Como diz o título, é sua última aventura o que nos conta o filme, mas uma aventura predominantemente amorosa. Em 1957, já cinquentão e decadente, Flynn andava entregue ao álcool e outras drogas, quando conheceu essa mocinha, aluna de um curso de dança, chamada Beverly Aadland. Saem e, num momento mais íntimo, acontece o inevitável; afinal o apelido de Flynn, nos meios artísticos, sempre foi sintomático: “pênis ambulante”. Complicações se avolumam quando Flynn vem a saber que Beverly não tinha os 18 anos que dizia ter, e sim, 15. Ocorre, porém que o ator se apega à garota e chega a convencer a mãe de que poderia lhe dar uma carreira de atriz de cinema, e, que, portanto, poderia também ficar com ela. A contra gosto, a mãe acede e a farsa sobre a idade da garota é mantida até que…

Errol Flynn como Robin Hood, anos 1930...

Errol Flynn como Robin Hood, anos 1930…

O affair Errol/Beverly não durou muito, pois ele vem a falecer em 1959, mas digamos que foi eterno enquanto durou. O apego desse casal improvável foi recíproco e vingou, ao meio de tramas e escândalos hollywoodianos. Na verdade, a roupa suja só veio a público, depois da morte do ator, quando o mundo do show business, a imprensa e, consequentemente, a justiça descobriram a idade de Beverly e outros detalhes do acordo sigiloso entre Flynn e a mãe, a qual perde a guarda da filha e, mais tarde (sem o consentimento desta) publica um livro contando o caso todo.

Dedicado a Beverly Aadland, o filme claramente toma seu partido e mostra como, nos seus 15 a 17 anos, ela era uma pessoa mais madura que a mãe. Vivendo no meio fútil de Hollywood, não entregou-se à busca da fama, e, de Errol Flynn, só quis o melhor, seu lado descontraído e engraçado, e claro, o seu amor e sua dedicação. Depois de sua morte, não lutou por herança e não se importou quando soube que o testamento dele, que a beneficiaria, não possuía validade jurídica.

Embora trate-se apenas de um filme mediano, “A última aventura de Robin Hood” prende o espectador,  um pouco mais se porventura ele for um cinéfilo, interessado nos bastidores da era clássica. Algumas cenas desses bastidores são impagáveis, por exemplo: é curioso saber que o primeiro nome cogitado para ser o Humbert Humbert no “Lolita” de Stanley Kubrick foi justamente Errol Flynn, o qual fez o que pôde para empurrar Beverly Aadland como a protagonista. Não deu certo porque o próprio Kubrick se opôs, mas teria sido interessante ver na tela um caso que já tinha existência na vida real.

Cena de "A última aventura de Robin Hood" (2013),

Cena de “A última aventura de Robin Hood” (2013),

Dirigido pela dupla Richard Glatzer e Wash Westmoreland (a mesma de “Para sempre Alice”, 2014), o filme tem pelo menos dois pequenos trunfos: a agudez do diálogo e as interpretações de Kevin Kline, como Flynn, e Susan Sarandon, como a mãe da menor. Já a atriz Dakota Fanning, no importante papel de Beverly Aadland, não passa a emoção esperada.

Com relação ao diálogo, os roteiristas parecem se divertir, contrapondo a saudável ingenuidade de uma mocinha de menor à suposta experiência de um ator profissional cinquentão. É o que ocorre, por exemplo, naquela cena na cama quando, já tendo feito amor, Beverly quer mais e Flynn não consegue. “Esta é a monstruosidade no amor – justifica ele – que o desejo seja ilimitado e que o ato seja escravo do limite”. “Quem disse isso, William Shakespeare?” pergunta ela. “Sim, responde ele, como você adivinhou?” E ela, sincera: “Pareceu brega”. Flynn estava citando “Troilo e Créssida”, mas Beverly não era familiarizada com o inglês semi-arcaico do Bardo.

Para quem não sabe, Flynn também foi um destacado ator de teatro, só que, em final de vida, especialmente na fase Bervely, entre um escândalo e uma crise de alcoolismo, nem a ribalta lhe devolvia as glórias do passado. Sintomaticamente, seus últimos papéis na tela foram de alcoólatras, como se viu em “E agora brilha o sol (1957), “O gosto amargo da glória” (1958), e “Raízes do céu” (1958). Faleceu numa tarde fria de outubro de 1959.

Mas, convenhamos, no final dos anos cinquenta não era só Errol Flynn que caía. Aos poucos os grandes estúdios de Hollywood desabavam, um após o outro, como em série de dominó. Da Europa e de outras partes do mundo surgiam os grandes movimentos de vanguarda e os gostos dos espectadores, no mundo todo, se adaptavam a novos conceitos.

Para trás, muito para trás, ficou o audaz espadachim das matinées de domingo.

O ator americano Errol Flynn em foto antiga...

O ator americano Errol Flynn em foto antiga…