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Nasce uma estrela

14 nov

Ajudada por um companheiro do ramo artístico, uma jovem atriz e/ou cantora é alçada ao estrelato hollywoodiano, enquanto o seu companheiro, vítima do alcoolismo, decai até um fim trágico. Quantas vezes essa estória vai ser contada?

Em cartaz na cidade, “Nasce uma estrela” (“A star is born”, Bradley Cooper, 2018) a conta pela quarta vez.

Quem contou a estória pela primeira vez foi o diretor William Wellman, que, junto com os roteiristas Robert Carson e Dorothy Parker, lhe deu os contornos essenciais. Nesse primeiro filme, (“A star is born”, 1937) ainda não havia, no roteiro, o lance da música e Janet Gaynor fez a jovem atriz Vicki Lester, que é introduzida às telas do cinema pelo ator consagrado Norman Maine (Frederic March) e, na medida em que sobe, ele decai… e a tragédia está feita.

Talvez mais conhecida e mais lembrada, a segunda versão, aliás homônima, é de 1954, que George Cukor dirigiu para Judy Garland e James Mason, onde já aparece a profissão de cantora. Um dos grandes clássicos dos anos cinquenta.

Rodada e lançada em 1976 e dirigida por Frank Pierson, a terceira versão, igualmente homônima, traz Barbra Streisand no papel da cantora/atriz e Kris Kristofferson como o seu companheiro trágico.

No mundo do cinema, a impressão corrente é que as versões seriam sempre inferiores aos seus originais. Quer me parecer que o filme de Bradley Cooper, com Lady Gaga e ele próprio nos papéis principais, quebra a regra, e, se não supera a versão de George Cukor, o faz com relação às outras duas.

Agora o protagonista é Jackson Maine (mesmo sobrenome na primeira versão de 37), um famoso cantor de rock que lida mal com a fama e com um passado familiar não muito reconfortante. Uma noite, depois de um show estressante, meio sem rumo, ele entra numa boate drag e conhece essa jovem cantora amadora, Ally, que o surpreende com uma interpretação incrementada de “La vie em rose” de Edith Piaf.

Não dá noutra: iniciam uma amizade/namoro e, um pouco à revelia da moça, ele a puxa para o palco e a transforma numa grande cantora. No topo da fama, Ally (Lady Gaga) se depara com um mal que havia algum tempo exibia seus sintomas: a vertiginosa progressão do vício do companheiro, agora esposo, este cada vez mais inconveniente e mais descontrolado no seu comportamento social e mesmo doméstico. Um ápice do problema dá-se quando Ally está no palco para receber o Grammy e ele suja o espetáculo com uma escandalosa cena de embriaguez. Depois disso, vêm o A. A. e a internação, mas, claro, o mal estava enraizado.

Uma das cenas mais dramáticas no filme é aquela em que, depois de uma difícil recuperação e cheio de esperança de voltar à normalidade, Jackson Maine ouve, do agente da esposa, a verdade nua e crua: que sua recuperação não é garantida e que ele deveria se afastar da brilhante carreira da esposa, para não prejudicá-la. Jogada na cara, essa verdade o conduz a uma decisão drástica. Lembrem o quanto, depois desta conversa, os closes no rosto de Maine – sua expressão facial e seu olhar vago – indicam o fim por vir…

Em sua primeira experiência como diretor Bradley Cooper surpreende, para não dizer que o faz também como cantor. Mas a grande surpresa para o espectador talvez seja o excelente desempenho dramático de Lady Gaga, perfeita no papel da pobre cantora amadora que desconfia do sucesso… até que o público lhe prova o contrário, e, em seguida, no papel da esposa que vê a figura do marido desmoronar sem que nada possa fazer.

A propósito de seu visual de cantora pop, um detalhe bem aproveitado diz respeito ao seu nariz, tido, ora como feio, ora como bonito, a depender da ocasião. Sem dúvida, o roteirista do filme bebeu na versão anterior, a de Frank Pierson, onde o nariz igualmente adunco de Barbra Streisand também esteve na berlinda. Nariz à parte, a química brotada entre Cooper e Gaga é perfeita e chega a ser um ponto alto no filme.

Uma parte da crítica achou o final meloso – com Ally cantado no palco uma canção sentimental sobre o esposo morto – mas não creio que isso comprometa o conjunto. Bem conduzido em todos os níveis, o filme se sustenta e vê-lo é uma experiência agradável e esteticamente compensadora, como já dito, sem macular a boa lembrança que guardamos do inesquecível clássico “Nasce uma estrela” de George Cukor, Judy Garland e James Mason.

