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Cadê Fellini?

19 dez

Um filme com um título desses, “Em busca de Fellini” (“In search of Fellini”, 2107), eu iria ver de todo jeito. Ainda que tivesse lido comentários desfavoráveis. Pois li e fui.

O argumento é igualmente convidativo: uma garota de uma pequena cidade interiorana de Ohio vai a Cleveland, e cai, por acaso, dentro de um Festival Fellini; apaixona-se subitamente pelo cineasta de “A estrada da vida” e, com o consentimento da mãe doente, se dana para a Itália no encalço dele.

Inspirado pela genial mistura felliniana entre realidade e fantasia, o filme do diretor novato Taron Lexton conta a história de Lucy (Ksenia Solo), apostando que pode fazer o mesmo: misturar realidade e fantasia. Ocorre que nem todo mundo é Fellini, e…

Lucy, a garota de Ohio, usa a camisa listrada de Gelsomina – personagem de “La Strada” – e quer ter a inocência da mesma, mas isso não ajuda muito. Literalmente, perde-se na Itália, e o filme junto com ela, também se perde. E vejam que, para o bem ou para o mal, é baseado “numa aventura real”… Pensando bem, talvez por isso mesmo se perca.

Que Fellini não será encontrado (vários sentidos para esta expressão!), a gente adivinha desde a chegada da moça a solo italiano. Onde posa o avião dela? Não em Roma, mas em Verona, a cidade de Romeu e Julieta. É, portanto, fácil prever o desenlace: a viagem vai lhe dar, não Fellini, mas, um amor. E é aí que o filme ganha a cara de “sessão da tarde”.

A sequência final, em que Lucy, já em Roma, tem, conosco, e por algum instante, a ilusão de estar na presença de Fellini, quando a figura masculina à sua frente é, na realidade, o namorado veronês, só não decepciona mais porque, como disse, já estava implícita desde sempre. Sintomática e convenientemente, a jornada de Lucy acontece em 1993, ano da morte de Fellini.

O filme é cheio de desperdícios, que os espectadores de maior boa vontade podem, se quiserem, chamar de ´pistas falsas´.

Um caso é o dos aparecimentos, em momentos e locais os mais variados, daquele rapaz forte com correntes amarradas no busto (para lembrar o Zampano de “La strada”)… aparecimentos que não vêm a dar em nada. Outro desperdício é a existência do segundo ´interessado´ em Lucy, aquele desconhecido que a conduz a uma orgia supostamente felliniana, e depois a maltrata…

Engraçado é que um problema que Lucy teve, também o teve o filme. Refiro-me ao fato de que não há um Fellini só: há muitos Fellinis, e aquele de “La strada” e “Noites de Cabiria” é bem diverso do de “A doce vida”, que por sua vez, é diverso do de “Satyricon” e “Roma”.

Mas, os atrapalhos semióticos do diretor Lexton, não ficam por aí.

Vejam bem: depois de meia hora de projeção, eu, pessoalmente, comecei a me indagar se um título mais apropriado ao filme não seria “Em busca de Capra”. Pois é, são tantas e tão enfáticas as cenas mostradas de “A felicidade não se compra” (1946) onde se veem a bela Donna Reed e James Stewart em conversas amorosas ou trocando beijos…

O que, aliás, me conduz a uma questão mais genérica, mas também pertinente ao filme de Lexton. Como casar o cinema clássico americano com o cinema de arte europeu? A dicotomia é um lugar teórico comum da crítica, mas que aqui, suponho, vem bem ao caso.

Lucy e a mãe doente, ainda em Ohio.

Em alguns momentos do filme, as personagens americanas tentam explicar aos outros o que é Fellini. Antes de viajar, Lucy faz isso para a tia, sem sucesso, e, mais tarde, essa mesma tia, tenta explicar à irmã, mãe de Lucy. O que ela diz é o seguinte: “Peitos, bundas, você sabe, arte”. Por sua vez, assistindo na televisão a “A doce vida”, a mãe de Lucy reclama: “Cadê o enredo?” E é consolada pela irmã: “Não há enredo”.

No momento em que redijo estas linhas me ocorre que a justificativa para a insistente presença intertextual de “A felicidade não se compra” seria para lembrar que o cinema clássico americano, ao contrário, tinha enredo e não tinha peitos e bundas… Será? Pode até ser, mas não melhora a impressão de confusão estilística e estrutural que “Em busca de Fellini” nos passa. Sem falar da impressão, mais grave, de inutilidade.

O cinema clássico americano, com suas regras e limites, e o cinema de arte europeu, com suas liberdades e ousadias, estão “casados”, e muito bem casados, nas obras concretas, consumadas e consumidas, de grandes diretores como Billy Wilder, Otto Preminger, Fritz Lang, William Wyler, e tantos outros.

Satisfaçamo-nos, portanto, com o que já foi feito.

