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O rebelde no campo de centeio

13 mar

Acabo de assistir ao filme “O rebelde no campo de centeio” (“Rebel in the rye”, 2017) e fico pensando o que J. D. Salinger, se vivo fosse, dele diria. Ele que abominava Hollywood e que se negou, até o fim da vida, a autorizar a filmagem de seu genial e consagrado romance “O apanhador no campo de centeio” (1951). E as propostas vieram de cineastas sérios, como Elia Kazan e Billy Wilder…

Baseado no livro “J. D. Salinger – a life raised high”, do escritor Kenneth Slawenski, o filme em questão reconta a vida de Salinger, começando pela juventude quando, expulso das escolas, vivia rabiscando seus primeiros contos e recebendo um ´não´ atrás do outro, das editoras. Ou dizendo ´não´ ele mesmo, quando um conto seu era aceito na condição de que operasse modificações no texto.

Um papel (vários sentidos) importante nessa querela com editores teve, para ele, o professor de Escrita Criativa e amigo de vida inteira, Whit Burnett, que logo cedo percebeu o seu talento literário e lhe deu a sugestão mais fundamental de todas: a de transformar Holden Caulfield, de personagem de conto, em protagonista de um romance. Sugestão que Salinger tardou a acatar, mas, por sorte, o fez. Com seu espírito rebelde e intransigente e sua língua ferina, Salinger passou a vida brigando com Burnett e não só com ele. O pai, por exemplo, que o queria como “rei do toucinho” (leia-se: comerciante de carne de porco) foi um dos seus rivais eternos.

Dois núcleos dramáticos são decisivos na sua vida atormentada: (1) o caso com a jovem Oona O´Neill (filha do dramaturgo Eugene) que lhe jura eterno amor e, enquanto ele se arrasta nos campos de batalha da II guerra, foge para Hollywood e casa-se escandalosamente com o mito do cinema Charles Chaplin. (2) a sua participação como soldado na guerra quando, segundo ele mesmo confessa, concebe, na Normandia, entre uma explosão e outra, o grosso de “O apanhador”.

No retorno da guerra, vêm duas coisas mais ou menos simultâneas: a neurose, que quase o leva à loucura, e a redação definitiva de “O apanhador” – este um imediato sucesso de crítica e público que o torna, do dia para a noite, uma celebridade e – por causa disso mesmo – um anacoreta que vai se isolar em uma sítio ermo de New Hampshire até o fim da vida.

Dirigido pelo jovem e novato Danny Strong, com Nicholas Hoult no papel título e Kevin Spacey como Whit Burnett, o filme não fica muito acima da média, e talvez nem a alcance. Mas, de todo jeito, ao menos para o leitor e admirador de Salinger, como eu, é atrativo.

Sem surpresa, muito da curtição do filme, e mesmo da sua compreensão, depende do romance de Salinger. Com efeito, algumas cenas ou imagens ficam fora da diegese, se o espectador não leu “O apanhador no campo de centeio”, ou se não o lembra. Dando exemplos ao acaso, o diálogo que precede o assalto de que Salinger é vítima, no Central Park, é um tópico chave no romance que, aqui, fica fora do eixo temático. Refiro-me ao questionamento sobre o paradeiro dos patos que vivem no lago, quando, no inverno, o lago congela. Outro caso bem típico é a recorrente imagem do carrossel, um elemento de rica digressão no romance, no filme sem razão narrativa aparente.

De qualquer forma, a temática central, digo, a da vida e da obra de Salinger, faz-se presente: o seu encanto com a inocência e, corolário inevitável, a sua preocupação pelo seu resguardo, expresso no título mesmo do romance, e explicado no livro e no filme. Resguardo que desaparece quando chega a vida adulta e Holden Caulfield, então, não pode fazer mais nada pelas crianças que, distraídas, brincam no campo de centeio, bem próximas ao precipício que, sem um “apanhador” vai engoli-las. Bela imagem, uma das mais belas da arte do Século XX.

Com exceção de um pequeno livrinho sem grande peso, “Franny & Zooey”, publicado em 1961, J. D. Salinger nunca mais escreveu, nem publicou nada. Isolado no meio da floresta de Cornish, New Hampshire, faleceu, em 2010, aos 91 anos de idade. Até então “O apanhador”, traduzido para trinta línguas, já havia vendido 65 milhões de cópias, e ainda hoje, a cada ano, vende mais 250 mil.

Se porventura o leitor/espectador é fã de Salinger como sou, tomo a liberdade de recomendar duas outras matérias que escrevi sobre ele e sua obra, publicadas alhures, mas desde então disponíveis neste blogue, que são: “Atravessando o campo de centeio” e “Adaptação indevida”.

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Reinventando ficções

25 jun

Fugindo da agitação de hoje em dia, vem morar na rural e tranquila Normandia, esse casal parisiense de meia idade, cujo métier passa a ser agora o fabrico de pão caseiro. Assim começa o filme “Gemma Bovery” (2014), um dos mais cativantes entre os exibidos no recente Festival Varilux de Cinema Francês.

