Tag Archives: nazismo

“O destino de uma nação”: a hora mais sombria

23 jan

Winston Churchill foi, como se sabe, um dos maiores estadistas do século XX. Seu papel na II guerra mundial foi decisivo e é o que mostra o filme “O destino de uma nação” (“Darkest hour”, 2017), em cartaz na cidade.

O tempo da narrativa é curto, mas sintomático: de 3 a 29 de maio de 1940, o périplo que vai da posse de Churchill como Primeiro Ministro ao dia do seu famoso discurso, no Parlamento, sobre o posicionamento do Reino Unido no Conflito.

Desde a invasão nazista à Polônia pairava nos apavorados ares londrinos, mais especificamente no Parlamento, a ideia de uma negociação com Hitler, uma negociação que deixasse a ilha britânica fora de suas garras devastadoras. Desconfiado dos intuitos do ditador alemão, Churchill se opõe terminantemente a essa ideia, e, durante todo esse trágico mês de maio, amarga maus momentos, junto ao Parlamento, à imprensa e ao público em geral, o que está expresso no título original do filme “Darkest hour”, ´a hora mais sombria´.

Uma coisa que o filme faz bem é mesclar o público e o privado. Ao lado do embate nos bastidores da política londrina, também nos é permitido acompanhar Churchill (Gary Oldman) em sua casa, enfrentando os seus demônios pessoais, com ou sem a ajuda providencial de Lady Clementine (Kristin Scott Thomas). E mesmo no seu escritório, testemunhamos sua angústia de homem público, posto em situação de perigo extremo, situação partilhada por uma jovem datilógrafa exemplar, Elizabeth Layton (Lily James), a mocinha tímida que ouve e anota seus discursos em primeiríssima mão – ela também transformada em personagem importante.

Alias, uma das cenas mais comoventes no filme está naquele momento em que Churchill e sua fiel datilógrafa, a sós, enfrentam a questão Dunquerque. Pela sugestão do Primeiro Ministro, 4 mil soldados foram sacrificados para salvar os 300 mil perdidos no litoral de Dunquerque. Em choro contido, a jovem datilógrafa confessa que seu irmão esteve entre os que pereceram, e as lágrimas são partilhadas por um Churchill dobrado à dor alheia.

Gary Oldman como Winston Churchill

Um segundo momento de comoção especial, embora desta vez menos disfórica, vem quando um Churchill ousado vai buscar o apoio do povo à sua tão malquista proposta, e toma um metrô, coisa que ele nunca fizera na vida. Tenha ocorrido veridicamente ou não, a cena do diálogo entre os cidadãos comuns e o homem que tem o destino da nação nas mãos é um ponto alto do roteiro, com foros de turning point. Sintam como o grito do jovem negro no metrô “Eles nunca tomarão Piccadilly!” vai virar o discurso inflamado de Churchill para o Parlamento e para a nação, todos agora atentos aos seus argumentos. Antes do apoio do povo no metrô, esse atormentado Primeiro Ministro tivera o aval do ambíguo e frágil rei George VI, que o visitara na sua casa de madrugada, às escondidas, porém, é no espaço público do metrô que sentimos a virada.

Acima falei em Dunquerque. Ora, o filme “Dunkirk” (2017) também recentemente exibido entre nós, funciona como um intertexto óbvio para este “O destino de uma nação”. Ou seria vice-versa? Na verdade, o que me ocorre no momento em que redigo estas linhas é que os dois filmes são complementares, pois, historicamente falando, as duas coisas são simultâneas e, mais que isso, dependentes uma da outra, digo: a problemática presença dos 300 mil soldados ingleses nas praias de Dunquerque e a luta de Churchill para derrotar a proposta de negociação com o Eixo.

Lily James é a secretária devotada, Elizabeth Layton.

Pois bem, na minha cabeça de cinéfilo, “montei” um filme só, mais longo, em que toda a querela de Churchill com o parlamento inglês, no filme em questão, seria intercalada por cenas de “Dunkirk”. O resultado seria um longa-metragem de quatro horas de projeção, mas acho que valeria a pena ver confrontados os claustrofóbicos espaços, de um filme, com as paisagens abertas, do outro; as intermináveis discussões sobre estratégia de guerra, em um, e a violência aberta, no outro.

Segundo consta, nunca se soube ao certo por que Hitler não esmagou Dunquerque: por que, então, não imaginar que a proposta de negociação – a abominada por Churchill – teria chegado aos ouvidos do Führer, via Mussolini, ou por qualquer outro meio de espionagem, e daí haver ele hesitado, como hesitou, em atacar Dunquerque de forma definitiva? É verdade que todos os filmes sobre a II guerra mundial que tenham sido fundados em fatos reais possuem certa complementariedade, mas aqui, acho, o caso é mais direto e mais encaixável.