Fellini, buscado, mas não encontrado…

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Prostitutas clássicas

12 ago

Da era muda até hoje, a prostituta sempre foi uma personagem recorrente na história do cinema mundial. Vilã ou heroína, sempre marcou presença em pequenos e grandes filmes que nos ajudam a entender a natureza humana.

Ao leitor cinéfilo, sugiro um passeio mnemônico por filmes clássicos que ficcionalizaram a situação dessas mulheres as quais – sejam quais tenham sido suas razões pessoais – optaram pela “profissão mais antiga do mundo”.

Seguindo a cronologia, começo com Lulu (Louise Brooks) a exuberante e demoníaca protagonista de “A caixa de Pandora” (Pabst, 1928), mulher má que não vê outros bens a sua frente que não sejam os materiais.

Louise Brooks am "A caixa de Pandora", 1928.

Louise Brooks am “A caixa de Pandora”, 1928.

Em “A dama das camélias” (George Cukor, 1936) a protagonista (Greta Garbo) também é uma cortesã, mas, com outro coração: o da mulher apaixonada que é abandonada e, só depois, enferma e decadente, receberá de volta o afeto que perdera.

Acho que poucos lembram que uma figura essencial entre os viajantes de “No tempo das diligências” (John Ford, 1939) é a prostituta Dallas (Claire Trevor), hostilizada durante a viagem, mas, de fato uma mulher do coração de ouro, afinal, a pretendente do herói Ringo Kid, feito por John Wayne.

Em “A ponte de Waterloo” (Mervyn Leroy, 1940) Vivien Leigh faz Myra, a mocinha que, durante a guerra foi obrigada a prostituir-se, e no retorno do seu amado (Robert Taylor) dos campos de batalha, vê-se no impasse de revelar seu passado sujo, ou… Bem, sua opção é a mais drástica.

"No tempo das diligências" (1939), Claire Trevor e John Wayne.

“No tempo das diligências” (1939), Claire Trevor e John Wayne.

O filme não deixa muito claro, porém, em “A um passo da eternidade” (Fred Zinnemann, 1953) aquelas mocinhas do Clube Social são de fato prostitutas, entre elas Lorene (Donna Reed) por quem o soldado Prew (Montgomery Clift) desenvolve afeto e é correspondido.

Já em “Vidas amargas” (Elia Kazan, 1955) não há dúvidas de que, aquilo que a ex-senhora Trask (Jo Van Fleet) mantém é um bordel. É a ela que o filho Cal (James Dean) ousa pedir dinheiro emprestado para ajudar ao pai em dificuldade financeira… E, bem, o desastroso corolário vocês conhecem.

Suponho que a prostituta mais querida do cinema seja Cabíria (Giulietta Masina), mulher pobre e sem dotes que, apesar de todos os muitos pesares, luta por uma vida digna. Cabíria, aquela que é capaz de sorrir quando não há mais nada… (Noites de Cabíria, Fellini, 1957).

Jo Van Fleet em "Vidas amargas" (1955)

Jo Van Fleet em “Vidas amargas” (1955)

Rindo da vida e de todos, a grega Ilya (Melina Mercouri) é uma mulher pra cima que acredita piamente em ´finais felizes´ e, por isso, não hesita em modificar os tristes desenlaces da mitologia de seus antepassados. A popular canção de “Nunca aos domingos” (Dassin, 1960) ajudou a eternizar sua figura.

Trágica mesmo é a Nadia (Anne Girardot) de “Rocco e seus irmãos” (Visconti, 1960), que se apaixona por um boxeur e, por isso mesmo, é morta por outro – querela entre irmãos imigrantes em uma Milão inóspita.

Já a sensação de quem assiste a “Bonequinha de luxo” (Blake Edwards, 1961) é que Holly Golightly mantém a profissão de prostituta, mas ´o filme não sabe´. Ora, Audrey Hepburn tomando café da manhã nas calçadas do Tiffany´s, ao som de ´Moon River´… quem se importa com o resto?

O sorriso na cena final de "Noites de Cabíria" (1957).

O sorriso na cena final de “Noites de Cabíria” (1957).

O lado light e hilário da chamada ´vida fácil´ vai ganhar ênfase em “Irma, la douce” (Billy Wilder, 1963), com uma Shirley MacLaine literalmente impagável no papel-título, junto do ex-policial bobão Jack Lemmon.

Nada light é a vida do médico que se apaixona por Mildred (Kim Novak) quando ela era apenas garçonete, e continua apaixonado, mesmo depois de traições consecutivas que culminam na opção pela prostituição. O filme é “Servidão humana” (Ken Hughes, 1964).

Se eu não incluísse neste breve rol de prostitutas da era clássica a protagonista de “A bela da tarde” (Buñuel, 1967), com certeza e com razão, o meu leitor iria reclamar. Séverine (Catherine Deneuve) é diferente porque – senhora burguesa e bem casada – não faz aquilo por dinheiro, mas, e daí?

