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O ATO FALHO DOS IRMÃOS LUMIÈRE

26 out

“O cinema não se presta a nada além do registro científico da realidade”. As palavras podem não ter sido exatamente estas, mas, a ideia, foi. Foi o que asseguraram os irmãos Auguste e Louis Lumière ao espectador deslumbrado George Méliès, durante as primeiras exibições do cinematógrafo, no Salão Indiano do Grand Café, em Paris, lá pelos finais do ano de 1895. Fascinado com as possibilidades do invento, o prestidigitador Méliès queria comprar o cinematógrafo para usar com fins artísticos.

Sempre mencionada pelos historiadores, a afirmação dos Lumière é um exemplo de equívoco curioso, de difícil explicação. Como podiam os inventores da sétima arte estar tão enganados sobre o seu próprio invento? Segundo se deduz da sua frase, o cinema seria estritamente documental, e, portanto, não comportaria nem o ficcional, nem o narrativo – elementos que, como se constata há muito tempo, consagraram o cinema como a arte do século.

E, de fato, todas as pequenas películas exibidas no Grand Café de Paris, realizações dos Lumière, faziam isso: registravam cientificamente o real, sem qualquer incursão na ficção ou na narração. Podia ser um trem chegando à estação, ou os operários saindo de uma fábrica – esses filmezinhos de poucos minutos eram, sim, estritamente documentais e, se fosse o caso, previam esta qualidade para o cinema do futuro.

Que reação, mais tarde, tiveram os Lumière ao cinema ficcional e narrativo que veio no bojo de Nascimento de uma nação (Griffith, 1915) não interessa: o fato é que, patenteadores do invento, defenderam o emprego científico do cinematógrafo, e ponto final.

Pois bem, só não se trata de ponto final porque, em pelo menos uma película, os Lumière se traíram e cometeram um interessante ato falho, tão pouco considerado pelos historiadores de plantão. O filme é O regador regado (L´arroseur arrosé, 1895) e foi exibido no Grand Café de Paris, na mesma data em que Méliès ouviu a famosa resposta.

O seu conteúdo pode ser descrito assim. Com o uso de uma mangueira, um senhor de meia idade rega as plantas de um jardim. De repente e sem que ele perceba, um garoto se aproxima e, de propósito, pisa na mangueira. Como o jato d´água é sustado, o senhor levanta a ponta da mangueira para ver o que houve; o garoto retira o pé da mangueira e o jato d´água estoura no rosto desse jardineiro surpreso. Segue-se uma perseguição em que o garoto é punido.

As plateias do Grand Café parisiense iam ao delírio com esse filmezinho de um minuto de duração, mas, nem isso dava aos irmãos Lumière a sugestão de que ali estava, condensado, o futuro de uma nova e grande arte. Notem que, ao contrário dos outros filmes dos irmãos Lumière, O regador regado tem muito pouco de documental, para não dizer que não tem nada. Conta uma estória que, como o roteiro de um filme moderno, tem começo (o jardineiro regando tranquilamente), meio (a interrupção do regar e o jato d´água indesejado) e fim (a perseguição e punição). Como nos filmes da época, é tudo mostrado em uma mesma tomada, e não pode ter deixado de haver “direção” da parte de quem filmava. Ou seja, os irmãos Lumière conceberam a cena antes de ligarem o seu cinematógrafo e, com certeza, orientaram os atores. Sem sombra de dúvida, trata-se de uma narrativa ficcional propriamente dita, com todas as características do filme moderno que o século vinte consagrou.

Feito pelos Lumière ou por outros, o cinema primitivo que vai de 1895 a 1906 é chamado pelos historiadores de “cinema de mostração”, justamente em oposição ao “cinema de narração” que viria depois. Ora, poucos historiadores se dão conta de que, realizado em 1895, O regador regado contradiz essa conveniente divisão.

Lida e relida nos livros de história, a afirmação dos irmãos Lumière sobre a natureza estritamente científica do cinema parece sempre absurda. Mais absurda fica depois de se assistir a esse inteligente, criativo e divertido O regador regado – ato falho genial de inventores bem menores que seu invento.

Secessão e rancor

19 jun

Neste ano de 2015 está se comemorando o término da Guerra Civil americana, conhecida como Guerra de Secessão (1861-1865).

Agrário e racista, o Sul queria a manutenção da escravidão negra, enquanto o Norte, mais urbano e liberal, pedia a sua abolição. Nem a clarividência de Lincoln conseguiu evitar o conflito. Propondo a separação (secessão) do país, os estados sulistas se auto-denominaram Confederação e partiram para a briga, forçando os estados nortistas a lutar pela União. A guerra foi sangrenta e fez, de lado a lado, um número apavorante de vítimas. Depois de quatro anos de lutas, a vitória, para o Norte, se pôs fim à guerra, nunca apagou o rancor sulista.

