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Frases fílmicas

4 jul

Quem foi que disse que cinema é só imagem? Na verdade, a palavra desempenha um papel importante na complexa estrutura de significação que é o filme. Até nos tempos mudos era assim, com os desajeitados letreiros, postos entre uma cena e outra.

Pois há palavras nos diálogos de certos filmes – com mais frequência, frases – que, de tão bem escolhidas, os transcendem, e ganham autonomia semântica, algumas, fama própria, e passam a ser lembradas bem longe das salas de projeção.

Sim, nos meios cinéfilos pelo menos, basta alguém, por alguma razão, pronunciar o termo “rosebud” para todo mundo lembrar o filme de Orson Welles, “Cidadão Kane” (1941). Se a frase for “Ninguém é perfeito”, quem é que não vai lembrar “Quanto mais quente melhor” (Billy Wilder, 1958) e seu hilário desenlace? Se for “Nós sempre teremos Paris”, a lembrança imediata vai ser o final de “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942), ou não vai?

Pois aqui sugiro ao leitor uma brincadeira. Selecionei vinte e duas frases de filmes clássicos – dos anos trinta aos sessenta – que cito numeradas e em ordem cronológica, para que você tente identificar os filmes em que elas foram articuladas. Para facilitar, incluo o ano de produção do filme e o nome – quando há – do ator ou atriz que a pronunciou. Notar que nem sempre a frase famosa foi dita pelo ator ou atriz principal. Pode ter saído da boca de um coadjuvante, ou mesmo de algum extra.

Vamos lá?

 

1 “Está vivo! Está vivo!” (1931, Colin Clive)

2 “Que Deus seja testemunha: nunca mais passarei fome.” (1939, Vivien Leigh)

3 “Não existe lugar como o lar.” (1939, Judy Garland)

4 “Não vamos pedir a Lua, quando podemos ter as estrelas.” (1942, Bette Davis)

5 “Como é que eu podia adivinhar que assassinato pode às vezes ter cheiro de flor?” (1944, Fred MacMurray)

6 “O trem para Ketchworth, chegando agora na plataforma três.” (1945, voz do microfone da Estação Ferroviária)

7 “A vida de um homem toca tantas outras vidas…” (1946, Henry Travers)

8 “Sim, posso ser muito cruel: eu fui educada por mestres.” (1949, Olivia de Havilland)

9 “Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências.” (1950, Bette Davis)

10 “Eu sou grande: os filmes é que ficaram pequenos.” (1950, Gloria Swanson)

11 “Sempre dependi da bondade de estranhos.” (1951, Vivien Leigh)

12 “Isto é o elevador?” (1953, Audrey Hepburn)

13 “O que você quer de mim?” (1954, Raymond Burr)

14 “Eu poderia ter tido classe. Poderia ter sido um grande lutador.” (1954, Marlon Brando)

15 “Estou cansada de ouvir me dizerem que sou bonita.” (1955, Kim Novak)

16 “Só Deus sabe, Sr Allison.” (1958, Deborah Kerr)

17 “O melhor amigo de um rapaz é sua mãe.” (1960, Anthony Perkins)

18 “Cale a boca e jogue.” (1960, Shirley MacLane)

19 “Nós somos iguais, eu e gato. Dois pobres patetas sem nome.” (1961, Audrey Hepburn)

20 “Quando a lenda supera a história, imprima-se a lenda.” (1962, Carleton Young)

21 “Eles me chamam Sr Tibbs!” (1967, Sidney Poitier)

22 “A senhora está tentando me seduzir, Sra Robinson?” (1967, Dustin Hoffman)

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Como escrever sobre cinema (III)

21 fev

Na discussão sobre a escritura crítica, um tópico interessante são as divergências. Claro, nada mais democrático do que divergir, porém, a coisa complica um pouco quando as opiniões, de divergentes, passam a ser praticamente excludentes.

Tenho amigos que acham “Morte em Veneza” uma chatice, enquanto outros o têm como um filme superior, perfeito. Descompasso semelhante de opiniões entre meus amigos, eventualmente constato em filmes como “O anjo azul”, “O ano passado em Marienbad”, “Oito e meio”, e tantos outros.