Audrey nas calçadas do Tiffany´s em "Bonequinha de luxo" (1961.

Audrey nas calçadas do Tiffany´s em “Bonequinha de luxo” (1961.

Garota de programa, Bree (Jane Fonda) vê-se envolvida num complicado caso policial, junto com o detetive Klute, os dois vivendo um jogo de esconde-esconde, onde crime e sexo são sinônimos. Dirigido por Alan Pakula em 1971, o filme é “Klute, o passado condena”.

E que tal fechar a lista com mais um Fellini? Refiro-me à Gradisca (Magali Noel) de “Amarcord” (1973), filme que se encerra com sua melancólica despedida, para uma vida, sim, de casada.

Não tenho espaço para mais, e, além disso, não creio que as prostitutas do cinema dos anos setenta em diante já possam ser ditas “clássicas”.

"Servidão humana" (1964):   Kim Novak é a prostituta Mildred.

“Servidão humana” (1964): Kim Novak é a prostituta Mildred.

Que estranho chamar-se Federico

6 nov

Não veio ao circuito comercial local, mas, acabou de entrar na programação da TV paga o belo e comovente “Que estranho chamar-se Federico” (2013), filme-homenagem de Ettore Scola ao seu colega, amigo e compatriota Fellini.

O filme de um cineasta que amo sobre um cineasta que amo. Vocês não imaginam a ansiedade com que me preparei para ver, e a alegria com que o vi, a mesma com que escrevo.

Sem mais nem menos, “Que estranho chamar-se Federico” é o esperado, um filme com a sofisticação de Scola e a fantasia de Fellini, as duas coisas juntas e inconsúteis. Sim, porque o filme é sobre os dois, e não apenas um. De forma solta e imaginativa, sem se preocupar em ser documental, Scola faz questão de centrar-se na amizade e nos pontos de contato entre os dois, deixando o resto de lado.

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Para tanto, inventa um narrador que, primeiro se insinua como voz, e depois de corpo inteiro. Não um narrador qualquer, mas um que tem todo aquele jeito de personagem felliniano, inclusive, o de intrometer-se no narrado. Uma vez encontra-se num café da época e a garçonete vem lhe trazer a conta, e ele retruca que “sou o narrador, e narrador não paga”, ao que a moça responde que sim, senhor.

O filme começa com o mestre Fellini em sua cadeira de diretor, de costas para nós, olhando a paisagem a sua frente, que deve ser o mar de sua Rimini natal. E aí, magicamente, uma luz de cenário se acende, e passam a desfilar diante dele, dançarinos, saltimbancos, palhaços, acrobatas, tudo como se num show circense.

A partir daí, mas sem obedecer a cronologias, vai-se narrando episódios na vida do cineasta. O primeiro deles, e talvez o mais demorado, é a sua entrada na revista romana de humor “Marc´Aurelio”, como chargista. Seus desenhos e suas charges são motivos de pequenas encenações e o espectador tem a chance de constatar o cineasta inventivo que esses rabiscos prometiam.

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Seis anos depois, à mesma “Marc´Aurelio”, chega o jovem Ettore Scola, com o mesmo propósito, sendo aceito do mesmo modo. A essa altura Fellini já saíra do jornal e já fazia sucesso como cineasta premiado, mas isto não impede que os dois se encontrem e se tornem companheiros de trabalho e amigos. Até porque são muitos parecidos: como assegura o narrador, “ambos meio abstratos, sem jeito para atividades físicas, nunca chutaram uma bola, os dois apaixonados por desenho, pintura e cinema”.

E não podiam faltar os percalços. É o que se tem nos primeiros sketches de um Fellini ainda tateante, encenados no palco modesto de um teatro de revista: sem achar graça no humor dos textos, a platéia começa a jogar lixo no velho ator que performatiza o quadro. Claro, tudo muito felliniano!

Muitas das cenas em que os dois cineastas aparecem juntos soam como fictícias, sem que isso tenha propriamente importância. Para quem conhece a filmografia de Fellini, são, na verdade, cenas poeticamente necessárias, como aquela em que, numa noite qualquer, a dupla dá uma volta pelas ruas de Roma, e, na calçada das putas, oferece carona a uma delas, a qual, no banco de trás do carro, lhes relata quase toda a sua vida. Se se prestar atenção, nesse relato descontraído estão elementos que alimentariam muitos dos roteiros fellinianos, entre os quais o de “La strada”, ou de “Noites de Cabíria”.

Sempre o teatro de revista...

