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Ano Novo no escurinho

30 dez

Fazer retrospectivas, vestir branco, soltar fogos, bolar projetos privados, abraças os entes queridos… Para a maior parte das pessoais a passagem do ano é uma data emblemática e muito importante.

Tanto é assim que o cinema, arte popular, sempre aproveitou-se do potencial dramático da data para, em um filme ou outro, criar cenas comoventes, ficcionalizando a morte do ano velho e o nascimento do ano novo, com todo o simbolismo místico do evento.

Desde a era muda, roteiristas, cineastas e produtores investem nessas cenas, com os resultados mais díspares. Até porque elas, as cenas, cabem muito bem em comédias, musicais, aventuras, melodramas, policiais, ficções científicas, e outros gêneros, até mesmo terror.

Ginger Rogers e Joseph Cotten em "Ve-te-ei outra vez".

Ginger Rogers e Joseph Cotten em “Ver-te-ei outra vez”.

Aproveito a ocasião e pergunto ao leitor – nos filmes que você viu que continham cenas de Ano Novo, quais as mais tocantes, e porventura, inesquecíveis?

Se me for permitido, começo mencionando cinco ou seis exemplos que perduram na minha imaginação de cinéfilo.

O primeiro é do tempo do cinema mudo e está em “Em busca do ouro” (“The gold rush”, 1925, Charles Chaplin) onde se vê o vagabundo Carlito desolado, em pleno inferno gelado do Alasca, comemorando a data com um pouco de inocente pantomima.

Charles Chaplin em cena de "Em busca do ouro".

Charles Chaplin em cena de “Em busca do ouro”.

A segunda cena tampouco fica atrás em desolação. No palácio meio assombrado da Av Sunset Boulevard, em Los Angeles, a atriz decadente Norma Desmond (Gloria Swanson), seu amante comprado e o mordomo taciturno não têm muito o que comemorar… O filme, naturalmente, é “Crespúsculo dos deuses” (Billy Wilder, 1950).

A terceira cena vai ser no melodrama de Leo McCarey, “Tarde demais para esquecer” (“An affair to remember”, 1957) com Cary Grant e Deborah Kerr, separados por um acidente de automóvel, cada um pensando num encontro que não aconteceu no terraço do Empire State Building.

Cary Grant e Deborah Kerr em cena de "Tarde demais para esquecer".

Cary Grant e Deborah Kerr em cena de “Tarde demais para esquecer”.

Outra cena marcante acontece dentro de um transatlântico, com tripulação e passageiros na maior euforia, comemorando a passagem de ano, enquanto, do teto do navio, já começam a pingar as primeiras gotinhas da onda gigante que vai pôr tudo de cabeça para baixo. Ufa! (“O destino do Poseidon”, “The Poseidon adventure, 1972, Ronald Neame).

Uma outra cena de que gosto muito parece muito festiva, mas não é. Em “Retratos da vida” (“Les uns et les autres”, Claude Lelouch, 1981), durante a ocupação da França pelos nazistas, num grande réveillon, uma francesinha ingênua e um soldado alemão brindam com champanhe, um brinde que, obviamente, prediz infortúnios a vir.

Harry e Sally entre brigas e beijos...

Harry e Sally entre brigas e beijos…

E fecho meus exemplos com um caso que até os leitores mais jovens recordam. Também numa festa de réveillon, um rapaz chamado Harry e uma moça chamada Sally, discutem e discutem, para depois trocarem aquele beijo cinematográfico que a plateia ansiosamente aguardava. (“Harry e Salley – feitos um para o outro”, Rob Reiner, 1989).

Para refrescar memórias, cito mais alguns títulos de filmes em que o réveillon se intromete, com maior ou menor consequência semântica, ou estética. Para facilitar a identificação, o faço em ordem cronológica. Você pode não lembrar que estes filmes contêm cenas de Ano Novo, mas, contêm.

Celebrações em "Duas semanas de prazer", 1942.

Celebrações em “Duas semanas de prazer”, 1942.

 

Boêmio encantador (Holliday, 1938)

Duas semanas de prazer (Holliday Inn, 1942)

Ver-te-ei outra vez (I´ll be seeing you, 1944)

Sementes da violência (Blackboard jungle, 1955)

Onze homens e um segredo (Ocean´s eleven, 1960)

A máquina do tempo (The time machine, 1960)

Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960)

O poderoso chefão II (The godfather II)

À procura de Mr Goodbar, (Looking for Mr Goodbar, 1977)

Trocando as bolas (Trading places, 1983)

Entre dois amores (Out of Africa, 1985)

A era do rádio (Radio Days, 1987)

Susie e os Baker Boys (The fabulous Baker Boys, 1989)

Sintonia de amor (Sleepless in Seattle, 1993)

Forrest Gump –  o contador de histórias (1994)

Na roda da fortuna (The hudsucker Proxy, 1994)

Prazer sem limites (Boogie Nights, 1997)

Réveillon patético em "Crepúsculo dos Deuses".

Réveillon patético em “Crepúsculo dos Deuses”.

