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The gracious little daughter is back

10 set

Em cartaz “Que horas ela volta?” (2015), filme da diretora brasileira Anna Muylaert que já arrebanhou prêmios no Exterior, e agora vem tendo boa aceitação de público e crítica em território nacional. De minha parte, sou admirador de Muylaert desde o ótimo “Durval discos” (2002) e este seu filme atual só aumentou a minha admiração.

Em roteiro caprichado, trata da situação de Val, essa simplória empregada doméstica de origem nordestina que mora na residência dos patrões paulistanos, no chique Morumbi. Há 13 anos no emprego, Val é “uma pessoa da casa” que ajudou a criar o único filho da família, Fabinho, por quem nutre um carinho de mãe, e é plenamente correspondida.

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Conflitos de classe não os há, ou se há, nunca vieram à tona. Isto até o dia em que aparece Jéssica, a filha de Val, que crescera em Pernambuco, criada por parentes. Moça instruída e esclarecida, vem a São Paulo para prestar vestibular e – a contragosto – fica no local de trabalho da mãe. Inevitavelmente, a sua presença “diferente” (palavra da mãe) acorda todos os conflitos de classe, antes convenientemente adormecidos em berço de ouro.

Tudo já começa no dia de sua chegada, quando ao invés de acomodar-se no pequeno e desumano quartinho de empregada, ela se instala no quarto de hóspedes da casa. Depois vêm o acesso à mesa da família, o consumo do sorvete mais caro, o banho proibido na piscina, e um monte de outros pequenos detalhes que insuflam indignações: as da dona da casa, e as da própria Jéssica. Até a inevitável ruptura.

Um ponto crítico está bem sinalizado no dia em que, não conseguindo o apartamento onde pretendiam morar, mãe e filha retornam, desoladas, à chique residência dos patrões. “The gracious little daughter is back”: é com esta sarcástica frase em inglês (´a graciosa filhinha está de volta´) que, na presença de Val, Bárbara comunica ao marido o retorno da moça. Val não entende inglês, mas deve ter sentido que falar língua estrangeira na presença de quem não entende é uma atitude deliberadamente hostil.

A piscina proibida

A piscina proibida

Mas os conflitos de ordem social não são os únicos no filme de Muylaert. Também há os conflitos interiores, especialmente aquele relativo às relações maternas e filiais, expresso na pergunta que intitula o filme. Vejam que há dois momentos bem diferentes em que a tal pergunta é enunciada no diálogo entre os personagens e sempre sem resposta. Uma sequência inicial, retrospectiva, mostra Val cuidando de Fabinho, ainda pequeno, lhe dizendo que a mãe está fora, e ele, então, formula justamente a pergunta “Que horas ela volta?”. Depois disso, quase no final do filme, quando mãe e filha já estão acomodadas em seu novo e próprio lar, um modesto apartamento de periferia, uma Jéssica rancorosa relata à mãe que toda vez em que esta ia visitá-la em Recife, e imediatamente retornava a São Paulo, ela, pequena e chorosa, perguntava aos que dela cuidavam: “Que horas ela volta?”. São, portanto, duas mães que, por razões pessoais, deixaram os filhos a mercê de outrem: Bárbara, a rica patroa, e Val, a pobre empregada.

Tudo indica que a estória do abandono filial se repetiria pós-tela, com a própria Jéssica que – nós e Val ficamos sabendo no final do filme – deixara um filho pequeno em Pernambuco. Digo, se repetiria, porque o filme termina com a decisão heróica de Val de criar o neto – uma espécie de compensação pelo involuntário e doído “abandono” da filha.

A família paulistana à mesa.

A família paulistana à mesa.

De qualquer forma, não há dúvidas de que Val, a empregada doméstica, é o personagem central do filme, aliás, a única que cresce ao longo da estória. Bárbara, a patroa, permanece igual a si mesma do início ao fim, e Jéssica, idem. É Val quem aprende a lição que o filme contém: é ela quem, no final, pode se dizer revolucionariamente, mete os pés na piscina proibida, e é ela quem furta o conjunto de talheres com que um dia presenteara a patroa irreconhecida. Se porventura era a sua postura sempre indistinta entre cumprimento de dever e submissão o que fazia os melhores efeitos cômicos do filme (excelente interpretação de Regina Casé), é o seu definitivo crescimento moral que vai dar ao desenlace o tom mais dramático, expresso em sua auto-demissão.

Na verdade, o filme de Muylaert é rico e permite muitas leituras. Uma delas pode ser política, se você quiser. E há pistas muito claras para isto. Por exemplo: logo após a chegada de Jéssica à mansão do Morumbi, D. Bárbara, um pouco admirada com o nível de esclarecimento da filha da empregada nordestina (que mais tarde seria aprovada no vestibular, e seu filho paulistano, não) comenta, quase de si pra si: “é, parece que o país está mudando mesmo…”.

Deixo aos mais aptos que eu o desenvolvimento desta leitura.

Regina Casé em desempenho premiado. (Sundance Film Festival).

Regina Casé em desempenho premiado. (Sundance Film Festival).

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A história da eternidade

28 dez

Cenário de miséria e grandeza, desde há muito o sertão do Nordeste, esse locus nada amoenus, vem sendo fonte de inspiração para cineastas brasileiros, nordestinos ou não.