Sempre o teatro de revista…

Pontos comuns entre os dois também são pessoas. Marcelo Mastroiani, por exemplo. E o filme remonta a “A doce vida” para o qual o ator indicado pela produção era Paul Newman, e não o “tipo comum” (palavras de Fellini) Mastroiani, por sua vez, quase recusado, anos mais tarde, por Scola, para o seu “Casanova e a revolução”. Uma canja histórica são as verídicas ´auditions´ que Sordi e Gassman fizeram para ganhar o papel.

Uma das poucas cenas documentais é o funeral de Fellini que, encerraria o filme, não fossem os protestos dos produtores. E então, Scola dá um jeito de jogar em cena mais uma de suas licenças poéticas. Matreiro, Fellini dribla os dois enfeitados carabinieri que guardam o féretro, e às escondidas, escapole pelos becos da cidade, até chegar ao que queria, um carrossel onde vai se divertir feito menino. E com o movimento do carrossel vêm as imagens de seu mundo fantasioso, um caleidoscópio frenético com que dele nos despedimos a rever as cenas mais queridas de suas películas…

É claro que essa licença poética não foi exigência dos produtores. Com certeza, ela já estava no roteiro que o hoje idoso Scola bolou com a ajuda preciosa de suas duas filhas queridas, Paola e Silvia.

Em tempo: a frase que intitula o filme (no original: ´Che strano chiamarsi Federico´) é reprodução de um certo verso de um poeta espanhol que foi xará de Fellini: Federico Garcia Lorca.

O mestre Fellini.

O mestre Fellini.

Cinegenia

28 out

Vamos aprender uma palavra nova? É um neologismo do mundo cinematográfico, mas, na verdade, tardio, pois já devia ter sido inventado há muito tempo. Hoje em dia usado por estudiosos da sétima arte, a palavra é “cinegenia”, com o seu adjetivo “cinegênico”.

É fácil de entender por comparação. De uma pessoa que se sai bem ao ser fotografada não se diz que é fotogênica? Pois cinegênica seria a pessoa que se sai bem ao ser filmada. E não esquecer que entre fotogenia e cinegenia está uma coisa essencial em cinema, que é o movimento.

A existência do termo (e do conceito, evidentemente) se justifica pelo fato de que – assim como no caso da fotografia – há pessoas que são cinegênicas e há outras que não o são. Além disso, vale lembrar que cinegenia não coincide, necessariamente, com beleza: nem todos os belos são cinegênicos e nem todos os cinegênicos são belos.

Giulietta Massina

Giulietta Masina

Exemplos? Um que me ocorre de chofre é o da atriz italiana Giulietta Masina. Ninguém diria que ela é bela, sequer bonita, e, no entanto, há rosto mais cinegênico? Lembrem sua carinha pintada de palhaço em “A estrada da vida” (La strada, 1954) ou borrada de lágrimas em “Noites de Cabíria” (Le Notte di Cabiria, 1957) e concordem comigo. E aqui – como, aliás, nos exemplos a seguir – não se trata só de rosto, mas do todo, corpo, poses e gesticulações.

Nos velhos tempos do Free Cinema inglês, começo dos anos sessenta, surgiu uma atriz que, por todos os critérios seria considerada feia: Rita Tushinham, lembram dela? Fazia parte daquele movimento cinematográfico colocar na tela ´gente comum como a gente´. O rosto comum de Rita, porém, é, independente de seu talento de atriz, extremamente expressivo na tela, ou seja, cinegênico. Para conferir revisite filmes como “Um gosto de mel” (“A taste of honey”, 1961), “Um amor sem esperanças (“Girl with green eyes, 1964), “A bossa da conquista” (“The nack and how to get it”, 1965).

No cinema brasileiro há casos assim, digo, de atrizes que, não sendo propriamente bonitas, são ou foram, cinegênicas ao extremo: Maria Ribeiro (de “Vidas secas”, 1963), Miriam Pires (“Chuvas de verão”, 1977), Dina Sfat (“Macunaíma”, 1969) e Isabel Ribeiro (“São Bernardo”, 1972), são exemplos que me ocorrem no momento em que escrevo.

A inglesa Rita Tushingham, atriz do Free Cinema.

A inglesa Rita Tushingham, atriz do Free Cinema.

No cinema americano mais recente me vêm pelo menos dois casos: Frances McDormand (revejam “Fargo”, 1996, ou “Mississipi em chamas”, 1988) e Kathy Bates (“Tomates verdes fritos”, 1991, “Louca obsessão”, 1990, etc). No passado talvez seja o caso de se falar em Joan Crawford. Ou Bette Davis seria um exemplo melhor?

Entre os homens, a mesma coisa. No cinema clássico americano ninguém deve ter sido mais feio que Karl Malden, com aquele narigão de bola, olhos apertados e boca miúda. E, no entanto, quando seu rosto aparecia na tela prendia a atenção, e os motivos eram cinegênicos. Lembrem dele como o padre angustiado de “Sindicato de ladrões, 1954, como o marido traído de “Boneca de carne”, 1956, ou como o mineiro mau caráter no western “A árvore dos enforcados”, 1958.