Inevitavelmente, essa guerra, junto com esse rancor, teve representações no cinema. A lista de filmes americanos sobre a guerra civil americana é enorme e aqui me limito a citar apenas alguns, os que considero mais importantes.

the birth of a nation

O primeiro a mencionar é de 1915, apenas 50 anos após o conflito. Assumidamente racista, a superprodução de três horas e meia de duração, “Nascimento de uma nação” (“The birth of a nation”) fazia a apologia do Ku klux klan e dava a presença da raça negra como a desgraça do país. Em suas exibições nos cinemas do Norte, provocou protestos, tantos e tão inflamados que o seu diretor D. W. Griffith rodou, no ano seguinte, um filme ´humanitário´, (“Intolerância”, 1916), como que para desculpar-se do erro cometido.

O segundo filme de citação obrigatória também foi uma superprodução, mas desta vez ideologicamente bem mais moderada. Baseado no romance de Margareth Mitchell, “E o vento levou” (“Gone with the Wind”, 1939) contava a estória dos efeitos da guerra sobre uma aristocrática família sulista, mas não tomava partido. Com um elenco de primeira, fotografia e música grandiosas, o filme do produtor David Selznick (assinado por Victor Fleming) fez um sucesso tão avassalador que chegou a inibir a representação da guerra civil em outras realizações hollywoodianas.

Cena de ...E o vento levou.

Cena de …E o vento levou.

Produção bem mais modesta, o terceiro filme que cito também foi baseado em literatura, no caso, o desencantado romance de Stephen Crane “The red badge of courage”, que deu o filme homônimo de John Huston, no Brasil chamado de “A Glória de um covarde” (1951). Sem endosso dos executivos de Hollywood, esse filme sombrio sobre a crueldade nos campos de batalha, foi cortado e, infelizmente, o que dele resta não corresponde ao talento do seu diretor.

O quarto filme que gostaria de citar é pouco lembrado, até pelos cinéfilos. Refiro-me a “Sublime tentação” (“Friendly persuasion”, 1956), de William Wyler, que narra o drama de uma família Quaker, no estado de Indiana, que sendo pacifista por princípio religioso, é obrigada a decidir o que fazer no dia em que, em plena guerra, tropas sulistas invadem o seu aparentemente neutro território.

Encerro minha lista com estes quatro clássicos e deixo ao leitor o exercício de lembrar os filmes mais recentes que abordaram a temática. Com certeza, o leitor não vai esquecer, por exemplo, “Tempo de glória” (1989), “Cold Mountain” (2003) e, naturalmente “Lincoln” (2012).

Afirmei, acima, que a vitória do Norte pôs fim à guerra de secessão mas nunca apagou o rancor sulista. Pois esse rancor teve talvez um número maior de representações cinematográficas que a própria guerra, representações sutis, em alguns casos, subliminares, mas, nem por isso, menos efetivas.

Audie Murphy em "A glória de um covarde"

Audie Murphy em “A glória de um covarde”

Vejam, por exemplo, o caso de todo um gênero do cinema americano, o chamado Western, ou faroeste, cujas estórias geralmente ocorrem num período histórico pós-guerra de secessão, mais ou menos em torno da década de 1880. Pois bem, muitos de seus heróis, e muitos de seus bandidos, gente de meia idade – os conhecidos conquistadores do Oeste bravio – carregam um passado que tem a ver com os tempos duros da guerra, geralmente sulistas rancorosos que nunca engoliram a derrota.

Não vou dar exemplos, pois não disponho de espaço, mas resumo tudo na figura emblemática de Ethan Edwards, o matador de índios de “Rastros de ódio” (“The searchers”, 1956), feito por um John Wayne de physique de role impecável. Se você lembrar bem o filme de John Ford, vai dar-se conta de que o amargor perene de Ethan não vem apenas da querela com os índios, mas muito mais, da frustração de estar do lado dos perdedores numa guerra que, finda, não pôs fim ao orgulho sulista de ser branco e dominador. Em alguns momentos chave do diálogo, esse rancor vem à tona, e, repito, não é só neste filme, nem só em John Ford, que ele vem à tona.

Os melhores autores de westerns tiveram a coragem de encená-lo em momentos pontuais de seus filmes, com certeza por saberem que esse rancor ainda estava vivo em, geograficamente falando, metade do país.

John Wayne e Natalie Wood na obra prima de John Ford, "Rastros de Ódios".

John Wayne e Natalie Wood na obra prima de John Ford, “Rastros de Ódios”.