Pode ser um sertão pretérito, só lembrado, como em “O cangaceiro” e tantos outros filmes nacionais, ou um sertão de hoje em dia, como está no recente “A história da eternidade” (2014) do pernambucano Camilo Cavalcante.

Apesar do título, o filme de Cavalcante não conta uma história cosmológica ou metafísica. Conta apenas a estória de três mulheres de faixas etárias diferentes, que, num lugarejo qualquer do pobre interior nordestino, vivem dramas simultâneos, cada um deles com sua tragicidade particular, os três explodindo num mesmo momento diegético.

Cena de abertura de "A história da eternidade"

Cena de abertura de “A história da eternidade”

Dona Das Dores é uma senhora idosa, extremamente devota, que vive sozinha no seu casebre, e que é responsável pelos serviços religiosos do lugar. Um dia D. Das Dores recebe a visita do neto, advindo de São Paulo, um rapaz de cabelo pintado e de tatuagem nos ombros, cheio da ginga urbana que Das Dores desconhece.

Já Querência é uma mãe de meia idade que acabou de enterrar um filho pequeno e subsiste inconformada com a perda, deprimida e isolada entre quatro paredes. No seu luto escuro, não pensa em nada mais e até o cego sanfoneiro que todo dia lhe faz a corte, soa como algo inviável.

Quanto a Alfonsina, esta é uma adolescente que mora numa casa cheia de homens – o pai autoritário e muitos irmãos – mas que se sente atraída pelo tio vizinho, um artista tresloucado que choca o povoado com suas performances extravagantes. Com sua magia de artista, o tio chega um dia a fazer com que “o sertão vire mar” para a sobrinha imaginosa, porém, a moça parece querer mais que isso.

A atriz Débora Ingrid em cena do filme

A atriz Débora Ingrid em cena do filme

Como são três protagonistas, o filme se faz também tripartite. A apresentação da situação inicial dessas mulheres nos é dada numa primeira parte 1, chamada “pé de galinha”. Na parte 2 (“pé de bode”) os conflitos tomam forma, prometendo o beco sem saída da parte 3, esta mui apropriadamente chamada de “pé de urubu”.

O que acontece a essas mulheres? Não devo contar tudo, para não tirar o sabor a quem ainda não assistiu a esse filme intrigante e perturbador, e fico apenas com os elementos que apontam para o trágico desenlace.

Fuçando a bolsa do neto, D. Das Dores descobre revistas eróticas que mexem com seu velho corpo, o qual, apesar dos castigos aplicados por ela mesma, passa a desejar o corpo do neto. Querência, por sua vez, decide aceitar o amor do renitente sanfoneiro cego, porém, no dia seguinte desaparece do lugar. Já Alfonsina, depois de mais uma crise epiléptica do tio artista, a ele se entrega, em que pese a  relutância do amante… Notar que, em cada caso, o estopim que fará o desenlace explodir é um gesto de amor, bem simetricamente, o gesto de uma mulher que, sejam quais forem seus motivos de foro íntimo, se entrega a um homem.

A religiosa Dona Das Dores, na capela

A religiosa Dona Das Dores, na capela

Enquanto estamos na parte 1, o filme, de planos demorados e ações igualmente lentas, parece disperso, como se não estivesse sabendo como amarrar cenas tão diferentes entre si. É no “pé de bode” e, sobretudo no “pé de urubu” que o filme vai tomando conta do espectador e lhe fazendo crer estar diante de algo novo, pouco praticado no cinema brasileiro, quando a temática é Nordeste.

Sim, o filme nos prende pelo seu enredo, intricado, mas verossímil e convincente, principalmente por ser desenvolvido em um crescendo perfeito, que quase pode se dizer geométrico… até o final culminante. Prende-nos também pela verdade interior dos personagens, mas, um algo mais que o filme generosamente nos oferta é o seu simbolismo, sugerido nos animais que identificam suas partes, mas também em elementos que estão na diegese de modo aparentemente casual.

Zezita Mattos é a atriz brilhante que faz o papel de Das Dores

Zezita Mattos é a atriz brilhante que faz o papel de Das Dores

Um exemplo particularmente sintomático é o da tempestade que, no final, desaba sobre o lugarejo, como a liberar as forças – maléficas e/ou benévolas – contidas nos espíritos dos seus viventes, tantos os protagonistas como os coadjuvantes, inclusive os que nunca vemos, como os do automóvel que chega e parte, deixando no ar um disparo de revólver. Num filme convencional sobre a lida nordestina, a chuva torrencial seria necessariamente um fator de euforia: aqui sua ambiguidade (a mesma que está nos poemas recitados pelo tio artista) é fundamental.

Um dos pontos altos do filme está nas interpretações, todas ótimas, mas aqui ressalto o magnífico trio feminino que faz as protagonistas: Zezita Mattos (D. Das Dores), Marcélia Cartaxo (Querência) e Débora Ingrid (Alfonsina).

Enfim, um grande filme, destinado a ficar na história da eternidade do cinema brasileiro.

Em tempo: “A história da eternidade” foi exibido no Fest-Aruanda, na sessão de encerramento do festival.

A premiação de "A história da eternidade".

A premiação de “A história da eternidade”.