Outro feioso para quem a gente gostava de olhar era o sempre coadjuvante Peter Lorre, normalmente em papéis meio sórdidos, como foram os seus em “Casablanca” (1942), “Relíquia macabra” (1940), “Este mundo é um hospício” (1944), “Zona proibida” (1949), “Muralhas do pavor” (1962) e tantos outros.

O americano Karl Malden e seu nariz de bola

O americano Karl Malden e seu nariz de bola

Estou falando de pessoas, mas, o conceito de cinegenia, claro, também vale para outros seres: objetos, armas, edifícios, construções, paisagens, etc. – uns mais estáticos outros menos, mas todos sempre explorados pela mobilidade da câmera.

Entre os meios de transporte, por exemplo, não conheço um que seja mais cinegênico que o trem. Pensem em cenas fílmicas com trens e, mais uma vez, concordem comigo. E vejam que tudo começou com os irmãos Lumière, em 1895, com um trem chegando à estação e fazendo os espectadores correrem com receio de serem atropelados. Depois disso, os cineastas vindouros descobriram que a câmera cinematográfica era apaixonada por trens… E o resto da história vocês conhecem. Eu mesmo cheguei a redigir um longo ensaio, publicado neste Correio das Artes, em que analiso a presença do trem no cinema de todos os tempos.

Acho que um navio não é tão cinegênico, e muito menos um automóvel. Tudo bem, concordo em que a relação do objeto filmado com a câmera pode incrementar a cinegenia. As diligências de John Ford eram incrivelmente cinegênicas, é verdade.

O trem, personagem central de

O trem, personagem central de “A General”.

Na categoria das paisagens é fato que os desertos e colinas do Oeste americano ficavam muito bem nas mãos hábeis de diretores como Raoul Walsh, Anthony Mann e Howard Hawks, mas, a terra esturricada do nordeste brasileiro em “Vidas secas”, também é impressionantemente cinegênica.

O mar pode ser muito cinegênico, a depender do cineasta. Recordo – só para não deixar de dar exemplos – as ondas avassaladoras que quebram por cimas das rochas no documetário de Robert Flaherty “O homem de Aran” (1934) ou, no melodrama hollywoodiano “Sagrado e profano” (1947) ou no drama adúltero de David Lean “A filha de Ryan” (1970). Quanto ao deserto, ninguém tem mais dúvidas se é cinegênico depois de ter visto “Lawrence da Arábia” (1962).

Já com a paisagem citadina a coisa complica. Num filme noir, preto e branco, ruas estreitas, calçadas molhadas e becos mal iluminados são extremamente cinegênicos, porém, se o filme, nesse gênero, é colorido o efeito pode ser outro. Ainda hoje se discute, por exemplo, se o colorido gritante de “Amar foi minha ruína” (“Leave her to Heaven”, 1947) dá certo com sua temática sombria e criminosa.

A cor gritante de

A cor gritante de “Amar foi minha ruína” num filme noir.

Para não deixar de fora os objetos, lembremos o telefone, imagem recorrente no suspense de William Castle “Eu vi que foi você” (1965), ou seu efeito perturbador na  cena final de “Assim estava escrito” (1952), o drama de Vincente Minnelli sobre os feios bastidores de Hollywood. Outros objetos marcantes: a gravata em “Frenesi” (Alfred Hitchcock, 1972), ou os sapatos em “Pacto sinistro (1951) do mesmo diretor. Neste mesmo viés icônico, o relógio pode ser lembrado em dois westerns muitos parecidos: “O matador” (Henry King, 1950) e “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann, 1952). O chapéu, no caso feminino, tem uma significação especial em “Testemunha de acusação” (Billy Wilder, 1956) e “Bonequinha de luxo” (Blake Edwards, 1963). E por falar em moda, destaco os muitos vestidos que Madeleine/Judy Barton (ambas Kim Novak) usam em “Um corpo que cai” (1958). Mesmo se você não é ligado em indumentária, sai do cinema com a imagem na cabeça. Isto para não falar no coque de Carlotta Valdez, que tem os mesmos contornos centrípetos da vertigem de John Ferguson, o personagem de James Stewart.

Bem, como é possível que a cinegenia (tanto quanto a beleza em Platão) dependa dos olhos de quem vê, o jeito é conceder ao leitor o direito de duvidar dos meus exemplos… e escolher os seus.

Lágrimas no escuro

9 maio

Muitas vezes me perguntam se, no ato de assistir a um filme, já mantenho, sentado à poltrona do cinema, uma postura crítica que observa, analisa e julga do modo mais frio e impessoal.