Para fechar, sabe-se que Winston Churchill tinha lá os seus defeitos pessoais e nunca foi um herói perfeito, mas, de todo modo, o filme de Joe Wright, sem querer ou querendo, nos remete aos dias de hoje e suscita a incômoda pergunta: onde estão os líderes no mundo atual?

Kristin Scott Thomas e Gary Oldman em cena do filme.

Anúncios

“Outro sertão” ou A lista de Guimarães Rosa

29 maio

Nos primeiros anos da Segunda Guerra, quando a situação, na Alemanha, tornou-se inviável para quem não fosse ariano, aumentaram consideravelmente as tentativas de fuga da população judia. Uma delas era via Consulados estrangeiros que pudessem fornecer, a esses cidadãos desesperados, passaportes para o exterior, e qualquer país serviria.

Evidentemente, nem todos os Consulados prestaram um serviço desses, escuso e perigoso, porém, um houve, em Hamburgo, que o fez com certa generosidade e muita coragem. No segundo semestre de 1939, pelo menos 96 cidadãos de origem semita puderam escapar para o Brasil com passaporte de “turista”, e esta rubrica era, naturalmente, falsa.

O responsável por esta “lista” de salvos do Holocausto? O vice-cônsul brasileiro em Hamburgo João Guimarães Rosa.

Eis do que trata o belo documentário “Outro sertão” (2013) da dupla Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, recentemente em exibição no Cine Banguê, em João Pessoa.

Mas, atenção, para além de seu lado meramente jornalístico – o de fazer um furo histórico – o filme reconstitui, e o faz com lirismo e beleza, toda a trajetória alemã do autor de “Grande sertão: veredas”, da sua chegada deslumbrada com a vida em Hamburgo, em 1938, até seu retorno desencantado, em 1942.

Guimarães Rosa foi um germanófilo apaixonado, paixão que – segundo ele mesmo revela – surgiu já na infância, quando deixava de jogar futebol com os coleguinhas de classe, para se debruçar sobre páginas de livros alemães, com suas palavras cheias de combinações consonantais que o fascinavam. Foi certamente essa germanofilia de vida inteira que o entusiasmou, ao ser nomeando vice-cônsul em Hamburgo, e foi ela também que produziu o conflito íntimo, ao dar-se conta das barbaridades do nazismo, que passou a presenciar com um pouco mais de ênfase a partir do estouro da guerra.

Para reconstituir cinematograficamente esses difíceis quatro anos de convivência do escritor com o nazismo, foi preciso uma pesquisa monstruosa que cascavilhou toda uma documentação oficial, alemã e brasileira, cartas do autor, fotos, filmes e depoimentos de ex-amigos do biografado, sem falar nos oportunos testemunhos dos “salvos do holocausto” ou de seus parentes. Professores e pesquisadores da obra do escritor também depõem e comentam a possível relação de sua vivência alemã com o seu fazer literário.

Segundo consta, as diretoras passaram mais de uma década pesquisando nas fontes mais variadas, produzindo mais de três horas de filmagem, depois operando o corte criterioso para os 70 minutos com que o documentário foi lançado. Ao material da pesquisa, acrescentaram o que lhes pareceu doar substância poética à estória contada, em alguns casos, imagens de arquivo e trilhas sonoras que estivessem na mesma isotopia dos fatos descritos. As imagens iniciais e finais do oceano ao som de canções brasileiras são um exemplo que vem ao caso.

Foi recusado aquilo que é comum em documentários – uma voz autoral narrando os fatos – e as diretoras preferiram que essa narração fosse, em linhas gerais, feita pela “voz” do próprio Guimarães Rosa, no caso, a partir de trechos de suas cartas, dirigidas a seus familiares no Brasil. O que permitiu dividir o filme em partes cronológicas (a chegada, o amigo, o diário, o escritor, o diplomata, etc), cada uma com uma epígrafe retirada das cartas. E, claro, homologando a voz do escritor, as imagens e os sons escolhidos para costurar o andamento da estória.

Uma cena tocante é a descrição (com acompanhamento de imagem adicionada pelas diretoras) de um parque infantil onde as crianças se divertem e que mantém uma placa ostensiva: “Parque de diversão para crianças arianas”. Depois vêm os relatos das restrições ao povo judeu, sem liberdade de locomoção, sem alimentos, sem aquecimento para o rigoroso inverno alemão, sem voz e sem direitos.