A suposta paz do lugar logo se evapora – pelo menos para o marido Martin Joubert – ao aparecer, na vizinhança, um casal inglês, ele de nome Charles Bovery, e ela, Gemma Bovery. Sim, quase os mesmos nomes dos personagens no livro de Gustave Flaubert. Sem contar que a Normandia foi também o cenário do afamado romance.

Se o filme fosse americano, esses dados não levariam a nada, já que, na América, dificilmente padeiros gostam de literatura, porém, não esqueçamos que estamos na França. Sim, Mr Joubert (rimando com Flaubert, notaram?) não só conhece o romance canônico, como é leitor apaixonado, ao ponto de lhe saber de cor trechos inteiros. Assim, estupefato, ele logo advinha, para a sua bela vizinha, com quem acidentalmente faz amizade, o mesmo fim trágico da heroína flaubertiana.

O filme foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês

O filme foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês

E, com efeito, não demora muito para a jovem Gemma arranjar um amante, com quem passa a se encontrar em lugares escusos, ou em sua própria residência, quando o marido viaja.

Tudo isso acompanhado de longe pelo vizinho voyeur, o nosso Mr Joubert, que passa a viver um misto de torcedor contra e a favor da tragédia. Fascina-lhe o estar testemunhando a repetição do romance de Flaubert diante de seus olhos, ao mesmo tempo em que se apieda da pobre Gemma e quer, por fim e à força, salvá-la do destino livresco. A bem da verdade, não é só piedade: como ele diz, de si para si, a primeira vez que avista essa mulher deslumbrante: “lá se foram dez anos de tranquilidade sexual!”

Em uma de suas visitas a casa de Gemma, protesta aos brados contra a presença de arsênico para matar ratos, e no dia em que ela e o amante planejam uma viagem a Londres, ele ousa enviar à vizinha uma carta desfazendo o plano, assinada com o nome do amante, Hervé.

Joubert e Gemma, vizinhança literária.

Joubert e Gemma, vizinhança literária.

Depois de Hervé, surge um novo amante para Gemma, mas, um momento, não embarquemos facilmente na viagem de Mr Joubert. Na verdade, Gemma não é Emma, e, a rigor, os seus amantes estão mais emocionalmente envolvidos que ela: como ela diz em dado momento ao primeiro, referindo-se ao caso deles: “isto é bom, justamente porque é passageiro”.

E nesse momento ocorre ao espectador estar assistindo a um filme roteirizado e dirigido por uma mulher, a experiente cineasta Anne Fontaine, que tem a esperteza de fazer a narração se desenrolar em duas focalizações, uma limitada, a de Joubert, e outra onisciente, a da própria Gemma, através de um diário que ela deixou, e que Joubert às escondidas lê.

Em Flaubert – vocês lembram – Emma Bovary é dissecada feito um besouro num tubo de ensaio pelo autor, o qual explica o seu comportamento nos mínimos detalhes, como o faria um cientista. No filme, ao contrário, Gemma tem uma vida própria, que escapa ao seu pretensioso “autor”, Mr Joubert.

Neste sentido, o desenlace da estória tinha que estar em desacordo com o romance: Gemma morre, sim, mas não se trata de suicídio. Morre engasgada com o pão que, ironicamente, Joubert fabricara exclusivamente para ela. E a cena da morte, vira “Rashomon” (Kurosawa, 1951), quando três pessoas, a saber, Joubert, o marido e o novo amante, contam dela, cada um, uma versão diferente, cada um assumindo a sua devida culpa.

Gemma e seus amantes.

Gemma e seus amantes.

Mais hilário ainda é o pós-desenlace, quando, seis meses depois de tudo ocorrido, aparece no lugar um novo casal, do qual a mulher teria o nome de Anne Kalenine, quase a Anna Karenina de Tolstoi. Tudo bem, era gozação do filho de Joubert, mas o que vale é que ele, Joubert, embarca na mentira e o filme se fecha com o seu delírio.

E o espectador sai do cinema imaginando o rol de trágicas heroínas da literatura do século XIX – todas mulheres apaixonadas fora do casamento, vitimadas pelas suas paixões – que por certo habitam a cabeça desse padeiro literário que, entre um pão e outro, reinventa ficções. Eu mesmo, de minha parte, saí pensando que o filme poderia continuar ad infinitum com novas vizinhas dos Joubert, que poderiam muito bem ser: a Hester Prynne de “A letra escarlate”, a Luísa de “O primo Basílio”, ou – por que não? – a Capitu de “Dom Casmurro”.

Enfim, um delicioso filme sobre recepção literária, a que se assiste com espírito inevitavelmente interativo.

A bela atriz Gemma Arteton é Gemma Bovery.

A bela atriz Gemma Arteton é Gemma Bovery.