Sempre dou a mesma resposta, que geralmente surpreende os meus interlocutores: ao ir ao cinema – ou, em casa, ao ligar o aparelho de DVD, tanto faz – me dispo completamente de minha “farda de crítico” e me entrego ao filme, de corpo, alma e coração, para o que der e vier. E o que der e vier pode ser quaisquer reações humanas, inclusive as demasiado humanas.

Só mais tarde, como diria o poeta inglês, “recollected in tranquility”, revejo mentalmente o filme e, se porventura valeu a pena, me concentro na sua análise, interpretação e avaliação.

Acima não listei as reações que posso ter a um filme, mas me sinto na obrigação moral de dizer que são todas que acometem o mais ingênuo e despreparado espectador.

Uma delas, por exemplo, é o choro. Sim, alguns filmes me fazem chorar, tanto que as lágrimas atrapalham, não apenas a minha visão, mas também a minha suposta habilidade de discernimento.

Sorriso triste: "Noites de Cabíria" (Fellini, 1957).

Sorriso triste: “Noites de Cabíria” (Fellini, 1957).

Querem ver? Nunca consegui assistir à cena final de “Noites de Cabíria” (Fellini, 1957) sem derramamento de lágrimas, e mesmo agora, relembrando a cena para aqui reconstituí-la, sinto vontade de chorar.

Acho que Fellini foi um bocado malvado ao conceber aquele desenlace para Cabíria; malvado com ela e com o espectador. A pobrezinha vinha sofrendo um golpe atrás do outro, e este final é, literalmente, insuportável. Era para ter sido o momento sublime em que, apesar dos golpes sofridos, ela voltaria a acreditar no amor, e no entanto, o seu “príncipe encantado” se revela, no bosque escuro, à beira do abismo,… um ladrão que foge com seus bens. Na manhã seguinte, ao se ver rodeada de jovens alegres que cantam, tocam e dançam ao seu redor, Cabíria ainda esboça um sorriso, mas…

Em “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946) George Bailey é um pai de família endividado que, em noite de natal, não vê saída a sua frente, a não ser o suicídio. Ao tentar o gesto fatídico, alguém se intromete no cenário e a estória toma um rumo inesperado e estranho. Enfeitiçado pela mágica do anjo Clarence, George procura os seus na cidade e não encontra: nesse mundo tenebroso que ele desconhece, a esposa, Mary, virara uma solteirona neurótica, a mãe, uma dona de bordel, e o irmão era um nome num túmulo… Em determinado momento de completo desespero, sem saber o que fazer ou para onde ir, ele se dirige à tela (sim, a nós) como se a pedir socorro. Esse momento me entala e….

Um mundo tenebroso para George Baily: "A felicidade não se compra".

Um mundo tenebroso para George Baily: “A felicidade não se compra”.

Em “Desencanto” (David Lean, 1945) Laura é uma simples dona de casa, com dois filhos menores, um marido obtuso e uma vida sem imaginação pela frente; toda quinta-feira ela pega um trem para a cidade vizinha, onde termina por conhecer esse médico também casado que…. A cena em que essa mulher, apaixonada fora do casamento, é levada pelas circunstâncias da vida a retornar ao marido que não ama e, sentada à poltrona da sala, depois de recordar toda uma estória de amor, escuta este lhe dizer que está grato por ela ter saído do seu “pesadelo” e voltado para os seus braços: tudo isso ao som de Rachmaninoff…

Nunca escrevi ensaios críticos sobre estes filmes, e se alguma vez o fiz, não fiquei satisfeito com o texto. É que minha reação emocional inevitavelmente interfere no exercício da análise e, afinal de contas, prefiro deixá-los intactos. Aliás, sequer os revejo com frequência, pois, na minha religião de cinéfilo, são ícones sagrados, para os quais a visitação constante poderia soar como profanação.

De volta à vidinha doméstica: "Desencanto", de David Lean.

De volta à vidinha doméstica: “Desencanto”, de David Lean.

Na verdade, não são muitos os filmes que me fazem chorar e os que fazem são todos antigos, da primeira metade do século passado. O cinema moderno nunca me arrancou uma lágrima, não sei se o problema é meu ou dele. Nem sei se é problema.

O efeito do choro está ligado a um gênero, o melodrama, um gênero que perdeu prestígio com o advento da modernidade.

Não sei até que ponto os três filmes mencionados podem ser chamados de melodramas, mas, de uma coisa sei: são filmes grandes demais para caberem em gêneros.

Meus dez

4 abr

Não tem jeito: cinéfilo que se preza adora fazer a sua listinha de filmes preferidos, e o número padrão é dez.

No mundo literário pode ser diferente, mas, no território do cinema, o hábito é tão generalizado que até os profissionais da crítica se entregam a ele, aproveitando para, no cruzamento dos escolhidos por muitos, elegerem os melhores filmes do mundo. A mais prestigiada dessas listas internacionais é a da Revista inglesa “Sight & Sound” que, a cada dez anos, desde 1952, apresenta os dez filmes mais perfeitos já feitos em todos os tempos e espaços, e isto em ordem qualitativa.