De modo tal que, depois de metade da projeção decorrida, quando nos deparamos com o que não sabíamos antes de entrar no cinema (pelo menos, foi este o meu caso) – o heroico fornecimento dos passaportes de turistas para famílias judaicas – já não temos grande surpresa. Ou temos? O fato é que, nesse momento, e a partir dele, para sempre, a estatura do homem cresce para ficar do mesmo tamanho da grandeza do escritor.

Descoberto pelas investigações da Gestapo, o escritor seria, mais tarde, deslocado para Baden-Baden, onde, junto com outras “figuras suspeitas”, permaneceria por cerca de cem dias, em estado de prisão domiciliar, sendo em seguida reenviado ao seu país de origem, por sorte, intocado e ileso.

Vinte anos depois de tudo passado, em 1962, Guimarães Rosa concederia uma entrevista a um canal de televisão alemão, mas o assunto foi exclusivamente literatura. Interrogado por um crítico literário, ele discorre um pouco sobre seus livros publicados, suas origens, suas motivações e o sentido que lhes quis dar. Completamente desconhecida até então, essa entrevista é mais uma das muitas preciosidades que a realização de Jacobsen e Vilela generosamente nos oferta.

“Outro sertão”: além de poético, um filme importante, que não interessa apenas a literatos e cinéfilos, mas a todo cidadão que se preocupa com o conceito expresso naquela palavrinha que o poeta francês Paul Éluard – uma outra vítima do nazismo – queria escrever em todo lugar: liberdade.

Ainda Truffaut

3 nov

Um velho sonho do cineasta francês François Truffaut era rodar um filme sobre a França ocupada – tempo em que ele era criança. Outro sonho igualmente caro era rodar um filme sobre os bastidores do mundo teatral.

Como está contado em sua biografia (Conferir livro de Antoine de Baeque, Record, 1998) em 29 de abril de 1979, ele adentra o escritório de sua colega de métier, a roteirista Suzanne Schiffman, com dois dossiês debaixo do braço, um sobre a Ocupação, o outro sobre o Teatro, e vai proclamando, decisivo: “Vamos fazer um filme sobre os dois”.

A partir desse momento, as mangas arregaçam-se e, no ano seguinte, já estreava, nos cinemas de Paris e do mundo, o filme “O último metrô” (“Le dernier métro”, 1980) – recentemente exibido nos cinemas do Manaíra Shopping, na Mostra Truffaut, a que me referi em artigo anterior.

a

O título deve-se ao fato de que, na Paris sob o jugo alemão, o cidadão não podia perambular tarde da noite, e onze horas era o horário do último metrô, que os espectadores de teatro e cinema, ou frequentadores de boates e bares, deviam tomar. De forma que os espetáculos deviam terminar bem antes das onze, para a comodidade de todos.

Esse cuidado com horários tem-se no Teatro Montmartre, dirigido pela Sra Marion Steiner (Cathérine Deneuve), desde que seu esposo, o judeu Lucas Steiner (Heinz Bennent), fugiu para a América do Sul. As atividades do teatro são observadas de longe e de perto pelo crítico germanófilo Daxiat (Jean-Louis Richard), porém, o que o crítico espião não sabe é que o Sr Steiner nunca deixou Paris: sobrevive escondido no porão do teatro, fato só conhecido da esposa, e mais ninguém.

Quando o filme inicia-se, a companhia teatral está ensaiando as primeiras cenas de uma nova peça, que promete ser um sucesso, “A desaparecida”. A atriz principal é a própria Marion, e um novo ator em ascensão foi contratado para o papel masculino, e acaba de chegar: o mulherengo convicto Bernard Granger (Gérard Depardieu).

Depardieu e Deneuve.

Depardieu e Deneuve.

A estória desenrola-se em três espaços: o palco onde encena-se a peça; o porão em que Steiner leva sua vida subterrânea de “prisioneiro”; e as ruas da cidade onde as fardas alemãs enchem a vista e onde o termo ´judeu´ é pronunciado como se obsceno fosse.

Embora, no grosso da estória, prevaleça o triângulo amoroso que será formado, mais tarde, por Marion (a esposa), Steiner (o marido) e Bernard (o amante), a narração abarca praticamente todos os envolvidos na atividade teatral, do iluminador ao garoto que é convidado para fazer uma ponta, passando pelo diretor sempre indeciso e pela figurinista lésbica que se envolve com uma das atrizes secundárias. E nisso, chega a ser uma lição de ribalta.