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Ave, César

17 out

Fã dos irmãos Ethan e Joel Coen como sou, me ocorreu perder “Ave, César” (2016) quando foi exibido localmente e só agora o vejo no Netflix.

Concordo com a crítica em que “Ave, César” não é um grande Coen, mas, sabe como é, um Coen menor já é alguma coisa. De minha parte, o fato de a estória se passar no seio da Hollywood clássica já foi um estímulo.

Estamos no começo dos anos cinquenta e Eddie Mannix (Josh Brolin) é o diretor executivo dessa grande companhia cinematográfica, a Capitol Pictures, que rivaliza com a Metro e todas as outras. Como se imagina, o seu dia a dia é um inferno, quando tem que lidar com todo tipo de problema, do mais comum ao mais inusitado, do mais simples ao mais sério, problemas seus e alheios que se tornam seus.

Como convencer um conceituado cineasta que está rodando um drama sério para o estúdio, a aceitar um ator canastrão que só sabia pular do cavalo e laçar os adversários com nós complicados? Como arrancar apoio dos representantes das comunidades religiosas – judeus, católicos e evangélicos – para a divulgação de uma superprodução sobre a vida de Jesus? Como se livrar das fofocas da colunista social mais poderosa de Hollywood, sempre disposta a publicar os escândalos mais escabrosos?

Estas são questões do métier que podem ser resolvidas com alguma artimanha ou simplesmente no grito, mas há as mais pessoais que às vezes requerem um confessionário. Por exemplo: Como seguir o conselho da esposa e parar de fumar? Como resistir a oferta de compra da Capitol por uma poderosa empresa que acha cinema um lixo – e ir viver uma aposentaria tranquila e bem paga?

O dia de Mannix se complica um pouco mais quando o astro Baird Whitlock (Georges Clooney) desaparece e deixa interrompidas as filmagens do grande épico “Hail Caesar” (“Ave, César”), um enorme investimento artístico da Capitol. Para a imprensa a alegação de um tornozelo quebrado não convence, mas é o que melhor lhe ocorre. Mannix não sabe, mas Baird foi sequestrado por um grupo de comunistas que tentam convencê-lo da verdade contida no “Capital” de Karl Marx. Pregações à parte, para o resgate do astro, o grupo exige uma quantia alta, dinheiro que irá enriquecer mais ainda o “ouro de Moscou”. A cena do submarino soviético vindo à tona para arrecadar a grana e a maleta do dinheiro caindo na água por causa de um cachorrinho não é apenas hilária como remete a um certo final de um filme noir de Kubrick.

Claro, o filme inteiro é uma sátira a Hollywood da época, como também o é à própria época. Da comédia ao épico, do musical ao drama, do policial à estória de amor, todos os gêneros são parodiados, assim como os seus personagens e/ou atores e atrizes. No meio destes, é possível reconhecer as caricaturas, por exemplo: da dançarina Esther Williams, do western man John Wayne e da brasileira Carmem Miranda. Esta última, aliás, encarnada na figura latina de uma tal de Carlotta Valdez – para quem lembra, o mesmo nome de uma certa personagem fantasmática de Hitchcock, que, por sinal, nada tem a ver com musicais ou comédias.

Uma sátira particularmente debochada vai para os musicais do tipo “Um dia em Nova Iorque” (Stanley Donen e Gene Kelly). Numa das filmagens nos estúdios da Capitol, mostram-se marinheiros dançando e cantando uma canção que fala sobre a lamentável ausência das mulheres, quando eles estiverem no mar. Aos poucos, porém, na letra e nos gestos, essa ausência feminina vai sendo compensada pela presença dos companheiros que, farão então o papel delas. E aí os passos da dança indicam claramente a homossexualidade assumida, num tempo em que ela não ousava dizer seu nome.

Um recurso ardiloso é o de misturar ficção e realidade, digo, as cenas das filmagens ocorrendo no set da Capitol com o que ocorre fora dele. Por exemplo: Baird é drogado com uma solução química posta na sua taça por um extra em pleno set, durante as filmagens de “Hail Caesar”, e será, mais tarde, resgatado do sequestro pelas astúcias do ator canastrão dos faroestes.

A própria Hollywood clássica costumava, de vez em quando, se mirar no espelho da tela e autocriticar-se. Isso está em grandes filmes como “Crepúsculo dos deuses” (1950), “Assim estava escrito” (1952) e “Nasce uma estrela” (1954).

Em “Ave, César” o espelho é retroativo e, como convém ao gênero satírico, deformador das imagens, feito um espelho de parque de diversão.

De todo jeito, gostei de ver.