Mas, no caso dos espectadores comuns, digo, não-profissionais, ninguém quer saber de perfeição, e as escolhas recaem mesmo sobre o gosto pessoal… e pronto!

Todos, ou quase todos, os meus amigos cinéfilos têm a sua listinha e eu não fujo à regra. A depender do cinéfilo e de suas idiossincrasias, a lista pode ser fixa, imutável, ou pode ser mais ou menos flexível, móvel. No meu caso, acho que fico numa espécie de meio termo: entre os meus dez preferidos, uma parte é fixa e outra vem se modificando com o passar do tempo e do meu processo constante de revisitação fílmica.

Por coincidência, há poucos dias, me caiu nas mãos um número da Revista “A Tela Demoníaca”, onde, no ano do centenário do cinema, 1995, dei entrevista à jornalista Thamara Duarte, e lá ela me cobrava a minha dezena preferida. Pois, cotejando a lista que divulguei à Thamara na época – portanto, dezoito anos atrás – com a atual, a que tenho na cabeça agora, constato o que já disse acima: seis filmes permanecem os mesmos nas duas listas e quatro, saíram para dar lugar a outros. Os que saíram, não porque os ame menos, mas porque outros se impuseram ao meu afeto com maior força, são: “Luzes da cidade”, “Crepúscuplo dos deuses”, “Morangos silvestres” e “Jules et Jim”.

Em ordem cronológica (e não hierárquica), e seguidos de alguns dados da ficha técnica, eis, portanto, a quem interessar possa, a lista atual dos meus dez filmes mais amados.

Casablanca (Idem, 1942), de Michael Curtiz, com Ingrid Bergman e Humprhey Bogart.

1 Casablanca

Desencanto (Brief encounter, 1945), de David Lean, com Celia Johnson e Trevor Howard.

2 brief encounter

A felicidade não se compra (It´s a wonderful life, 1946), de Frank Capra, com Donna Reed e James Stewart.

3 its a wonderful life

Um lugar ao sol (A place in the Sun, 1951) de George Stevens, com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift.

4 a place in the sun

Matar ou morrer (High Noon, 1952) de Fred Zinnemann, com Grace Kelly e Gary Cooper.

5 high noon

Janela indiscreta (Rear window, 1954) de Alfred Hitchcock, com Grace Kelly e James Stewart.

6 rear window

Vidas amargas (East of Eden, 1955) de Elia Kazan, com James Dean e Raymond Massey.

7 east of eden

Noites de Cabíria (Le notti di Cabíria, 1957) de Federico Fellini, com Giulietta Masina.

8 le notti di cabiria

Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960) de Billy Wilder, com Shirley MacLaine e Jack Lemmon.

9 the apartment

O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valence, 1962) de John Ford, com Vera Miles e James Stewart.

10 the man...

Como se percebe, não são os filmes mais destacados na história do cinema, e não foram escolhidos pela importância, e sim, por motivos subjetivos. Que motivos são estes, nem eu mesmo sei, e acho que até meu analista – se eu tivesse um – teria dificuldade em dizer. Em uma coisa ao menos creio que todos concordam: a nenhum deles falta qualidade artística. O que deve chamar a atenção do leitor desta matéria são as datas. De fato são filmes antigos, quase todos da primeira metade do Século XX. Nisso sou, sim, um assumido “classicista” que encontra certa dificuldade em empolgar-se com a produção contemporânea.

Uma angústia de quem elabora sua lista é, pressionado pela restrição numérica, ter que deixar de fora tantos filmes maravilhosos. Como pude retirar, da lista anterior, “Crepúsculo dos deuses”? Meu pretexto é que o substituí por outro do mesmo autor, “Se meu apartamento falasse”. Como manter fora filmes como “Aurora”, “O anjo azul”, “Os incompreendidos”, “A balada do soldado” “Rocco e seus irmãos”, “Vidas secas”? Em outras palavras, não dá para escapar do efeito “escolha de Sofia”.

Enfim, os meus dez escolhidos são estes, com tendência – confesso – a tornar-se esta lista imutável a partir de agora.

E você, caro leitor, quais são os dez filmes que você mais ama? Comente esta matéria, apresentando a sua lista. Que tal?

O terceiro velho

2 out

Apesar da expressão popular que a denomina, aquela profissão feminina – também conhecida como a mais antiga do mundo – não é nada fácil. Daí tanto render, nas artes, o seu potencial de dramaticidade, especialmente na literatura e no cinema.

Pobrezinha como Cabíria (“Noites de Cabíria”, 1957) ou sofisticada como Holly (“Bonequinha de luxo”, 1961), circunstancial como Myra (“A ponte de Waterloo”, 1940) ou vocacionada como Irma (“Irma la douce”, 1963), a figura da prostituta foi sempre uma fonte de inspiração para criadores de imagem.