Sobre “O último metrô”, em entrevista à crítica Anne Gillain, Traffaut confessou uma vez que, depois de dezenove filmes realizados, era esperável que conceitos ou imagens dos anteriores recorressem. E, de fato, o filme em questão nos remete, de forma bem direta, a duas de suas realizações mais marcantes: “A noite americana” (1973), sobre os bastidores do mundo cinematográfico, e “Jules et Jim” (1961), sobre as ressonâncias emotivas de um idêntico triângulo amoroso.

A polícia nazista nos bastidores do Teatro.

A polícia nazista nos bastidores do Teatro.

Embora em cores, o filme traz uma fotografia escura (de Nestor Almendros) que reflete o clima de obscurantismo na França ocupada, com seu moralismo dúbio, onde, por toda parte, paira o fantasma feio do colaboracionismo. Neste sentido, o porão do Sr Steiner ganha foros simbólicos, com suas velas e seu silêncio obrigatório.

À parte a questão da fidelidade à história, no plano da expressão, verdade estética prevalece sobre realismo, como, aliás, é comum acontecer em Truffaut. Por exemplo: sabemos que, no verão europeu, os dias são mais longos, mas Truffaut faz noite logo cedo, pois a noite, no filme é um tema, e não uma mera etapa do dia. Outro exemplo: o dispositivo elétrico que Steiner engendra para, do porão, poder escutar tudo o que se fala no palco do teatro pode não convencer o espectador mais afeito ao realismo tout court, porém, Truffaut não resiste em, com ele, incrementar o drama amoroso que fará esse mesmo espectador aceitar, mais tarde, quando Steiner disser a Bernard que sua esposa, Marion, está apaixonada por ele, Bernard.

No geral, a vida dos franceses sob o jugo alemão parece ilusória, como ilusória é a ficção teatral, e, nesse aspecto, a roteirização soube criar um desenlace apropriado (não vou contar) que, por um tempo, “ilude” o espectador como um passe de mágica, para só depois lhe oferecer a verdade.

Belo filme que, no seu tempo, arrebatou nada menos que dez Césars. Mui merecidamente.

the-last-metro

Quatro homens em uma jangada

10 dez

 

Esta semana o Canal Brasil mostrou uma raridade cinematográfica: “É tudo verdade”, documentário sobre o filme que, em 1942, o cineasta americano Orson Welles veio rodar em solo brasileiro.

Já escrevi várias vezes sobre o assunto, mas, creio que vale a pena relembrar o caso dessa filmagem conturbada e seu resultado surpreendente.

Sob os auspícios do governo americano, o autor de “Cidadão Kane” (1941) é enviado ao país do carnaval, para, de alguma forma, influir na política da boa vizinhança: na ocasião, Getúlio Vargas pendia para o lado nazista e isso precisava ser evitado.

0

A idéia era filmar o carnaval carioca, e o Wonder Boy recebeu apoio de muita gente boa do meio cultural carioca, entre outros, Vinicius de Moraes, Grande Otelo, Herivelto Martins, Dalva de Oliveira, e até o então criança Pery Ribeiro, filho do casal citado, participou das filmagens.

Filmagens à parte, porém, o jovem Welles meteu-se em farras homéricas no Rio de Janeiro e comeu, entre outras coisas, o orçamento do projeto. Somente depois de pressionado pela Fundação Rockfeller (fomentadora do projeto) é que Welles resolveu dar uma trégua a suas farras cariocas e trabalhar. De repente, como um náufrago desesperado, agarrou-se à ideia de recontar a viagem verídica, noticiada em jornal, que quatro jangadeiros cearenses haviam feito, do Ceará ao Rio, para exigir do presidente os direitos trabalhistas que não tinham.

Welles mandou-se para o Ceará e, com um roteiro improvisado, poucos recursos técnicos, e atores não profissionais, rodou o filme possível, que chamou de “Four men on a raft” (´quatro homens em uma jangada´). Por azar, ao chegar ao mar bravio de Copacabana, um dos jangadeiros, o “Jacaré”, morre afogado… A morte de Jacaré termina de consumar o desastre que foi a estada de Welles entre nós. O filme é engavetado pela RKO e fica o assunto encerrado.

A jangada cearense e sua viagem

A jangada cearense e sua viagem

Muito tempo depois, anos noventa, o cineasta já falecido, três pesquisadores americanos, Richard Wilson, Myron Meisel e Bill Khron, vasculham os arquivos hollywoodianos e encontram os rolos do trabalho brasileiro de Welles. Acrescentam filmagens documentais de sua aventura brasileira, e montam o filme a que dão o mesmo título do projeto original “It´s all true” (1993).

Mas, claro, o mais interessante no filme do trio Wilson, Meisel e Khron é o filme que Welles conseguiu fazer com os jangadeiros cearenses, em si mesmo inteiro e autônomo.