Há amigos meus que julgam filmes como “Cidadão Kane” e mesmo “Um corpo que cai” um lixo só, e, neste caso, conversando com eles, eu fico sem saber o que argumentar em favor dessas obras primas… E dou um jeito de mudar de assunto, pois são pessoas instruídas cujas bagagens culturais eu tenho o bom senso de respeitar.

Como dar a "Um corpo que cai" o estatuto de "lixo"?

Como dar a “Um corpo que cai” o estatuto de “lixo”?

Sobre esse tópico das divergências, uma coisa que me diverte é consultar o setor de comentários dos usuários do IMDB. Não necessariamente para ler os textos, mas, tão somente para cotejar os títulos que são dados aos comentários,  geralmente títulos que já dizem tudo das reações dos espectadores aos filmes vistos. Não é raro que, de um mesmo filme recém lançado, estejam, lado a lado, títulos assim: “Uma obra prima” e “Um fracasso completo”. Como disse, nem sempre me dou ao trabalho de ler os textos, mas, imagino que cada um dos comentaristas argumente com a lógica que lhe é possível, seja qual for essa lógica.

Os usuários do IMDB, em princípio, não são críticos de cinema, porém, o intrigante é que entre os profissionais, as divergências também venham a ter o tom de recíproca excludência.

Quando escrevo sobre filmes antigos, – e faço isso com relativa frequência – gosto de consultar suas respectivas fortunas críticas, em vários locais, mas, especialmente nos video-guides da vida, livrinhos bastante úteis pelo seu caráter conciso. Dois há a que sempre recorro, a saber, o do inglês Leslie Halliwell, e o do americano Leonard Maltin. E, não vou negar, também me divirto muito com as excludentes divergências.

Um exemplo que me ocorre, no momento, é o de “O homem que matou o facínora” (“The man who shot Liberty Valence”). Seria essa realização de John Ford, de 1962, um filme ruim, ou um excelente filme? Em seu conceituado video guide, o afamado crítico Halliwell, do total de quatro estrelas, lhe concede uma única, o que o põe na categoria de “ruim”. Ao passo que o igualmente afamado Maltin lhe doa o total de suas estrelas, quatro, colocando-o, portanto, no patamar de “excelente”.

Para o espectador comum que toma esses ´guides´ como orientações, divergências desse tipo devem ser difíceis de compreender. Como resolver o impasse? Como é que dois profissionais teoricamente aparelhados para emitir julgamentos da mesma natureza estética, podem divergir a esse ponto sobre uma mesma obra?

"O homem que matou o facínora" - ruim ou excelente?

“O homem que matou o facínora” – ruim ou excelente?

Pois é. É aqui que entra aquele conceito incômodo chamado “gosto”.

Naturalmente, a primeira verdade a ser admitida é que crítico de cinema é gente de carne e osso, coração e mente, e que, portanto, está sujeito às trapaças da sorte, como qualquer mortal. Cada um tem sua própria formação cultural, experiência de vida, e, se for o caso, posicionamento ideológico. As preferências decorrem disso tudo, e, eventualmente, de coisas mais íntimas, por vezes inconfessáveis, ou indevassáveis. O domínio da teoria da linguagem cinematográfica deveria salvaguardar uma certa objetividade no julgamento, mas… como já disse um personagem fílmico do mestre Billy Wilder, ninguém é perfeito.

De minha parte, fico pensando onde é que residiriam as minhas limitações, os meus defeitos de crítico. Ao certo não sei, mas posso adiantar o seguinte.

Quem acompanha os meus escritos sabe que sou admirador do cinema produzido ao tempo da Hollywood clássica, aquele período de ouro, que recobre as décadas de trinta, quarenta e cinquenta. Quem me acompanha também sabe que, salvo as honrosas exceções, não alimento entusiasmo especial pelo cinema de hoje em dia, principalmente (sintam a ironia) pelo da Hollywood moderna, cheio de pirotecnias e efeitos especiais de toda ordem eletrônica.

Ao escrever sobre um filme qualquer, antigo ou moderno, confesso que faço sinceros esforços para me distanciar desse meu ´gosto clássico´ e ser objetivo no meu julgamento, e, mesmo assim, não seria tomado de espanto se um dia um paciente estudioso de minha produção crítica demonstrasse, a mim e a todos, que, no geral, possuo a tendência a ser um pouco complacente com os filmes antigos, e um pouco intransigente com os filmes modernos.

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

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