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Marguerite

4 jul

Um dos melhores itens da atual versão do Festival Varilux de Cinema Francês foi, com certeza, “Marguerite” (Xavier Giannoli, 2015), filme por sorte ainda em cartaz entre nós.

Contando a estória dessa milionária que pensa saber cantar, o filme é excelente em todos os níveis. Da reconstituição de época (a França dos anos 1920) à interpretação da atriz Catherine Frot, tudo é perfeito e nos convence de que o cinema francês, superados há muito os arroubos vanguardistas dos anos sessenta, vai muito bem, obrigado. E vai mesmo.

Sem dúvida, o grande mérito do diretor Giannoli é saber lidar com o patético, sem ser patético. Sua protagonista, Marguerite Dumont, nos cativa desde o início, e, se rimos dela, não o fazemos sem pena ou constrangimento.

Marguerite poster

Sua estória, a rigor, é dramática. Irremediavelmente desafinada, Marguerite canta para um grupo de amigos que, por simpatia ou por interesse, a aplaude efusivamente. Só que esses falsos aplausos vão alimentando o seu espírito ingênuo e, de repente, ela passa a namorar a ideia de cantar ópera para um grande público.

Ludibriada por jornalistas de má fé, sua primeira aparição pública – executando a Marseillaise num cabaré anarquista – é um desastre e um escândalo, mas ela não desanima. Até que, devidamente contratado um sempre relutante professor de canto, chega ela à Ópera Nacional de Paris e…

Desmaio em pleno palco, cordas vocais sangrando, hospital, trágica auto-audição… Não vou contar o resto da estória, mas devo dizer “a verdade” (título do último capítulo do filme): que “Marguerite” é, no fundo, uma grande e bela estória de amor. E, coisa rara, uma estória de amor entre marido e mulher.

Narrado com fina elegância, o filme é francês jusqu´au coeur, e contudo, suas origens estão, curiosamente, do outro lado do Atlântico, sim, nos Estados Unidos.

A atriz Catherine Frot no papel-título.

A atriz Catherine Frot no papel-título.

Visivelmente, a inspiração para a construção da personagem de Marguerite veio da vida estabanada de Florence Foster Jenkins, socialite americana que, nos anos 20/30, sonhou em ser cantora e, desafinada ao extremo, pagou caro por isso. A propósito, a estória de Florence está em outro filme recente, que deveremos ver brevemente, dirigido por Stephen Frears, com Meryl Streep no papel-título.

Além disso, o nome dado à protagonista é, assumidamente, uma variante de Margaret Dumont, aquela atriz hollywoodiana que serviu sempre de ´escada´ para as peripécias dos Irmãos Marx em muitas boas comédias malucas dos anos trinta. Se vocês lembram bem filmes como “Uma noite na ópera” e tantos outros, uma personagem com o mesmo perfil ingênuo e alienado da nossa Marguerite de agora.

Mas, as relações de “Marguerite” com o cinema americano vão mais fundo. Vendo-o, impossível não lembrar dois grandes filmes que marcaram a história da Hollywood clássica, e que nele funcionam como intertextos enriquecedores. Refiro-me a “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) e “Crepúsculo dos deuses” (Billly Wilder, 1950).

Se confrontarmos bem, a situação diegética da nossa Marguerite é semelhante a de Susan Alexander, a segunda esposa de Charles Foster Kane, aquela que ele quer, por fim e à força, transformar em uma grande cantora lírica, e não consegue. Em “Kane” a busca do sucesso nos palcos é mais do marido que da esposa, mas, mesmo assim, a similaridade persiste. Notar como a presença de pavões e outros bichos na mansão Dumont sugere a vasta fauna no castelo Xanadu dos Kane. Aliás, ambos os filmes se inspiraram na mesma figura verídica, a Florence Foster Jenkins já citada, como se percebe do segundo nome do personagem Kane.

Uma estória de amor entre marido e mulher.

Uma estória de amor entre marido e mulher.

A outra figura que Marguerite inevitavelmente lembra é a Norma Desmond de “Crepúsculo dos deuses”, diva do cinema mudo que, agora, no falado, pretende voltar às telas do mundo e abafar, uma mulher obcecada pelo sucesso, com o mesmo nível de alienação e, no final, a mesma entrega descontrolada ao puro delírio psicopatológico.

Em “Marguerite” o paroxismo do delírio aparece nas gravações feitas com a paciente, no hospital, enquanto que em “Crepúsculo”, ele é predominantemente plástico, como está em sua cena final. Norma já fora estrela, e Marguerite nunca, mas, de novo, isto não diminui a semelhança. Um reforço ostensivo dessa semelhança – com toda certeza, proposital – está na presença ubíqua do mordomo negro em “Marguerite”, com sua dedicação cega à patroa, a mesma dedicação do mordomo à Norma Desmond do filme de Billy Wilder.

Claro, “Marguerite”, o filme, não precisa desses intertextos cinematográficos para funcionar, porém, com eles no subconsciente do espectador cinéfilo, funciona muito melhor.

Filmaço, que recomendo.