Em belo preto-e-branco, a estória começa em uma aldeia de pescadores, numa praia do litoral cearense. Nessa aldeia, dois jovens – ela, filha de pescador, ele, também pescador – iniciam uma amizade que se transforma em amor e, com o consentimento dos pais, decidem casar. Toda a cerimônia de casamento é mostrada, da qual, naturalmente, participa a aldeia inteira, todos habitantes do lugar que, como os dois protagonistas, desempenham papéis ficcionais.

Welles em ação

Welles em ação

Pouco tempo após a lua de mel, vem o desastre. Pescando em alto mar, o rapaz desaparece, e mais tarde, à beira-mar, entre pedras, areia e ondas fortes, uma garotinha encontra o cadáver.

Belíssimas são as tomadas que mostram o cortejo do enterro, subindo, em fila, as dunas, até o cemitério. Belíssimos são os closes que mostram os rostos enrugados dos habitantes do lugar, entristecidos com a morte do jangadeiro e com a situação da jovem viúva que, sem direitos legais, nada tem a herdar, só a dor e a solidão.

É então que a comunidade decide que quatro jangadeiros deveriam navegar mar afora até a capital federal, para exigir de Getúlio o direito à pensão e à aposentadoria. E mais beleza se tem com a encenação da viagem por mar, a precária jangada com sua vela ao vento contornando a costa brasileira.

Rostos brasileiros na tela de Welles

Rostos brasileiros na tela de Welles

Se o projeto como um todo, digo, o da estada de Orson Welles no Brasil, foi um fracasso, o mesmo não pode ser dito de “Quatro homens em uma jangada”, filme emocionante que atesta o talento de um gênio do cinema.

A propósito de fracasso, em “É tudo verdade” está incluído um depoimento curioso de Orson Welles. Conta ele que, já estourado o orçamento do projeto, recebe a visita de um grupo de favelados que trabalhavam com “Voodoo” (ele quis dizer ´umbanda´), a quem ele havia prometido uma ampla participação no filme a ser feito. Explica-lhes que não havia mais dinheiro para a produção, quando o telefone toca. Vai atender e ao retornar à sala, o pessoal da umbanda, irritadíssimo, tinha ido embora, mas não sem antes perfurar com agulhas o roteiro do filme, que estava sobre a mesa. Segundo Welles, amaldiçoado pelo “voodoo” brasileiro, o projeto jamais poderia ter dado certo.

Ora, é o gênio do cinema fazendo ficção. Mais uma…

Mr Welles se divertindo no Rio de Janeiro.

Mr Welles se divertindo no Rio de Janeiro.

 

Ida

24 mar

Um amigo polonês certa vez me contou que, na Polônia dos tempos comunistas, o ato mais revolucionariamente corajoso que os jovens cometiam era casar na Igreja, de véu e grinalda, com hino nupcial e tudo mais.

É que, sendo o país de tradição católica, o regime comunista lhe impunha, na força, um ateísmo mal vindo. Assim, enquanto, no mundo capitalista dos anos, digamos, cinquenta/sessenta, a rebeldia juvenil consistia em beber, fumar, dançar rock e fugir de casa, na Polônia de então casar na Igreja era o grande gesto de extrema coragem para jovens insatisfeitos com o status quo.

E por que estou falando disso?

É que acabei de ver “Ida” (2014), o filme polonês que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, e que, de alguma forma, tem a ver com a situação evocada por meu amigo.

A atriz polonesa Agatha Trzebuchowska no papel de Ida.

A atriz polonesa Agatha Trzebuchowska no papel de Ida.

Em 1962, nesse convento afastado, vive a noviça Anna, que, junto com outras noviças, está prestes a receber os votos que a tornarão uma freira. Antes disso, ela é enviada pela madre superiora à cidade, para passar uns dias com uma tia que nunca vira, nem sabia que existia, pois, nos seus documentos de noviça do convento, constava que fosse órfã e sem parentes nem aderentes.

Meio alcoólica e de vida libertina, a tia Wanda mostra a uma Anna surpresa, fotos de seus pais, judeus exterminados pela guerra. Anna – agora identificada como Ida – termina sendo convencida pela tia a ir ao encalço do que restou da família, numa aldeia no campo, uma velha casa, onde hoje residem outras pessoas.

É no estábulo dessa casa que Anna vai ver os vitrais coloridos que, segundo a tia Wanda já lhe contara, a mãe colocara nas janelas, para as vacas se sentirem mais alegres. Um pequeno detalhe que dá à moça uma ideia de quem havia sido a sua genitora, uma figura certamente anti-convencional, criativa e cheia de vida. Indaga daqui, indaga dali, as duas mulheres são finalmente conduzidas, no meio de floresta densa e úmida, a uma verdade dolorosa, que prefiro não revelar ao leitor que ainda não viu o filme.