É do que me lembro ao ver o belo curta de Marcus Vilar “O terceiro velho” (2013), exibido no dia 10 de setembro em João Pessoa, e ampla e merecidamente premiado no VII Comunicurtas de Campina Grande.

Marcus Vilar, autor do curta "O terceiro velho" (2013)

Marcus Vilar, autor do curta “O terceiro velho” (2013)

Claro, como se trata de um curta-metragem de 15 minutos, não há tempo para o desenvolvimento das caracterizações, nem possibilidade de aprofundamento psicológico dos personagens, nem isso é esperado do gênero. Conforme o numeral do título sugere, o enredo se limita a uma única noite na lida profissional dessa jovem prostituta da orla pessoense, que, ao contrário dos seus jovens fregueses habituais, nessa noite em particular experimenta a coincidência de acolher três homens idosos. Uma vez que velhice e sexo não são propriamente isótopos, a noite dessa jovem mulher vem a ser particularmente estranha.

Para os dois primeiros, que aparecem juntos, ela executa um strip tease na frente do carro de faróis acessos, enquanto, lá dentro, os dois se divertem e se satisfazem com o show. Já a aventura com o terceiro (notem que o titular da estória toda), é mais misteriosa. Se com os dois primeiros o caso tendera mais ao patético, agora a inclinação é para o funesto, e a performance implica, dentro de um ambiente fechado, vestidos de noivas, velas e esquifes.

Embora o maior tempo de tela seja dado a essa jovem prostituta, é esse personagem titular que ganha força temática e imaginativa, ao se fechar a narrativa. Em cena que toma a segunda metade do filme, testemunhamos o seu ritual (um prazer dolorido que beira a necrofilia) e, depois que a moça sai, ouvimos o estampido de um revólver, porém, nenhuma informação diegética nos ajuda no desvendamento do mistério.

Kassandra Brandão faz garota de programa que atende aos três velhos na mesma noite

Kassandra Brandão faz garota de programa que atende aos três velhos na mesma noite

Para dizer a verdade, assim como o conto adaptado (“O terceiro velho da noite” do escritor sergipano Antônio Carlos Viana), o filme vive de lucunas e esse vazio mesmo faz parte de sua proposta semiótica. Quem é esse senhor idoso que paga a uma profissional do sexo para, junto com ela, executar um ritual fatal? Quem seria a mulher, amada ou não, que a jovem prostituta é obrigada a representar dentro do vestido e do esquife? Por que aquele vestido, e por que o ritual mesmo, executado daquela forma e não de outra? E – pergunta mais difícil – por que o tiro? O espectador, bem como o leitor do conto, é deixado com as mais variadas possibilidades de preenchimento da estória, da forma que mais lhe aprouver. A mais radical seria fazer um novo filme, ou escrever um novo conto. De qualquer forma, um exemplo típico daquilo que, em teoria da narrativa, se chama de final aberto.

O conto de Viana é narrado em primeira pessoa verbal, e por isso, a personagem feminina, nele, nos parece mais próxima, mais íntima. Do seu discurso, ficamos conhecendo as suas impressões sobre o que está vivenciando na ocasião, os seus temores e os seus desejos – embora, obviamente, esse discurso em nada ajude a explicar o comportamento do terceiro velho. Imagino que os roteiristas do filme, Vinicius Rodrigues e o próprio Marcus Vilar, devem ter lutado com esse nível de subjetividade na fala da personagem, para passar, na tela, e sem a chatice da voz over, a imagem de uma figura feminina que atraísse o espectador, por razões não apenas eróticas – e acho que conseguiram o equilíbrio entre as duas feições diversas que o filme assume, a documental (a vida da prostituta) e a ficcional (o núcleo temático em torno do personagem titular) – aquela primeira feição, no caso, acentuada pela modificação do cenário, de algum lugar indefinido no conto, para a orla pessoense no filme.

Todos os atores estão ótimos e o filme é um bom exemplo do nível de qualidade que o áudio-visual paraibano vem atingindo nos últimos tempos. Nele destaco, ainda, a escolha da fotografia em preto-e-branco, bem mais efetiva do que se a equipe tivesse optado por algum colorido sombrio, ou, num caso extremo, por aquele recurso chamado de “noite americana”, em que se filma de dia, escurecendo a imagem com lentes opacas. Nesse particular, não se pode deixar de notar o trabalho de câmera e iluminação de João Carlos Beltrão, fundamental num filme de ambientação noturna e, mais que isso, de certa evocação fantasmal, onde luzes e sombras ganham estatuto temático.

Acima disse que velhice e sexo não cabem dentro da mesma isotopia. “O terceiro velho” deixa a questão no ar – mais uma.

O diretor e parte do elenco do filme

O diretor e parte do elenco do filme