Inúteis aulas de canto para Marguerite...

Inúteis aulas de canto para Marguerite…

Essas pessoas maravilhosas no escuro

4 jul

Entre várias outras coisas, o cinema é um mito moderno, e isto não é novidade para ninguém. Esse mito, contudo, não é fixo, nem imutável; ao contrário: é móvel e elástico.

Nos velhos tempos da Hollywood clássica, sua estufa era o star system: para os espectadores de então os deuses/deusas adorados eram Greta Garbo, Clark Gable, Ava Gardner, Robert Taylor, Marilyn Monroe, etc…

Hoje em dia pode se dizer que a coisa mudou um pouco. Ficou talvez menor o número de adeptos, mas, em compensação, aumentou o alvo do mito, incluindo, além do elenco, os cineastas. Com efeito, hoje quem gosta de cinema fala tão à vontade de Martin Scorsese quanto de Robert DeNiro; sabe tanto de Steven Spielberg quanto de Tom Hanks; interessa-se tanto por Quentin Tarantino quanto por Johnny Depp.

É provável que, ao menos parcialmente, a responsabilidade por essas mudanças recaia na eletrônica (DVD, blu-ray, TV paga, computadores), que criou novas formas de recepção, proporcionando a revisitação indefinida, solitária ou em grupo, a clássicos do passado e a lançamentos recentes, com acesso franco aos ´making ofs´ e outros segredos de bastidores.

Pois bem, é certamente a esses “espectadores modernos” – chamemo-los assim – que está dirigido o livro de Ana Maria Bahiana “Como ver um filme”, recentemente lançado pela Nova Fronteira.

Bem estruturado e bem escrito, o livro se divide em duas grandes partes, chamadas de ´Os alicerces´ e ´O estilo´.

Tentando responder a pergunta ´como nascem os filmes?´, a primeira parte vai tratar de três etapas da produção cinematográfica, menos conhecidas do grande público, a saber, o roteiro, a fotografia e a montagem. Para tanto, Bahiana mergulha nos bastidores do cinema e não economiza exemplos de casos reais, que ela, há tanto tempo residente em Los Angeles, conhece tão bem. É o cinema visto por trás das câmeras, desde o momento em que um roteirista teve uma vaga idéia para uma película, até a arregimentação da equipe para as filmagens, passando por todas aquelas muitas e difíceis etapas intermediárias, como: negociação com empresários, seleção de elenco, escolha de locações, etc.

Já a segunda parte vai discutir basicamente aquilo que se entende por ´gênero´em cinema. E nisso, Bahiana recorre ao Aristóteles de “A poética”, e, do seu conceito de tragédia e comédia, faz derivar a configuração que tomaram os gêneros na sétima arte.

Um dos aspectos mais interessantes do livro são os ´exercícios´ que a autora propõe aos leitores. Por exemplo: depois de tratar de direção de arte, fotografia e som, ela sugere que você veja um filme e preste atenção à indumentária do ator e decida até que ponto ela lhe ajuda a compreender a caracterização do personagem; ou que você veja todo um trecho do filme retirando o som, para, depois, recolocando-o, decidir sobre a funcionalidade do uso da música.

Obviamente, “Como ver um filme” tem um sentido didático, que fica ainda mais evidente na Conclusão, onde Bahiana não se incomoda de arrolar uma série de ´conselhos´, adiantando estratégias para melhor usufruto do filme.

De alguma maneira, é um livro um pouco menos sobre cinema e pouco mais sobre o espectador. Mui apropriadamente, Bahiana o abre e fecha com referência àquela cena final de “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder, 1950), em que a estrela decadente do cinema mudo, Norma Desmond (Gloria Swanson), em frase famosa, alude aos espectadores como “todas aquelas pessoas maravilhosas na escuridão”. Na Introdução, Bahiana descreve a cena, e, na última linha da Conclusão, retoma a frase, lembrando que essas pessoas no escuro ainda somos nós, espectadores…

Esse privilégio da recepção é o melhor do livro que, contudo, não li sem discordar. Explico.

Uma distinção conceitual que a teoria do cinema já estabeleceu há tempos é aquela entre o cinematográfico – aquilo que ocorre durante as filmagens – e o fílmico – o que aparece na tela, único lugar de onde, em princípio, deveria partir qualquer esforço interpretativo.

Ora, conforme se nota, Bahiana solenemente ignora a distinção e, com ênfase, mistura estas duas instâncias dentro de uma mesma panela. Em suas sugestões, chega mesmo a propor ao leitor que, antes de ver um filme, se informe sobre problemas de produção e bastidores. Segundo ela, o lucro será maior.

Do ponto de vista metodológico, é esta a minha única discordância com relação ao conteúdo do livro, mas, fazer o quê? Respeito o seu enfoque e acho mesmo que – mais que o meu, rigorosamente fílmico – esse enfoque está bem mais próximo do modelo dos “espectadores modernos” a que me referi acima – esses tão obcecados por making ofs e derivados.

Talvez – quem sabe? – mais “maravilhosos” ainda que as pessoas no escuro de Norma Desmond.