Tia e sobrinha partilhando dores

Tia e sobrinha partilhando dores

Deixem-me só dizer que retornando ao convento depois do choque, Anna dá-se conta de que não está preparada para os votos. Volta à cidade, para os funerais da tia, e decide que deve experimentar a vida como ela é. Põe os sapatos de salto e o vestido sensual da tia, fuma e se embriaga como ela fazia e se entrega sexualmente ao rapaz que conhecera no percurso.

Ainda na cama, o rapaz lhe sugere que fujam juntos, e ela pergunta “E depois?”. O rapaz responde que casariam e teriam filhos, e ela repete “E depois?”. E o rapaz, sem saber o que mais dizer, responde: “Sei lá, a vida”.

Cometidos todos os “pecados”, Ida repõe calmamente seus trajes de noviça e volta ao convento para toda uma existência de reclusão religiosa, e o filme se conclui com seu corpo em marcha e, bem frontal, seu rosto decidido a não ter “a vida” de que o rapaz falara…

Tirando o capuz de noviça

Tirando o capuz de noviça

Neste sentido, parece irônico – ou seria o contrário? – que o filme tenha recebido o título de “Ida”, e não de “Anna”.

De todo jeito, é bom frisar que estamos, neste filme, muito longe de qualquer esquema maniqueísta que, esquizofrenicamente, separe Anna de Ida. Por isso, no parágrafo anterior, tive o cuidado de por a palavra “pecados” entre aspas.

Acho que assistindo a “Ida” todo mundo vai lembrar-se de “Uma cruz à beira do abismo” (“The nun´s story”, 1959), filme que também narra a estória de uma freira (Audrey Hepburn), em certo momento, hesitante entre a fé e o mundo. No filme americano de Fred Zinneman, a freira escolhe o mundo; aqui a escolha é outra, mas, as semelhanças persistem.

Com exceção de Andrzej Wajda, Roman Polanski e krzysztof Kielowski, o cinema polonês é pouco conhecido entre nós. Sobre o primeiro escrevi, aqui, há pouco tempo, a respeito do seu filme “Walesa”, e quanto aos outros dois, como sabemos, são mais atuantes fora que dentro de seu país.

Na cama, mas...

Na cama, mas…

A direção de “Ida” é de Pawel Pawlikowski,  e a jovem atriz Agatha Trzebuchowska, que faz a personagem-título, o faz muito bem. Dou destaque, porém, à belíssima fotografia em preto-e-branco (Lucasz Zal), uma escolha cromática que, mui apropriadamente, faz o espectador recordar os muitos tons de cinza do cinema de arte europeu da época ficcional do filme em questão, final dos anos cinquenta, começo dos sessenta. Filmes como “Os incompreendidos”, “Acossado”, “Rocco e seus irmãos”, “A doce vida”, “Oito e meio”, “Os companheiros”, “Persona”, e tantos outros…

Esta matéria é dedicada a Jack Slosky, meu amigo polonês, hoje residente nos Estados Unidos. ida 1

A nau dos insensatos: prevendo Altman

8 jul

O mundo não passa de uma nau desgovernada, rumando ninguém sabe para onde, repleta de passageiros de pouco ou nenhum juízo.

Em forma de lenda sombria, essa concepção pessimista da humanidade vem de longe, provavelmente da Idade Média, quando a navegação era vista como algo feio. A lenda virou imagem no famoso quadro de Bosch “Nau dos Insensatos” (1490) e, depois, sátira filosófica no livro homônimo de Sebastian Brant (1494). E de lá para cá, nunca saiu do imaginário das artes e da literatura. Até Foucault, como se sabe, tratou dela nos seus escritos sobre a loucura.

No começo dos anos sessenta, a escritora americana Katherine Anne Porter retomou essa concepção lendária, lhe inventou forma ficcional, e não se incomodou de dar a seu romance justamente este título “Ship of Fools”, que narra a viagem de um navio alemão que sai de Vera Cruz, México, com destino a Bremerhaven, Alemanha, num tempo – 1933 – em que o nazismo começava a botar suas feias garras de fora.

O quadro de Bosch

O quadro de Bosch

Uma condessa viciada em drogas, um médico de saúde fraca, um senhor grosseiro que defende idéias racistas, um judeu ingênuo que acha que ninguém vai magoar sua raça, um pintor frustrado, um jogador de baseball estabanado, um gigolô que camufla a profissão com coreografia, uma divorciada que amarga a solidão, um anão debochado… e, no subsolo, toda uma população de miseráveis que estão indo para um destino incerto como mão de obra barata. Tais são os personagens do romance, cada um com seu drama e sua estória própria.

O livro de Porter fez tanto sucesso que o produtor e diretor Stanley Kramer resolveu levá-lo às telas, e em 1965, o filme “A nau dos insensatos” (“Ship of fools”) estreou no mundo todo, concorrendo ao Oscar com sete indicações, das quais levou duas: melhor fotografia (Ernest Laszlo) e melhor direção de arte.

No filme, é o anão Glocken (Michael Dunn) quem faz a narração mais ou menos onisciente. Dirigida à câmera, sua primeira fala tem valor de alerta: “Meu nome é Karl Glocken e este é um navio de loucos” – nos diz ele. E depois de mencionar alguns dos passageiros e suas características mais visíveis, acrescenta: “E, quem sabe, se você olhar bem de perto, pode até ver você mesmo a bordo”.

Simone Signoret e OsKar Werner em cena do filme

Simone Signoret e OsKar Werner em cena do filme

O enredo é difícil de resumir, pelo simples fato de o filme ser um painel narrativo. Como no romance, cada personagem vive uma situação particular que só acidentalmente tem a ver com as dos outros passageiros. Por exemplo, a coroa sulista feita por Vivien Leigh pouco tem a ver com o jogador de baseball feito por Lee Marvin, e, se se tocam, é porque estão forçosamente no mesmo ambiente.

Acho que o caso mais amarrado do ponto de vista narrativo – e provavelmente com mais ´tempo de tela´ – é do Dr Schumann (Oskar Werner) e a Condessa viciada em entorpecentes (Simone Signoret): no processo do atendimento médico, os dois vão se envolvendo até, formarem, embora casados, um par amoroso. Sintomaticamente, são os dois únicos cujos destinos ficam divisados na chegada à Alemanha – ela, como diegeticamente previsto, levada à prisão; ele, como diegeticamente provável, morto.

Embora os problemas que afetem os personagens variem (da mocinha virgem que quer liberdade, ao rapaz que agride o pai paraplégico para pagar uma garota de programa), há, sim, uma temática subliminar que perpassa a viagem – a ascensão do nazismo, tanto mais grave pelo fato de a destinação do navio ser justamente a Alemanha de Hitler.

Talvez o espectador de hoje venha a estranhar o modo como os personagens desafogam os seus problemas privados uns aos outros, com uma franqueza pouco plausível, já que se trata de desconhecidos. Aquela mocinha chorosa, no convés, desabafando suas mágoas a um senhor, conhecido só de vista, é um exemplo que vem ao caso. A impressão – se não a justificativa – é que o filme é curto para o número de casos, e, assim, não teria havido o tempo necessário para o desenvolvimento dos vários relacionamentos.

Um casal improvável: Lee Marvin e Vivien Leigh

Um casal improvável: Lee Marvin e Vivien Leigh

Ao desembarcar, Glocken volta a se dirigir ao espectador: “você deve estar se indagando o que tem a ver com isso”, e responde ele mesmo: “nada”, quando, ironicamente, a essa altura, o espectador já está convencido do contrário.

Vi “A nau dos insensatos” nos anos sessenta, no saudoso Cine Municipal, mas agora, revendo-o em casa, me ocorre uma associação que não poderia ter feito na época de sua estréia – de alguma forma, ele prediz e promete a obra de um cineasta da segunda metade do século XX. Refiro-me ao grande Robert Altman, com suas amplas narrativas, superlotadas de personagens que, por uma circunstância qualquer, circulam no mesmo espaço e no mesmo tempo, na maior parte dos casos sem familiaridade entre si, e cujos paradeiros, com maior ou menor conseqüência, apenas se tocam.

Pois é, seguindo um certo conselho do sábio Borges, inverti a cronologia e li o filme de Stanley Kramer à luz de Altman. Foi legal e surtiu efeito.

A tripulação e os passageiros do subsolo

A tripulação e os passageiros do subsolo

A onda

22 maio

Na Alemanha de hoje, o Nazismo é coisa do passado. Será? Seja a resposta afirmativa ou negativa, a questão é trazida à tona no filme “A Onda” (“Die Welle”, 2008), recentemente exibido entre nós, dentro da programação de cinema da Estação Cabo Branco.

Em uma escola de segundo grau, um professor de Autocracia resolve conduzir um experimento com sua turma. E o experimento consiste em fazer a classe inteira funcionar, ela mesma, como uma autocracia, ou seja, todos unidos para o que der e vier, seguindo os mesmos propósitos, vestidos do mesmo modo, e com um gesto para identificar os participantes, cada um encarregado de propagar “a Onda” – denominação do grupo. Apesar de algumas resistências, a classe quase toda adere à proposta e, de repente, a Onda – feito uma bolha assassina – começa a crescer e incomodar, no colégio e na cidade, a quem não a segue. Com o passar dos dias, alguns dos participantes da Onda vão virando fanáticos e, em certo momento decisivo, o professor dá-se conta de que a coisa saiu do controle. Ele só não imaginava o quanto, e, inevitavelmente, a estória toda termina em tragédia.

die-welle poster

Muito bem dirigido pelo quase novato Dennis Gansel, o filme prende o espectador desde o início e o faz acompanhar a narrativa com interesse, sobretudo quando se considera que tudo acontece em seis dias, de segunda à sábado, cada um dos dias marcado na tela. É, de fato, impressionante como, nesse breve tempo, podemos acompanhar, não apenas a formação e desenvolvimento da Onda, mas as transformações, emocionais, psicológicas e ideológicas por que passa todo um grupo de jovens. E isso de modo bastante realista.

Espécie de “ovo de serpente” (como se sabe, filme de Bergman, sobre o mesmo assunto), inevitavelmente o experimento do professor aparece como um microcosmo do que foi o nazismo, ou, se for o caso, como o microcosmo de qualquer regime totalitário e ditatorial.

Naturalmente, trata-se de um filme sobre o coletivo, lembrando aquela concepção chapliniana de que toda multidão é um monstro acéfalo (Conferir “Luzes da ribalta”), porém, ao meio do conjunto, dois personagens, pelas posições simétricas que ocupam na diegese, me chamaram a atenção como pontos chave para discutir os elos fugazes entre comportamento individual e comportamento social.

die welle 2

O primeiro é aquele estudante que assume a Onda como o que lhe faltava na vida, e radicaliza a sua conduta, ao ponto de se oferecer como vigilante do professor. É ele que, no desenlace, partirá para os gestos mais drásticos, que não revelo para não estragar o gosto de quem ainda não viu o filme. Solitário em sua vida privada, e frustrado em suas relações afetivas, fica claro que o seu mergulho na Onda é uma compensação para a incompletude de sua existência e, nesse sentido, o filme faz uma denúncia, válida para qualquer corporação, das pequenas (tipo: tribos) às maiores (tipo: regimes políticos).

A outra personagem que me interessou mais de perto foi a aluna que, desde o começo, repugnou a ideia da Onda, recusou-se a participar, e mais tarde, assumiu, quase sozinha, a difícil missão de, na prática, combater o movimento. É claro que, para o conflito (elemento essencial em qualquer narrativa) ter caráter extensivo, era preciso que surgissem oponentes da Onda dentro do seu seio (a sala de aula), porém, vejo como ideologicamente marcado o fato de que se tratou de uma mulher. O que nos permite – e acho que isso é proposital no filme – indagarmos sobre a pertinência das, sempre apontadas e refutadas, diferenças entre uma forma masculina de pensar (mais racionalismo e abstração…) versus, uma forma feminina (mais sentimento, senso de medida, concretude, etc…).

Todos de uniforme branco, menos a aluna dissidente

Todos de uniforme branco, menos a aluna dissidente

A existência dessa aluna dissidente também ilustra a riqueza do roteiro. Antes de a Onda ser formulada pelo professor, alguns alunos da turma ensaiavam uma peça, em que ela fazia o papel principal. Sem nenhuma coincidência, a peça, do dramaturgo Friedrich Dürrenmat, era “A visita da velha senhora”, que conta a estória de como toda uma população de uma pequena cidade – feito uma “onda”, cabe dizer! – adere a uma certa proposta politicamente incorreta de uma mulher muito rica. Que a aluna dissidente, no papel desta senhora, tenha sido demitida dos ensaios é um dado sintomático para a significação geral do filme.

Enfim, vê-se pouco cinema alemão por aqui, e essa Mostra recente, exibindo três filmes, preenche uma lacuna – um bom trabalho da coordenação de cinema da Estação Cabo Branco. Na sessão em que estive, o cinéfilo e escritor Andres Von Dessauer foi o debatedor do filme, e alguns dos pontos aqui levantados são ecos do debate entre ele e o público presente. Um ótimo exercício de cinefilia, para o qual espero ser convidado outras vezes.

Uma lição de autocracia: a palavra no quadro-negro

Uma lição de autocracia: a palavra no quadro-negro